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Arquivo do mês: agosto 2012

Meu jeito de arrumar as malas

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Há mais ou menos uns dois meses iniciei o preparo da minha bagagem. Acho arriscado deixar tudo para a última hora e esquecer algo extremamente importante como os abridores de latas brasileiros (em Vancouver eu não me adaptei com os abridores estrangeiros e tinha que pedir favor pro vizinho).

Então fiz uma lista de coisas que precisava e as principais eram documentos, por exemplo, o diploma da pós-graduação que realizei em 2005 e nunca fui providenciar. O detalhe era que a faculdade estava em greve. E assim continuou! Por sorte, o encarregado do trabalho, querido Valteir, foi um dia lá na faculdade e preparou uma declaração para mim!

Outras coisas também entraram na lista: Preciso de panelas, preciso de um travesseiro confiável, preciso de coisas que me lembrem o Brasil, preciso de coisas que me lembrem a minha casa, preciso de muitas canetas, um caderno, um computador. E outras supérfluos como roupas, calçados e remédios.

Iniciei jogando tudo numa sacola, até que adquirimos uma mala vermelha e as coisas foram parar dentro dela. Por fim, alguns itens foram acrescentados como um pandeiro com a bandeira do Brasil, uma flauta, um peixe de pelúcia, uma fronha muito velha e uma frigideira (na verdade, crepeira). Todos criticados com amor pela minha família, mas criticados. As pessoas não entendem que para ir pra França você tenha que levar a sua própria panela. A coisa lá é muito complicada. Cozinhar não é só cozinhar. É um status social. Eu vou ter que cozinhar se quiser fazer amigos daquela cultura e não quiser morrer de fome.

Meu tio sugeriu que eu frequentasse mais o Mc Donald’s, mas isso é uma afronta para os franceses… chega a ser perigoso socialmente ser visto entrando e saindo do Mc Donald’s muitas vezes. É quase como lanchar durante o Ramadan. Ao responder meu tio sobre isso, ele então sugeriu o Burger King. (beijo, tio!)

Outro item muito relevante na minha mala foi a coleção de revistas Sorria, para mostrar aos franceses o jornalismo otimista! E também algumas canecas muito fofas que amigos me presentearam (não é fácil inserir uma caneca na mala). Coisas quebráveis devem ser envolvidas por todas as roupas (as minhas, de maioria preta, porque são básicas, emagrecem e me lembram a Adele).

Também estou levando dez bombons sonho de valsa. Isso possibilitará que eu experimente um a cada quinze dias. Não poderei oferecer para ninguém! A princípio.

Malas prontas, hora de fechar o computador, e enfiar na mala de mão.

Te vejo em Paris, frigideira!

Agora que o visto saiu

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Amanhã viajo. Há exatamente uma semana meu visto ficou pronto.

Mesmo sem muita certeza, comecei a fazer um ritual de despedida do Brasil. Não vou ficar tanto tempo fora. Nem mesmo seis meses. Mas sou apegada aos lugares e às pessoas e gosto de despedir das coisas como se nunca mais fosse ver. É um pouco exagerado, concordo, mas faz parte do meu sangue brasileiro. Os latinos são intensos!

Cortei o cabelo no ombro e meu cabeleireiro pegou o champagne para brindar minha viagem! Veja que não sou a única a espetacularizar uma ida pra França!

Fui com minha mãe e meu pai para São Paulo. Cada hora com um e por motivos diferentes. Lá pude não só aproveitar as duas pessoas mais importantes da minha vida, como reencontrar amigas, revisitar lugares e experimentar aquela cidade cheia de possibilidades que conseguiu me conquistar com o tempo. Meus pais são excelentes companhias de viagem. E são tão inteligentes… sempre me surpreendo!

Na primeira ida, o avião arremeteu (ou “arrematou”, como diria minha amiga) duas vezes e isso foi assustador. Eu ainda tenho muita coisa para fazer… Ao pousarmos em solo pensei ter sorte de sair com vida e tive ímpetos de beijar o chão! Mas isso não aconteceu.

Dia desses dei um jeito de almoçar com meus antigos colegas de trabalho e reencontrei outros tantos andando pela Savassi. Aquela região é onde eu me sinto mais popular. A cada esquina encontro um conhecido, um amigo, um parente… Outro dia encontrei meu primo André, bem diante da fonte recém instalada. Ele está sempre lendo na rua e aproveitou para me dar um livro de presente. Ficamos conversando até anoitecer, quando ele foi pra aula de kung fu e eu para o ponto de ônibus.

Na quinta-feira passada ganhei um ingresso para ir com minha prima assistir ao Grupo Corpo no Palácio das Artes. Desde pequena eu não via este ballet. Eram os espetáculos Benguelê e Sem Mim. O Sem Mim é sem explicação de lindo. Não conhecia o enredo, interpretei a dança como ocorrida no cenário mental. Rachamos um táxi na volta. E ele continuou inteiro (!).

Na sexta foi minha despedida no mesmo restaurante que almoçamos todo o tempo enquanto trabalhava na Savassi. De noite, o lugar vira um pub. Grandes amigos apareceram! Alguns não puderam ir. Outros inventaram desculpas. Outros não se importaram. Mas grandes amigos estavam lá. Eu sou uma péssima anfitriã que nunca conseguiu dar atenção para todos os convidados. Mesmo assim, deixaram recados queridos no meu caderno improvisado. De madrugada, ao ler página por página, fiquei com uma saudade maior que tudo. Que ruim não poder levar os amigos no bolso. Mas que benção a internet…

No sábado eu e Silvinha (minha grande amiga de infância) fomos num abrigo de cães oferecer ajuda. Em troca recebemos muitas lambidas, patinhas nas costas e abanadas de rabo. Desejamos passar o dia inteiro no meio daqueles cem animaizinhos abandonados, muito dóceis, que amam visitas. Foi maravilhoso! Nem reclamei de sair com cheiro de cachorro. Ainda passamos num restaurante depois para tomar um suco! Quando cheguei em casa, Peter ficou um pouco desconfiado.

Ah, Peter é um caso à parte. Ele será o único que não entenderá o que está acontecendo. Um dia ele está dormindo no meu pé, no dia seguinte eu não volto mais pra casa. Quando a gente viaja, ele passa horas sentado na frente da porta esperando alguém chegar. Parte meu coração. Espero que ele receba muito amor dos que ficam. É o melhor companheiro do mundo e uma culpa que vou carregar.

Domingo foi uma despedida dupla. Na hora do almoço, pedi para minha avó materna vir até aqui fazer bife acebolado (um dos pratos preferidos do meu pai, que ele recorda com nostalgia do tempo de namoro). O cardápio foi bife, farofa, arroz e salada. Algo bem brasileiro, porque a nossa culinária é a melhor do mundo. Estou falando sério!

O almoço, embora tenha engordurado a cozinha e a casa inteira, ficou delicioso. Obrigada, vovó! Durante a refeição, meus tios contaram as peripécias da minha mãe quando criança e adolescente. É interessante enxergar sua mãe, sempre tão austera, fazendo bagunças e jogando morcegos na irmã.

De noite fui visitar a avó paterna e a família daquele lado estava lá em peso! Ganhei pão de queijo, queijo minas, café com leite e broa. Casa de vó é um dos espaços mais encantadores do mundo. Eu sinceramente não entendo essa cisma do estrangeiro com a convivência familiar. Acho que o Brasil não tem tanto disso. Pelo menos a minha família não tem. A gente adora encontrar, adoramos conversar e admiramos uns aos outros. Que pena daqueles que são muito sozinhos…

Neste instante tenho o plano de refazer a minha mala com alguns dos últimos detalhes. Levar desenhos de ex-alunos, paninhos feitos pelas avós, a minha flauta e meu novo pandeiro… Queria tanto não perder minha mala… vou tirar uma foto dela com tudo que tem dentro. TAP, por favor, tenho dois pedidos: Que o avião não caia; que a mala não extravie.

Para o meu Brasil, tenho apenas um pedido, e ele vem de Mário Quintana: “Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho”.