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Arquivo do mês: setembro 2012

Lost in Translation – 1

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Eu e minha colega também brasileira entramos para o coral! Muito embora nosso francês tenha evoluído, nossa compreensão ainda não é 100% fluente. Então a professora de música explicava sobre alguma validação. Mas tudo que eu conseguia ouvir era “para validar les oef… para validar les oef”e perguntei pra minha amiga “validar o quê?”. Ela toda séria “validar os ovos!”.

Outro diálogo. Sem citar nomes!

– Conheci meu namorado nas ilhas maurício. – Pessoa 1

– Onde foi que ela disse que conheceu ele? – Pessoa 2

– Nas Ilhas Maurício. – Pessoa 3.

– E onde fica isso? – Pessoa 2

– No meio do mar! – Pessoa 3.

Há um outro fato interessante, mas que é mais simples contando do que colocando em diálogos. Aqui na França, para tudo você tem que ter uma conta no banco. O problema é que, para ter uma conta no banco, você precisa ter quase tudo. Então, um amigo foi tentar abrir uma conta no banco, mas o banco não aceitou porque ele não tinha comprovante de residência. Ele foi tentar comprar uma casa, mas o vendedor não aceitou porque ele não tinha comprovante de renda. Então ele foi arrumar um emprego, mas disseram que ele não poderia ser aceito enquanto não tivesse uma conta no banco. E é assim a bola de neve. O diálogo deste, deixo para a criatividade de cada um.

Uma tarde no cemitério

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“Ouvi dizer que vai chover, é melhor levar um guarda-chuva”, disse meu sogro quando eu me despedia para partir rumo a uma missão. Desde que vim para a França, um tio muito querido pediu que eu colocasse uma flor no túmulo de Chopin. Eu não moro em Paris, moro em Avignon, mas sabe como é, quando você está na França, Paris é logo ali…

Então, como este fim de semana eu estou na casa dos meus sogros (vou chamá-los assim para simplificar), aproveitei para fazer o dever de casa, ou dever de Paris, encomendado pelo tio Kellinho.

Esperançosa, consultei o Google Maps antes de sair e tive a surpresa de saber que entre a casa em que estou e o dito cemitério Père Lachaise sobram 13km de distância. Otimista, recordei-me que estou numa das cidades mais lindas e queridas do mundo, além de ser uma capital munida de um bom sistema de transportes. Prevenida, peguei o guarda-chuvas, que aqui eu chamo delicadamente de parapluie.

Acho impressionante o quanto as cidades européias são interativas. Não interativas pelo fato de você comprar o seu próprio bilhete de metrô sozinha, ou por ter que se virar para tirar xerox por sua conta na universidade. As cidades são interativas porque as pessoas vem do nada falar com você. Se está triste, elas te mandam sorrir, se está perdida, elas te perguntam se você precisa de ajuda, se está confiante, elas te pedem orientações, se está de bom humor, elas te pedem dinheiro. Enfim! Eu acho assombroso (no bom sentido, muitas vezes) o quanto as pessoas se aproximam de mim quando eu estou viajando (observação válida também para Buenos Aires e Vancouver). Em Belo Horizonte, o povo parece que é mais desconfiado. Só de você jogar um bolinho de queijo para cima na rua, eles já começam a te achar esquisita… eu, hein?!

Então, no meu caminho até o cemitério, fui abordada por uma série de pessoas. Uma por quarteirão, eu contei. A maioria queria dinheiro (devo ter cara de turista rica), mas alguns queriam orientação (fico lisongeada com isso) e outros só queriam cumprimentar mesmo (très mignon!). Minha amiga Carol tem uma ótima técnica para afastar  estranhos indesejados: perguntar a eles “você realmente consegue me ver?”. Mas não, não foi dessa vez. Começou a chover e recordei com gratidão o bom conselho do sogrão!

Ao chegar no cemitério, descobri quanto infantil eu havia sido de imaginar que encontraria facilmente o túmulo anelado. Primeiro que não sei falar “túmulo”em francês (diz-se tombe), segundo que não tinha gente para dar orientação, terceiro, o moço para quem eu perguntei, respondeu, mas quando você não entende bem a língua, é difícil processar a resposta toda na cabeça. Entendi que ele disse “direita” e fui seguindo à direita, onde encontrava mais trocentos túmulos. Na minha busca por Chopin, encontrei Jimi Morrison, a tumba mais famosa (vá entender!) do cemitério. Apreciei à distância, pois muitos adolescentes que se amontoavam por lá.

Segui meu caminho e passava por pessoas que perguntavam “Você viu a Edit Piaf?”, “Estou procurando Proust” e eu dizia “Tenho interesse pelo Chopin”. Finalmente, um homem bastante descabelado e muito animado veio me oferecer ajuda. Disse a ele quem eu queria e ele “de onde você é?”, respondi o óbvio e ele “Brésil! Carnaval!”, apertou minha bochecha, tentou simular um samba e disse “venha!”. Ainda bem! Sem o doidinho seria impossível achar sozinha o túmulo do compositor preferido do tio Kellinho antes de anoitecer.

Chopin tem dois túmulos, me dizia o moço. Um fica em Paris, o outro na Polônia, onde está guardado seu coração (vamos pensar assim). De tempos em tempos o Embaixador da Polônia vai até o túmulo francês e recolhe as flores e recados para deixar no túmulo polonês (vamos pensar assim). Achei a ideia um pouco trabalhosa, mas bastante significativa. Lembrei-me de Mário de Andrade, pedindo para enterrar seu coração no pátio da escola. Sempre me lembro deste poema. É tão lindo…

Ah, como os cemitérios são emblemáticos… São poesias um pouco doídas, mas ainda poesias… Eu havia comprado três rosas no caminho para lá. Pensei em deixar uma no túmulo de Chopin para cumprir meu dever de casa e a merecida reverência e as outras duas em outros dois túmulos que julgasse interessante. Mas eram tantos túmulos de pessoas fabulosas que fiquei receosa de perder as rosas cedo. Observo que Voltaire, Victor Hugo e Marie Currie não estão nesse pedaço de mundo. Para esses, foi reservado algo ainda mais ostensivo, o Pantheon. Mas é como eu falo, os túmulos são apenas representações, a pessoa mesmo se imortaliza em sua história, em sua obra.

Depois de registrar meus cumprimentos ao grande compositor, segui minha caminhada.

Chamou-me a atenção o o túmulo de Gilbert  Morard, alguém que desconhecia, mas que aprendi, ali no cemitério, que foi o pai do metrô moderno de Paris. Em seu túmulo, muitos agradecimentos e algo ainda mais simbólico: muitos tickets de metrôs e viagens. Quantas vidas ele mudou? Quanta gente é feliz por sua conta? Emocionante! Obrigada, Monsieur Morard.

Ainda assim, eu caminhava com mais duas rosas. Perguntei então pelo túmulo de La Fontaine. Pelo que sei, o túmulo foi importado para lá. Não é bem o original! Coisas de marketing de cemitério… De qualquer forma, encontrei-o ao lado de Molière. Investi uma rosa para os dois. Bem plantada na grama da cerca que os protege. Agradeci por ter me contado tantas histórias, tantos finais, um pouquinho questionáveis, mas felizes.

Segui com minha última rosa adiante. Encontrei o túmulo da família Poulain e quase deixei minha flor para eles. Mas guardei pra mim.

Quase anoitecendo, a chuva ficava forte. Cemitério, chuva, corvos e penumbra. Era o cenário perfeito para muita coisa. Decidi enterrar por lá também alguns dos meus monstros. Coisas que me assombram, me atrapalham, me irritam. Talvez elas nunca mais me encontrem. Faço votos.

Desci a ladeira com a rosa em mãos. Que felicidade a minha: ter vida, ir ao cemitério somente a passeio, sair quando bem entender! Caminhei até a Bastilha na chuva. Entrei no metrô, troquei de metrô, passei no supermercado, tirei algumas fotos e me senti muito parisiense! Quase chegando na minha hospedagem, encontrei alguns homens fazendo o serviço de lavar a rua na chuva. Que trabalhoso! Mas muito necessário! Resolvi interagir. A rosa vai para eles, pessoas vivas, bem dispostas, trabalhando com gosto! Ofereci. Eles aceitaram felizes!

Por fim, meu passeio acabava junto com o dia.

Passos

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Um garfo, uma rodela de banana, uma pinçada de nutella e bléeee…. A banana da França não tem nada a ver com banana. Minha amiga carioca tinha me alertado sobre isso. No supermercado, ela falou para levar a mais barata. Tudo tem gosto de água mesmo…

Ontem fomos completar os procedimentos faltantes para iniciar nossas atividades esportivas. Como eu só podia escolher uma, larguei a esgrima e tentei me garantir com a dança. Minhas amigas (uma carioca e uma bahiana) chegaram mais tarde para fazer a inscrição. Elas queriam musculação e yoga respectivamente e saíram matriculadas em jiu-jitsu,  a única atividade com vaga ainda. Vão ter que usar um kimono emprestado e eu faço questão de assistir!

Para sermos completamente aceitas nas atividades esportivas, precisamos entregar um atestado médico que comprova que a gente não vai dar trabalho tendo uma crise de asma no meio a aula.

Então fomos visitar um médico para o bendito atestado. A universidade já havia nos cobrado 5 euros para termos direito a atendimento médico na própria Universidade. Mas aí, justo no período em que as pessoas mais precisam (que é para o atestado antes de iniciar os esportes), o médico entra de férias e só volta depois que ninguém precisar mais dele… Isso me lembrou algumas situações parecidas no Brasil, mas é melhor não citar nomes, nem órgãos…

Fomos então para um consultório médico próximo à Universidade. Ele atende por ordem de chegada e só abre a partir de duas horas da tarde. Faltando dez minutos, nós três, muito espertas, fomos para a porta do consultório. Tocamos o interfone e a porta abriu anonimamente. Entramos! Ao chegar naquela estufa, digo, consultório, o lugar estava lotado de gente meio de mal com a vida, que se recusavam a abrir a janela. Não conseguimos ficar lá por muito tempo. Rodamos a cidade atrás de outro médico e achamos um consultório lindo, com ar condicionado, secretária e nenhuma fila!

Todos os médicos generalistas aqui cobram o mesmo valor: 23 euros. Pelo que entendi, só quando eles tem uma outra especialização é que podem cobrar mais caro!

A consulta durou dez minutos (igual no Brasil, né). Mas realmente eu não precisava de mais. Estava tudo bem!

Em breve estarei novamente na aula de dança. Uma sapatilha, uma saia rodada, um coque desajeitado e plié!

Brincando de aviãozinho

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Há alguns dias publiquei a história da minha vinda pra a França, contei que havia conhecido um maestro no avião para Lisboa enquanto eu chorava por causa do filme em italiano. Não me lembro se contei que havia conseguido usar o toilete da primeira classe e que fui uma das primeiras a saltar do avião (lembrando que saltar é modo de falar porque sou uma senhora de trinta anos que nunca se ligou muito nesse tipo de esporte). Eu contei muita coisa sobre a viagem do avião BH-Lisboa, mas não contei sobre a viagem Lisboa-Paris, que, para mim, foi a mais surpreendente de todas. Deixei de contar propositalmente, porque queria escolher bem as palavras para isso.

Não o fiz. Não escolhi as palavras. Quase esqueci a história, então já era hora de escrever.
Há pouco menos de um ano, na viagem reversa, Paris-Lisboa, conheci a pessoa que eu hoje chamo de namorado. Foi tudo culpa da minha mãe, que me convenceu a trocar de lugar com ela no avião, na última hora, quando ela percebeu que aquele francês cabeludo e desajeitado iria se sentar na única poltrona restante que, coincidentemente, era do nosso lado. Não satisfeita, mamãe ainda impediu que eu dormisse durante toda a viagem e me cutucou até que eu cumprimentasse o rapaz.
Tal atitude dessa incrível mulher, que eu tenho a honra de ter sido gerada por, fez com que a minha vida mudasse significativamente e e ficasse com um ar mais provençal! Então agora, estou aqui, em Avignon, por causa da Sil, que me cutucou no avião. Bendita seja!
No avião Lisboa-Paris, portanto, eu estava com essa história na cabeça. E o avião estava vazio. Fiquei feliz ao ver que teria a minha cadeira mais duas apenas para pensar na vida.
No entanto, sentada lá, quase no fim do embarque, um rapaz de mais ou menos uns vinte e tantos anos se aproximou e indicou que se sentaria do meu lado. Tudo bem. Ele era muito alto, com traços bem africanos e carregava uma série de coisas. Não tive tempo de fazer muitas observações, pois logo que ele chegou, já pegou a outra cadeira vaga para ele e começou a dormir, me deixando meio sem jeito de mexer na minha cadeira. Pedi para o comissário para trocar de lugar, já que as saídas de emergência estavam completamente vazias. Assim, o moço teria o espaço dele para dormir, e eu o meu para pensar na vida. O comissário me pediu para esperar e dois minutos, depois falou que tudo bem. Levantei, peguei minha bagagem, dei tchau pro moço e troquei.
Estava bem feliz na saída de emergência, devidamente informada sobre como proceder em caso de emergência quando o moço se levantou da cadeira dele, veio até a minha cadeira e perguntou se tinha alguém sentado do meu lado. Eu disse que não. Ele pegou as coisas todas dele e veio sentar do meu lado também, ligando o computador e usando o espaço de apoio do cotovelo todo para ele.
Eu fiquei perplexa. O cara tinha três cadeiras só para ele. Eu tinha duas da saída de emergência. Por que ele viria sentar do meu lado, sem nem falar a minha língua, usando o computador e ocupando o espaço do meu cotovelo? Comecei a pensar que talvez ele tivesse me achado racista de ter trocado de cadeira, que talvez ele quisesse se exibir com o super Mac Air dele… enfim…
Chegando a comida, eu não gostava do iogurte oferecido… olhei pro lado… e, bem, usei a técnica mais ancestral para fazer amigos que consiste, basicamente, em oferecer um alimento ao outro. Ao mesmo tempo que ofereci meu iogurte, ele me ofereceu o dele. E logo em seguida falou alguma coisa em francês. Eu pedi para traduzir para o inglês, ele traduziu. E assim começamos a conversar.
Este moço era um jovem senegalês, estudante de ciência política em Paris. Ele falava, mais ou menos, uns seis idiomas diferentes, e tinha muita facilidade para explicar as nuances de cada um. Ao dizer que eu era advogada, tentei explicar que não trabalhava com mentiras. Geralmente, observo uma reação de susto e um pouco de desprezo em muita gente quando digo que sou advogada, então tenho tentado amenizar este preconceito com uma explicação rápida sobre o tema… Falei que um dos meus últimos trabalhos tinha relação com direitos autorais e ele me disse que teria que me indicar para a avó. O motivo: A avó escreveu um livro sobre como a vida poderia ser vivida sem a poligamia. Ela foi a primeira mulher de Senegal a pedir o divórcio. Ela não queria dividir o marido com outras mulheres e isso é bem válido! Achei surpreendente a história e triste saber que ela nunca ganhou um centavo com o livro, mas conseguiu espalhar o seu pensamento, o que, muitas vezes, é o melhor pagamento do escritor (não que o outro não tenha valor…).
Nossa conversa sobre poligamia foi longa e com opiniões diversas. Meu novo amigo era mulçumano, muito culto, muito simpático e não tivemos problemas em concordar em discordar. Situação semelhante ocorreu quando viajei Toronto-Vancouver do lado de um padre. Com quem, aliás, troco e-mails até hoje.
A ponto de pousarmos na bela e encantadora Paris, perguntei por quê, afinal, ele tinha resolvido sentar do meu lado depois que mudei de lugar. Ele disse que queria o espaço para as pernas. De fato, havia mais espaço! Comentei ainda que tinha ficado irritada por ele gastar o meu suporte para o cotovelo. Ele pediu desculpas e disse que não tinha percebido. Ele estava desculpado! Para mim, Sidy foi uma alegoria. O exemplo de como podemos mudar de opinião várias vezes. E várias vezes! E que seja sempre para melhor.
Era o prelúdio de uma viagem com muitas descobertas, eu concluía.
Ao chegarmos em Paris, outro amigo de avião, muito especial, me esperava com flores no aeroporto.

Preços, serviços e comparações iniciais

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Acho as coisas aqui muito mais baratas que no Brasil. Livros custam menos da metade do preço, móveis e eletrodomésticos são uma pechincha (minha amiga comprou uma TV de LCD por 100 euros). Mas não acho que por ser Europa, as coisas sejam necessariamente melhores. Primeiro porque a maioria dos produtos tanto daqui, quanto do Brasil, tem nascimento certo na China. Segundo porque as tecnologias já são muito globalizadas. E para algumas coisas ainda não inventaram a tecnologia mesmo. Comprei um shampoo na expectativa de ficar com o cabelo maravilhoso e até agora nada (talvez seja um problema do meu próprio cabelo). Hoje vou experimentar ir ao cinema. E tenho a impressão que o som não vai ser tão incrível quanto o do cinema brasileiro.

Se a qualidade do produto não faz diferença, a do serviço faz muita. Acho interessante que se você paga algo que custa 4,99 com um nota de 5, os franceses te devolvem 0,01 de troco. No Brasil eu era a chata da Cafeteria Califórnia, sempre exigindo meus 5, 3 ou 1 centavos de troco. Os garçons daqui, até o momento, não me exigiram gorjetas. Eu incluo no pagamento quando quero! E ainda não fui mal-atendida por nenhum funcionário. Pelo contrário, os garçons da França são superdivertidos, trabalham com gosto e acham bonitinho a gente não conhecer muito bem a comida!

Outra coisa deliciosa é encontrar cachorinhos no meio das lojas de roupas. Você pode estar bem experimentando uma calça no vestiário e se deparar um poodle cheirando seu sapato. Adoro que as restrições com animais domésticos aqui sejam menores. Cães e gatos deveriam ter passe livre para tudo. Infelizmente, porém, os franceses não são muito apegados aos animais de um modo geral. Isso é estranho. É só comentar que você adora cavalos que eles “hum… carne de cavalo”, adora pombos e eles “hum… tem um prato feito com pombo…”, adora patinhos e eles … bem, vou parar por aqui. Franceses, embora sejam bons no quesito serviço, ainda não são necessariamente amigáveis em todos os quesitos. Mas isso pode mudar!

Bisous

Meu primeiro fim de semana em Avignon

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Dois dias de frango e um dia de ouriço. Esse foi meu primeiro fim de semana em Avignon. Dias repletos de eventos sociais.

Na sexta e no sábado, teve jantar aqui na casa de Avignon. Sexta só entre roommates, sábado com mais gente. Nos dois dias o cardápio foi frango com um molho delicioso e arroz. Adorei o arroz e o molho de creme de coco, mas o frango, em si, eu como só por educação (e pra não morrer de fome) porque já tive uma galinha de estimação… e tenho uma tendência muito grande ao vegetarianismo… enfim…

Aqueles eventos cumpriram com o objetivo de me apresentar uma das formas preferidas dos europeus se divertirem. Bem diferente do que meu sonho de eventos sociais, mas bem próximo do que eu já imaginava. Menção honrosa para a apresentação da Grole (ou algo como isso), que é um jeito estranho de tomar um chá italiano, mas é divertida a flambada inicial.

Ontem foi um domingo ensolarado e fomos para a praia. Eu ouvi o nome da cidade quinze vezes, mas não sei se decorei. O nome era tipo Calanques, Calango, Cancan, sei lá… fica perto de Marseille (uma cidade que eu achei meio suja e estranha na primeira vez que visitei). Desta praia eu gostei! Escondida entre pequenos morros e casarões da elite européia, a praia mediterrânea não era contemplada por areia branca como nosso lindo litoral brasileiro, e sim por pedregulhos muito complicados de caminhar sobre.

Para compensar, a água é limpinha e transparente e ontem não acolhia nenhuma água viva.

Fui nadar e chamei o Alexis. Ele pulou na água e teve uma ideia: “Vamos nadar até aquela ilha ali?”. Aquela ilha, em alto-mar, sem nenhuma atração específica… Eu não entendo os homens… sempre querendo nadar até uma ilha, subir no topo de uma montanha, congelar no gelo do inverno mais rigoroso, correr de bicicleta e dar um pulo… e pra quê? Eu não entendo esses propósitos despropositados típicos da figura masculina, em que eles expõem a vida deles a uns riscos desnecessários e muitas vezes morrem por bobagens…

Mas a água estava tão gostosa  e o mar tão calmo que fui nadando e quando vi já estávamos na metade do caminho para a ilha. De fato, não parecia perigoso, mas eu tenho um medo muito grande, um dos maiores medos da minha vida, que carrego desde a infância. Esse medo se chama Tubarão. Talvez por culpa do Spielberg, eu nunca consiga olhar pra baixo quando estou nadando no mar. E claro que o Alexis fez questão de beliscar meu pé para me assustar umas três ou quatro vezes.

Minha relação com Deus é a seguinte: eu tento ser uma pessoa legal, boa e procuro melhorar em diversos aspectos. Não sigo nenhuma religião e essa é a minha oração. Mas vez ou outra, estabeleço um diálogo com Ela.

E estava ontem, em alto-mar, a dizer que era muito nova para morrer, que eu tinha várias ideias para o Universo e que poderia ser muito útil ainda. Então o Alexis chegou pra mim e falou que tudo bem, que eu poderia ficar tranquila que ele não me deixaria morrer. Mas, ei, eu estou falando com Deus e não com você… que pretensioso… Esse povo meio grego tem mania de grandeza!

De volta da ilha deserta que dava vista para os iates recheados de velhas peladas, ficamos cuidando das mochilas enquanto os amigos italianos foram caçavam ouriços para o nosso jantar.

Ao mesmo tempo, eu me transformava numa lagosta vermelha, uma vez que não trouxe filtro-solar para a Europa. Ora, eu sou brasileira! E como típica-brasileira, descobri que era a pessoa mais branca da praia.

Aqui em Avignon jantamos espaguete ao molho de ouriço. Uma refeição trabalhosa e com um gostinho diferente. Mas eu fico sentida pelo ouriço… preferia apenas um molho de tomate…. Aliás, combinaria com a minha cor atual.

Vou pra aula. Beijo.

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Feliz sete de setembro para você que sabe que o Brasil vai além de mulheres semi-nuas, carnaval, futebol e malandragem.

Ainda bem.

Feliz sete de setembro!

 

PS. Hoje descobri que sou nível A2 de francês. Isso é melhor que o A1, então fiquei satisfeita.