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Arquivo do mês: outubro 2012

Despedida da primeira casa de Avignon

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Últimas 24 horas nesta casa. Foram dois meses aqui. Amanhã serei moradora de outro espaço, desta vez com menos gente e mais privacidade. Acho ótimo. Finalmente, poderei tentar (tentar!) criar um ambiente decorado de uma forma que eu julgo interessante (se o capitão não for muito autoritário, claro). Finalmente poderei fazer minhas investidas na cozinha, sem medo de ser demasiadamente julgada pelos outros moradores chefs de cozinha, sem medo de deixar tudo cheirando a queimado, sem medo de almoçar sucrilhos com arroz na frente dos outros. A casa nova que me aguarde.

Mas a casa velha é gostosa também! Eu aprendi a entender alguns interesses do Alexis. Como, por exemplo, morar numa casa com muitos roommates, uma experiência inédita para mim, que no máximo dividi apartamento com uma pessoa (Jorge, big brother! ). Apesar dos inconvenientes da praticidade, é gostoso chegar em casa e encontrar as pessoas reunidas na sala. É confortável saber que sempre tem alguém em casa que a gente possa gritar se achar uma barata (ou um rato, como foi o caso). E é reconfortante também saber que sempre alguém vai acordar mais cedo que você e dormir mais tarde. É uma forma de nunca se sentir só, mesmo que não esteja acompanhado. É uma forma de não se deixar ficar muito chato. De verdade.

Aprendi com o Alexis também a gostar de morar em cidades menores. Menos grandes, eu diria. Não tão grandes… Repara bem no que não digo, Leminski! Eu não gostaria de morar numa cidade afastada de tudo e completamente pacata. Isso me deprime. Mas gostei de morar numa cidade com um pouco menos de buzina, poluição e violência, mas ainda com universidade, Mc Donalds, cinemas e pessoas divertidas!

Da casa velha, levo boas lembranças de uma chegada conturbada neste país que ora parece tão incrível, ora parece tão hostil, mas que definitivamente representa um mistério que eu quero muito desvendar.

Da casa velha, levo o cheiro de queijo, a saudade dos gatinhos da rua, do jardim da entrada e a experiência de morar com mais quatro simpáticos homens que se dispunham a cozinhar para mim no jantar.

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Diálogo do almoço

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Na difícil tarefa de adaptar, uma das horas mais gostosas é poder comer com os amigos (as comidas que a gente gosta!).

Hoje estávamos no bandejão da faculdade – coisa que me deixa muito entusiasmada, pois acho que faz parte do amadurecimento pessoal comer em bandejão. Assim como esperar mais de meia hora por um ônibus. Todo mundo tem que passar por essa experiência na vida. Seja no Brasil, seja na França. Luxo demais faz mal. Conforto demais faz mal. Experimente leite azedo para sentir como seu toddynho é delicioso!

Então estávamos no bandejão revoltadas com o fato de o chef ter nos proibido de colocar no mesmo prato salmão, purê de batatas e macarrão (brasileiros gostam de diversidade!). “Ou purê, ou macarrão”, ele ordenou. A outra opção era hamburguer com fritas… Como assim eles entendem que hamburguer com fritas é mais saudável que purê com macarrão? Olhamos para o prato da outra colega e ela abria o ketchup para jogar sobre as fritas já cobertas pela neve do sal. Do lado, acompanhava o hamburguer mal passado e um pedaço de quiche que ela pegou no lugar da salada. Chamamos atenção.

– Você não está comendo direito…

– Ai, mas aqui é o único lugar que eu tenho para comer o que eu gosto. Lá em casa eu não como.

– Por que?

– Porque a comida é muito ruim. Eu não gosto de nada que é feito lá…

– E quem cozinha na sua casa?

– Eu…

Como não educar seu filho

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É feio falar daquilo que não temos. Eu não tenho filhos, não sou mãe e não sei como é a dor do parto. Mesmo assim, é impossível não reparar em algumas mães que aqui residem… Dá para tirar muitas lições: Do que fazer e do que não fazer.

Sem querer generalizar, distribuo alguns exemplos.

Fila de lanchonete. Eu e uma amiga esperamos atrás de um casal com dois filhos. A mãe não quer que o filho maior (de uns cinco anos) se afaste nem um passo. O que ela faz? Assusta o garotinho com um pequeno chute. Assim, na nossa frente. Sem pudores… Como se isso fosse normal. Vimos que não foi nada tão forte, mas foi humilhante pro pequeno. O menino começa a chorar e a gente até tenta lançar um sorrisinho de conforto pra ele, mas a criança só olha pra baixo. Quando chegou no caixa, ele quis estender a cabeça para ver a máquina registradora. Mais uma vez, levou uma bofetada. Uma mãe dessas deveria ir pra cadeia por tirar toda a espontaneidade do garotinho. Assim que a gente aprender a falar “cadeia”em francês (“prison”), ela vai ouvir poucas e boas. O google translator me traduziu o “você merece apodrecer na cadeia”: “Vous méritez de pourrir en prison”. É bom decorar!

Outro exemplo: A mãe entra no ônibus com um filho no carrinho de bebê. Displicente, ela deixa o carrinho sozinho, sem nenhuma segurança e senta numa cadeira longe do bebê, que fica na porta do ônibus à mercê de quem quiser e de qualquer freada brusca.

E outro exemplo: A mãe entra na loja empurrando a porta com toda força e, logo depois, solta. Não é preciso muito esforço para imaginar o que aconteceu com o menininho que vinha atrás.

É para isso que o governo francês incentiva as pessoas a procriarem? A França é atualmente um dos países mais férteis da Europa (com 2,08 filhos por mulher). É mais fértil até que o próprio Brasil. E, claro, aqui vemos ainda centenas de boas mães, com os cuidados essenciais com os filhos, mas esses exemplos me fazem refletir sobre algo…

Não é a toa que um dos principais chamados da polícia aqui seja para atender mães que estão apanhando de filhos (já grandinhos). Não que isso se justifique… mas se compreende a traçado da história.

Não é a toa também que a maioria dos franceses faz questão de largar os pais o mais rápido possível, como se fosse vergonhoso morar perto ou com os próprios pais. Coisa que de onde eu venho nunca foi problema. Pelo menos pra mim!

Tenho o costume de dizer que possuo os melhores pais do mundo. Para mim, essa é uma realidade fácil de provar. Tive uma infância um tanto quanto feliz num país que não dá a mínima para a infância.

É triste ver que numa nação onde as pessoas tenham tanto acesso a educação, livros incríveis, jogos, brinquedos e tudo do mais bem feito e bem bolado para as crianças, falte algo tão simples, bonito e gratuito chamado afeto.

Impressões de uma vegetariana não-praticante

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Ontem meu braço coçava durante um jantar  na casa do orientador do meu namorado. Para todos que me cercavam o diagnóstico era certo: Picada de aranha. Algo terrível, nojento, longe da minha cultura. Engoli a seco a ideia de ter sido atacada por um animal que eu só aprecio de longe (embora aqui em Avignon todo dia atravesse uma teia de aranha).

Com o mesmo nó na garganta, engoli a seco, na semana passada, a ideia de ter comido, sem querer, um lindo coelhinho no meio de uma paeja espanhola. Me perdoe, peludinho, por ter confundido você com um frango (carne que também não gosto de comer). Prometo prestar mais atenção da próxima vez.

Eu deveria me tornar vegetariana! Tenho todas as razões para isso. Além de achar os animais muito mais interessantes vivos, não gosto muito da forma como a carne é cozinhada pelos franceses (que o google translator jamáis traduza isso para um Comar!). As carnes aqui são cruas quase como os peixes japoneses. Muitas vezes, são preparadas com pouquíssimo sal e excessiva pimenta. Sabe aquelas pessoas fashionistas que de tanto falar de moda começam a se vestir de forma bizarra? Acho que isso aconteceu com a culinária francesa… (na minha quase isolada opinião!).

Outra coisa que agrada os franceses e me assusta bastante é apresentar o animal inteiro para ser servido. Como um leitão com a maçã na boca. Isso é medieval demais… Mas Lisa Simpson e Paul McCartney já me explicaram sobre o assunto no meu episódio preferido  sobre a libertação do porquinho!

Ontem no jantar , após ser atacada pela aranha, comemos pato. Apesar de eu recordar com muito amor meus dois patos de estimação (Doug e Simpático, in memorian), repeti o prato, que estava realmente gostoso. Mas advirto: Fosse o prato vegetariano, sentiria menos culpa.

Após o jantar, quatro horas de conversa se seguiram. Eu, com meus superpoderes, entendia 30% da conversa, pouco para interagir. Nessa toada, ria quando todos riam, fazia cara de preocupada quando todos preocupavam. Concentrava quando alguém falava e tomava um golinho do vinho quando uma conclusão era exposta. Durante quatro horas, cheguei a contar quantos pontos haviam na toalha da mesa, estampada de petit poás. Fiquei impressionada como os franceses são bons de prosa. Contei dez assuntos debatidos. E para uma discussão francesa isso significa que o assunto foi proposto e as pessoas apresentaram seu ponto de vista até esgotarem completamente a questão. Os assuntos foram a ira mulçumana em paralelo com o respeito à liberdade de expressão, as mudanças na gramática francesa, as complexidades na pesquisa científica, as diferenças na forma de falar de algumas línguas, as interessantes interpretações dos elogios, as carnes comidas na Austrália, a invenção da maionese, a corrupção na França, o francês antigo encontrado na história da Cinderella (em que ela na verdade usava um sapato de couro e não de vidro) e outro assunto que eu não entendi. Dez assuntos! Tudo impressionantemente debatido com ética, conhecimento e graça, tirando a parte da maionese e talvez a parte que eu não tenha entendido! Quatro horas. Quatro horas e meia contando com o tempo que usamos para comer! E eu sentada com minha picada de aranha sem falar uma palavra. Bendita seja essa língua!

Cutuquei meu namorado quando deu meia noite, achando que ele entenderia que era hora de ir embora. Ele se aproximou do meu rosto na frente de todo mundo e perguntou “o que foi?”. Nada, não foi nada. Uma hora da manhã, por fim, eu estava congelando na porta de casa tentando acariciar o gatinho da rua. Ontem foi o dia dos animais! Depois de 5 minutos de espera, finalmente o felino me deu a chance. Eu também desconfiaria se fosse um gato. Ando comendo coelho, pato… é natural que ele tenha receio.

Hoje minha agenda francesa me disse para ficar em casa durante o dia, sair durante a noite. A desculpa era estudar o urbanismo de Haussmann para uma apresentação na universidade semana que vem. Por que eu tenho que escolher os temas difíceis para falar em francês quando eu poderia contar a receita de um bolo de cenoura? Eu insisto em achar que tenho superpoderes num universo que insiste em me apresentar o contrário.

Maybe I’m amazed.

Abaixo, deixo foto do citado orientador quando o conheci no meu primeiro dia de Avignon. É uma pessoa agradável.

Ps. Não tente imitar a imagem com seu orientador, ou qualquer outra pessoa. É perigoso de verdade!