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Arquivo do mês: novembro 2012

Seis copos de vidro e um Atlas defasado

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No domingo de manhã estivemos num mercadinho improvisado. Ele tem um nome específico aqui em Avignon, mas como não anotei em lugar algum, esqueci. Essa mania de anotar tudo… me faz esquecer tudo que não é anotado.

Pensamos o mercado como um grande shopping a céu aberto com mesas, cadeiras e armários expostos à venda. Queríamos mobiliar a casa um pouco mais. Estávamos redondamente enganados (que saudade de falar assim!).

O pequeno mercado, nos fundos do grande “Parking des Italiens” era um apanhado de pessoas vendendo seus objetos antigos. Alexis achava tudo feio, kitsch, desinteressante… Eu não sabia direito o que achar. Algumas coisas me atraíam muito, outras não. Recomendo para colecionadores de Barbies.

Entre livros, bonecas, carrinhos, prataria e telefones velhos, alguns cachorros passeavam. Era domingo de sol e vários deles estavam livres para correr no estacionamento extenso.

Um deles, bem pequenino, marchou até uma senhora de burca que acabara de comprar alguns talheres e pratos. Sem saber como espantá-lo, a senhora se contraía, tentava andar pra trás, pra frente, mas tinha que equilibrar as compras ao mesmo tempo. O jovem garotinho, dono do cachorro, parecia não entender que ela pedia para o cachorro se afastar. Até que chegou o pai, que também vendia algumas coisas no mercado, e afastou o minúsculo cãozinho dizendo “Ora, você já devorou duas madames hoje, não vai querer engolir a terceira agora!”. Rimos!

No humilde comércio daquele pai, alguns livros eram oferecidos. Lá encontrei um enorme Atlas, com uma bela encadernação. Eu pagaria bem por aquela peça. Tinha 50 euros no bolso e poderia investir. Perguntei o preço.  Três euros. Inacreditavelmente barato. Comprei na hora e fiquei feliz! Dizem que as compras fazem bem para as mulheres. É uma frase mal elaborada esta. O que faz bem é sentir que fez algo bom, como uma boa compra.

Mais para adiante na feirinha, vi uma coleção de taças de vinho. Um papelão apoiado nos copos dizia: 6 unidades por 1 euro. Era difícil acreditar no quão barata aquela compra ficaria. Andei um pouco mais e voltei pro mesmo lugar com o Alexis.

Pedimos os copos. Este vendedor era um senhor careca, baixinho e gordinho… Ele pegou cada um dos copos com atenção e embrulhou numa folha de jornal que escurecia suas unhas. Depois, acomodou um a um dentro de um saco plástico com muito cuidado para não se quebrarem. Pensei se aquele trabalho delicado que ele fazia já não custaria mais que o preço dos copos.

Que coisa… Talvez os copos fossem importantes para ele… Talvez ele estivesse vendendo mais por necessidade que por desapego. Cogitei sobre a crise européia. Olhei alguns outros objetos e perguntei o preço. Isso poderia ajudá-lo. Ele disse que esses outros objetos eram da venda do lado. Deixei pra lá. Agradeci, paguei e fui embora.

Hoje, quando vi os copos aqui em casa, novamente, recordei o senhorzinho. Será que eu deveria ter deixado algum troco com ele? Será que ele se sentiria humilhado? Essa seria uma forma de ajudar?

Lembrei-me de uma frase que sempre me emociona muito: “Pessoas honestas são más comerciantes”. Me veio a mente uma imagem dupla: Meus dois avôs, vovô Zico e vovô Branco. Dois comerciantes. Dois bravos lutadores que dedicaram a vida ao trabalho honesto e pouco reconhecido pelo mundo. Mas sustentaram famílias! Lembrei da minha mãe que madruga todo dia e trabalha todo final de semana, mesmo quando a coluna pede trégua. Lembrei de muita gente honesta. Lembrei que meu pai nunca cobrava pelas aulas extra de matemática que ele dava e que meu namorado faz a mesma coisa.

Minha memória, sem nenhuma anotação, começou a funcionar sem parar. Lembrei das minhas avós costureiras. Do meu tio que ganhava dinheiro oferecendo o braço para os mosquitos picarem. Da minha tia Teresa que pintava flores na porcelana para vender. Dos meus queridos professores que nunca trocavam de sapatos. Lembrei de como é difícil ganhar a vida.

Então lembrei dos grupos opostos e da mania de exibição daqueles que são tão pobres que tudo que possuem é dinheiro (essa frase não é minha).

Eu não advogo para nenhum ismo. Penso que sim, bons empresários existem e são possíveis. E penso que eles merecem ficar muito ricos. Mas antes de serem empresários devem ser honestos. Porque esse é o tipo de gente que me toca o coração.

Lembrei que gosto de gente que trabalha com sorriso no rosto. Que dá bom dia pro motorista do ônibus e guarda um pastel pro chefe que não almoçou. Gosto de gente que embrulha coisas quebráveis, mesmo quando não é pago para tal. Eu vejo solução pro planeta quando isso acontece.

Não me importo se meu Atlas ainda apresente a União Soviética e a República do Zaire. Meu Atlas custou o preço que é certo para ele. E mostra um mundo talvez mais moderno que essa atual idade média que assistimos nos jornais. Meu Atlas foi uma boa compra. Assim como meus seis copos de vidro de um euro. Que são impecáveis. Eles estão à espera de uso, à espera de uma visita. Para a gente sentar nas nossas mesinhas de 15 euros, abrir um vinho de 4 euros e conversar sobre como seria bom, se no mundo, tudo fosse tão justo…

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Um ponto para o 58

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Desde que comecei a estudar na universidade daqui, fiz bons amigos, entre eles, duas grandes amigas brasileiras: Fernanda (bahiana) e Vanessa (carioca). O sangue brasileiro, a idade coincidente e as histórias um pouco semelhantes nos uniram muito a ponto de já considerá-las como indispensáveis para uma vida feliz!

Fernanda casou-se com um alemão e veio morar em St. Andiol, vilarejo próximo de Avignon. Vanessa noivou outro brasileiro, que trabalha e estuda na França há muitos anos, por isso, decidiu vir pra cá. Eu… eu tenho uma história parecida, mas um pouco diferente. E para não ficar contando a novela inteira, vou reduzir: Vim para a França por causa do francês.

Eu e Vanessa, assim como nossa amiga russa e nossa amiga africana e outros fomos convidadas para um jantar-festa em St. Andiol na casa da Fernanda. O evento aconteceria na noite de ontem e tudo que eu, Vanessa e meu namorado precisaríamos fazer seria pegar o ônibus número 58, que passaria às 18h18 na porta St. Lazare.

Sábado à tarde. Meu namorado resolve ir comprar coisas num lugar distante para consertar o encaixe do forno que não entra dentro do buraco previsto para ele. Este forno está no meio da sala desde que nos mudamos pra cá. “Justo agora você tem que fazer isso?”. Eu estava preocupada com o ônibus. Era o último ônibus para St. Andiol no sábado. Ele prometeu voltar a tempo. E voltou.

Deixamos o forno no meio da sala e fomos na direção do ponto de ônibus com duas garrafas de vinho. Não, não havia nenhum 58 naquele ponto. No outro próximo, também não. Perguntamos uma mulçumana que estava em outra parte e ela disse nunca ter visto este ônibus passar lá. Andamos mais. Nada de indicações. Encontramos Vanessa como já combinado. Ela carregava uma sacola com uma iguaria brasileira para apresentar na festa: Brigadeiro.

Vanessa também não tinha encontrado o ponto. Tentamos ligar para a Fernanda. Mas Fernanda tem um telefone difícil, que nunca funciona quando precisamos. Tentamos Nomaza. Nada! E Natalya, a russa? Não temos o telefone dela…

Um outro ônibus parou em um dos pontos. Perguntamos ao motorista. “Subam, vou levar vocês até a estação”. Subimos de graça! Já eram 18h15. Enquanto ele nos fazia essa favor, ainda fez outra gentileza: Disse que o Brasil era uma grande nação, não apenas em tamanho. Meu coração se encheu de ternura. A França tem dessas pessoas fofas que surgem do nada, te fazem algo muito bom, e se vão. O Brasil também tem! Isso é tão Amelie!

Chegamos na estação correndo. Os brigadeiros chacoalhavam. As nossas 4 blusas contra o frio pareciam tão desnecessárias…

Olhamos todos os ônibus. Nada! Um rapaz de origens árabes se ofereceu para ajudar. Perguntamos pelo 58. Ele disse que já tinha partido. Com a nossa surpresa, ele até tentou verificar se não havia nenhum outro ônibus. Não havia… Para nosso desconsolo, pegamos o informe que fica na estação sobre o 58. Corremos o olho rápido. Realmente ele passava na St. Lazare, mas onde? Nada indicava. Alexis viu outra rua. Olhou o horário e disse “Ainda dá tempo”. Saiu correndo com nossos vinhos brindando involuntariamente dentro da caixa. Corri também. Vanessa, um pouco impressionada, juntou os brigadeiros e saiu em disparada. O caminho era longo! Corremos e alimentamos esperanças de que o francês sabia o que estava fazendo. Ele sabia mais ou menos. Tinha visto na sequência de pontos do 58 que em 3 minutos ele estaria no fim de uma rua gigante, próxima da nossa antiga casa.

Chegamos lá e nada. Fomos tirando todos os casacos. O cabelo derretido, a maquiagem completamente borrada… e olho pra frente. Um ônibus gigante se aproximava. Era uma aluscinação de calor… Nele estava escrito 58!

“Deus é bom!”, gritou Vanessa. Eu não tenho dúvidas disso, mas Alexis também queria agradecimentos! Obrigada, Alexis!

40 minutos depois estávamos em St. Andiol, de frente para uma cervejaria bem com cara de Brasil. Fernanda foi nos buscar e ao chegarmos na festa, todos já nos aguardavam!

“Vocês não tem ideia da aventura que foi para chegar aqui!”, “Ah, toma essa caipirinha!”, eles respondiam. Ouvimos música, conversamos, comemos muita coisa gostosa! “Ei, Natalya, você conhece strogonoff?”, e ela respondia que sim. E com isso eu demonstrava para as meninas que strogonoff é algo russo e não brasileiro! Vanessa foi falar com Natalya que no Brasil a gente ama strogonoff. Ela concordou! Então completou que quase todo dia a gente come strogonoff, que é uma delícia… frango, arroz, batata palha… Natalya parecia assustada. O que foi, Natalya? “Ora, mas Strogonoff é o nome de um compositor”. Eu, Vanessa e Fernanda fizemos uma pausa reflexiva. “Então strogonoff é uma invenção brasileira!!!”. “Uhuuu! Toca aqui!”.

Outra descoberta: Um convidado de origem romena comentou que sua língua nativa é de origem latina e tem muita similitude com o português. Aposto que você não sabia disso! Meu pai sabia disso e eu havia corregido este “equívoco” dele. Como sou pretensiosa…. Você estava certo, papai!

Fomos dançar! Que divertido! Todas as mulheres juntas! Nomaza tem ginga. Eu realmente olho para os africanos e penso que temos muito em comum. Quando os vejo dançando entendo que poderiam ter nascido brasileiros! Quero uma pangeia de novo pro mundo! Mas sem terremotos.

Estava tão quente que as velas acesas para tornar o ambiente mais fofo foram delicadamente apagadas pelos convidados.

Fomos pro lado de fora sentar na cadeira molhada pela chuva e apreciar a árvore que, depois de algumas caipirinhas nos lembrava uma girafa!

Ouvimos Caetano Veloso lá de fora. Ele cantava “Você é linda”. Ah… que gostoso. Faltava uma menina entre nós. Era Natalya. Olhamos pra janela e ela dançava com o marido na sala vazia. “E ela nem sabe que Caetano é Caetano…”dizia nossa amiga bahiana. Tão lindo ver as pessoas felizes com a nossa música. Tão lindo conhecer casais verdadeiros!

A noite seguia em frente e nós provamos o cheese cake com chocolate branco! Maravilhoso! Do lado de cada pedaço, um brigadeiro acompanhava. Que bom que deu certo! Vanessa sentou do meu lado e disse “Ainda bem que não perdemos essa festa!”. É, ainda bem!

Por dentro

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Comprei um crisântemo gigante para alegrar a casa e dei diversas flores para as pessoas que nos visitaram. Hoje descobri na aula que esta é a flor usada para homenagear os mortos (hã?). Por isso estava sendo vendida aos montes aqui por Avignon. Nossa casa está decorada com a flor dos mortos… Désolé!

Para melhorar o clima, hoje foi nosso primeiro jantar na casa nova e quem fez a comida foi a visita. Eu fui pega de surpresa, não sabia de nada! No fim de semana, havíamos pegado um carro emprestado e compramos mesas e cadeiras por 15 euros no IKEA. Foi um programa excelente.

Nossas visitas até suco trouxeram! Como nós somos bons anfitriões, convidamos todo mundo para ouvir música e consertar o banheiro enquanto isso. Ninguém ficou livre de ajudar, mas estávamos com um dos casais mais simpáticos do mundo! Por fim, receberam recado no nosso quadro de mensagens e retribuíram com desenhos abaixo.

Se todas as pessoas do mundo tivessem contato com esse casal, o mundo certamente seria mais sorridente, mesmo cercados por símbolos da morte!