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Arquivo do mês: janeiro 2013

Boîte em francês significa caixa

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Se tem uma coisa que me irrita em festas é a obrigação de estar sempre conversando. Porque, sabe, nem sempre você tem empatia por todos os convidados da festa para puxar assunto, ou nem sempre vocês falam a mesma língua, ou nem sempre sobra alguém interessado em conversar com você. É uma festa de “nem sempre”. Ninguém ali vai adivinhar que você toca piano, que tem dois diplomas, que adora cinema e que salvou a vida da sua própria mãe quando ela se engasgou com sukita. Quem se importa?

Se você não tem a manha na cozinha, a suas expectativas de fazer amizade com um francês típico se reduzem em torno de 40% a 50%…O máximo que você pode fazer para chamar atenção numa festa sem ser vulgar é ter um grande sorriso, um copo na mão e  um passo de dança. Mesmo que seja a única. Não adianta se afastar do resto do mundo, dando uma de Bella de Crepúsculo, achando que toda a humanidade é ridícula menos você. Não adianta!

Para evitar esses constrangimentos, os franceses tem uma prática interessante, que eu acho que deveria ser vastamente aplicada no Brasil. Os franceses, em quase todas as festas, fazem jogos com os participantes. Desde jogos com papéis, cartas e mímicas, até jogos mais elaborados como solucionar um crime imaginário em que cinco dos convidados são suspeitos.

Isso é interessante, pois te obriga a fazer uma espécie de “dinâmica de grupo”, que ao contrário das entrevistas de emprego, te deixa bem mais à vontade e te possibilita conhecer muita gente, para, ao final do jogo, já possuir assunto para iniciar uma conversa.

Outra opção interessante é aplicar a música e a dança. Nesse ponto, nossa cultura brasileira é até mais elaborada! Se você pode apreciar uma música ou aproveitar uma oportunidade de dança, então você vai se divertir numa festa, independentemente de ter muito conversado ou não.

Nas festas em  que não se encontra boa música, boa dança ou uma boa brincadeira, ou ao menos uma boa comida ou mesmo uma boa conversa, é comum ter uma outra coisa para ocupar esse espaço. E a essa coisa a gente chama de droga por um bom motivo. E como diria a minha amiga brasileira “drogas são para doentes”.

A minha paciência com gente que escolhe esse tipo de divertimento é a mesma paciência que eu tenho com gente que faz pregação no facebook.

Penso que a França lutou tanto pela liberdade de pensar e de agir para ver seus filhos perderem o brilho nos olhos por falta do que fazer…  Imagina o desgosto de Voltaire…

E por falar em desgosto, recebi do Brasil mais uma notícia triste. 232 mortos numa festa universitária em uma boîte de Santa Maria. Uma ideia infeliz de brincar com fogo em lugar fechado.

“Boîte” é uma palavra francesa que significa caixa. E é fechada por excelência. Se você está entre milhares de pessoas, numa caixa, e o teto começa a pegar fogo, você terá pouca chance… E “chance”, em francês, significa sorte.

Eu me coloco no lugar dessas famílias e dessa cidade que foi mutilada de uma hora pra outra. É tão fácil estragar tudo… E se essa banda nunca tivesse usado o sinalizador? E se o extintor de incêndio tivesse funcionado? E se mais portas estivessem abertas?

Nessa especulação de “e se”, eu me pergunto se a gente não poderia ter se encontrado numa festa com dinâmica de grupo. Num futuro do pretérito, entre uma risada e outra, a gente poderia ter ficado amigo.

“Acooorda! Neveeee!”

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Terça-feira eu mal dormi. Acordava de cinco em cinco minutos para ver se já estava nevando. O meteofrance prometeu e a gente não podia acreditar que isso fosse acontecer. O tempo não indicava neve para os amadores.

Mas Vanessa chegou a comprar um casaco todo branco só para ficar bonita pra neve e nos enviava mensagens de madrugada para mostrar que a meteofrance não recuava na afirmação de que terça de manhã teríamos neve. Eu nunca vi alguém tão fascinado com meteorologia como essa carioca.

Acordei 6h da manhã. Fui pro micro-jardim. Só frio. Sem neve.

Voltei a dormir. Até que o telefone tocou.  “Olha pra janela, está nevandoá”, dizia a menina puxando o xis. Abri a janela e não acreditei! De fato o céu cuspia algodão doce! Em dez minutos ela estava aqui pra gente rodopiar na neve.

Brasileiro tem fascinação por flocos de neve. Não tem jeito. Isso é hollywood pra gente. Os franceses não. Eles continuam dormindo enquanto a gente tira uma foto a cada 10 segundos!

Logo de tarde, a neve parou e no dia seguinte fomos patinar no gelo para comemorar o inverno bem definido deste trópico.

Por duas horas, patinamos à nossa maneira, ou seja, muito mal! Bem no estilo “nasci pra issoooo”. Tum!

Eu tenho vários esportes de predileção: a dança (seja moderna ou clássica, seja samba ou hiphop), a natação, o futebol feminimo (o masculino eu só assisto na Copa) e a patinação (insira aqui um coraçãozinho feliz). De todos, a patinação no gelo é o único esporte que já me fez viajar para outro país exclusivamente por  conta disso!

Para mim, não tem nada mais emblemático.

É lá que você aprende que não faz mal cair. E que você VAI cair muitas vezes, mas também poderá aprender a voar. É da patinação no gelo que vieram os atletas que eu mais admiro: Michelle Kwan, Kimmie Meissner, Caroline Zhang, Alicia Zcisne, Mao Asada, Sasha Cohen e tantas outras.

Acho que poucas brasileiras gostam tanto do assunto como eu, mas entre elas, eu devo ser a pior no quesito prática. Nas horas em que ficamos deslizando sobre o gelo, nós migramos do nível muito ruim para o nível ruim. Mas ainda não caímos!

O próximo passo será tentar comprar na promoção de janeiro um par de patins adequado para migrar novamente de nível.

Nossa amiga russa já tem mais prática que eu e Vanessa e conhecemos uma nativa que estava disposta a nos ajudar com algumas técnicas.

O único problema é que na pista de Avignon tem uns meninos desagradáveis que ficam empurrando as meninas no gelo. Vou precisar assumir o meu lado mulher-brava para dar uma lição neles.

Pouco importa. Aqui tem neve!!!!

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Ps. A foto que ilustra este post foi tirada em Vancouver e não em Avignon, uma vez que, por arte de magia, eu não consegui achar as fotos tiradas na quarta-feira.

O bote

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Num fim de semana qualquer um gato pulou o muro da nossa casa e veio nos conhecer. O gato olhou pra mim. Eu olhei pra gato. E senti uma empatia que sinto por poucos. Oferecemos leite, queijo, carne e carinho. Digo no plural, mas na verdade fui a única a me comover com a presença do animal. O outro morador da casa disse apenas para tomar cuidado com as pulgas e não deixar o gato entrar além do nosso pequeno jardim.

Eu cumpri os pedidos. Depois de alguns minutos de afagos, fechei a porta e o pobre gatinho ficou por 15 minutos miando do lado de fora depois que saí. Até que entendeu que não adiantava implorar e foi embora.

O dom do gato é saber a hora de partir. O do cachorro, a hora de chegar.

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Eu achei que no dia seguinte ele voltaria. Não voltou. Comecei a ter sonhos com o gato. Me arrependi profundamente de não tê-lo acolhido mais.

Na rua de trás da nossa rua, há uma gangue de gatos, como no musical Cats. Sempre que almoçamos peixe, eu levo as sobras para eles. Apreciá-los é um ótimo programa. Primeiro o gatinho mais manso vai chegando de fininho para cheirar o peixe. Depois chegam uns gatos mais velhos, caminhando lentamente entre as rodas dos carros no estacionamento. Alguns minutos depois, surgem gatinhos mais em forma, te olhando de cima para baixo com os olhos afiados. Por fim, os jovens gatos, sorrateiros, fazendo-se invisíveis, roubam um pedaço do peixe e se mandam. São seis gatos!

Todos os dias que passo por lá, encontro, pelo menos dois. Eles te olham desconfiados. Aproximam-se com o baile das feras, roçam na nossa perna como num estudo científico. Dependendo da sua respiração e dos seus movimentos, aceitam sua companhia. Dependendo, eles se fazem ausentes num piscar de olhos.

Há alguns anos comecei a notar como os gatos são diferentes da propaganda batida de “animais traiçoeiros”. Qualquer ser pode ser traiçoeiro com suas garras. Eu já fui atacada por cachorro. E não me choquei com isso. Todo mundo que se sente ameaçado, vai atacar. Tente fazer isso com um ser humano e espere para ver a reação. Não há nada mais traiçoeiro que o homem, e nem por isso a gente vai se afastar da humanidade. E olha que nem considero homem como animal.

Os gatos são extremamente divertidos, mas completamente diferentes dos cachorros. E talvez este seja o equívoco de muitos de nós: Esperar que o gato se porte como um cachorro. O dois são grandes amigos. Mas o gato tem o bote certeiro. O cachorro costuma devolver a bolinha. O próprio Andrew Lloyd Webber criou, no musical sobre o felino, uma música, cuja mensagem principal é “diga que seu gato não é um cachorro”. E veja bem que amo cachorros.

Desde que parti o coração do pequeno gatinho visitante, passei a deixar carne e leite sobre o muro do nosso jardim. Várias vezes, os alimentos ficavam lá até pedirem para ir pro lixo. Mas de uns dias pra cá, percebi que estavam desaparecendo. Ontem, quando cheguei de noite, vi que a vasilha de leite estava vazia e que os pedaços de carnes haviam desaparecido, com exceção dos pedaços que foram embrulhados pelo papel com o vento. Como saber que não eram ratos? Ora, os ratos não se importariam de comer o papel com a carne. Mas os gatos são mais finos que isso. E mais sutis. Desembrulhei o papel novamente. Hoje de manhã, uma nova surpresa. A carne desapareceu.

Uma nova porção de convite para gatos foi colocada sobre o muro. Aguardo as pegadas almofadadas de Rodrigue. A melhor coisa que poderia nos acontecer no quesito “animais de estimação” seria ter um relacionamento aberto com um gato. Espero ter uma segunda chance.

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“Onde fica a saída?”, Perguntou Alice ao gato que ria.
”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice;
“Depende de para onde você quer ir…”
de Alice no País das Maravilhas

Quero chamar atenção

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A França é uma delícia. E é também o lugar perfeito para fazer um tanto de coisa que não me atrai, como comer carne semi-crua, fumar, cozinhar uma lagosta, fumar, caçar animais na floresta, fumar, jogar poker, fumar, e outras coisas lícitas e ilícitas que eu particularmente morro de dó.

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No outro lado dessa salada completamente parcial, há algumas coisas que deveriam chamar mais atenção dos franceses e, no entanto, não atraem tantos. O chocolate é uma delas. São sempre os mesmos… Pentear o cabelo é outra. E o mais intrigante: a atenção, por exemplo, é um valor pouco cultivado. “Atenção” no sentido de “prestar atenção”e não de “dedicar uma atenção”, que é outra história!

Sem querer citar nomes, existe uma pessoa que eu conheço que adora cozinhar, mas esquece sempre o fogão ligado com o fogo baixo esquentando o nada e o forno, que deveria estar funcionando, desligado. Uma outra pessoa que eu também não vou citar o nome, se avacalhou com os presentes de fim de ano e deu um brinquedo escolar para o amigo adulto e um isqueiro superpotente para a filha do chefe (de oito anos). Outra pessoa, também inominada, esqueceu de olhar a estação correta do trem, mesmo após duas confirmações, e perdeu a caríssima passagem para Paris. E, por último, ainda tem uma outra pessoa, que me ligou quinhentas vezes para confirmar uma ida no cinema, quando o filme já tinha começado há meia hora. Ah, e claro, tem duas pessoas, que insistem em esquecer a porta da nossa casa completamente aberta. Certa vez acordei, passei em frente e não acreditei. Estava lá a porta escancarada, após uma noite inteira, convidando todo o mundo para entrar. Que alegórico!

Alguns franceses não se dão conta de algumas coisas de primeira necessidade como fechar gavetas. Mas a falta do clique também vale para outras nacionalidades, que não vou dizer quais. Só digo que confundiram o horário de inverno da França, com o horário de verão do Brasil e ao invés de atrasarem o relógio uma hora, adiantaram uma hora. O resultado foi que chamaram atenção do funcionário que teria “chegado fora da hora”, e chegaram uma hora antes no almoço da turma, estranhando como os outros puderam se fazer tão atrasados…

Vocês aí que são desse jeito! Beijo para vocês. Adoro-los!

A atenção é sim um acessório importante para a vida. Veja só, imagine uma mãe que esquece de buscar o filho na escolinha. Ou um engenheiro que deixa uma chave ligada na hora da manutenção. Diria que é essencial! Mas eu, sem desculpas, não estou livre de perdê-la por várias algumas vezes. Sempre chamo a Vanessa de Fernanda e a Fernanda de Vanessa e confundo todas as palavras em todas as línguas que deveria saber. Na primeira prova do semestre passado, ao invés de escrever que era uma sonhadora, escrevi que era uma “deleitadora” ou “orgia”, dependendo da tradução. O mais recente é que eu confundo “lenço de papel” (mouchoirs) com a palavra “mentira” (mensonge) e digo em alto e bom som que preciso de mais mentiras.

Não preciso.

Quem precisa delas?

Essas pessoas que gostam de jogar poker!

ps. A foto que ilustra o texto é de minha autoria durante a festa do vinho e só está aí para chamar atenção!

Meia noite em Paris

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Voltamos para Avignon e felizmente nossa casa não foi arrombada. Essa cidade, embora seja bonitinha, está ficando cada vez mais violenta. Olha que irritante sair do Brasil para sofrer com violência na Europa… é a história de muitos por aqui.

Mas, por enquanto, nossa casa está intacta. Também, se arrombassem, encontrariam uma sopa mofada que esquecemos no fogão antes de viajar, uma geladeira fedorenta, com muito queijo que foi pro lixo (lamento!), um globo, um cabeça de batata e uma papelada danada para ver se eu consigo extender a estadia aqui. Nada demais! A gente é minimalista. Só fazemos questão do básico como o globo, o cabeça de batata e agora, o novo membro da família: o SuperAspirador de Pó!

No nosso último dia em Paris, fui percorrer Montmartre pela última vez. Sozinha. Adoro andar com o Alexis, mas era dia dele encontrar com amigos homens e as conversas seriam masculinas demais pro meu gosto. Preferi apreciar cada adorável esquina daquele bairro que eu queria que fosse minha casa. Tirei mil fotos, me esbaldei em crepes… Adorei estar sozinha para ouvir meus próprios pensamentos.

De noite, nos encontramos! Fomos numa festa na casa dos avós dele. A família estava em peso lá. E embora minhas cunhadas estivessem com pena de mim, eu não tenho o menor medo de encontros de família. Adoro, inclusive!

Mesmo assim, o fato de estar à vontade não me impediu de cometer uma gafe, aliás, é assim que as gafes surgem, né?! Eu tive a infelicidade de confundir “filha pequena” com “neta” (que em francês é “petite fille”, quando eu queria falar “fille petite”) e acabei perguntado para uma tia se a menininha do lado era neta dela. Depois disso, a tia foi embora da festa e nem mandou beijo. São as trapaças do idioma recém conhecido…

A avó do Alexis se impressionou bem com o meu cachecol cinza feito pela minha avó. Expliquei que era obra da mãe da minha mãe e ela pediu para ver de perto. Depois comentou que queria fazer um assim, mas que não achava tecido. Eu disse que minha avó encomendava tecidos pela internet. Ela disse que não poderia fazer isso. A cunhada perguntou o motivo e ela disse “porque eu não sei o que é internet”. Todos riram!

Reparei que o nariz de quase todo mundo era bem reto e europeu. Comentei isso com a sogra grega. E emendei “no Brasil, o nariz das pessoas é, digamos assim… (apontei para o meu)” e ela “grande???”. Pausa. “Eu ia dizer “arredondado”, respondi, “mas o que você quis dizer com “grande??”. Ela riu e ainda tentou escapar de se explicar. Comecei a ficar traumatizada. Por fim, ela esbarrou no copo, derrubou a bebida na mesa e falou que a culpa era minha, para ela ficar bem com a sogra dela. O maior problema que eu tenho com a minha sogra é que ela é muito parecida com uma brasileira extremamente divertida. Olha que desafio!

Um dos tios que estava na festa é idealizador de uma empresa de sucos naturais que só faz negócios com pequenos produtores, incluindo produtores brasileiros. Ele me explicou o conceito bastante interessante de fair trade e disse que nunca vai se deixar vender pela Coca-Cola! Hoje, são uma cooperativa muito engajada.

Não deu tempo de falar mais com ele, pois me envolvi na conversa com as meninas da família. Cada francesa mais bonita e com mais cara de francesa que a outra. Todas de cabelos curtos, vestidos simples e elegantes e muito simpáticas! Como se não soubessem que eram lindas, elas ainda eram extremamente inteligentes e sociáveis…
No esforço de mostrar que sabiam algo de Português, ficaram muito bem impressionadas com a palavra “Saudade”, de difícil tradução, mas muito significado. Que turminha legal! E que saudade que bateu das minhas primas…

Teve uma hora que fiquei olhando para o além, através de uma taça de vinho. O pai do Alexis perguntou se estava tudo bem. E estava! Disse apenas que tinha me lembrado da minha família. Amistosamente, ele respondeu “esta também é sua família!”.

PonteParis

Meia noite em Paris, era hora de ir embora. O avô disse que, da próxima vez, eu teria que fazer uma demonstração de samba para todos. Eu chego a escutar o “plim plim” da Globo toda vez que algum estrangeiro relaciona Brasil com samba. Mas farei a demonstração com gosto, pois ele falou com a maior simpatia.

No dia seguinte, acordamos cedo para vir pra Avignon. O sogro nos acompanhou até a estação de trem e conseguimos uns assentos bem confortáveis. Alexis até tirou o sapato. Quando eu vi os pés dele, não acreditei. Ele estava com meias de desenho animado do Bart Simpson, que tenho certeza que eram do irmãozinho dele. “Alexis, o que é isso?”,”Ah, eu levei um tanto de meia para Paris e, chegando lá, não encontrei nenhuma. Só essas”. Ele ainda teve coragem de fazer referência à vez que eu comprei meias pra ele e disse que agora ele que vai comprá-las, como se fizesse diferença isso na hora de encontrá-las no armário!

De volta à casa que estava intacta, resolvemos revirá-la nós mesmos, com o propósito de sermos mais organizados em 2013. De noite, Alexis se sentou no chão da sala, com dezenas de meias espalhadas, arrumando todas como num jogo de cartas, duas a duas. Vez ou outra, ele soltava um “ah, essas meias me irritam”.

Eu acho graça. Ele que compre as próximas!

Um brilho de aluguel

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Caía a tarde. E depois de um dia gostoso em casa, Paris pedia companhia nas ruas. Ao caminhar à margem da Prefecture de Montrouge (cidade satélite) uma coisa nos chamou atenção: Um aspirador de pó, ligado, na calçada, sem ninguém por perto. Ensaiei de desligá-lo, mas lembrei da garotinha do elevador de Silvio Santos e depois pensei em possível terrorismo e larguei pra lá.

O ano está começando com fatos estranhos.

Um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos. Logo após a virada, encontrei 5 centavos no chão (quase 15 centavos em reais) e  felizes com o enriquecimento sem causa, apanhamos o metrô para voltar. No vagão, havia uma mulher que chorava baixinho. Até aí, a gente entende. Fim de ano, um balanço doloroso, muita saudade daqueles que partiram… choram Marias e Clarices… Enfim, acontece… Mas o que estranhei é que a mulher era exatamente igual à Cássia Eller alguns anos mais jovem. Quem sabe ela ainda é uma garotinha?

Passei a virada do ano na Ponte Alexandre III conforme meu primo que veio a turismo sugeriu. Ele escutou que era incrível passar o réveillon lá e, após jantarmos e trocarmos encomendas, fomos todos para lá. Fiz o countdown em voz alta e comemorei sozinha o réveillon que chegou segundos depois. Eu era a única que tinha o relógio certo na multidão. Que estranho!

Mesmo assim, na ponte, nada aconteceu. Paris parece não ligar para réveillon embora a palavra seja francesa. Não acontece nada demais. Não tem um fogo, um balão, uma vuvuzela…  Mas tem gente de todo o mundo. E muitos conterrâneos! A gente ficou feliz de ter vivido a experiência entre outros centenas de brasileiros que foram para lá esperando a mesma coisa extraordinária que nunca veio. Passar o réveillon em família já foi bom o suficiente. E na chuva. Bem à brasileira! Meu Brasil…

O ano de 2012 já deixa saudades. (pule este parágrafo se você já se cansou de ler frases como esta). Foi um ano que começou muito diferente do jeito que terminou e em cada situação, com uma dificuldade diferente. Que sufoco! Louco! Eu era síndica do prédio no primeiro dia de 2012. Eu era também uma advogada atuante e indignada. E, atualmente, se eu pensar friamente, eu não tenho mais nada. Nada. Não tenho minha família comigo, meus amigos, meu cachorro, meu trabalho, minha casa, meu chuveiro, meu piano, minha cultura, minha cidade, meu direito de comer spaguetti 10h da manhã com a Eliete gritando “misericórdia!”… Ah, Brasil, se soubesses como eu gosto do seu jeito, seu cheiro de flor… E não é para chorar. Analisando por outro ângulo (e de outro hemisfério) tenho a impressão de ter ganhado muito, na corda bamba de sombrinha. Só tenho a agradecer.

Outro dia uma leitora de outro blog escreveu dizendo que terminava o ano feliz, mesmo estando desempregada, porque ela tinha em mente diversos planos que a libertariam de qualquer insatisfação! Eu acho isso inteligente! As vezes, o problema não se resolveu, mas a forma de vê-lo já mudou! As vezes, a linda Paris não celebra o réveillon, mas os brasileiros festejam assim mesmo.

Um excelente 2013 para todos os equilibristas!