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Arquivo do mês: fevereiro 2013

Uma experiência com a experimentação

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Na casa da minha avó paterna tem uns disquinhos de vinil com histórias para crianças. Eu costumava ouvir várias vezes aquelas histórias, com especial preferência por duas: O flautista mágico e A roupa nova do Rei.

Esta última, uma ironia sobre um rei que encomenda a mais bonita roupa de um costureiro. Este, sem tempo e criatividade para terminar o trabalho, não o faz e diz ao rei que havia costurado uma roupa que apenas pessoas inteligentes enxergariam. O rei, temendo parecer ignorante, diz que a roupa é linda e veste-se de nada para desfilar pela cidade.

Não tenho mais disquinhos da minha avó para escutar. E na falta de avó aqui (as duas queridas!), de primos e de pão-de-queijo em família, a gente na França tem que arrumar outros programas para fazer.

Um deles é ir a cinemas, teatros, shows e danças. Como nossa vida cultural ficou ativa… Ontem foi dia para ver dança.

Um pouco desconfiada da descrição, fui ao teatro com Alexis e dois amigos. Chegando lá, uma fila enorme anunciava que seria um grande espetáculo.

Apertada nas cadeiras da platéia, ouvi quando o diretor pediu que todos desligassem o celular não apenas pelo som, mas porque a luz poderia tirar a concentração dos bailarinos. Desliguei tudo.

Apagaram-se as luzes. E continuaram apagadas. E lá na frente, depois de uns 10 minutos, eu vi um vulto que era quase nada… Vi que o vulto andava. Depois sumia. Depois andava de novo. E sumia.

Depois vi cinco vultos. Não tinha música, mas um som roco de uma nota só.

Os cinco vultos andaram até o centro formando um vulto maior. Me perguntei onde estaria a dança…

Ouvi barulho de coisa caindo no chão. Depois os vultos se esfregando no chão.

As luzes acenderam. Vimos cinco homens pelados se esfregando entre bananas, tomates e uvas. Esse foi o fim.

Algumas palmas começaram tímidas lá do fundo. Alguém gritou “vocês me fizeram perder tempo”. Bati palma sem som, só de dó. Mas com dó de mim também. E de gente que tenta fazer da arte algo mais honesto  para o público e perde credibilidade por conta desse tipo de esfoliação intelectual…

O que é Arte? O que é Dança? O que é Experimentação? O que é Estética? Ai, se eu te pego, Duchamp!

Na saída do teatro, uma conhecida disse que precisávamos ter referência para entender aquilo. Mas isso não seria para entender tudo e também o nada?

Contei o caso para meu pai e ele se lembrou exatamente da metáfora da Roupa Nova do Rei. Essas são nossas referências. Lembrei-me de outra: A do circo de pulgas.

Uma coisa boa vi nessa história: Ali estava uma possível solução para o desemprego.  Te explico agora: Escolha um nome latim, qualquer um menos Carpe Diem que é muito manjado, invente um conceito doidão tipo “retornando às origens”, “a inocência da dança”, “a solidão do ser humano”  e faça pessoas caminharem no palco com luz quase completamente apagada. Pronto, você já pode ganhar dinheiro com isso.

Devemos sim exercer a nossa democracia com relação às artes, e claro que nenhuma vai agradar 100% das pessoas. Mas penso que anunciar uma dança que não é dança, cobrar caro e não dar direito nem de levantar para sair do espetáculo, isso é um jogada maldosa de marketing.

Eu me senti o rei pelado na rua. Fiquei com tanta saudade dos grandes grupos brasileiros: do Grupo Corpo, da Deborah Colker, da Companhia Será Quê,  saudade também das pessoas que jogam capoeira na Savassi,  das minhas amigas que dançam coreografias até nos banheiros do Cine Glória do Rio e da minha priminha que dança na sala da vovó. Tudo muito mais bonito, muito mais artístico… Para mim. Que saudade dessas referências!

O efeito placebo

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Quando eu era pequena, carregava uma conclusão que definiria a minha forma de comer até os dias atuais. Eu dizia “é mais importante a consistência da comida que o gosto dela em si”. E eu ainda levo a consistência à sério. Mousse com gelatina estraga a mousse. Carne mal ou bem passada demais, fica incomível. Cebola picadinha vale. Cebola com cara de Cebola, só nos quadrinhos!

Enfim, essa era minha técnica para definir se comia ou não comia.

Mas como aqui na França esse tema é muito mais cíclico que qualquer outra coisa, eu tive que repensar os meus critérios e estou ainda nessa fase, que acho que vai durar muito tempo, talvez um oito deitado.

Percebi uma coisa: além de valorizar a consistência, eu dou grande valor para a intenção do cozinheiro!  Quando vejo que a comida foi feita com carinho, mesmo que ela não esteja gostosa no sentido gustativo da palavra, é um prazer comer algo que foi feito com a melhor das intenções para te agradar!

Me lembro sempre de uma passagem num livro de Logosofia em que os estudantes questionam uma torta oferecida com má aparência. Então, o professor responde “a torta está saborosa e foi feita com afeto. Eu estou comendo afeto”.  Acho isso lindo! Apreciar as gentilezas, as pequenas demonstrações de afeto.

No entanto, não só de bem intencionados são feitos os almoços e jantares. Aqui na França,  algumas pessoas, cientes das minhas reticências carnívoras, já tentaram me testar. É verdade que guardo algumas lembranças que preferia ter apagado da mente. Não vale muito a pena ser visita quando a obrigação de agradar é só sua.

Isso é passado, eu espero. Nesta nova fase, estou vivendo experiências gastronômicas inéditas. Ontem mesmo, me ocorreu algo.

Cheguei em casa depois da aula e olhei o forno. Vi que Alexis tinha levado seja-lá-o-que-for da comida que ele fez para o trabalho. Pensei, poxa, ela podia ter deixado um pouquinho pra mim… Olhei a geladeira e encontrei um prato tampado com plástico. Que fofura! Ele deixou um pouquinho pra mim.

Peguei o prato e analisei. Era um legume que não sei explicar, o prato parecia ser feito por tentáculos de um polvo, mas era um legume.  Em volta, muito azeite. Pensei “nossa, que prato bem feito! Que coisa chique”. Esquentei no microondas e comecei a comer. Achei sem sal. Coloquei sal. Achei sem tempero. Coloquei alho. Achei a consistência estranha. Lembrei do carinho do Alexis. E comi tudo.

Mandei uma mensagem para o celular dele: “Adorei o almoço, coração!”. Ele não respondeu… que vida apertada a do rapaz…

De noite, ele chegou em casa e foi direto olhar na geladeira. Quando abriu, disse “oh, não…”. E continuou “você comeu o prato que estava aqui?” e eu sorri e disse “sim, obrigada, adorei!”. E ele “aquilo não era para comer, não estava pronto ainda…”. Aparentemente, era um legume estranho que ele joga muito óleo para “salvar” e tem que deixar esperando por uns dois dias para depois tirar o óleo e cozinhar a coisa…

Eu, sem saber desse processo… comi o legume preto derretido de gordura, fazendo um esforço danado para achar bom… Vivendo o placebo de gostar de uma coisa feita com amor.

Logo que ele me falou, me senti um pouco mal.

Ao contar esse caso hoje para meus colegas, na mesa do restaurante, todos pararam de almoçar.

Do doce ao azedo

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Tanta coisa pra falar… Mas como em Avignon não tem carnaval, minha rotina continuou sem muitas alterações, com exceção de que agora pratico Hip Hop, faço aula de mídias, ando de bicicleta, ajudo criancinhas no dever de casa e sou uma pessoa mais bem disposta! (E hoje é Valentine’s Day!)

No fim de janeiro estive em Madrid. Adorei! Fui com a Bruna, passeei com a Livinha e voltei sozinha. No avião da ida, fizemos uma amiga que tem um blog ótimo e filhos da minha idade!  No avião da volta não tive o mesmo prazer. Além de sentar do lado de um moço que não parava de roer a unha, um cara de óculos escuro falava inglês o tempo inteiro atrás de mim e chamava o comissário para tudo. Estava quase impossível ler o delicioso livro do Caco Barcelos (Abusado).

No fim do vôo, quando todos se levantaram, mas ninguém podia ainda sair, o tio de trás me perguntou de onde eu vinha. Disse que vinha do Brasil e o infeliz fez uma cara de dó. Perguntei em inglês se ele tinha algum problema com o Brasil e ele disse debochadamente: “Eu sinto muito”. Meu sangue subiu no teto e voltou. Existe uma máxima dentro de mim que diz que só brasileiro tem direito de falar mal do Brasil. A única coisa que consegui responder na língua que ele entende foi “pelo menos a gente consegue entender outra língua que não seja inglês”. Todos riram no avião. Aquele era Jack Nicholson saído de Laços de Ternura antes da parte da ternura. Que ódio latino ele me proporcionou, mas ele era tão caricato que nem precisei falar mais, o avião inteiro já estava com nojo do homem. Esse tipo de gente má nem representa risco, pois já se mostram ridículos no primeiro segundo. E só um detalhe: Ele não era americano e nem inglês… Não consegui identificar o sotaque, mas ele certamente não era de nenhum desses dois países. E mais, gente chata existe em todos os países.

Mas não é disso que quero falar agora. Quero falar de frutas, de sucos de fruta!

2012-09-23 14.33.27

Como sabem, adoro sucos de fruta! Gosto mais dos sucos do que da própria fruta em si em muitos casos (menos morango, banana, uva, kiwi e melancia)… No Brasil, é normal pedir os sucos prensados na hora pelo próprio restaurante se a indústria do refrigerante ainda não tiver subornado o dono do estabelecimento para parar de fazer isso. Em Vancouver não existia essa opção. Era sempre um suco industrializado e açucarado demais até pra mim… Eu ficava pensando como os diabéticos poderiam sobreviver em Vancouver…

Na França também não é fácil a sobrevivência para um diabético. Aqui já é difícil achar adoçante e vários deles são proibidos. E a fiscalização com adoçante é muito mais rígida que com o tráfico de drogas. Mas outro dia venderam uma lasanha à bolonhesa com carne de cavalo “por engano”… Eu não entendo esses critérios.

Desta forma, então eu me concentro em achar sucos de frutas naturais, porém industrializados, com pouco ou nenhum açúcar. E encontrei algumas marcas deliciosas! Entre elas, uma das marcas é de uma cooperativa idealizada pelo tio do Alexis. Já falei dele antes, de quando o conheci. Ele pratica o tipo de comércio fair trade que tem crescido entre as pessoas com vontade de ajudar o mundo. Enfim, acho superlegal a iniciativa, adoro o sabor do suco e, também, por ser de alguém próximo da família, eu procuro apoiar mais!

Só que é difícil achar esse suco para comprar aqui em Avignon. Por sorte, outro dia estava passando pelo Carrefour quando vi uns sucos como os do tio do Alexis, mas com uma embalagem um pouco mudada. Verifiquei se era fair trade e era aquele mesmo! Ai, que bom! Enchi o carrinho com os sucos. E ainda, para ajudar na divulgação, tomei a liberdade de mudar um pouco a disposição dos sucos no Carrefour. Como boa publicitária que sou, coloquei os sucos do tio dele na frente da Coca-Cola (chupa essa manga!), na frente de outros sucos açucarados, e espalhei até pro lado das sopas! Qualquer pessoa que passasse pelo supermercado seria obrigada a ver que existe aquela marca. Saí toda contente com meu trabalho.

Quando cheguei em casa, entrei no site indicado na embalagem, curti a página no facebook e deixei o suco bem bonito na mesa para o Alexis apreciar ao chegar. Ele chegou! Me cumprimentou e comentou “olha, o suco do concorrente do meu tio”!