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Arquivo do mês: abril 2013

Então teve um francês que falou do Brasil

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Estou no Brasil esta semana. E sábado meu avô veio rindo comentar que um francês deu entrevista para o jornal, falando sobre as impressões dele sobre o Brasil e Belo Horizonte. Depois minha tia veio fazer o mesmo comentário e me mandou o link. Depois uma amiga. Depois outra. Depois uma colega de trabalho da minha mãe me mandou o link. E no facebook começaram a falar disso bem ou mal. E quando a coisa viraliza desse jeito, ou você pega carona no sucesso e faz um texto relacionado, ou você fica dias digerindo o que foi escrito e pensando bem ou mal do que foi escrito e não faz mais nada. Eu estou na onda de digerir e pegar carona!

Bom, no texto do jornal, chegou-se à exaustão o número de vezes que foi informado que o francês não queria ofender ninguém com suas observações. Concordo. Muita coisa do que ele falou faz sentido pra mim. Algumas outras não. De qualquer forma, não o levo a mal. Até porque, fizemos uma troca. Ele veio pra cá, eu pra lá. E falo também do país dele, com o cuidado de não ofender, mas expresso minhas observações que, em alguns casos, carregam críticas.

É muito complicado fazer uma crítica. Primeiro que quem somos nós com nossas imperfeições e incompetências para falarmos dos outros? Eu tenho aflição, por exemplo, de gente feia que xinga outra pessoa de feia. Mas olha aí eu já achando essa primeira uma pessoa feia?

Então, o ideal seria engolir a crítica e deixar por isso mesmo? Mas aí como fica nossa vontade de mudar o mundo? Claro, tudo começa com o exemplo! E depois?

Outro problema é que quando a gente está mais vulnerável a gente se sente ofendido mais fácil. Eu me sinto muito mais ofendida com comentários na França que com comentários no Brasil, porque lá ainda não é meu domínio… ainda estou em teste por lá. Então, tudo vira trauma nesse cenário.

No Brasil, quando eu descobria que alguma pessoa não gostava de mim, eu me sentia lisongeada porque significava que, de alguma forma, eu representava uma ameaça praquela pessoa. Na França, quando fico sabendo disso, vou pro banheiro chorar. Olha que bobeira!

Bom, mas seguindo a linha de sucesso do senhor Olivier, o gênio indomável francês que escreveu observações sobre o meu país e a minha cidade, vou também listar algumas observações (minhas, nada baseado em estudos demográficos ou estatísticos) sobre o país dele, que escolhi para viver e que estou adorando! E também farei um comparativo com o meu país.

  1. Existe uma fascinação mútua entre Brasil e França. Tudo que tem um ar francês no Brasil faz sucesso. E tudo que tem “Brésil” na França faz sucesso. No entanto, os franceses ainda tem conceitos muito caricaturais do Brasil. Estaríamos nós fazendo o mesmo?
  2. A França tem uma multiculturalidade linda! Pessoas de todas as origens, línguas e culturas estão lá. Há um grande respeito às diferenças e à busca pela igualdade de direitos. Você tem todo direito de ser diferente na França, desde que não engorde.
  3. A França tem uma cozinha reconhecida internacionalmente. Eles aprenderam a fazer grandes pratos de forma refinada e inteligente. Dizem que porque já sofreram muito com guerras, eles sempre comem o que é oferecido, e aprenderam a fazer tudo delicioso. Mas o sofrimento da guerra não os ensinou a estocar alimentos. Se a comida sobra no jantar, ela vai pro lixo.
  4. Ainda sobre comida, os pratos franceses costumam ter dois ou três elementos diferentes no máximo. Um prato de arroz, feijão, farofa e carne já é considerado um exagero, mesmo que pese menos que um prato francês com purê de batatas e carne semi-crua! Não entendo.
  5. Em Avignon não se encontra um fio dental que preste. E ao comentar isso com alguns franceses, eles dizem que é porque fio dental faz mal para os dentes. E juram que foram os dentistas franceses que mandaram esse recado. Comentei com minha dentista e ela precisou sentar-se.
  6. Em Avignon, por ser uma cidade medieval, as ruas são muito estreitas, mesmo assim, tem pista para bicicleta. Quando o carro vem, no entanto, a bicicleta tem que sair. O pedestre também tem que parar de andar. No fim das contas, as ruas não são feitas para ninguém. Mas tudo bem.
  7. Em Avignon, ninguém ajuda mulher que estiver carregando peso.  E ninguém avisa se você estiver com chocolate no nariz.
  8. Em Avignon, as formas de socialização são: Fumar, tomar vinho, jantar junto, subir uma montanha e assistir um jogo de Rugby. Nessa ordem. O shopping é só para fazer compras. Ponto pra eles!
  9. Em Avignon é raro pegar um táxi e é mal visto pela sociedade pagar por um serviço de entrega. Salvo no caso da Amazon. Avignon quase não tem livrarias mais, porque os franceses vão para as livrarias, leem os livros todos lá dentro e quando querem comprar, compram pela internet.
  10. Na França, você pode ser a pessoa mais chata e inconveniente do mundo, se você souber cozinhar bem, terá garantida uma cota de bons amigos e admiradores franceses.
  11. Franceses, de uma forma geral, não se interessam por música. É um assunto que nunca rende com eles.
  12. Na França, o feminismo é mais intenso. Tanto que chegam a ficar ofendidos se num teatro o homem estiver num degrau acima da mulher. Se por um lado, acho exagerado, por outro, comemoro que temos muito menos homens machistas entre os franceses.
  13. Na França, ter um namorado é visto como algo corrente. Olha que legal! Ninguém precisa ficar exibindo e falando dele com os amigos ou nas redes sociais como um troféu.
  14. Em Avignon, todo mundo que cruza na rua se cumprimenta, mesmo sem se conhecer, salvo alguns imigrantes e alguns maníacos da cidade. Fiz o teste aqui em Belo Horizonte e todo mundo retribuiu com um sorriso! É tão simples e gostoso!
  15. Em Avignon, os motoristas de ônibus não odeiam os outros motoristas e nem os ciclistas!
  16. Na França, o francês não é falado lindamente como nos filmes. Eles falam arrastando, cortando palavras e acham que, se falarem muitos palavrões, estarão rompendo com as convenções. Depois eles se reúnem todos em dezembro para comemorar o natal.
  17. Na França, dois dias depois do Natal, a gente encontra milhares de pinheiros mutilados e jogados na rua. Depois eles falam que se preocupam com a natureza. Em alguns pontos de Paris, encontrei áreas destinadas à reciclagem das árvores de natal. E se a gente quebrasse as convenções parando destruir as plantas no fim do ano?
  18. Na França, sempre que possível, eles vão te fazer alguma crítica. Elogios são raros. Mas são honestos. No Brasil, a gente elogia demais. E critica escondido.
  19. Na França, as pessoas se cumprimentam por beijinhos. Inclusive homem com homem.  E o número de beijos pode variar de um a quatro, dependendo da região.
  20. Na França, a salada é comida depois do jantar. E o queijo é comido depois da salada, sempre acompanhado de pão.  E vinho, se estiverem bem humorados ou mal humorados!
  21. Na França, a gentileza pode fazer milagres. No Brasil, também!
  22. Na França, os professores conseguem viver com seus salários! E agora estão mudando o costume de falar a nota de todo mundo em voz alta.
  23. Na França, as crianças não tem aula nas quartas-feiras e de 60 em 60 dias tiram duas semanas de férias! E, surpresa!, elas voltam muito mais inteligentes!
  24. Na França é difícil assistir um filme no cinema na versão original com legendas. Deve ser porque no interior da França são poucos os que falam inglês, mesmo sendo tão barato o ensino de idiomas para europeus.
  25. Na França, usar drogas é visto como normal. Fumar muito é visto como normal. Mas comer nutella não pode. Isso faz mal pra saúde.
  26. Na França, talvez em toda a Europa (sei lá), existe a possibilidade de comprar o ovo de acordo com a qualidade de vida da galinha. Isso é obrigatório nos rótulos! Eu dou preferência sempre para o ovo da galinha mais livre e contente!  Mas e se o ovo veio antes da galinha?
  27. Na França, os banheiros tem estantes de livros. Mas não tem chuveirinho, ou bidê! E são poucos os franceses que lavam as mãos. Eles falam que faz mal pra pele.
  28. Na França não existe palavra para “gostar”, só “amar”. Aí inventaram o “aime bien”, que tem um valor menor que “aime”.
  29. Na França, o planejamento de utilização do espaço é um pouco questionável. Falta praticidade, sobra espaço. Mas é bom porque dá para jogar amarelinha dentro do toilette. Aliás, amarelinha é um jogo francês, segundo a professora!
  30. Na França, a beleza é mais sutil. O cabelo branco é mais aceito e as mulheres só passam maquiagem para eventos importantes. Eu amo a forma como os franceses enxergam a beleza. Mas sou a favor de algumas pessoas mudarem um pouco o visual…
  31. Na França, poucos alisam os cabelos. Poucos fazem cirurgia plástica. E acho que nunca vi alguém com mega hair. Aliás, a França é o país das mulheres finas de cabelo curto!
  32. Na França, acontece a mesma coisa que no Brasil: as pessoas repetem o que leram no jornal como se fosse a opinião delas. A diferença é que tem mais opção de jornal por lá.
  33. Na França, que bom, não existe calça jeans com strass! Não existe bolsa combinando com sapato e sombra combinando com vestido. Nem elevador com cheiro de Victoria Secrets…
  34. Em Avignon, toda terça-feira, as coisas úteis, porém descartadas são colocadas para fora das casas, gentilmente oferecidas aos demais. Com isso já conseguimos uma linda poltrona.
  35. Em Avignon, mesmo com os incômodos das ruas estreitas, é possível se dar ao luxo de fazer tudo de bicicleta! Mas é impossível comprar um remédio à meia noite se você estiver morrendo. Eu sinto muita falta de serviços de conveniência por lá.
  36. Na França, e principalmente em Avignon, os carros são mais velhinhos. O nosso, por exemplo, foi doado por uma senhora boazinha e tem 23 anos. Ninguém mede o valor de uma pessoa pelo carro que ela ostenta. Aliás, tudo que o francês ostenta está no vinho e na culinária. Salvo as leitoras de Vogue.
  37. Na França, os jornalistas são muito simpáticos, e são humildes para apurar fatos. Se perguntados, eles dizem não sofrer censura.
  38. Na França, eles são muito legais com os amigos. Fazem de tudo para agradá-los, mas nunca visitam a avó no hospital.
  39. Na França, mesmo se você trabalhar na mesma rua da casa dos seus pais, você vai ter que sair de casa aos vinte anos. Mesmo que os pais continuem sustentando os filhos. Lá é normal uma pessoa de vinte e cinco anos nunca ter trabalhado, mas se achar independente por não morar com os pais.
  40. Na França, ninguém quer se casar. Com exceção dos gays.
  41. Na França, a moda agora é fazer aula de Salsa. E muitos acham que é uma dança brasileira.
  42. Na França, tudo é tão burocrático quanto no Brasil. E tem gente que trabalha com vontade e gente que trabalha sem vontade no serviço público. A diferença é que tem mais serviço público que aqui.
  43. Na França, existe o maravilhoso site Le Bon Coin, para compra e venda de tudo que for de ocasião! A nossa casa foi mobiliada com ele. E estou totalmente fascinada!
  44. Na França, muitos acham certo ter circo com animais. Poucos são os que se preocupam com o bem estar do bichinhos. Mas isso está melhorando a partir do momento que começaram a enxergar uma coexistência entre todos nós!
  45. Na França, as pessoas são pontuais. Menos quando estão entre brasileiros, espanhóis e italianos…
  46. Em Avignon, 9 horas da noite, a cidade já morreu. Nos 5 meses de frio que temos.
  47. Em Avignon, as pessoas fingem que entenderam o teatro sem sentido com homens pelados rolando nas bananas. Por que não fingem que entenderam a música bonita que estava tocando no bar?
  48.  Na França, eles são muito politizados. Para se ter uma ideia, o país entrou em guerra no Mali e perderam alguns soldados. A população foi em peso às ruas. Mas para protestar contra o casamento homossexual.
  49. Na França, a liberdade é um pouco confundida ainda com uma outra palavra bastante semelhante. Mas, sério, eu tiro meu chapéu para as grandes obras que já produziram em nome da Liberdade.
  50.  Na França, a gente se sente mais imortal! No bom sentido da palavra.
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Perdida num paraíso

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Há alguns dias decidi que já estava pronta para andar de bicicleta até uma cidadezinha que considero simpática: Le Pontet!

Mesmo caindo quase sempre e já tendo sido filmada por um  rapaz que, ao invés de me ajudar, falou que ia colocar o vídeo da minha queda no google, eu estou adorando fazer bicicleta! Não consigo mais conceber com facilidade uma vida sem o luxo de poder me locomover com esse meio de transporte tão prático, tão DaVinciano!

“Qualquer dia ainda te encontro no youtube”, diz a Fernanda com receio de me ver cair de novo da bicicleta. Mesmo assim, não me intimido!

Naquele dia, fui para Le Pontet! Queria ir numa papelaria que vi lá da vez que fomos apresentar o coral (e que minha boca parou de responder aos meus comandos devido ao enorme frio).

Depois de passar pela livraria que tinha ótimo atendimento,  descobri um caminho de terra. Estava lá toda feliz e contente quando atropelei um cachorro que se jogou na minha frente. Como eu estava muito devagar, ele não machucou nada, ainda mais que minha bicicleta nem é feita para andar na terra. Então a dona do cachorro foi me pedir desculpas e ficou minha amiga. Começamos a caminhar juntas (eu, ela, seu cachorro e mais outro filhote) até um hipódromo onde a filha dela fazia aula de equitação. Lá tirei umas fotos. Achei tudo lindo!!! Despedi dela e segui pelo caminho de terra.

No meio do caminho, achei uma bola de tennis. Fui tirar a bolinha de tenis do centro da estrada e joguei ela pro lado. Nisso, surgiu um golden retriever maravilhoso, do nada, correndo em câmera lenta, como numa sessão da tarde, atrás da bolinha e trouxe ela de volta pra mim. Pensei ter chegado no Paraíso, mas era só a periferia de Le Pontet. Eu brinquei um pouquinho com o Golden e um poedle (como que escreve pudow?) simpático veio nos ver. Aí tive que ir embora e o Golden achou ruim que parei de brincar de bolinha…

Na hora de voltar, claro que eu fiquei perdida e fui para o lado oposto de Avignon. Ainda bem que o espertofone é mais esperto que eu e mostrou o caminho de volta. Tive que passar por Le Pontet de novo e seguir um ônibus por um tempo, mas parei num supermercado que não exige que a gente largue a mochila na entrada e isso me animou. Na saída, errei novamente o rumo e cheguei à auto-estrada, um lugar que não é legal pra bicicleta. No entanto, logo achei outro caminho que era superdiferente, com casinhas fofas, árvores generosas… e fui andando. Mas vi pouquíssimas placas. Porém, encontrei uma boulangerie maravilhosa!

 Quando concluí que estava perdida, reencontrei uma placa que dizia que eu estava em Avignon!
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“Perder-se também é caminho”. Disse Clarice Lispector para mim!

Como saber que você está morrendo de saudade do Brasil

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Algumas práticas me levam a concluir uma obviedade: Que saudade do Brasil!

1) Abro a geladeira e encontro um pote de sorvete! Meus olhos brilham. Abro o pote e a decepção: É sorvete. Saudade de comer feijão!

2) Chego em casa e olho meu e-mail de cinco em cinco minutos. Chega um e-mail do namorado. Ignoro. O que eu quero mesmo é ver e-mail dos meus pais!

3) Dou uma mordida na comida de ante-ontem. Está velha demais, quero largar. Olho para o lado e falta alguém. Junto tudo para levar pros gatos da rua. E cadê o Peter pra me dar a patinha por um pedaço de linguiça passada?

4) No restaurante universitário, deixo um bilhete no guardanapo para o chef: “O senhor poderia fazer arroz mais vezes por mês? Adoro arroz! Obrigada”. Nunca fui atendida.

5) Olho para o céu azul e acho ele lindo. Procuro alguém para cantar comigo “moro, num país Tropical! ” .

6) Vou para a feira de trabalhos e a recrutadora pergunta “mas o que vocês estão fazendo na França? Não tem emprego no Brasil não?”. A gente agradece a gentileza e sai pensando “Tem mais que aqui!”.

7) Oito horas da noite. Não tem muito para comer em casa. Penso em ir ao supermercado. Não dá, já fechou.

8) Você vai até o xerox da universidade. É você mesma que descobre sozinha como fazer tudo sozinha. Nesse mundo solitário, me lembro de como os xeroqueiros do Tribunal e da Justiça Federal eram gentis comigo. E jogo um pensamento bom para eles.

9) Nunca fui de comprar muitos livros, mas só porque não tem livro em Português aqui, estou com abstinência pedindo encomendas até pra dentista se ela vier pra França.

10) Vou até a farmácia e não tem revista Sorria para comprar. Não tem nem um chocolate…

11) A professora entrega a correção da redação. Eu espero um comentário positivo, afinal, escrevi bastante, falei muito sobre meus sentimentos em relação à adaptação, abri meu coração. Recebo em troca um comentário diante da sala inteira: “Você precisa escrever melhor”. Bullying.

12) O menininho da escola não quer estudar e eu procuro palavras de estímulo em francês… não encontro. Me esforço para fazer sorrisos que o levem a concluir que ele deve terminar o dever com alegria. Sou uma pessoa tão estranha em outro idioma…

13) Chego num bar e me apresento para amigos de amigos. Perguntam de onde sou e respondo orgulhosa do Brasil. Eles mandam um  “Hola, que tal?!”. Mas isso é espanhol, meu senhor.

14) Na saída, todo mundo dá três beijinhos começando pela bochecha esquerda. Eu trocaria os três por um abraço.

Meu Brasil, te vejo na semana que vem!!!