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Arquivo do mês: setembro 2013

O BANCO DE HORAS DE GENTE QUE QUER TRABALHAR

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O meu primeiro trabalho remunerado na França tem sido em uma lanchonete. Eu faço os hambúrgueres, frito as batatas, monto os sanduíches e sirvo os clientes. Eu sou simpática com todo mundo e ajudo a limpar a cozinha. Meu chefe me fez ver muita coisa de um jeito mais legal. Antes, eu estava com uma impressão muito ruim dos restaurantes franceses devido a algumas experiências traumáticas que por aqui vivi. Mas meu chefe foi bastante paciente, bastante divertido, e me mostrou um outro lado do profissional francês que eu não conhecia. Além disso, ele vai me dar um dos gatos que nasceram em sua casa , agora que o pequenino foi embora pra Marseille com a dona verdadeira dele (aguarde, em breve, um livro sobre o assunto!).

Como a faculdade vai começar (final de setembro e ainda não começou!) e, aparentemente, os horários são incompatíveis com o horário do meu trabalho, eu vou ter que sair da lanchonete. E, novamente, serei uma pessoa não-remunerada.

Mas, olha, andei pensando numa coisa. E posso até emprestar minha ideia (não me agrada essa palavra sem acento) para quem quiser divulgá-la com entusiasmo (e boa vontade). Pensei no banco de horas de gente autônoma.

Seria mais ou menos assim: Tenho de duas a três horas livres por dia, disponíveis para trabalhar. Desta forma, eu tenho muita dificuldade de encontrar um trabalho padrão, até porque os horários da faculdade mudam e não são sempre só de manhã ou só de tarde. Mas eu sei que poderia ajudar muita gente que precisa. Penso que tenho algumas habilidades para isso. Veja bem, eu tenho experiência como advogada, publicitária, jornalista, professora, desenhista, comentarista de rádio, blogueira, vendedora, jornaleira, flautista, passeadeira de cachorro,  babá,  organizadora de eventos, bailarina, apresentadora de eventos, decoradora de chocolates, pianista, fritadeira de hambúrguer e recepcionista de clínica. Além disso eu sou fluente em outros idiomas e sei imitar vozes de  alguns personagens especiais (como Sally & Roger). Em algum lugar do mundo, não é possível, deve ter alguém precisando do meu trabalho, precisando de uma mãozinha para terminar um prazo apertado, precisando de uma pesquisa de opinião, de umas fotos, de um texto, de frases, de um manual, de responder e-mail etc e eu aqui, de bobeira.

Se houvesse um cadastro no mundo para a gente oferecer trabalhos autônomos e para outros também procurarem estes serviços, por algumas horas por dia, poderíamos resolver dois problemas de uma vez só: o das pessoas superapertadas e o das pessoas super à toa.

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Ah, e talvez seja importante dizer: também já fui modelo de mão!

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Anotações

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Hoje estava relendo algumas anotações minhas e achei essa aqui, que vale ser copiada e colada:

Em agosto de 1944 o general alemão Von Choltitz recebeu ordens de Hitler para destruir a linda capital da França. “Paris está em chamas?”, perguntava o fuhrer. Ele nunca respondeu. Não teve coragem de devastá-la. Paris fora poupada.

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Obrigada, Sr. Choltitz!

O casamento grego

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No início do ano fomos convidados para o casamento de uma amiga na Grécia que se daria no final de Agosto.

Antes disso, tivemos a visita das duas famílias na nossa casa. A minha, vinda de mais longe, veio para tudo mudar! Dizem que família de italiano é assim, arruma a casa inteira, pinta as paredes, costura as roupas rasgadas e, quando saem, deixam um rastro de saudade. Foi duro despedir. A nossa geladeira ficou repleta de amor, mas o vazio passou para dentro do coração.

Que consolo? Vamos para a Grécia!

Ah, a Grécia. Sinceramente, nunca tinha dedicado muito tempo mental para refletir sobre a Grécia atual não. Ela se resumia aos trabalhos de Hércules, ao Deus da Comunicação (Hermes), à Deusa da Justiça (Themis) e àquelas esculturas peladas, todas em forma, para dar inveja aos pobres mortais cheios de celulite. Não, a Grécia atual não estava nos meus planos. Ela estava em crise. Dizem que sofria com a corrupção. Me parecia um cenário já conhecido.

E foi aí minha surpresa.

A Grécia é sim um cenário conhecido, mas é também exuberante, surpreendente, um dos lugares mais lindos que já conheci!

Do lado conhecido, a Grécia tem gente como a gente! Gente que sorri, que dá bom dia com gosto, gente acolhedora, que cozinha com um tanto de gordura, que morre de calor, que arrasta o chinelo na cozinha e que trata o cliente como o rei do mundo.

Do lado exuberante, a Grécia é a definição que eu tinha de paraíso. Tudo é bonito! Para cima, para baixo, para todos os lado. Tudo é fotogênico. Lá vi a maior concentração de pessoas bonitas da minha vida (fisicamente falando). Os gregos são monumentais em todos os sentidos! Vi o sol se pondo como poesia. As águas mais generosas do mar estão lá, transparentes, chamando para um mergulho! E o suco de laranja… O sabor da felicidade!

Tive a ventura de contar com a companhia da minha tia para o casamento grego! Eu nunca consegui terminar de assistir o filme homônimo porque tenho um problema de televisãolepsia (não sei se existe essa palavra, provavelmente não porque o word está fazendo aquele riscadinho vermelho, que aliás, ele também fez para a palavra “word”).

Kleio foi a noiva. Kleio é uma pessoa muito animada! Um pouco como as minhas amigas brasileiras! Ela nos deu a maior atenção no dia em que chegamos na Ilha de Évia, onde seria a cerimônia e nos apresentou ainda duas outras francesas de Avignon que para lá foram também pra ver o tão falado casamento grego.

Kleio nos contou que haveria uma cerimônia religiosa ortodoxa (religião predominante na Grécia, e ortodoxo o word reconhece, né?!) e depois uma festa para 557 convidados. Na hora que ela falou isso, Alexis e eu caímos para trás! QUINHENTOS E CINQUENTA E SETE PESSOAS! Calma, dizem que casamento grego é com todo mundo mesmo. A ilha inteira estaria presente! E mais um pouco. E a gente, de novo, pensou, como é possível com a crise? É possível!

Fomos pra tal cerimônia religiosa. Mas não entramos. A cerimônia foi numa capela, no alto de uma montanha, com vista para o mar. Na capela cabiam umas 20 pessoas. Imagino que umas 50 se amontoaram lá. Do lado de fora, ficaram umas 300 (porque muita gente pula a parte religiosa, né?!). Dessas 300, duzentas e noventa estavam fofocando, falando sobre as roupas dos outros (dá de tudo!), falando sobre a crise, sobre a Europa, sobre a Syria, sobre os EUA, sobre comida, sobre bebida e sobre outras coisas que não eram o casamento. As 10 restantes, estavam blasfemando o fato de ninguém estar prestando atenção nos dizeres do padre, que eram cantados num grego antigo que nem a noiva entendia. Mas diz a noiva que o padre nem pergunta se eles se aceitam mutuamente para amar e respeitar, na saúde e na doença… Segundo ela, se você está lá pra casar, é porque já aceitou o fardo. É.

Então ela saiu da igreja, molhada de suor, ainda fazia dia, embora já fossem 8h da noite. Tocaram o sino, todo mundo carregou todo mundo, todo mundo brindou, tirou foto, pulou, assistiu o pôr-do-sol no mar e se foi pra festa.

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Estávamos famintos quando chegamos na festa que era no mesmo hotel em que ficamos (por 20 euros a diária, com piscina, quarto enorme, tudo limpo, mas recepcionista que só fala grego, embora simpática). Na mesa em que ficamos, encontramos um pão para cada prato. Pegamos um pedacinho do pão pra matar a fome. Não deu certo. Tiramos mais um pedacinho. Ai, que fome. Mais um pedacinho. E os salgadinhos que não chegam? Eu e minha tia começamos a fantasiar que ia aparecer uma coxinha com catupiry, uma empadinha de camarão, um bolinho de queijo… E lá se foi o pão inteiro. E não era pequeno. Mas fome, né?! A gente tem que respeitar.

No que terminamos de comer o pão, começamos a pensar em pegar o pão que estava sobre os outros pratos da mesa, já que não tinham outras pessoas para se sentarem lá. Até que chegaram outras pessoas. Primeiro duas donzelas gregas. Com vestidos tomara-que-caia, elas estavam morrendo de frio (de noite estava mais ou menos uns 19 graus). Depois chegou um moço e ficou conversando com ela. Ainda faltavam dois pratos, com dois pães, quando chegaram eles. Eles! Não os noivos, os noivos ficaram duas horas tirando fotos antes de aparecerem na festa (que agonia que eu tenho disso), mas chegaram Helení e Dimitri! Dois gregos também!

Pronto, perdemos a oportunidade de pegar mais pão… Como que a gente vai conversar com esse povo? A gente fala grego? Eles falam francês? Não. Português? Não. Inglês? “Yes! I can speak English!”, disse Helení com um tom sério. Não me lembro muito bem como começamos a conversa. Talvez eu tenha insinuado para ela que queria mais pão, mas sei que, no fim das contas, ela estava fazendo a gente dar gargalhadas de tudo que ela falava!

Helení era advogada na Grécia! Que espelho! Falava do lado bom e ruim da profissão, mas falava com leveza! No fundo, acho que ela nasceu pro teatro (como todo grego). Dimitri, seu noivo (eles se casariam em cinco dias), era escultor! Você já conheceu um escultor na sua vida? Tenho certeza que conheci a definição de escultor naquele dia. Era um homem grande, de cabelos volumosos, barba, sorriso largo, forte e muito bem humorado! Dizia não falar muito inglês, mas que compreendia tudo. Uma simpatia! Helení era magrinha, mas ocupava todos os espaços. Falava que iria nos ensinar a dançar, explicava a letra das músicas, contava o que sabia sobre o Brasil, sobre a Grécia, sobre suas idéias. Gente, que vontade de ser amiga dela! Toda vez que ela falava alguma coisa que nos fazia rir, Dimitri a pegava pela cintura e lhe tascava um beijo na bochecha, como quem diz “Que orgulho de estar ao seu lado!”. Fofo! No casamento dos outros, eles mostravam sua própria história de amor, sem indelicadezas!

Finalmente os noivos chegaram! E a música começou. Seria uma hora de danças típicas. Quando começou, era apenas Kleio e sua mãe, numa ciranda doce! Helení nos traduziu a música que apresentava o eu-lírico de uma mãe que se despede da filha que vai se casar. A mãe diz que sentirá saudades e que é para o marido a fazer feliz e orgulhosa dele. Feliz e orgulhosa dele. Que lindo!

Depois uma roda. Não sei bem em que hora aconteceu a valsa de marido com esposa, pai com filha, filha com avô, essas coisas, mas teve uma roda. Dessa eu me lembro! De repente, 557 convidados se levantam e vão pra roda de braços dados. É de arrepiar.

Lembra que a gente só tinha comido pão? Pois bem, nessa hora a comida começou a chegar. Chegou um prato de batatas e a gente traçou ele todo. Um prato de macarrão (esse estava meio super cozido, mas a gente comeu). Aí começou a chegar salada, empanadas de queijo, uma carne amarrada no papel laminado e eu já estava satisfeita. Pra que fui comer o pão inteiro???? Não parava de chegar comida depois.

Helení pegou nossa mão e nos levou pro meio da roda. Um passo pra frente, outro pra trás na diagonal, dá uma balançada e passa o outro pé… Parecia fácil, mas a minha coordenação motora não estava muito refinada. A do Alexis, então, era completamente oposta ao que eles faziam. Minha tia dançava, e ria, e filmava, e ria, e dançava, e comia alguma coisa… até que…

Até que começou a chegar uma bebida grega que chama Tsipuro (é assim que escreve? Aposto que não, word não está reconhecendo). Muito bem! Essa bebida é tomada em shots, pois é forte como a Vodka!

Tinha um garçom pra se ocupar de cada mesa. E a gente começou a ser servido daquilo. E tudo que a gente falava que era bom, a gente bebia um shot para comemorar. A noiva foi cumprimentar a mesa e todo mundo com seu shot! A música estava boa? Viva! Mais um shot! Antes de dançar, um shot, depois de dançar, outro shot!

A  música grega é tão linda! Tem tanta influência oriental… fica com uma sonoridade diferente, vibrante! Foge do tom-tom-semitom-tom-tom-tom-semitom!

Mas a música grega acabou… e aí o DJ começou aquele repertório básico internacional que toca em 100% das festas com mais de 200 pessoas (YMCA, La Bamba,  tudo do Bee Gees, Twist and Shout, Raining Men etc). E lá fomos com as duas francesas, a minha tia e Helení dançar!

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A noiva tirou meu Alexis para uma dança. E ele foi todo engraçado! Fazendo caras e bocas que renderam boas fotos (embora com definição à desejar).

Tocaram também algumas músicas brasileiras! Tchecheretchetche-tche-tche! Nessa hora,  já deviam ser umas duas da manhã, o garçom veio até a nossa mesa, com umas duas ou três novas garrafas de Tsipuro, puxou uma cadeira, sentou, serviu o meu copo, serviu um copo pra ele, brindou e bebeu!

Foi a deixa. Depois disso, ele trouxe tanta sobremesa pra gente, que até hoje eu fico me perguntando por quê  não comi mais (pensamento de gorda). E toda hora ele vinha tomar um shot com a gente. Eu já estava ficando preocupada.

Helení dançava. Kleio dançava. O noivo foi jogado na piscina e seguido por todos os seus amigos. Dimitri bebia e ria pra Alexis que bebia e ria pro garçom, que bebia, servia nossos copos e trazia sobremesa. E eu e minha tia na sobremesa. As duas francesas riam, comiam sobremesa e bebiam a tal da água que passarinho não pode de jeito nenhum!

Quatro horas da manhã decidimos ir pro quarto pegar as havaianas, essa coisa de classe que toda mulher faz em fim de festa, né?! Ficar de chinelo. Mas minha tia teve uma ideia melhor! Ela trocou a roupa inteira, por outra roupa ainda mais bonita! Só uma diva para fazer isso. Minha tia perdeu alguns quilos nos últimos anos e se tornou uma das mulheres mais vistosas que conheço! Ela com o vestido azul marinho estava ganhando de Kate Middleton na elegância. Sério!

Então voltamos pra festa. Eu de havaianas e minha tia de vestido azul (antes era pêssego).  Passamos pelo noivo de camiseta e bermuda e sentamos na mesa. Conversamos um pouco com o garçom. Ouvimos a música. Dançamos um pouquinho e depois de 30 minutos minha tia decidiu que queria dormir! Haha! Nos abraçamos e ela se foi.

Mais trinta minutos. Dançamos um pouco mais.  Um pouquinho mais de Tsipuro. Muita água para compensar. Muito doce para não ter gastrite e dali música, dali dança. As francesas foram dormir.

Eu, Alexis, Dimitri e Helení resistimos. Os dois últimos, mais que a gente. Eles ainda estavam dançando, se abraçando. Eu e Alexis, sentados na mesa, meio zumbis, de chinelo…

Decidimos despedir. Antes ele colocou uma garrafa de Tsipuro separada. O que é isso que você está fazendo? “Vou levar de lembrança”, ele disse. Avisou pro Garçom! Avisou pra Kleio! Despedimos dela! E depois despedimos do outro casal. Tão simpáticos… será que nos veremos novamente?

Duas horas depois de ter apagado no quarto, abri os olhos e ainda se ouvia a música. Muita música! Muitas risadas… Bateu um arrependimento de ter ido embora. Mas que forças eu teria para ficar até depois de 6h da manhã?

No dia seguinte, refleti sobre essa festa. Estranho, não estava com dor de cabeça. Foi uma festa legal! Muito animada, principalmente, com pessoas interessadas em participar de uma festa animada (porque não basta um bom DJ se ninguém quiser dançar, ou rir, ou conversar). Mas concluí uma coisa, o casamento tradicional brasileiro tem mais ou menos o mesmo tanto de gente do casamento tradicional grego, só que a gente não conta e não dançamos de braços unidos. Deveríamos começar!

Eu deixo o meu conselho: Se um dia você tiver a oportunidade de presenciar um casamento grego, não perca. É incrível!

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Ps. As fotos com data foram tiradas pela amiga francesa Colette Guerido!