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Arquivo do mês: novembro 2013

O amigo oculto de talentos

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Há alguns anos eu descobri que não era tão fã de amigo oculto. Pensava que a chance de dar errado era muito maior que de dar certo. Veja bem: Se o evento acontece no seu trabalho ou curso, você teria que se considerar amigo de todos para não passar pelo constrangimento de ter que abraçar o camarada que falou mal de você no dia anterior. Outra coisa, se você aceita participar de todos os amigos ocultos propostos, a chance de esquecer de um deles e ser obrigada a doar uma peça da sua roupa do corpo no dia também é grande (isso já me aconteceu quando eu era pequena e minha mãe me deu o colar que ela estava usando para servir de presente). Por fim, e não menos grave, quando você finalmente investe o seu tempo e dinheiro nessa brincadeira e recebe de volta um presente de alguém que não fez o mesmo, quanta decepção…. Então, eu me perguntava se esse tipo de celebração valia a pena.

Tudo bem, entendo a inteligência do amigo-oculto. Nem precisa, mas vou explicar: dessa forma, todo mundo ganha um presente. E ganhar presentes é sempre bom! Ou não?

Ano passado participei de um natal típico na França. Com árvore enfeitada, presentes vindos do “papai Noel”, gente reunida em torno de uma mesa, tudo como manda o figurino. Não tinha amigo oculto naquele natal francês, a ideia era a de todo mundo dar presente para todo mundo… Aí que eu me vi numa fria (literalmente! Olha o trocadilho de natal! hohoho!). Gastei muito dinheiro. Tentei não comprar nada de origens duvidosas, e mesmo assim gastei mais do que queria com pequenas lembrancinhas. Recebi muito também! E ótimos presentes! Mas tive inconvenientes inimagináveis com essa história e cheguei à conclusão de que prefiro um natal não-tradicional.

Para começar que eu não tenho religião e o natal não faz sentido pra mim nessa esfera. Em segundo lugar, é uma festa cara e cheia de protocolos complicados. Difícil conseguir agradar a galera. E para terminar, eu não tenho condição de presentear todo mundo que eu gosto da forma como eu queria e também acho que ninguém tem condição de me presentear como eu preciso (estou necessitando de um creme milagroso para cabelos-vassoura, de muitas passagens ida e volta para o Brasil e da cura do xenofobia, alguém?!) então para quê forçar uma frustração?

Embora muita gente nessa época reclame desta sensação ruim (repara procê ver!), eu não desgosto do natal como época do ano. Eu curto a ideia! Tenho muita simpatia  pela reunião da família e adoro a decoração à la Amelie Poulain: Verde e vermelho! Sou capaz de dizer até que tolero bem as músicas típicas de final de ano. Sendo a minha preferida, Somewhere in my Memory (ao ouvir, você saberá de qual filme ela veio!)

Então, se pensarmos que o encontro familiar pode ser uma coisa legal (e é!), fica faltando apenas um ajuste: os presentes. E, no nosso caso brasileiro, o amigo-oculto.

Como já demonstrei, não acho que deveríamos nos sentir obrigados a presentear materialmente, mas podemos fazer umas jogadas com isso! Caso a gente ache que esta brincadeira pode ser legal, por que o amigo oculto tem que ser tão moldado no consumismo? Por que a gente tem que fingir que é rico e que pode comprar coisas incríveis quando a gente não pode comprar, mas pode fazê-las?!

Minha tia (tia Denise, beijomeliga!) me mandou uma ideia legal esse ano: o Amigo Oculto de Talentos.

Eu já tinha ouvido ideias sobre como seria melhor, ao invés de dar presentes, oferecer experiências (como viagens, teatros, passeios). Também conhecia e a ideia de valorizar a produção local: Comprar em mercadinhos da esquina, e não em lojas de departamento.

Mas essa ideia de agora achei que reuniu bem as boas intenções anteriores. E em que consistiria?

Ao invés de comprarmos coisas já prontas, vamos oferecer algo que foi acrescido ou completamente feito com um talento pessoal.  Aí sempre tem alguém que diz que não sabe fazer nada. Para encorajar, exponho alguns exemplos que provam que, na verdade, todo mundo sabe fazer alguma coisa:

Uma torta gostosa, uma cópia de um artigo que você escreveu, um cachecol artesanal, um chaveiro de miçanga, um projeto de decoração da sala do amigo oculto, uma plantinha regada e cuidada pela própria pessoa, um banho no cachorro do amigo oculto, uma lavagem no carro do seu amigo, um desenho, um quadro, um texto, uma fórmula de creme capilar que a própria pessoa inventou com a vitamina de abacate, um filme produzido pela própria pessoa, ou um filme que a pessoa goste e anexe seus comentários pessoais sobre (isso também vale para um livro), um CD com músicas escolhidas pela própria pessoa, um álbum de fotos, um guia turístico de algum lugar que você gostou, um guia gastronômico da sua cidade, um guia cultural de lá também, uma agenda 2014 já com os aniversários dos familiares anotados e datas importantes grifadas (formaturas, lançamento de livros de amigos etc), um dicionário de palavras peculiares com significados só seus, um livro de recordações da vida, uma cor de esmalte fabricada por você mesmo, uma moldura de massinha, um guia de personal style, uma arrumação de guarda-roupas etc.

Um presente de talentos pode ser mais oportuno que um presente comum, desses fabricados na China ou testados em beagles sem necessidade. Ganhar presente é bom, mas ganhar um presente porque a pessoa que te deu foi obrigada a isso, parece nulo. Algo feito com carinho, mesmo que de pouco valor material, pode ter muito mais significado e espaço nas nossas recordações. Na mala que veio para a França, trouxe comigo alguns bilhetes e desenhos dos meus ex-alunos. Desaa forma, veio comigo um pouco da minha história e um carregamento de afeto.

Caso a amigo oculto não tenha nenhuma ideia de talento que possa oferecer como presente, ele também pode se valer do talento de outra pessoa próxima, como um folhado que a vizinha faz, ou um sabonete que a colega de trabalho modela, ou um kit de frutas vendidas pelo amigo do mercado central, ou um vale-cabeleireiro do salão preferido, e até um vale-limpeza dental (necessária a cada 6 meses) do seu dentista, basta juntar um bilhete contando a origem do presente e um pouco sobre a pessoa que o preparou.

Caso tudo pareça muito difícil, uma coletânea de azeites sempre pode resolver bem o problema e de forma simples!

Ao pensar sobre o assunto, diga-me, sinceramente, se não é muito mais prático que rodar lojas lotadas, pegar filas longas e preços altos por um produto que muitas vezes não fará tanta diferença… Que talento seria esse?

Prefiro fugir dessa tradição.

“Quanta coisa existe que eu não preciso para ser feliz”. Sócrates

UPDATE!

O blog Minimalizo me convidou para escrever um texto sobre este mesmo tema por lá! Esse blog é delicioso, vale a pena conhecer!

Outra dica: O 365 coisas que eu posso fazer

O lindo projeto “Imagina na Copa”

E um alô para uma leitora  que vive na Suiça, do Pipoca Crua . Ela me escreveu dizendo que adorou a indicação do documentário sobre alimentação como filme de domingo!!! (leia o post abaixo até o fim e entenderá)

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A depressão de domingo

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Domingo é um dia gostoso para passear com a família, arrumar o armário, pintar a casa, fazer um almoço pros amigos, colher as frutas da estação, ler livros não-obrigatórios, viajar para uma cidade próxima, visitar a avó, aprender uma receita nova, rolar na grama com seu cachorro, esconder o gato no cobertor, colocar todos os sapatos no sol para tirar o chulé e dançar na sala o Pixinguinha preferido.

Domingo é um dia legal! Mesmo assim, algumas vezes, ela vem nos visitar: A depressão de domingo. Ela não é uma depressão, mas um estado de aflição misturado com indolência e solidão muito comum para esse dia da semana.

Por que no domingo? Simples, porque é quando nos ocupamos menos.  E já dizia o ditado: Mente vazia é oficina do diabo.

escada

Quando eu morava em Belo Horizonte, achava que a depressão de domingo estava ligada àquela cidade. Mentira. Tem isso para todo lado! E aqui em Avignon não tem nada que abre no domingo, então a região fica ainda mais apática. Mas a “depressão” não acontece todo domingo. Geralmente acontece quando a gente tem a sensação de que deveria ter feito algo mais do nosso fim de semana, se não das nossas vidas, ou quando a gente queria muito estar com alguém que não está com a gente. Ou quando a segunda-feira vai dando medo de tanta coisa pra fazer. Pelo que entendi, esses são os principais motivos. Mas, cavucando bem, devemos encontrar outros mais.

A pior coisa que você pode fazer nessa situação é assistir o que estiver passando na televisão. Parece que a grade de programação é montada especialmente para te matar de letargia e angústia. Outra coisa ruim é fuçar facebook de quem está se divertindo nessa hora. Viver de assistir a vida dos outros é uma das coisas mais deprimentes que existem.

A boa notícia é que essa sensação tem cura. Basta sair do lugar. Exemplo: Hoje, estou sozinha em casa. Alexis teve que trabalhar, Fernanda e Bernardo viajaram e até a gata saiu para fazer algo divertido. Eu fiquei insistindo em ver um filme muito chato no computador (Beleza Roubada, que filme chato, véio…). Aí ela chegou. De mansinho. Como quem não quer nada, fez um comentário sobre a proximidade da tristeza. Ou sobre como tanta gente é mais feliz que você. E o filme ia passando, e essa visita ia se acomodando mais e falando dos meus problemas.

Desliguei o raio do filme. Fui arrumar a casa e escrever. Essa é uma forma minha de me sentir mais útil e feliz. Outras pessoas podem ter outras ideias melhores.  Quando eu estava fazendo TCC e OAB, eu estava sempre ocupada com um desses dois temas e uma das melhores sensações que me lembro de sentir na época era a de estar adiantando alguma coisa.

A depressão de domingo é deprimente exatamente porque tem uma cura fácil que a gente não consegue ver, muitas vezes por falta de vontade e até por falta de criatividade. “Só não existe remédio é para a sede do peixe”, dizia Guimarães Rosa. As vezes, começar a movimentar já espanta metade dessa lástima.  Ler um blog diferente, catalogar suas meias, escrever uma poesia pro vizinho, levar seus priminhos na sorveteria, cortar a franja e as unhas já são boas iniciativas. Eu recomendo muito que, se você mora na mesma cidade ou perto dos seus avós, vá visita-los. Leve pão e manteiga e faça seu lanche com eles. Essa era uma das melhores prerrogativas de morar em BH: Visitar vovó Lygia, vovô Branco e vovó Marieta. E quanta risada a gente dava até tarde nos domingos… Desconheço cura melhor para qualquer infelicidade.

2013-07-05 17.02.26

Ps. Esta é uma das fotos preferidas de um hobby que venho mantendo:  A observação insetos. Repare que para arrumar alguma coisa pra fazer, não é necessário ir muito longe! Que seu domingo seja um dia útil.

Sugestões de coisas para ler, ver e escutar num domingo feliz:

A epidemia de dança de Estrasburgo (na França, claro!)

O documentário brasileiro disponível neste site sobre a nossa alimentação

Uma homenagem para Lou Reed

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“A gargalhada é o sol que varre o inverno do rosto humano”. Victor Hugo