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Arquivo do mês: maio 2014

Sobre eventos sociais e algumas percepções

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Sobre eventos sociais e algumas percepções

Houve uma época que eu pensei que detestava festas! Que nunca valeria a pena sair do meu canto para nenhum evento social porque sempre existiam muitos protocolos difíceis de seguir.

Nunca fui aquela garota sexy segurando a taça de champagne e isso parecia não caber no mundo. Até que conheci uma turminha boa de amigos que me fez perceber que qualquer desculpa é boa para estarmos juntos ! E, com sorte, dançarmos um pouco!

Este texto é uma análise pessoal de experiências e observações sobre eventos sociais.

Tudo começa no convite. 

Outro dia um amigo brasileiro que mora aqui em Avignon nos convidou para um piquenique de aniversário. Devo dizer que atualmente essa é uma das minhas formas preferidas de comemoração de qualquer coisa : piquenique ! Natureza, esportes ao ar livre, comida na toalha quadriculada. Amor eterno.

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Ele fez daqueles convites pelo facebook e eu me lembrei de algumas práticas que quero compartilhar. Nem todo mundo tem facebook ou olha o facebook com frequência, então, se você quer mesmo que alguém vá no seu evento, ligue, mande mensagens por outros lugares e confirme a presença!

Em convites públicos para aniversário como e-mails em que todo mundo vê o nome de todo mundo ou mensagens no facebook em que todos lêem tudo, acho de bom tom que, se você não puder ir, que mande uma mensagem particular para quem convidou. Já reparei uma tendência no mundo que é que quando muita gente começa a dizer que não vai, outras pessoas ficam com preguiça de ir « num evento que não vai ninguém » e desmarcam também. Se você informa discretamente que não vai, esse perigo diminui.

No lado contrário, se você informa a todos que vai, acho que estimula ainda mais a participação das pessoas (a não ser que você seja muito chato). Uma colega fez uma coisa muito fofa: No dia do piquenique, o céu amanheceu cinzento e feio. Ela mandou uma mensagem para todos assim « O céu está cinzento, parece que vai chover um pouco, mas não importa, eu estarei lá ». Isso foi bem motivador e muita gente que pensou em desistir, desistiu de desistir. Que preguiça de gente que precisa de condições perfeitas para sair de casa.

Um pouco de ajuda conta muito.

Outra coisa que reparei na Europa é que as pessoas aqui se oferecem frequentemente para ajudar nos preparativos dos eventos. Em abril fizemos uma festa surpresa para um amigo marroquino. O combinado era que eu deveria chamar o amigo com a desculpa de que tinha outro amigo marroquino para apresentá-lo e ao chegar na minha casa, todos já estariam aqui. Marquei com todo mundo 20h, tendo chamado o amigo 20h30. Às 20h da noite só haviam duas pessoas. Mas às 20h10, éramos 30 enchendo balões e arrumando tudo. Durante a semana precendete, muita gente me procurou para saber o que poderiam fazer para ajudar na festa. Eu não precisava de muita coisa, mas tudo que pedi, eles fizeram!

No fim de toda festa é de bom tom dar uma ajudinha ao dono da casa. Não é preciso muito. Lave um ou dois copos, passe um paninho no chão. Leve o lixo pra fora, separe os vidros, guarde o que estiver limpo. As pessoas aqui tem por hábito fazer essa pequena faxina antes de se despedirem, coisa que eu não tinha muito costume, admito. Por isso todas as festas que fiz aqui em casa foram leves porque não me custaram caro (cada um trouxe o que queria comer ou beber) e todos ajudaram na arrumação inicial e final. Depois que foram embora, a casa estava limpa e habitável!

No Brasil, também tem pessoas que tem essa percepção. Minha avó gostava de fazer pães de queijo aos domingos para toda a família. Com a idade aumentando, as dificuldades motoras também foram crescendo. Muitos dos meus tios e até primos, sem que fosse pedido, passaram a chegar mais cedo na casa dela para ajudar a limpar, fazer a massa dos pães de queijo e arrumar a casa, de forma que ela podia continuar as reuniões de domingo sem sentir o peso que a idade naturalmente traz.

caiu vinho no chao

 

Pontualidade!

Não é preciso chegar na hora exata (salvo no caso da festa surpresa porque era cronometrado mesmo). Mas atrasar mais que meia hora é falta de educação, vai! Ainda mais quando é jantar e você deixa as pessoas morrendo de fome, a comida esfriar… não é muito legal!

O contrário também acontece. As pessoas te chamam para almoçar meio dia e a comida só sai 4h da tarde. Isso me mata porque eu não consigo despistar a fome com amendoim e cerveja, numa boa!

Aqui na França, a pontualidade não é absoluta, mas quem chega atrasado, já chega pedindo desculpas. No Brasil essa prática é quase uma instituição. E não é legal. Além disso, tenho a impressão que tem gente que gosta de chegar atrasado só pra causar um efeito na hora que chega, como se fosse uma celebridade no tapete vermelho. Fala sério !

 

As comidas e bebidas preferidas

Uma coisa fofa dos brasileiros é se preocupar com o que os outros comem. Ao me convidarem para jantares no Brasil, muitas pessoas procuravam saber se eu comia carne, que tipo de carne, essas coisas, para preparem algo que fosse agradar. E até para não passarem pelo constrangimento de uma pessoa ter um ataque de alergia durante a refeição. Algo que acontecia muito na minha adolescência era que, como eu não gostava de refrigerante (e até hoje não bebo), ao almoçar na casa dos amigos, eles sempre advertiam suas mães para ter outra coisa pra beber. Seria simples se me dessem água, mas a cena que se repetia era. « O fulano me disse que você não gosta de refrigerante, então eu fiz uma limonada especialmente pra você ! ». E eu lá, bebia a limonada com cara boa, mesmo sem gostar de limonada! Aqui na França, com o tempo, as pessoas entenderam que sou chata com carnes e passaram a perguntar o que eu gostava de comer. Olha que legal! A minha chatura está tornando as pessoas mais fofas !

Músicas

Na minha opinião, uma festa com música boa não toca  apenas músicas da moda. Tem pra todo gosto. O que a gente faz aqui é que cada um vai no computador e seleciona uma música que gosta por vez. Como somos pessoas do mundo todo, geralmente no final da festa, pedimos cada um para colocar uma de seu país. E com a música, cada um ensina a fazer a dancinha do país. Da última vez, um convidado siriano nos surpreendeu com suas danças típicas e com a beleza de suas músicas. A gente conhece as tragédias do país e esquece que  em todas as culturas existe uma beleza, uma graça, que é o que conta para cada um. A amiga peruana colocou uma música que dançam com fogo, mas obviamente que a gente não imitou da mesma forma! Com o irlandês, sempre empolgamos nas músicas de  Riverdance! Com a grega, sempre dançamos zorba. E assim vai do Brasil à Russia, a gente dança e ri a noite inteira. É uma delícia essa turma !

Laemcasa

A  jogatina!

Muitos eventos como jantares, aniversários ou mesmo festas aqui na França tem um momento com jogos. Há um enorme gosto para jogos aqui na Europa. E eu aprendi alguns realmente divertidos. Os jogos podem ir desde mímica, imagem e ação, dança das cadeiras, até coisas mais elaboradas como caça ao tesouro ou desvendar um mistério criado especificamente para a situação. Tenho um amigo que de tanto jogar essas coisas, virou um profissional dos jogos e hoje ele tem uma associação que oferece uma vez por mês em Avignon uma noite de jogos para a população pelo custo de 3 euros anuais para adesão. Ele faz reuniões com a prefeita, com associações de bairro e escolas para elaborar as atividades. Acho isso o máximo!

Placar

Todo mundo conversa com todo mundo.

Uma coisa que me irritava no Brasil é que eu tinha a impressão que as pessoas só faziam eventos para paquerar. E depois que elas tinham namorados, cônjuges e tal, paravam de fazer eventos com os solteiros para fazer somente eventos entre casais e comentar sobre a vida de casal. Enfim. Aqui também existe muita paquera, claro, o ser humano parece que não consegue ser feliz sozinho (brincadeira!). Mas há uma abertura maior para conversar com todo mundo, de criança a velho, de estrangeiro a nacional, sem importar muito se você está de decote ou não, se tem olho claro ou não, se é rico ou não, empregado ou desempregado. Somos todos interessantes! Desde que sejamos capazes de nos comunicar, por que não podemos conversar apenas para conhecermos uma pessoa a mais ? Que aflição de um mundo onde toda conversa tem que ter segundas intenções.

Nem tudo precisa ser churrasco 

No Brasil, um dos eventos que mais gostamos de fazer entre amigas é o brunch (aquele café da manhã que emenda com o almoço). Acho uma delícia e depois ainda sobra a tarde para fazer outras coisas.

Também gostamos muito de fazer noite de comidinhas enquanto a gente passa creme na cara e assiste filmes. Ou uma rodada de crepes onde cada um monta ou seu. Tem tanto jeito legal de reunir!

Do meu gosto pessoal, não sou muito fã de churrasco. Geralmente o evento deixa um ranço de gordura na pele e o fato de comer tanta carne me parece muito estranho. Mas como você já sabe, eu sou chata com carne. Flexitariana, para quem entende do assunto !

BrunchMeninas

Se você confirma, você vai.

A questão é simples : se você for num evento, confirme por educação para que o anfitrião possa se preparar para a sua presença (ui!), se você não for, diga que não pode. Não precisa dar a explicação completa, é só dizer que não pode e pronto. Sou a favor de reduzir o tanto de explicação que damos sobre a nossa vida para os demais (desde que realmente não tenhamos feito mal pra ninguém). Quanto mais explicamos, mais perguntam e mais palpitam, por melhores que as pessoas sejam.

Minha amiga Silvinha postou uma frase que a Liz Gilbert (aquela do Comer Rezar Amar) escreveu « As pessoas vão parar de te fazer perguntas se você começar a responder com danças interpretativas ». É bem por aí, tanto pra acabar com a mania de cuidar da vida dos outros, como para acabar com a mania de dar explicações demais sobre a sua própria!

Sobre as confirmações de presença, eu ainda tenho outra angústia: Pessoas que confirmam a presença numa festa e não vão. Simplesmente, parem de confirmar! Isso não é exclusividade do Brasil, infelizmente, mas é algo muito feio em toda parte. Aprendi a identificar essas pessoas rapidinho. São aquelas que estão sempre com dor de cabeça, dor de estômago, dor de cotovelo, problemas insolucionáveis. Tem gente que tem a ousadia de dizer que foi parar no hospital (e usam essa desculpa várias vezes). Que feio ficar brincando com doença assim só pra não ir numa festa. É preferível não confirmar e aparecer (levando o que for comer e beber) que confirmar e não aparecer.

 

Tudo bem se ninguém for na sua festa

Já tive muitos eventos fracassados. Já convidei gente da turma inteira de faculdade (que confirmaram) e no fim foram só quatro pessoas. Essas situações são muito chatas, mas acontecem. Não é culpa sua. Mas de fato é uma arte saber a quem convidar para seus próximos eventos. E quando convidar.

Aprendi que as vezes convidar na última hora é melhor do convidar com muita antecedência, pois as pessoas esquecem. Também pedir para elas levarem os sucos ou darem carona para outros ajuda a criar uma « obrigação de não desistir »para os que não são muito muito fiáveis nesse ponto.

Agora, se você preparou uma festona e ninguém foi, tenho uma dica: entre no grupo de couchsurfers da sua cidade e chame os couchsurfers pra sua festa. Geralmente funciona!

A hora de ir embora

Interessante esse blog chamar saída à francesa. Na França não existe saída à francesa. Eles chamam sair sem despedir de saída à inglesa! Mas eu adoro essa técnica quando o ambiente está muito cheio e você não é dos convidados principais (e nem tem ninguém contando com a sua carona).

Outro dia, estava numa festa ótima de despedida de brasileiros e espanhóis. Ótima ótima mesmo. Comida boa, música boa, papo bom, ambiente gostoso. Mas aí me veio ela : a sensação de estar no lugar errado. Não sei se alguém entende bem o que é isso. Pode estar tudo perfeito, mas de repente você sente que deveria estar em outro lugar. Tive que ir embora, mesmo deixando muita coisa legal pra trás. E saí sem despedir, e até meio triste, saí de fininho, já com saudade daquele povo. Imagino que a morte seja um pouco assim também.

Mas se você não tem que sair de fininho, pode despedir. E se você quer sair mais cedo, pode despedir também, principalmente do dono da festa. Antigamente eu tinha o hábito de fazer um drama quando alguém ia embora, como se a saída de uma pessoa fosse arruinar a minha festa. Aprendi com a Luiza Voll a ser diferente. Se a pessoa quer ir embora, ela não pergunta motivo nem nada, ela dá um abraço e agradece a presença. Grande garota!

 

Os chatos das festas

Não concordo com a idéia de que toda festa tenha um chato, mas concordo que quando ele existe, ele se faz notar rapidamente. Pessoas que falam muito perto das outras, pessoas que encostam demais, pessoas que só falam delas mesmas, pessoas que ficam de bico, pessoas repetitivas, pessoas que bebem demais e começam a agir como dementes, pessoas que bebem e começam a ofender as outras, pessoas que trazem maconha pra festa, pessoas que se acham muito gostosas, e agora os novos chatos : pessoas que ficam olhando pra tela do celular a festa inteira, pessoas que fazem selfies de dois em dois segundos, e os « jornalistas de rede sociais », que ficam reportando tudo sobre a festa no twitter, facebook ou whatsapp. Se sua vida está tão legal, por que você não sai da internet?

Os melhores convidados

Se você foi convidado para uma festa, certamente não  porque alguém queria te dar alimentos e bebidas, e sim porque você foi considerado interessante o suficiente para acrescentar para um ambiente. Olha que honra !

Meu pai uma vez relatou sobre uma amiga de oitenta anos que estava com ele num casamento. Num dado momento, ela se levantou da mesa em que estavam e chamou a todos para dançar. Com o espanto, ela respondeu « Não estamos aqui só para comer, vamos participar da festa! ».  Se está na chuva, é pra se molhar! Eterna admiração pelas pessoas que sabem alegrar os ambientes!

Se você não souber dançar, não é problema, ainda pode ficar no meio da pista dando mini-pulinhos, ou fazendo as danças erradas mesmo, pois ninguém está te dando nota pelos passos. Mas se não quiser, pode se oferecer para fazer caipirinhas, servir os salgadinhos, contar piadas para o amigo da perna quebra, ou tomar conta da fila do banheiro e conversar animadamente com as pessoas. O importante é cuidar para não deixar perder a animação do evento. Isso não é obrigação apenas do anfitrião, é de todo mundo que está lá!

Não é preciso bancar a festa inteira

Aprendi com os amigos que para fazer uma boa festa não é necessário gastar muito dinheiro. Geralmente o que precisamos é de uma caixa de som, guardanapos, copinhos, pratinhos e garfinhos plásticos. Uma caneta para anotar em cada copo e pratinho o nome das pessoas (para elas não perderem seus pertences e pegarem outros), alguma bebida e alguma comida. Não precisa ter a quantidade suficiente para todos, podemos pedir que cada pessoa leve um pouco de comida ou bebida ou os dois. Geralmente, sempre trazem o suficiente e acabamos conhecendo pratos diferentes e deliciosos, principalmente aqui que vem gente do mundo todo!

Meus pais e avós acham falta de educação convidar as pessoas e pedir para elas trazerem as comidas. Realmente, se for um evento formal, tipo um casamento, isso não é muito bem visto. Mas para uma festa de celebração da primavera, por exemplo, tudo bem! E quem se sentir ofendido com isso, é só não comparecer na festa! Com essa forma de reunir as pessoas, fica muito mais fácil nos reunirmos e muito mais barato, o que torna possível fazer festas com mais frequência.

Copinhos

A vida não é só festa… 

Mas, não, a vida não é só festa, claro. E não fazemos toda semana. Até porque, festa o tempo todo também cansa e fica meio sem sentido.

Mas quando estamos longe de casa, das nossas origens e de outros amigos tão queridos, uma das melhores idéias para espantar o banzo é se encontrar! Mas sem sermos escravos de eventos sociais, porque a vida vai muito além disso.

Não sou a pessoa que entende mais de festas no mundo.  E certamente que não faço questão de ser. Porém, tive algumas boas experiências em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Vancouver e Avignon. Posso garantir que as melhores festas que frequentei na vida foram feitas de idéias simples que reuniram pessoas legais. É sempre assim! Se quiser fazer uma festa boa, chame pessoas diferentes de você, de todas as idades e nacionalidades. Agregue ! Foi assim que aprendi com meus avós que faziam macarrão e pão de queijo e chamavam todo mundo que eles conheciam para comer junto. Foi assim que aprendi com as melhores pessoas que já conheci.

Amigos5abril2014

Abaixo, deixo alguns vídeos (gravados da forma errada) das nossas festinhas!

http://www.youtube.com/watch?v=zwDoHNJGrq4 (Avignon)

https://www.youtube.com/watch?v=neJGW2a6uOc (Vancouver)

https://www.youtube.com/watch?v=H9S0ErjUhOc (Rio de Janeiro)

Ps. As fotos que ilustram este post foram todas tiradas por amigos: Manuel, Gabrielle e a foto do Brasil esqueci qual das meninas tirou, provavelmente foi uma máquina da Jaque!

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A mordida imperfeita

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Depois que a gente muda de casa, cidade e país fica mais fácil perceber que algumas coisas que a gente achava que precisava eram apenas coisas que estávamos acostumados a ver os outros fazendo. Não eram tão necessárias.

Alguns exemplos clássicos são as tinturas para cabelo. Se no Brasil é difícil aceitar os cabelos brancos, na europa tenho amigas mais novas que eu com a cabeça grisalha já. Outro exemplo : os eventos sociais. Chá de panela, chá de bebê, chá de calcinha, chá de fraldas etc… Nunca vi nada disso aqui na França e vi muito mais gente tendo filhos aqui que no Brasil. Os casamentos também são comumente mais simples, sem muito auê. As festas são divertidas, mas com menos ostentação. Não estou dizendo que é melhor, mas é diferente. E é mais barato!

Mas o que quero falar é sobre o sorriso das pessoas. Eles são variados, imperfeitos, as vezes amarelos e às vezes até manchados. Tenho preferência pelos  sorriso mais lisos possíveis ! E limpos ! Mas sorrisos são sempre bonitos! E entre a perfeição e a pequena imperfeição, conto minha experiência com o aparelho, para reflexão. Pois é uma história que eu precisava registrar em algum momento. E vai ser agora. 4h da manhã, de uma terça feira. Por que não ?!

Quando eu tinha nove anos, me encantei pelo fato da minha amiga Cecília usar aparelho. Ela usava um aparelho superleve, só um tracinho de metal que colocava no céu da boca e fazia ela falar como se tivesse 15 babalus na boca. Era um charme! Insisti com a minha mãe que talvez eu precisasse de aparelho. Não precisei insistir muito. Acho que naquela época as mães estavam conversando entre si e todas chegaram à conclusão que era preciso colocar aparelhos nos filhos naquela idade, antes que eles virassem monstros com dentes saindo pelas bochechas.

Na minha cidade existiam alguns dentistas da moda. Um supercaro e dentista do Ronaldo Fenômeno, outro um pouco menos e outro menos caro, mas também referência em ortodontia. Fomos no que parecia razoável, indicação de várias mães.

Ele me fez tirar mil radiografias, morder umas placas, esperar horas por uma consulta. Depois de muitas análises, concluiu com a minha mãe que o caso era grave. Que eu tinha a mordida torta, ou seja, que o meu crânio era meio desencaixado na mandíbula e que isso poderia arruinar a minha vida. O tratamento custaria mais caro que o esperado, mas me tiraria o terrível fardo das pessoas com a mordida torta.

Claro que minha mãe aceitou fazer todo o possível para me ajudar. Como sempre! Linda!

Colocaram o bendito aparelho. Não era bonitinho como o da Cecília. Meu aparelho era um emaranhado de ferros que me faziam salivar o dia inteiro, me impossibilitavam de olhar pra baixo sem babar e quase completamente me impediam de falar.

Meus pais lutaram para pagar por esse tratamento. Sempre me diziam que tinha custado o preço de um Fusca e completavam « Tem um carro na sua boca ! » . E eu só queria os 15 babalus…

Usei o aparelho o máximo que pude. Todo mundo tentava me estimular. A síndica do prédio, a professora, a secretária da escola de música. Todo mundo superpreocupado com a minha mordida que tinha que ser endireitada. O aparelho era insuportável de ruim. Como que uma criança de 9 anos, fazendo aula de ballet, natação, flauta e apaixonada por um menino que nunca olhou para ela poderia encontrar energias para usar uma lataria envergada dentro da boca?

Bom, tinha um carro dentro da minha boca. Eu tinha que usar.

Montei um joguinho para mim mesma numa caixa de ovos. Cada dia que usasse o aparelho por mais de oito horas, eu coloria um quadro na caixinha de ovos e se completasse a caixa eu ganhava. Ganhava o quê ? O direito de não me sentir culpada ! Que maravilha !

Tinha uma consulta por mês com o dentista e antes de ir era sempre uma tortura. Isso porque ele tinha uma sala onde os pais não podiam entrar. Só as crianças. Ficávamos todos enfileirados nas cadeiras de dentista esperando o atendimento do doutor. Antes dele, passavam algumas assistentes vendo nossas bocas. Eu já tinha visto uma assistente sendo agressiva com uma das crianças e até mesmo o doutor mais bravo porque um garoto estava malandrando e não usava o aparelho. Morria de medo dele ficar bravo comigo. Mas nunca ficou.

Era uma linha de produção aquele dentista. Incrível ! Uma sala com um tanto de cadeiras, cheia de crianças sem pais para incomodar. Esse era o método dele. Um só cara, muito bom, com várias assistentes boas e uma nervosinha..

Tinha uma ruiva que era simpática e quando eu saía com ela no rodízio do atendimento, ficava mais aliviada. A nervosinha me fazia tremer de medo.

Um dia minha mãe foi escondida ver o que acontecia quando a gente era chamado para aquela sala. Naquele dia ela viu a linha de produção e começou a se questionar. Será que o dentista pode ser tão bom ao ponto de se dar ao direito de impedir os pais de acompanharem o tratamento de perto ? Bom, era uma escolha nossa. Era um esforço da minha família. Ter a mordida torta poderia ser muito pior.

O tempo foi passando. E meu aparelho foi mudando. Um dia, cansada de usar o babão, avisei pro dentista que não estava dando certo, que não aguentava mais. Pouco tempo depois ele decidiu mudar. Que idéia a minha… passei para o tão temido freio de burro. E a inteligente aqui ainda foi pra escola com aquilo, para cumprir as 8h por dia com o aparelho.

Se eu fosse fazer uma logomarca para a palavra bullying, com certeza que usaria o desenho estilizado do freio de burro. Vai ver que já até fizeram isso.

Além de usar freio de burro, eu também estava na pior fase possível do meu cabelo e com espinhas no meio testa. Uma beldade !

Quando, aos vinte e dois anos, eu comentei sobre essa fase com meus alunos adolescentes, eles falaram que eu estava sendo muito dura comigo mesma. Então mostrei uma foto. E eles entenderam. Não, eu não estava sendo muito dura comigo. Foi nessa época que descobri que era uma pessoa otimista ! Porque mesmo sendo, com certeza, uma das mais feias da escola nas malditas listinhas que os garotos fazem dos 8 aos 80 anos, eu ainda era feliz e gostava da escola. Eu tinha uma família que me amava e amigos que me respeitavam. Fora a confiança de que aqueles problemas tinham data para acabar.

Falei pro dentista que o freio de burro não dava, que eu não ia continuar usando ele. Então o profissional teve uma idéia muito bacana de fazer um aparelho todo fixo, mas que agisse como o freio de burro.

O aparelho não era daquele fixo bonitinho da Tainá de Malhação não. Era como aquela coisa do malvadão Jaws de um filme do James Bond bem antigo. A minha boca ficou completamente metálica e agora era um aparelho imexível, como diria o ex-ministro Antônio Magri. (Teve um livro que imortalizou o nome « aparelho imexível » que a gente leu pra escola naquela época, mas me esqueci o nome).

Esse aparelho ainda tinha uma peculiaridade: Se eu abrisse muito a boca, ele travava. É porque ele tinha um sistema de alavancas por dentro que se fosse muito forçada, desencaixava e eu precisaria olhar no espelho para encaixar de novo com muito cuidado. A cereja do bolo !

Essa peculiaridade criou dois episódios inesquecíveis para mim.

A primeira vez em casa. De noite, dei uma bocejada. E pimba, ele travou com minha boca aberta. Sem saber o que fazer, fui até a sala onde estava o meu pai e mostrei pra ele minha boca aberta sem poder falar muita coisa. Ele, um pouco assustado, foi ao socorro da minha mãe e gritou « Sil, a Di está com a boca aberta ». Ela saiu do banho num piscar de olhos e deu de cara com sua filha em boca de O.  Brigou com nós dois, mas num tom aliviado. Tinha entendido outra coisa do chuveiro. Entendeu que eu tinha caído da janela. A acústica lá de casa sempre deu essas confusões.

O segundo episódio que foi o pior. Eu, adolescente, com a boca toda metalizada, estava tendo um ataque de riso no fundão da sala. A visão do inferno e paft. A alavanca desencaixa. Estou eu com a boca arregalada no meio da aula. Minha amiga na época, que sabia do problema, se oferece de intérprete para falar com a professora. « A aluna aí do fundo, feche  a boca, por favor ». « Ela não pode, professora ». « Como assim não pode ? Que piada é essa ? » . Depois de explicado pela intérprete, a professora me libera para ir ao banheiro, resolver meu problema no espelho.

Me lembro como se fosse hoje. Eu andando naquele corredor com janela para todas as salas de aula, inclusive para a sala do menino que eu achava interessante. E eu com aquela boca aberta. Imensamente aberta. Caminhando de uniforme, corpo desproporcional, cabelo seco e espinha na cara. Mas não, não sejamos tão duras assim com a gente. Eu era uma pessoa otimista ! E me sentia, no fundo, no fundo, no fundo até um pouquinho gatinha !

Aquele dia passou. E outros foram os dias que o aparelho travou comigo. Fora a quantidade imensa de aftas que ele me dava. Poxa, será que a mordida torta não me faria menos mal ?

Antes de fazer quinze anos, inventei uma história mal-contada de propósito. Falei lá no dentista que gostaria de poder tirar o aparelho apenas para ter a minha festa de quinze anos. Não, eu não teria nenhuma festa de quinze anos de debutante, mas eles entenderam que seria, porque no Brasil, falar festa de quinze anos é falar festa de debutante. Era uma macarronada, na verdade. Mas serviu para levarem em consideração meu pedido. Tiraram meu aparelho.

No dia que isso aconteceu, vi outra pessoa no espelho. Não estava reconhecendo minha própria boca. Achei meus dentes enormes. E brancos! Que sorriso grande que eu tinha ! Tenho !

Dizem que a cena em que o Conde de Monte Cristo consegue se libertar da prisão perpétua é emocionante e dolorosa ao mesmo tempo. Pois toda libertação ainda que pequena, leva um pouco de dor e muito de adaptação. Passei um tempo desacostumada de ter a boca livre. De comer normalmente e de sorrir pra foto.

Depois daquilo, o dentista decidiu que eu não precisaria mais recolocar o aparelho fixo, que apenas um aparelho de contenção seria suficiente.

Que alegria ! O aparelho de contenção era muito mais fácil de ser usado, mas eu continuava voltando no dentista uma vez por mês para avaliação. E pagando. Naquela altura, já devia ter pagado uns dois carros. A lataria, de fato, eu tinha na boca !

Aos dezessete anos, vendo minhas amigas fazendo operações para retirada do dente siso, decidi verificar numa radiografia como andavam os meus. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que os quatro sisos estavam enormes e inclusos. Fiquei chateada que mesmo realizando todo mês o check up no dentista do aparelho ele nunca tenha se dado conta que eu tinha sisos quase do tamanho do meu polegar encavalando os dentes da frente.

Arranquei  os dentes com uma periodentista. Esta me fez pensar muito sobre a carreira da Odontologia. Sempre tive aflição de sangue, machucado, cirurgia, essas coisas, mas na operação do siso, acompanhei tudo com um espelhinho e tive ótimos momentos de risada durante o procedimento. A dentista falou que nunca viu alguém tão motivado pra arrancar os dentes.

Me lembrei da Vovó Lygia, minha primeira arrancadora de dentes. Ela era tão paciente e tão habilidosa, mas eu sempre chorava. Chorava porque sentia mais aflição que dor na hora que o dente de leite saía. Mas com anestesia tudo é possível ! Sou muito favorável à anestesia, desde que seja garantido que nada mais será comprometido !

Continuei voltando no dentista de aparelho todo mês, para acompanhar o meu aparelho de contenção. Não tenho nada contra meu dentista. Acho que ele fez um bom trabalho. Acho que ele usou as ferramentas que tinha e marcou época na minha vida. Mas me pergunto se a minha boca seria muito diferente do que é agora se meus pais não tivessem investido tanto nela.

Meu palpite vai pela boca das minhas tias, que não usaram aparelho na adolescência delas e que tem um sorriso muito parecido com o meu.

Voltava todo mês lá no dentista. Esperava horas na sala de espera. Já fazia tempo que minha mãe não me acompanhava mais. E ele tinha mudado de sede. Tinha crescido, enriquecido. Onde existiam paredes, passou a ter a vista da cidade como no programa do Jô. E eu até simpatizava por ele. Achava ele um coroa legal, jovial. Tinha cara de que acordava cedo pra fazer cooper e pensar nas mordidas dos pacientes. Nas mordidas tortas. E fui voltando todo mês sozinha. Todo mês. Todo mês deixando um cheque lá pra eles. Até que um dia, aos 21 anos, trabalhando, estudando, e sem tempo para o que não fosse mais tão fundamental, cheguei a uma conclusão : já deu.

Desde os nove anos usava aparelho. Não era possível que eu fosse continuar usando aparelho o resto da vida. Esperando naquela sala de espera para ir para a sala onde os pais não poderiam entrar. Um belo dia não voltei mais no dentista. Eles me ligaram algumas vezes avisando que se eu não voltasse poderia comprometer meu tratamento. Agradeci a atenção. E aceitei que talvez a minha mordida vá ficar meio torta mesmo.

FofoPerfilParis