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Arquivo do mês: janeiro 2015

A beleza que existe

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Um dos meus propósitos de vida mais sérios (e que posso divulgar sem dó, embora muita gente fique com dó) é o de ser uma pessoa melhor! Adoraria ser amanhã uma pessoa mais capaz e atuante do que a pessoa que sou hoje. Tento, aos poucos, mas com boa fé, seguir esse ideal. Com muitos tropeços e passos lentos, posso dizer que não é fácil, mas é um desafio bom!

Daí que, dentro dos níveis extraordinários de seres humanos fantásticos, há um que considere quase inatingível. Por ter atingido um grau que, antes de eu chegar, já me dê enxaqueca, sono e mal estar. Esse nível pareceria inatingível para mim se eu não conhecesse uma pessoa muito próxima que o alcançou. E essa pessoa, não só é uma mulher (como você já poderia imaginar!) como também é a minha MÃE!

Sim! Minha mãe é a coisa mais linda que já vi. E essa garota não é assim por acaso. Ela começa a trabalhar antes mesmo do galo cantar. Todos os 365 dias do ano. Ela encaixa as necessidades dela e dos seus próximos na agenda sem reclamar (palavra que acho que meus pais não conhecem, e não sei como fui aprender antes deles!). Tem o jogo de cintura mais elegante que já vi. Num doce balanço que parece um poema! Além disso, mantém há algumas décadas uma capacidade de estudo e concentração de tirar do sério (com o perdão do trocadilho que tenho certeza que ela já entendeu!).

Minha mãe tem superpoderes e um deles é o da ubiquidade. Ah! Se ela soubesse como eu a admiro e as vezes tento copiá-la. Ela é capaz de consertar todo e qualquer problema de uma casa se você deixá-la sozinha por duas horas com uma caixa de ferramentas e um pacote de band-aid. Ela também é capaz de aprender a tocar flauta e piano sozinha. Pintar um quadro. Trocar pneu e motor de um carro. Fazer uma cirurgia no seu estômago. Explicar toda a história da revolução Francesa com as analogias à Inconfidência Mineira. Fazer nado aquático, cozinhar o melhor arroz do mundo e ainda atingir o incrível título de ser uma encantadora de cachorros. Tudo isso, não toma dela nem metade do dia, e é feito, na maioria das vezes, em troca de alguns sorrisos.

Ela passou a maior parte da vida me dizendo para aprender tudo que fosse possível aprender. Porque todo conhecimento é uma liberdade à mais. E é também uma forma de ser útil com alguém. Aliás, é da minha mãe e do meu avô a frase “receber é muito bom, mas poder oferecer é melhor ainda”!

Ao mesmo tempo que ela é capaz de fazer de tudo e se multiplicar, ela não tem necessidade de ser vista, elogiada, receber “likes” ou aplausos. A alegria da minha mãe é ver a alegria dos outros e é isso que faz dela uma pessoa tão nobre. E tão querida.

Mas não adianta, tudo que é bom demais vem com pequenos defeitos… Não se preocupe! Ela não escapa disso. Minha mãe tem alguns defeitos sim. E alguns bem exóticos, como não saber esperar as batatas assarem o tempo certo, ou ser incapaz de trocar o bendito corretor automático do celular dela, o que faz com que toda vez que eu dê uma boa notícia por whatsapp, ela responda “que óptica”!

Tudo isso, para mim, só enche de graça, esse jeito de menina, que vem e que passa. Deixando um rastro de carinho, da forma mais bonita que conheço. A quem eu só devo agradecer e me inspirar. Hoje minha mãe completa mais um ano de vida. E fica mais linda! Por causa do amor! Por causa do amor! Por. Causa. Do amor!

Mae querida

 

“Amigo, oculta a tua vida e espalha o teu espírito”. Victor Hugo

atualização:
Depois de ler o texto, minha mãe mandou uma mensagem dizendo que acabou de desativar o corretor automático! Que óptica!!!
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Por que a tristeza parece escolher suas notícias?

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Ontem em Paris. Uma das cidades mais lindas e poéticas do mundo assistia a um evento de terror e crueldade contra os jornalistas e desenhistas do periódico Charlie Hebdo. Os ataques intolerantes e sem dó repercutiram por todo o país e circularam o planeta como um dos maiores atentados terroristas em território francês. Algo sem a menor racionalidade, sem desculpas.

Desde que me mudei para cá, conheci o trabalho deste jornal. Eram publicações de charges sobre diversos temas e entre eles o tema religião. Muitas charges, na minha opinião, eram boas, outras, me pareciam um tanto quanto agressivas, não me agradavam. Nunca me identifiquei com a política editorial dele. No entanto, essa era a forma que eles escolheram para ganhar dinheiro. E essa discussão do certo e errado caberia ao mercado e à justiça. Nunca a um terrorista.

O ataque realizado foi considerado uma afronta ao que chamamos de “liberdade de expressão”. E temos que reconhecer a importância dessa liberdade. Mais do que nunca, acho que se ela for cortada, pouco valeria a pena trabalhar, escrever, pensar. O que aconteceu não passa por nenhuma lógica. E por isso é tão chocante.

E é imensamente triste. Todas as cidades da França e todos nós prestamos homenagem às vítimas ontem de noite, e elas ainda continuarão por algum tempo.

Algo de ruim, muito ruim, porém, permanece no ar. E essa angústia, esse blues, paira como névoa nas nossas vidas e nos nossos pensamentos que constantemente suspiram comentários como “mas por quê?” e “até quando?”.

Não tem jeito. Não tem resposta clara. Podemos tentar entender as convicções e as armadilhas. As alfinetadas e as ameaças. Traçar uma linha cronológica dos fatos. Mas no fim, tudo parece sem sentido. Uma briga de criança por um brinquedo tem mais embasamento que qualquer argumento de uma hecatombe.

E junto a isso, me ocorrem lembranças não muito boas, que eu preferia ter esquecido. Sobre o ano passado e algumas barbáries igualmente irracionais.

Ano passado acompanhei com enorme angústia as mortes de palestinos em Gaza. Que pareciam se justificar pelas também absurdas ofensas a vida dos israelenses e dos judeus. Quando parecia ter melhorado, vieram mais notícias sobre os horríveis massacres na Síria e de ocidentais pelo EI, ou daesh (em árabe). Nunca quis escrever muito sobre isso, porque não queria imortalizar essas coisas. A cada nova notícia, meu coração parecia desritmar, minhas mãos ficavam frias e minha mente só dizia «e você não pode fazer nada », o que é uma das piores coisas que sua mente pode dizer para você mesma.

Porém, embora eu não quisessse escrever. Queria muito conversar sobre. Precisava conversar. Precisava de gente para me ouvir e me entender. E não encontrei quase ninguém. Mandei mensagens para a família, amigos, procurei até os clientes do restaurante em que eu trabalhava. Ninguém parecia se importar muito com aqueles fatos. E isso foi doloroso. Mas todo mundo já deve ter passado por algo parecido.

Meu consolo veio com a mesma solidão. Entre uma atividade e outra, fui me ocupando até desaparecer a agonia de não poder fazer nada. Adotei o jardim de gatinhos abandonados perto da minha casa. E tentava fazer alguma coisa que inspirasse alguma paz, mesmo que ninguém estivesse vendo.

Nessa iniciativa, tive a surpresa de ver bons resultados. Alguns vizinhos começaram a perceber o que eu fazia e passaram a prestar pequenas ajudas também. Muitos chegavam apenas para me cumprimentar, outros, levavam comida para os gatos, retiravam o lixo das plantas etc. Conheci uma outra senhora que fazia a mesma coisa que eu. Ficamos amigas. E pudemos unir um pouco nossas forças. Nesse gesto simples, encontrei um alento que estava me fazendo falta.

Ouvi de algumas pessoas que eu não poderia me deixar afetar tanto com as notícias porque, do contrário, não consegueria fazer mais nada da vida. Elas estavam certas, teoricamente. Não podemos decair o ânimo por toda notícia ruim. Mas por que a tristeza parece escolher algumas?

Por que nos abalamos mais com algumas notícias do que com outras?

Por que o caso Izabella Nardoni abalou tanto a opinião pública e o mesmo caso, com um outro menininho em Belo Horizonte não gerou tanta repercussão ?

Por que o cachorro que morreu na enchente de Santa Catarina ganhou mais lágrimas que as 135 pessoas que também perderam a vida na mesma tragédia ?

Por que não acordamos chorando todos os dias por todas as injustiças que acontecem diariamente entre a nossa cidade e as fábricas de trabalho escravo da China que tem grades nas janelas para os funcionários não se matarem ?

Na minha compreensão, realizamos uma seleção de tragédias para chorar, por empatia, em alguns casos, e ignorância, em outros, exatamente para não perdermos o ritmo da vida que tem também coisas tão lindas.

O avião que sai da Malásia e aterriza sem problemas numa cidade da Holanda não vira notícia, porque tudo deu certo. As pessoas que são promovidas por terem feito um bom trabalho, as crianças que foram e voltaram da escola. Os cachorros que não estão passando fome. Os velhinhos que fazem pilates sem problemas. As flores que se abriram na primavera. O golfinho que encontrou uma golfinha para amar. Nada disso é notícia, porque é normal. E o normal é estar bem. Não diria nem feliz, mas bem.

Quando algo de horrível acontece perto de nós, tudo parece perder a importância. E filtramos todos os probleminhas do cotidiano. E daí que eu tenho olheiras. E daí que a comida de ontem estava fria. E daí que sua calça está apertada, que seu colega não vai com a sua cara, que o trânsito está complicado. E daí que vai passar big brother de novo na televisão. E daí que a impressora não tem entrada USB. O seu coração ainda está batendo, meu amigo! Tome isso como uma boa notícia.

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“Quando você elevar a sua mira, pergunte-se, por vez, se, no meio de uma tempestade solar, no centro do Mar da Tranquilidade, não haveria alguém exatamente como você que também elevando o olhar, estaria também preso nesta geometria, igualmente lutando contra o medo, a raiva, a loucura, o desespero e a apatia. ” do lindo livro A Vida de Pi

(em francês “Quand vous élevez le regard, vous vous demandez parfois si au milieu d’une tempête solaire, si au centre de la mer de Tranquillité, il n’y aurait pas quelqu’un d’exactament comme vous qui élève lui aussi le regard, lui aussi coincé dans cette géométrie, lui aussi en train de lutter contre la peur, la rage, la folie, la désespérance et l’apathie.” L’histoire de Pi)