Assinatura RSS

Arquivo do mês: junho 2015

Cama

Publicado em

Na troca de turno,

O sono é meu rumo.

No leito de vida,

enfim, aqui durmo.

 

 

Vocês estão com frio ?

Publicado em

É engraçado como funciona a minha cabeça e não duvido que a de muita gente. Quando eu estou com fome, tenho enorme dificuldade de entender alguém que não esteja. Aí você já viu onde quero chegar, né ?! Pelo título deste texto, quando estou com calor, não consigo imaginar o frio. E vice-versa. Eu posso até imaginar, mas é mais complicado porque imagino de uma forma mais romantizada, mais gostosa.

Agora que estou vivendo um sol escaldante, que deixa minha testa brilhando, meu cabelo espigado e faz das minhas noites um zumzumzum de pernilongos, imagino que todos estejam no Brasil vestindo um suéter de tricot, segurando uma xícara de chocolate quente com as duas mãos e assistindo a algum filme divertido com seu grande amor do lado.

Mas não é assim, né ?! Embora a minha cabeça insista em imaginar diferente eu SEI que o frio pode ser cruel. Eu sei que o frio faz sugar as suas energias para se levantar da cama de manhã e que mesmo assim você tem que se levantar. Eu sei que o frio te faz cogitar não tomar banho, mas que mesmo assim você TEM que tomar banho, nem que seja rapidinho.

Sei também que o frio traz doenças, alergias e falta de vitaminas. O frio de Avignon ainda ressecava a minha pele a ponto de sangrar, matava as minhas plantas e até alguns animais de rua (que tanto tentamos ajudar). O frio era tanto que dentro da minha casa, por diversas vezes, parei de sentir meus pés e o bepantol congelou. Com que coragem eu iria estender as roupas da máquina de lavar ? E lavar os pratos ? E andar de bicicleta contra o vento que ultrapassa 60 Km/h ?

Frio, até hoje, ainda traz enormes contratempos. Por isso deixo aqui a minha solidariedade para quem estiver vivendo esse desafio. E também a pergunta: por que o clima da Terra está tão alterado este ano ?

Mas como eu sou otimista e não quero deixar ninguém mal, decidi listar aqui coisas que dão saudade de viver no frio, agora que estou com calor :

  • dormir de cobertor
  • usar moleton
  • ter uma maquiagem que dure na pele
  • ter um cabelo mais macio
  • não ter que preocupar com insetos
  • poder deixar a comida fora da geladeira por mais tempo
  • aproveitar o tempo para atividades intelectuais sem dó de não sair de casa (aham!)
  • fondue de chocolate e de queijo e as outras variáveis !
  • Sopas
  • Roupas com sobreposições!
  • E essa não é válida para o Brasil, mas… Neve!

Desculpe se não consegui lembrar de mais vantagens do frio! Apesar de estar sentindo muito calor agora. Estou adorando cada minuto de curtir esse solão. Sugiro que se você estiver reclamando do frio, anote agora tudo que não gosta neste clima e tudo que sente falta do calor. Releia quando estiver reclamando do verão. Feliz inverno, Brasil!

IMG_0446

IMG_4924

 

Poema e Poesia

Publicado em

O texto de hoje é o que inicialmente foi feito para uma postagem de divulgação de uma marca de roupas para a qual eu trabalho e amo, mas decidimos trocar o texto e eu não quero jogar fora isso, até porque realmente fiz pensando na marca e com muito carinho. Então o texto vai pro blog hoje. E é um texto em forma de poema. Aliás, você sabe qual é a diferença entre poema e poesia?

Eu já vi diversos lugares falando que é a mesma coisa, diversos lugares dando uma explicação mais técnica pela forma da escrita, mas a explicação que mais gostei foi de que poema é aquilo que foi escrito para ser bonitinho e poesia é aquilo que os outros acham que é bonitinho. Então, pra você não pagar de arrogante diga sempre que escreveu um poema, e cabe aos seus amigos dizerem se é uma poesia ou não. Haha!

Nesse mundo tão sofrido, quis pintar mais colorido

Desde qu’inventaram a roda, fui brincar de fazer moda,

mas se for só preto e branco, não tem graça, vou ser franco.

Com o meu lápis de cor, crio roupa com amor,

com o meu lápis de cor, nossa vida é indolor!

 

I could wish a less cold paint

for this world I like to invent

no more sorrow, pain will stop

with the rainbow I spread

We must love some color block

That’s the way my art is fed!

We must keep it colorful

to feel happy, to be cool!

Este 26 de junho.

Publicado em

Este dia. O dia em que vi ataques extremistas absurdos. O dia em que vi decisões judiciais para grandes, grandes causas. 26 de junho. O dia que me inspirou diversas emoções diferentes.

O texto de hoje foi parar no meu outro blog: Neste mundo cheio de cores.

#lovewins

Notívagos, meus amigos!

Publicado em

São 1h22 da manhã. Eu deveria estar dormindo. Mas não posso. A esperta aqui anuncia que vai fazer 33 textos nos 33 dias antes de completar 33 anos e não deixa nenhum, nenhum texto de reserva. Isso teria sido mesmo bem aproveitado para aqueles dias em que ela precisa dormir logo, precisa de tempo para resolver outras coisas, ou precisa pelo menos parar de falar dela mesma na terceira pessoa.

Na verdade eu até tenho textos guardados, mas não acho que eles teriam relação com o momento, com o blog. Não quero assim. E eu nem queria dormir. Mas preciso. Sou uma pessoa de eterno sono atrasado. E a culpa é toda minha. Muito embora isso tenha melhorado.

Eu ainda sou notívaga, e qual é o seu superpoder?

Na adolescência era pior. Era o cúmulo do absurdo. Eu não conseguia dormir antes de duas da manhã e tinha que acordar às seis pra ir pra aula. E eu nem tinha computador para ficar mexendo naquela época. Eu ficava acordada desenhando, arrumando armário, ouvindo música, relendo umas coisas, escrevendo outras, observando insetos na cozinha, brincando com meus hamsters (todos os 24 que já tive) e os passarinhos. Em algumas ocasiões fiquei acordada fazendo dever de matemática (pasmem!). Outra fiquei escrevendo meu nome em ponto-cruz! Teve uma vez que escrevi uma teoria inteira sobre porquê Michael Jackson teria ficado branco. Qualquer coisa parecia mais interessante que dormir de noite. E de manhã, qualquer coisa parecia mais interessante do que levantar da cama. Eu até nunca fui muito mal humorada de manhã não, mas tendo a ser mais lerda que Molly, a scargot de um casal amigo meu, nessa hora do dia.

Meus horários de mais sono são, além da hora de acordar de manhã, depois do almoço e no entardecer. Passado isso, estou de pé. E sem hora pra dormir. Por obrigações com a civilização comecei a impor para mim mesma mais disciplina. Como estar na cama entre meia noite e uma hora da manhã. Antes disso, só em circunstâncias especiais. Como nas férias de agora. E como no dia em que me casei. Hehe! Não casei, fiz uma união estável. Bateu um sono! Nossa! Acho que era tanto stress com documentos e administração de outro país que depois que acabou…  no fim da tarde… Apagamos! Muito romântico.

A noite é uma criança. E é mesmo. Geralmente, a hora que tenho mais ideias e vontade de agir é de noite. Dizem que isso é característica de super heróis. Definitivamente é característica de gatos. Azzuca é tão noturna quanto eu! A vezes vou dormir doida para amanhecer para poder fazer tudo que quero fazer e quando amanhece me ocorre de já ter perdido metade do entusiasmo da noite. Mas se anoto e me proponho a fazer mesmo. Acordo e faço! Essa é a técnica. Acordar e saber o que fazer. Se ficar se enrolando e desenrolando das cobertas… é duro. Ainda mais no inverno. Meu quarto tem pouca calefação e o sol só aparece 8h30 da manhã em Avignon no frio. Fico com saudade de vitamina D.

Ah, notívagos, meus amigos! Só vocês poderiam entender. Só vocês sabem o que é ter que fazer tudo na ponta dos pés porque o resto da casa está dormindo. Só vocês sabem o que é sempre dormir pouco, mas ter toda a família falando que você dorme muito porque seus horários não combinam. Só você assistiu todos os Corujões e vários outros filmes para idades muito superiores a sua porque nunca foi cogitado pelos programadores de TV que uma criança ficaria acordada e ligaria a televisão e veria coisas sobre a vida que talvez não estivesse na hora de conhecer. Amigos notívagos, só vocês sabem como era misterioso olhar a cidade pela janela de madrugada e enxergar, lá no horizonte, um apartamento com a luz acesa e cogitar que talvez fosse alguém como você. Só os notívagos conhecem os diferentes sons da noite e suas nuances até surgirem os primeiros sons do amanhecer. Só os notívagos reconhecem que a geladeira também para de fazer barulho. E sabem que os cães uivam em coro, assim como os recém nascidos que choram inseguros nos seus berços cercados de mães de primeira viagem que choram baixinho de sono. Só os notívagos sabem como a internet foi um bálsamo para essa solidão quase ilegal de flertar com uma troca do dia pela noite. E você sabe que no fundo fazer faculdade de noite te fez um grande bem.

A hora de acordar é sempre nosso maior desafio. Mas não precisa ser traumática. Detesto cutucadas para me acordar. Mas amo ser acordada pelo meu cachorro ou pela minha gatinha. Detesto sonhos interrompidos (vale para quando estou acordada também). Preciso do encerramento do sonho. As vezes o sonho está quase finalizando o episódio e o despertador toca, ou alguém vem me acordar. Sempre que posso, peço mais 5 minutos de prolongação. E o sonho continua e acaba nesse tempo. É impressionante! Aí posso acordar tranquila. Quando durmo mais do que deveria, começo a ter pesadelos. E uns pesadelos muito, mas muito escabrosos. Também me dá dor nas costas.

Agora, uma coisa que é sensacional: Se a gente se propõe firmemente acordar em determinado horário, a gente acorda naquele horário!!! É alucinante como isso funciona. Porém, não conte com isso como único método despertador para não perder a hora. Não conte NUNCA mesmo. Aliás, uma sensação horrível é a de perder a hora. Acordar já sabendo que você já está atrasado. Gente, que angústia! Como advogada, eu tinha pavor de audiência de manhã cedo. Nem conseguia dormir direito por medo de perder a hora. Nunca perdi. Felizmente! Mas e os colegas que perderam…

Se eu fosse padeira muito possivelmente inverteria a ordem das coisas. Ficaria acordada até 4h da manhã para fazer pães gostosos e depois iria dormir. Até porque, fazer pão é um exercício físico intenso. E exercícios físicos intensos me dão o quê? Sono!

Assim como qualquer carro e ônibus em movimento, avião taxiando, pessoas falando de assuntos pouco convidativos, digestão de coisas muito calóricas, pessoas com voz doce e ligeiramente grave.. ZZZ… muita coisa pra fazer também me dá um sono gigante. Salas de espera me dão sono e um sono desesperado, daquele que a gente não pode dormir, mas precisa! Filmes e teatros pouco intrigantes me dão sono. Ou seja, muitas coisas podem me dar sono, mas a noite não é uma delas.

Ah, mas não é mesmo!

IMG_0300

Mais:

Notívagos uni-vos

 

O ponto B

Publicado em

“A vida vai de um ponto A a um ponto B. Pois é. Eu tenho um problema com o ponto B”. Essa fala é do personagem principal de o Quebra-Cabeças Chinês (continuação da continuação de Albergue Espanhol, o Bonecas Russas) mas bem que poderia se aplicar a muita gente. Uma delas, eu.

Chegar a um ponto B não é assim tão simples. Pra começar eu sou perdida para andar. Certa vez fui dar uma voltinha no quarteirão enquanto esperava minha mãe descer do prédio em que trabalhava e pronto, fui parar numa cidade vizinha. Outra vez, fiquei três horas perdida de bicicleta na estrada, cruzando três cidades da França, porque tentei chegar do outro lado do bairro em que estava.

Meu senso de orientação é meio maluco, mas nem sempre isso é problemático.

Mas as vezes é.

Desde pequena eu dizia que queria ser veterinária. A escolha da profissão não me parecia um problema de jeito nenhuma. Seria veterinária e pronto. Perfeito! Aí descobri a profissão dos biólogos e me encantei também. Achei que eu poderia fazer muito como bióloga, então eu seria bióloga. Resolvido.

Um belo dia descobri que eu era melhor nas matérias de humanas da escola que nas matérias de biológicas… Ao invés de seguir a opção inteligente que era de estudar as matérias biológicas com mais ênfase, pensei que o certo era seguir aquilo que eu já tinha facilidade : Humanas.

Hum.

Poderia ser boa na escola para matérias humanas, mas isso não significa que eu seja um gênio no mundo profissional. O meu mundo profissional que seria de animais, florestas, reprodução de células, virou um mundo de palavras, de tela de computador, de reuniões de egos… OK.

Não que eu não tenha visto o lado bonito. Vi sim! Acho lindo explicar, mostrar, escrever. Mas acho horrível ter que concorrer com isso. Ter que fazer marketing do que eu estou fazendo, ter que ficar provando pra todo mundo que sou melhor que todo mundo. Nem sou. Mas talvez mesmo no outro mundo (o biológico) as coisas sejam assim. Sei lá. O fato é que meu ponto B começou a ficar confuso.

Fui muitas coisas. Gostei de todas! Tinha o alfabeto inteiro, menos o B.

Fiz Comunicação. Adorei. Mas meu ponto B não dava resultados como esperados. Fiz Direito. Amei ! Mas o ponto estava ocupando 100% das horas da minha vida. Não tinha tempo para dormir, para seguir outros projetos pessoais, para caminhar, para jantar sem pensar nos e-mails que teria que responder.

Fora isso, eu ainda me interessava por tantas outras coisas da vida. Notadamente a dança, as artes, a música, a patinação no gelo, a biologia, a veterinária e todo o resto do mundo.

Uma propaganda da Discovery dizia « I love the whole world and all its sights and sounds ». E é isso, gente! É normal gostar de muitas coisas, não ?! É normal querer descobrir, experimentar, errar e começar de novo. Errado é se propor fazer sempre a mesma coisa pra sempre. Não mostrar interesse por nada além do que o mundo pronto que nos foi oferecido.

Mas, poxa, quisera eu ser exemplo de tantas tantas descobertas. Não sou. Mas sou exemplo de algumas tentativas.

Quando conheço um bairro, cidade ou país novo, gosto de andar sozinha algumas (muitas) vezes. Gosto de entrar em ruas e me deixar perder. Foi assim que descobri uma lanchonete perdida e deliciosa em Vancouver quando desci do metrô na estação que nunca me sugeriram descer. Foi assim que descobri meu jardim secreto em Le Pontet, do lado de Avignon. Foi assim que hoje com duas ótimas companhias conhecemos uma Milão que não existia nos livros, nos sites de viagem, no imaginário do turista.

Mais tarde, com o guia na mão, soubemos voltar pra casa antes de virarmos refeição dos mosquitos.

Acho que na vida profissional a gente pode se permitir um pouco isso também. Alguns ensaios, mas com uma certa segurança.

É bom se deixar perder. Ô, é muito bom, sobretudo para descobrir o que há de mais inusitado. E ter também à mão um guia não é a negação dessa ideia. É talvez a sua optimização.

foto 3

 

foto 1

 

foto

Conclusões antecipadas

Publicado em

Estava na fila do caixa quando a senhora que esperava atrás de mim comentou « mas se é pra passar só uma garrafa d’água, você pode passar na frente de todo mundo ». Ri e respondi que não precisava. Passados trinta segundos o rapaz da minha frente falou « por favor, pode passar, assim eu deixo todo mundo feliz ». Agradeci e passei. Ainda tinha uma moça antes de mim. Sem problemas. Mas a senhora lá de traz gritou « ei, moça, deixa essa daí passar na sua frente, ela só tem uma garrafa d’água pra pagar ». Falei que não precisava de novo. E a moça gentilmente me colocou na frente. Olhei pra trás e a senhora dava uma risadinha e um sinal de jóia!

Isso aconteceu hoje, aqui em Milão. Já é a segunda história fofa que tenho para contar de fila de caixa. A primeira foi há dois dias, quando um homem, depois de passar e pagar suas mercadorias, retornou, e disse ao homem do caixa que estava com 20 euros a mais de troco.

Quando furtaram a mala da minha prima depois do check in no aeroporto de Milão (depois a mala foi encontrada aberta na rua por uma mulher que achou o meu telefone lá dentro e me ligou) fiquei com a má impressão de que as pessoas daqui só queriam levar vantagem (salvo a mulher que achou a mala). Mas desde que cheguei (há apenas 4 dias) tenho tido a experiência contrária.

Internet gratuita, preços baixos, bom atendimento, tudo isso me faz repensar as estranhas conclusões que a gente tira baseadas em poucas experiências. Mas claro que tudo pode mudar. Ainda é  pouco tempo vivido aqui para saber dizer o que penso dos italianos. Nas primeiras semanas na França eu dizia que o atendimento em restaurantes era ótimo. Hoje já tenho uma visão bem diferente. Meu próprio Brasil e a minha querida Belo Horizonte também costumam me fazer repensar muitas frases prontas.

Estou deixando a Itália me surpreender positivamente. Por enquanto, tem funcionado!

 

Ps. Este é o centésimo post deste blog! E é mais um post da saga “33 textos antes dos 33 anos”!

Pare com a falação

Publicado em

Outro dia, estávamos aqui em casa jantando arroz com verduras e ele comentou comigo que tinha a impressão que eu estava me alimentando melhor. Era verdade. Mas havia algo a mais naquela história. Eu não estava me alimentando tão melhor. Eu só estava mais tranquila com o meu jeito de comer.

Explico.

Quando cheguei na França, vim um pouco iludida. Achei que o mundo aqui seria meio o mundo de Amelie Poulain. Que todas as pessoas tinham algo de muito fofos. Que todos os franceses adoravam os brasileiros, que todos os franceses eram quase tão brilhantes como Voltaire e Diderot, que filosofavam em todos os encontros e que todo mundo gostaria de saber mais sobre a minha curiosa cultura. Ou seja, eu estava equivocada.

Aqui, peço licença para acabar com a ingenuidade das pessoas que eventualmente estiverem pensando como eu (mas se você pensa como eu, me manda um e-mail, vamos ser amigas!). Eu, toda feliz, cheguei numa França ainda muito preconceituosa, xenofóbica, enfim, com problemas comuns a quase todos os países do mundo, mas muito diferente do que esperava. Me esforcei para encontrar coisas legais e fofas aqui, mas foram muitos desencontros e entre eles uma falação chata sobre carne como se fosse a única boa coisa a ser comida no mundo.

Eu não concordava, mas era eu que tinha que me adaptar, não é?! Eu era a intrusa. Eles estavam no habitat deles.

Passei a tentar recusar as coisas que eu não gostava de forma educada (eu achava educada!). Eram muitas ofertas, muitas insistências e, da minha parte, muitos nãos.

De tanto recusar coisas que os demais consideravam normal, virei a chata do círculo. Passei a responder que eu recusava para chocar mesmo! Até drogas. E assumi o papel de chata que nunca julguei merecedora (alguém julga?).

Evitei escrever sobre este assunto de forma explícita para não ficar parecendo a depressiva da França, até porque, aqui tem muitas coisas e pessoas que vão além desse mundinho bobo, mas este foi o primeiro tormento que me cercou quando cheguei aqui.

Como estratégia de defesa, comecei a levantar algumas bandeiras que antes eu até simpatizava, mas não era tão militante.

Não adiantou, eu estava enxugando gelo. Quem é contra, não troca de ideia por discursos de ódio, bandeiras e gritos.

No dia que ele falou que eu estava comendo melhor. Pensei em uma amiga minha. Uma amiga minha da Síria que mora aqui.

Ela é mulçumana e usa véu. Não pode mostrar o cabelo para outro homem que não seja o marido. Também não pode comer alguns tipos de carne e tem todo um ritual do islã a seguir. Um dia ela me disse que nem sempre ela foi assim. Ela me disse que não usava véu, não seguia muito a religião… até que criaram todo um alarde contra os mulçumanos. E a história sangrenta da Síria mostra como é difícil conviver com a intolerância. Ela perdeu seu pai, seus vizinhos e, como única alternativa que encontrou em meio à perseguição, tornou-se mais religiosa.

Muito embora não tenhamos as mesmas formas de ver o mundo, eu entendo esse posicionamento dela. E acho que é isso que acontece com todo mundo que se sente acoado, ameaçado, desrespeitado por suas escolhas. Eles se apegam ainda mais àquilo que todo mundo tenta tirar deles. Não é mais uma disputa de quem tem a razão, mas uma disputa de quem se impõe mais. Uma disposta de poder. E entre extremos não há mais razão.

Outro dia aprendi que essa reação exagerada à opressão se chama Efeito Mola. A mola tem um estado de repouso, mas quando é muito comprimida tende a expandir mais além do seu estado perfeito. Ou seja, a perseguição é talvez a estratégia menos inteligente para fazer alguém mudar a forma de pensar.

Meu cachorro não pode pegar minhas meias. Quando ele pega e eu corro atrás, ele leva embora e baba em todas. Quando ele pega as meias e eu ignoro, ele devolve um minuto e meio depois! É muito mais simples. Com o tempo, ele até parou de achar graça no furto das meias.

Não como carne mais (e isso também começou na França). Se criam uma roda de críticos sobre a minha alimentação o que eu faço é me tornar mais rígida na alimentação vegetariana (que atualmente aceita comer coisas que encostam em carne). E assim por diante.

O meu conselho é, se você quer realmente ajudar alguém, tente mostrar as vantagens (de forma simpática e empática) das suas escolhas. Evite falar mal das escolhas alheias. Isso gera uma reação oposta. Em outras palavras: Pare de amolar os diferentes!

 

Meus blogs!

Publicado em

Comecei a fazer blogs em 2004. Depois de vencer o preconceito de que blog era seria apenas uma forma de perder a privacidade de uma vida. Desde então não parei mais. Tive blogs coletivos, blogs inacabados, blog de Direito, blog de Vancouver, blog em francês e esse aqui. Alguns se mantem, outros não. Alguns sumiram da internet (mesmo que eu nunca tendo apagado) e outros ainda resistem mesmo sem alimentação (o que no fundo me dá um certo pesar).

Muita coisa da vida pode ficar mais bem resolvida se a gente tiver um blog. Pensa bem se eu tivesse tudo isso que já está escrito por aí entalado na garganta para contar pra alguém. Quem iria querer me escutar ?

Blogs ajudam a organizar ideias. A reunir pessoas com as mesmas afinidades. A documentar acontecimentos e pensamentos. A falar menos, uma vez que você já expos em algum lugar o que pensa. Sério! Acho que quem precisa falar muito de si para os demais, precisa fazer um blog. Aqui falo na primeira pessoa quantas vezes quero e só lê quem quer (aliás, obrigada!)! É uma terapia pra mim e uma forma de poupar meus amigos do « me me me » que dizem ser típico da minha geração Y (truco!).

Foram mais de mil textos publicados nestes anos todos. Alguns que nem reconheço mais, nem entendo como podia pensar daquela forma. Mas pensei. É um exercício de tolerância comigo mesma. Também!

Hoje reencontrei num blog antigo um diálogo real que havia deixado registrado lá. Diálogo ocorrido ainda mesmo antes do surgimento de qualquer blog meu. Entre meu pai e um colega de trabalho. Esse merece ir para a coleção dos 33 textos antes dos 33.

O homem e o Homem

Ele assistia o funcionário colocar uma folhinha de mulher pelada na parede do escritório. Comentou:

– Bonita essa folhinha!

– Ah, o senhor gostou? Posso arrumar mais uma.

Riu.

– Estava pensando que seria bom você ter mais uma mesmo para pendurar no seu quarto.

– Não! Na minha casa não!

– Ué, por quê?

– É que eu respeito a minha mulher em casa!

– Ah, e aqui não?

Festa na lancha

Publicado em

“Festa na lancha”, uma expressão que embora pareça divertida pode chegar a ser dramática.

Aprendi com meus amigos da Comunicação. Imagine você estar numa festa numa lancha. Imaginou uma coisa legal, né?! Mas visualize que você não esteja se divertindo. Como é que você sai ? Ou você pula da lancha e sai nadando, correndo todos os riscos naturais e sociais que isso possa acarretar. É muito complicado.

A festa na lancha é a situação que a gente se coloca (ou se deixar colocar) socialmente de difícil escapatória. Geralmente, essas festas estão revestidas de fachadas muito divertidas, mas no fundo podem ser um pesadelo. Situações em que a gente pensa que está no lugar errado, na hora errada e não consegue mudar isso tão cedo. Que angústia desnecessária.

Eis alguns exemplos e dicas que são baseados na única coisa sobre a qual eu poderia me basear, a minha vida:

  • Aceitar pegar (ou dar) carona para algum evento e ter que ficar amarrado a uma pessoa que nitidamente não quer ir embora na mesma hora que você.

Comentário: Eu sou absolutamente a favor da carona. Isso resolveria inclusive muitos problemas ambientais. Acho que sempre que pudermos, a gente deve oferecer. Mas para não ser tão comprometedora, em caso de caronas para eventos, se você for o que oferece, diga que não pode confirmar pra ninguém a hora de voltar e que você irá decidir na hora, de acordo com o seu sono, sua animação e sua vontade de dirigir. Se você for a pessoa que pega a carona, tente arrumar mais de uma para voltar e sempre explique para o primeiro caroneiro que você também não tem muita hora. Se tiver alguém saindo mais cedo, peça a carona. Dependendo, até ofereça pagar pela gasolina.

  • Fim de semana no sítio.

Comentário : O campo é maravilhoso! Tanta coisa bonita, o cheiro de mato, os bichinhos, o barulho da água, a comida fresquinha. Eu amo! Mas nem todo mundo vai pra sítio pelos mesmos motivos que eu. Já me envolvi em cada festa na lancha por causa de fim de semana em sítio que passei a recusar a maioria dos convites. Era música sem sintonia com o lugar, era gritaria de jogo, era assunto de futebol e cerveja (sem contar o terceiro assunto dessa tríade), era ostentação de barriga sarada, sapato de marca e coisas do gênero que preferi não me envolver muito mais. Caso você caia nessa e não tenha muito como sair mais cedo e nem um bom livro pra ler, sugiro que use seu celular para tirar fotos de joaninhas e abelhas no canteiro. Se não tiver celular, use um papel e vire desenhista das flores e passarinhos. Mas você também pode sempre tentar interagir mais com a galera (respira fundo e vai). Que tal uma caça ao tesouro, um jogo de mímica ou aquela brincadeira ótima em que a gente come alguma coisa de olhos vendados e tem que descobrir o que é ? Por que ninguém faz isso mais nos sítios, gente?! De repente, numa dessas, o povo até troca a música, ou te inclui numa conversa mais amiga.

  • Churrasco

Comentário: Amo a ideia de encontrar os amigos para comer. Mas Churrasco só com churrasco não dá. Nunca gostei de comer carne e agora cortei ( #2015semcarne)! Com relação a churrascos, as soluções são muito parecidas com as soluções citadas para o fim de semana no sítio, a única diferença é que se você for vegetarian@ ou vegan@ o seu sofrimento pode aumentar se não tiver previsto levar nada pra comer. Fique de olho no vinagrete e no pão com alho. Em último caso, simule um desmaio. Mas levante rápido e faça todo mundo rir até te alimentarem com coisas boas!

  • Cinema ou Teatro.

Comentário: Dois amores que podem se tornar grandes tormentos. No caso do cinema, já não tenho tantos pudores. Se o filme me parece ruim, ou com cena de tortura, levanto e vou embora e depois explico que estava me fazendo mal. É importante que seja num lugar com transporte público acessível. Já o teatro, por respeito ao ator que está lá contando comigo, eu fico até o final mesmo quando é ruim. Mas se for um teatro muito chocante, passo o resto do espetáculo de olhos fechados. Dormindo, de preferência. Já tive muita experiência complicada com isso. De chamar chefe, avós e colegas para filmes e/ou peças que não eram nada do que a gente esperava. Hoje prefiro convidar para tomar um café ou ir num parque.

  • Museus ou Exposições

Comentário: Você quer ficar duas horas na frente de um quadro e seu amigo não. Ou vice-versa. Entrem juntos e combinem de encontrar no café da saída. Cada um tem um tempo em relação à arte/ciência/história/entretenimento. Anote seus comentários fofinhos em relação às obras que mais te inspiraram para falar depois. Se nada inspirou, tenha dinheiro suficiente para dois cafés e um croissant e leve um livro. Talvez você tenha que esperar muito lá na porta.

  • Festas de amigos/família.

Comentário : Dizem que a vida social é uma forma de escravidão. É muito por conta desta vida que a gente faz e deixa de fazer muitas coisas. As festas de amigos/família são sim obrigações sociais. Em 80% das vezes que estou lá, estou porque quero, porque gosto, porque me faz bem. 20% nem tanto. 20% é meio festa na lancha. Estou lá porque quero agradar, mas não estou tão bem. Acontece! A dica para esses momentos é saber piadas prontas, ter notícias legais para contar ou apenas comentar sobre alguma comida, o clima ou a moda. Tente levar na paz. Fique amiga do gato ou do cachorro da casa. Ajude a lavar algum copo. Mas se estiver mal mesmo, invente uma desculpa e chame um taxi (ou não vá). Ninguém é obrigado a aguentar gente mal humorada em festa.

  •  Viagens com amigos

Comentário: São tantas as variáveis que é difícil definir o que deve o que não deve ser feito para evitar os constrangimentos. É quase certo que viagem em grupo gerará algum tipo de incômodo uma hora ou outra, mas eles não podem ser duradouros ou muito frequentes. Viajar em grupo é exercitar a tolerância e a arte de relevar pequenos inconvenientes. Poxa, eu queria tirar uma foto daquela ponte, mas o grupo já tá lá na frente, nem me esperou… Poxa, eu queria comer no Restaurante X, mas todo mundo é doido com o restaurante Y que não tem graça nenhuma… mas tudo bem! Afinal, meu caro, viajar é uma das melhores coisas que você pode fazer com a sua vida. Cultivar amizades é outra. Se você unir os dois, forçosamente terá boas condições de sair de uma festa na lancha, sem ter que sair da lancha! Mas pode usar as dicas do fim de semana no sítio de novo aqui! E da festa de amigos também!

  • Pegar avião/ônibus/trem/ bondinho demorado/ congestionamento.

Comentário: Você vai passar longos tempos em deslocamento, mas com pouca mobilidade gestual. Está aí uma boa oportunidade para resolver problemas mentalmente. Aprendi isso com a Logosofia. De forma geral consiste em usar o tempo em que você estará sentado para raciocinar sobre coisas que podem acontecer na sua vida. Momentos em que você precisará ter reações mais ou menos inteligentes e de forma mais ou menos rápida: reuniões de trabalho; conversas com gente importante; como se portar diante de assaltos; como sugerir uma melhor solução pro vazamento na garagem; como salvar alguém em caso de intoxicação etc. Proponha-se um problema (isso é o que não falta) e depois tente trabalhar na sua mente uma solução (isso é o que falta) com os conhecimentos que você tem ou o que você precisa buscar. Anote no celular o que for mais relevante pra não esquecer. Guarde pensamentos pensados e suas longas horas de espera serão muito mais úteis! Ivete Sangalo uma vez disse numa entrevista que ela tem muita energia porque só guarda pensamento bom. Concordo mil por cento!

E por fim, deixo aqui as minhas sugestões (sempre muito pessoais e nada baseadas em estatísticas) dos melhores programas do mundo com menos perigos (!): tomar um café/suco com alguém e/ou fazer uma caminhada conjunta. Programas bons, gostosos, baratos, de curto prazo e risco bem calculado! Fora isso, sempre haverá um risco, tanto de ser ruim, quanto de ser muito, mas muito bom!!!!

Vai lá, pra ver!

IMG_6840

 

 

Ps. Vai rolar a festa! Amanhã é o dia da festa da música no mundo inteiro! Não deixe de celebrar.

Ps2. Este post faz parte da sequência de textos do meu projeto “33 textos antes dos 33 anos”! Um beijo pra Cacau que me avisou hoje que está acompanhando!