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Ensaio sobre a baranguice

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Estou em Oslo, quem diria, capital da Noruega! Nunca pensei que fosse parar aqui e nunca pensei que fosse encontrar uma parte da minha família aqui. E encontrei! Então essa é a hora em que eu devo fazer um daqueles comentários « nossa, como o mundo gira », « ai, como a vida me supreende ». E essa é a hora em que acontece de algum leitor rolar os olhos pra cima e suspirar um doce « não aguento mais ler essa baranga » enquanto fecha o notebook com a mão direita se for destro. Mas o que é ser barango pra você, meu filho? Você não acha que o mundo gira e a vida nos surpreende?

Essa questão tomou conta do nosso dia nessa cidade que não dorme (pelo menos no verão!). Ser barango é usar muitos clichês? É se vestir de oncinha? É se vestir com um número a menos do que ficaria confortável? Ser barango é se vestir diferentemente de como as pessoas esperariam que você se vestisse? Estaria esse conceito diretamente relacionado com o vestir ? Com o escrever ? Com o quê ?

Lembrei-me de uma conversa de restaurante que tive com o Airton. Já falei do Airton aqui neste blog. Ele é meu amigo há anos, desde que trabalhamos juntos em BH. Mas apareceu na minha casa em Avignon um dia em que pegou o trem errado pela Europa. Nenhum erro poderia ter sido mais agradável. Depois disso, passamos a contar um com o outro em momentos de apuros. Ele morando na capital da Inglaterra tornou-se um grande aliado para quando meu Hostel não parecia muito hospitaleiro.

Nesse dia, num restaurante londrino todo diferente, no qual a gente tinha que subir escadas sobre as mesas para chegar às nossas mesas, ele me contou aquilo que poderia ter sido tema para a minha monografia: como as pessoas se diferenciam umas das outras na Inglaterra.

Antes de continuar, preciso esclarecer que adoro a Inglaterra. Nem sempre foi assim. A primeira vez que estive lá, aos 15 anos, não curti a galera, por mais que fosse apaixonada com Spice Girls. Achei todo mundo rigoroso, metido e formatado. E achei que eles eram muito ligados à separação de classes : se você é rico você é legal, se você é pobre você não merece nada. Essa forma de pensar e a exatamente oposta a essa me dão um pouco de agonia.

Pois bem. Depois conheci ingleses legais. E resolvi dar uma segunda chance para o povo inglês. Great idea! Talvez eles tenham tido a mesma ideia, porque hoje tenho a impressão que nos damos bem. Passei a entender e respeitar diversos valores daquela cultura. Mas ainda vejo que é um universo que gosta de compartimentar os tipos de gente, pelo menos de uma forma mais explícita que vários outros. E rótulos assim, já dizia Gabi, são para geléias… mas uórever.

Airton me contou que hoje para o inglês não faz mais sentido julgar as pessoas pela aparência delas. Justo. Hoje o fast fashion fez da forma de se vestir algo universal. O pobre pode se vestir de rico e vice versa. O indiano se veste de carioca e a patricinha de cigana. Não há mais como saber. O que aparece diante dos nossos olhos é uma pessoa cuidadosamente vestida para fazer parecer o que é ou o que quer ser ou mesmo o que quer que a gente pense que ela quer que a gente pense que ela quer ser. Entende ? Não é como no período Rococó em que o bico do sapato denunciava quão « nobre » a pessoa era. Hoje todos temos acesso a todos os bicos de sapatos, marcas ou suas falsificações idênticas. Não vamos nos dar ao trabalho de procurar as coincidências nas estampas da Louis Vitton para sabermos se é uma bolsa real ou falsificada. Pelo menos, os ingleses não estão com tempo pra isso. Segundo meu amigo, eles arrumaram uma outra forma de etiquetar as pessoas. E essa forma está na linguagem.

Incrível!

A forma de falar sempre foi uma maneira de denunciar-se um pouco. Não à toa você conhece gente que escolhe não falar palavrão. Ou escolhe falá-los em algumas ocasiões especiais. Ou escolhe falá-los sempre. Tudo indica o que quer indicar ou que quer que você pense que quer indicar (eu sendo confusa e você já com a mão direita na tampa do computador, não ?!). Serve também para indicar a região de onde a pessoa vem, ou o grupo ao qual pertence ou quer pertencer.

Outras pessoas, decidem usar as palavras e expressões da moda. Enquanto os demais inventam ou revisitam (revisitar é uma palavra chatinha, né ?!) uma expressão já existente. Been there, done that, got the t-shirt. Claro !!! Faltava o « got the t-shirt » para ficar mais perfeito. Ou « faca de dois legumes » que minha mãe falava tanto que eu achava que essa era a expressão certa.

Para os ingleses, houve um tempo que aceitavam muitas palavras de origem francesa porque o francês era a língua da moda. Tudo que vinha da França era considerado chique. Então era comum usar expressões mais francesas para mostrar o status. Era. Hoje isso é visto como aquilo que algumas pessoas poderiam considerar barango.

« Mas então o barango é aquilo que já foi chique? », disse hoje minha tia ouvindo essa história. De certa forma sim. Não há uma regra na verdade. E a percepção de barango varia muito com o que você sente que é conveniente e o que você sente que não é. Há também a percepção daquilo que é tendência. E já reparei que é geralmente quando a coisa saiu de moda há muito tempo, mas começa a voltar de uma forma, digamos assim, revisitada (por favor, me passe um sinônimo pra essa palavra)! Em linhas gerais a gente concluiria que o barango está usando (mesmo que de forma verbal) o que está num passado recente da moda (moda sendo o que está em uso pela grande maioria das pessoas de seu grupo) e o que lança tendências é aquele que está sabendo encaixar algo antigo e demodé (mesmo que de forma verbal, de novo !) num contexto novo. Diferença até bem sutil, eu acho.

Talvez um dia eu faça um vídeo explicando as expressões que Airton me contou! Talvez eu precise reencontrar esse meu amigo para coletar mais informações a respeito. Vai que ele já mudou de ideia e eu estou aqui repetindo, barangamente, uma ideia retrógrada. Quem nunca?? Pois é, meu caro. O mundo dá voltas! A vida nos surpreende! E eu te agradeço, que até agora, ainda não tenha fechado esse computador.

Frio

PS: Este é o texto 2 do projeto 33 textos antes dos 33 anos. Obrigada!

Sobre Didi

Brasileira, mineira, advogada, professora e ex-professora. Comunicóloga nas horas vagas. direitoelegal@gmail.com

Uma resposta »

  1. O QUE ACHEI MAIS IMPORTANTE É QUE VOCÊ ESCREVE DE SUA PRÓPRIA AUTORIA, ISSO ACHO MUITO IMPORTANTE, NÃO TEMOS QUE FICAR COPIANDO PALAVRAS DE OUTREM PARA EXPRESSAR .

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