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Arquivo do mês: agosto 2015

Quando eu fui invisível

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Em julho deste ano, eu voltava da Itália e queria ver a Pam, minha amiga peruana que mora no andar de baixo da nossa casa. Ela me mandou uma mensagem dizendo que estaria no mercado até o início da tarde. Passei lá. Andei o mercado inteiro e não achei a garota. Até que olhei melhor e vi que ela estava trabalhando numa tenda de patisserie. Cheguei rindo dizendo que tinha passado direto por ela e não tinha reconhecido. Ela não riu.

Alguns segundos depois, recebo o convite « você está procurando um trabalho para esse verão ? »(Na França, julho é verão e em Avignon ainda é o grande Festival de Teatro). Sem pestanejar respondi que sim. Desde que me formei estou condicionada a aceitar os trabalhos que me aparecem. Nem sempre são a melhor opção e eu tenho que aprender a selecionar mais. Não foi o caso.

No dia seguinte comecei. Ao chegar lá, com o currículo na mão, fui em direção à chefe para entregar o papel e ela me cortou. Disse que estava ocupada, que não tinha tempo. Que era para deixar em algum lugar. Deixei sobre uma mesa. Algumas horas depois, ela me chamou atenção dizendo que eu tinha que ter guardado o papel na gaveta. Tudo bem.

Pamela me ensinou a usar a máquina registradora, a embalar as pizzas, a arrumar os suspiros, a saber os igredientes dos bolinhos, a limpar as bordas das tortas. Mas era tanta coisa para aprender, que a cada hora eu perguntava onde estava mais alguma coisa, e ouvia a mulher resmungando « Não te ensinaram nada? ».

Na frente da vitrine a gente era ensinada a dar bom dia para todos os clientes com um grande sorriso. Todas as pessoas que passavam, independentemente de comprarem ou olharem pra gente, ouviam nossa saudação. Certa vez, mexi no pescoço para colocar o cabelo pra trás. Minha chefe não gostou. Disse que era proibido encostar na pele enquanto estivesse na frente dos clientes. Questão de higiene.

Para cada transeunte, um bom dia. Quase nunca eles respondiam de volta. Muitos ainda ouviam, olhavam pra gente e saíam sem falar nada. Se querem o superpoder da invisibilidade, posso dizer que não tem o efeito esperado.

Eu ficava lá, sem poder encostar na minha testa coçando, para agradar pessoas que nem percebiam a minha existência. « É um exercício de humildade », pensava.

E era. Passaram uns americanos. Pediram pizzas, alguns macarrons. Provaram o biscoito de lavanda. No final, o troco era de 70 centavos. Registrei, peguei o troco e o moço negou. « Fica pra você ! É uma gorjeta ». Com aquelas moedas na mão, me emocionei ! E pensei no quanto já tinha sido contra dar gorjetas na vida. Ainda sou, para quem distrata cliente.

No fim do expediente, a vitrine tinha que ser arrumada, limpa. Todos os macarrons deveriam ir pra geladeira. Os bolos para os potes. Os biscoitos emplastificados. Arranquei um pedaço do meu dedo na lâmina do plástico. Mas tudo bem. O chão deveria ser esfregado e era nessa hora que as baratas brincavam na nossa frente. Ai de você se pegasse o pano menos macio para limpar o vidro. E não adiantava justificar que os panos eram quase idênticos. Não adianta.

Depois de passar mais de 7 horas em pé e sem comer, finalmente a gente podia descansar. Eu, com mais de trinta anos, chegava em casa com dor nas pernas e precisava trabalhar (pela internet) com os pés pra cima. Pamela, quatro anos mais jovem, pegava o segundo turno e ia trabalhar em uma loja de roupas ou com jornais. Que fôlego!

Na internet eu lia comentários como « tá fácil pra você que não mora no Brasil ». Olhava pro meu joelho latejando e ria.

Entreguei todos os meus documentos para ser declarada naquele trabalho. A chefe passou a me elogiar muito, mas nunca me oficializou. Situação muito parecida com o que já vivi inúmeras vezes também no meu Brasil. Esse calo nem dói mais.

No dia do pagamento, sendo ele feito por hora de serviço, recebemos dois euros a menos por hora. Reclamamos. Ela disse que esse era o preço correto para quem não tinha experiência. Na verdade eu já tinha experiência em trabalhos parecidos tanto na França quanto no Canadá. Mas não contava. Imigrante não sabe de nada. Poderíamos ter entrado na justiça. Mas invisíveis como éramos, e por um trabalho de verão, decidimos apenas atualizar nossos currículos.foto (2)

Daquela experiência invisível guardamos algumas boas lembranças. Como das duas senhorinhas que passavam todos os dias para comprar tortas e um belo dia, pararam na minha frente e falaram « a gente ama você »! Pena que não é bem visto chorar no trabalho…

Ou dos grupos de japoneses que batiam palma quando a gente entregava alguma coisa com as duas mãos. Uma forma de reverência para passar algo de você para eles. Tão rica essa cultura!

Ou dos outros estrangeiros que achavam incrível as nossas buscas de vocabulário em todas as línguas. Mesmo que a única palavra que eu fale em polonês seja « soluço » e em holandês seja « durma bem »!

Ou mesmo dos atores do festival que passavam entre uma apresentação e outra e contavam sobre suas peças, com o coração nas palavras, e toda a emoção de um artista. Como eu amo Teatro!

Até da chefe. Tadinha! Ainda tão sem noção em sua forma de liderar. Ela conseguiu nos ouvir e atender quando falamos do crescimento do filão vegetariano/bio/vegano. E fez opções deliciosas. Consigo ver direitinho o que falta pra ela ganhar muito mais dinheiro. Quem sabe um dia.

De tanto fugir de mim, acabei criando uma relação com a barata pequenininha. Um dado momento, encontrando-a virada, fui lá e desvirei. Onde tem comida fora da geladeira, tem barata! É mais vitamina B12 pra sua dieta. Fique tranquilo.

Sempre procurei ser atenciosa com as pessoas, mas hoje ainda minha forma de ver os profissionais tem mudado bastante. Não tenho tanto dinheiro, mas meu bom dia é de graça e vai pra quem quiser ouvir. Aprecio as coisas feitas com carinho e a pessoa que está se esforçando. Dou like no youtube, comento nos blogs, deixo bilhetinhos de agradecimento nos hotéis e o troco para o empacotador.

A vida não pode ser acelerada a ponto de nem mais cumprimentarmos o frentista, o porteiro, o motorista do ônibus, o advogado do outro lado do e-mail, a atendente da empresa aérea, a enfermeira da troca do soro, a faxineira do corredor, o caixa do banco, a recepcionista do tribunal, o professor que entra na sala, a garçonete que tira o prato, o coveiro que tira o chapéu, o menino do xerox.

Para ver melhor não é preciso ficar invisível. Mas se você for invisível, tenha certeza que é temporário. E se é visível, mas não quer enxergar, tenha também a mesma certeza.

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Esse meu pai

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Enquanto a areia da praia marcava nossas pegadas de pés achatados de Hobbit, eu e meu pai sublinhávamos a costa do Brasil com um olhar sobre o mar se perdendo junto ao céu e as nuvens. Foi quando ele me perguntou algo do tipo: “Quando você olha para o mar, para o céu e para a Terra, não te dá vontade de descobrir mais sobre a vida e o universo?”.

Daquela pergunta veio uma conversa sobre querer aprender, querer entender, querer buscar e também sentir o mundo, suas belezas, suas forças e fraquezas e deixar por aqui uma parte do que podemos passar do nosso mundo.  Eu era tão pequena…

Não importava meu tamanho.  Papai sempre tinha as conversas mais profundas comigo. Quando eu fazia bagunça, ele me colocava sentada na sua escrivaninha, para falar comigo como gente grande, olho no olho, o que eu deveria entender.

Aliás, foi meu pai que me ensinou que o melhor jeito de conversar era olhando nos olhos. Que o jeito mais honesto de conseguir alguma coisa era tentando. E que um salário pode ser bom para uma jornada de 8h/dia, mas nunca o suficiente para 24h de trabalho/dia.

Pode parecer bobagem, mas uma das coisas mais eficazes que meu pai me ensinou foi que se eu quiser acordar com raiva todos os dias, terei motivos, mas que se quiser me levantar feliz com a mesma frequência, também terei argumentos!

Ele é um cabeção!

Em toda prova de vestibular e/ou concurso que fiz na vida, meu pensamento era constante: “se meu pai estivesse sentado aqui, ele saberia a resposta”! E não era só eu. Quando o sogro do meu tio comprou a revista do Show do Milhão quem ele inscreveu para ser sorteado? Meu pai! Quando meus primos precisavam de reforço em qualquer matéria exata ou História, quem eles procuravam? Meu pai! No dia que eu quis saber como eram feitos os detergentes? Foi meu pai que passou o almoço explicando. E a queda do muro de Berlim? Era emocionante!

Papai tem uma cicatriz na testa. De um acidente que sofreu na infância. Na época, triste com o corte profundo, foi consolado pelo seu pai, meu avô. “Filho, as mulheres gostam de homens marcados pela vida”! Haha. Quando virou pai de menina, não se intimidou. Usou a mesma técnica. “Minha filha, mulher bonita é também marcada pela vida”! E como não?!

Do meu avô ele também puxou a resposta para escândalos por machucados insignificantes. “Não se preocupe, querida. Começa assim, depois sai as tripas”. Que remédio!

A verdade é que na cabeça do papai, tenho a impressão que além da cicatriz, existe um mundo mais incrível que o normal.

Já disse que ele é um cabeção? Adora números, Carl Sagan, cubo mágico, estatística, mitologia grega, Karajan, xadrez, computação, odisseias, história do Egito, expedição ao pólo sul, física, falar alemão, biografias, histórias de cavalos, coisas que não sei o nome para fazerem outras coisas que não sei o nome, química, teoremas de Pitágoras e de outros ilustres e tudo que há de mais complicado, complexo e entremeado numa lógica evoluída e maravilhosa.

Acho que e ele tem tantas raízes quadradas e gráficos na mente, que as vezes o mundo comum parece comum demais para ele. E com isso surgem algumas pérolas no cotidiano.

Foi assim que ele não reconheceu um primo nosso porque o bendito estava sem a franja! Foi assim que ele nunca acertou num presente pra mamãe e nem nunca combinou a meia com o sapato. Nunca se inibiu com a moda anti-pochete. E insiste em levar pra casa o bolo do único sabor que pedimos para ele não levar. Foi nessa mesma vida seinfieldiana que ele ficou de papo com a moça do telemarketing para provar pra ela que não valia a pena assinar o jornal que estava oferecendo, porque ele iria se sentir obrigado a ler todo dia uma informação da mesma fonte. Foi uma forma involuntária de ter o telefone riscado da lista de promoções.

Meu papai cabeção!

Embora imperfeito, é o melhor pai que eu conheço! E conheço muitos pais bons. Mas este aqui é meu e é muito especial! É também um dos pais preferidos entre os meus amigos. É aquele que explica o mecanismo da bomba atômica começando a história a partir do homem primitivo. É o que vai almoçar com minha turma e pergunta tudo do universo da pessoa. É o que fala portunhol com todo mundo que é estrangeiro e que vira super-herói na história de seus alunos! É o que senta para falar de geometria com a mesma empolgação que meus colegas falam de Pink Floyd. É o que estuda Logosofia com a mesma ênfase que estuda Matemática.  E o que não reclama de trabalho, de acordar cedo e nem de nenhuma doença. Também não reclama de tomar remédio, mas resmunga se a gente demora pra aparecer quando ele engasga! Ai, papai! Ele  presta a maior atenção em todos os nossos casos, mas tende a dormir de vez em quando no meio da conversa. O meu pai é o cara da covinha na bochecha, óculos que afunda no nariz, coração amolecido pelo nosso vira-lata e, claro, rosto marcado pela vida.

Desse pacote de amor, não é fácil viver longe. Lembro dos meus sábados na infância quando ele me levava na livraria Status e comprava revistinha pra mim. Lembro das nossas leituras na cozinha, eu já crescida, sobre os mitos da alimentação.

E, agora, papai, como fazer nos domingos de manhã sem o possante Pavarotti que você colocava pra acordar a casa com “Nessun dorma”?

Você do outro lado do oceano e eu daqui vendo o traço entre o céu e o mar se esmaecendo. Essa Terra redonda e essa linha do horizonte que me traz de volta aquela nossa conversa de décadas atrás. Quanta coisa ainda temos pra descobrir no Universo! Obrigada por se manter do meu lado. Você conta que eu era tão pequena ao nascer que podia me segurar pela palma da mão. E aí eu penso, papai, com muita gratidão, que apesar de tão miúda e bem acanhada para esse mundo, você me ensinou que posso ser grande.

 

Papai e Peter pequenininho

 

 

Papai e Peter. Um abraço apertado também a todos os pais queridos e inspiradores. Em especial ao meu vovô Henrique, meu vovô Zico, tios de sangue e tios emprestados. ❤