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Quando eu fui invisível

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Em julho deste ano, eu voltava da Itália e queria ver a Pam, minha amiga peruana que mora no andar de baixo da nossa casa. Ela me mandou uma mensagem dizendo que estaria no mercado até o início da tarde. Passei lá. Andei o mercado inteiro e não achei a garota. Até que olhei melhor e vi que ela estava trabalhando numa tenda de patisserie. Cheguei rindo dizendo que tinha passado direto por ela e não tinha reconhecido. Ela não riu.

Alguns segundos depois, recebo o convite « você está procurando um trabalho para esse verão ? »(Na França, julho é verão e em Avignon ainda é o grande Festival de Teatro). Sem pestanejar respondi que sim. Desde que me formei estou condicionada a aceitar os trabalhos que me aparecem. Nem sempre são a melhor opção e eu tenho que aprender a selecionar mais. Não foi o caso.

No dia seguinte comecei. Ao chegar lá, com o currículo na mão, fui em direção à chefe para entregar o papel e ela me cortou. Disse que estava ocupada, que não tinha tempo. Que era para deixar em algum lugar. Deixei sobre uma mesa. Algumas horas depois, ela me chamou atenção dizendo que eu tinha que ter guardado o papel na gaveta. Tudo bem.

Pamela me ensinou a usar a máquina registradora, a embalar as pizzas, a arrumar os suspiros, a saber os igredientes dos bolinhos, a limpar as bordas das tortas. Mas era tanta coisa para aprender, que a cada hora eu perguntava onde estava mais alguma coisa, e ouvia a mulher resmungando « Não te ensinaram nada? ».

Na frente da vitrine a gente era ensinada a dar bom dia para todos os clientes com um grande sorriso. Todas as pessoas que passavam, independentemente de comprarem ou olharem pra gente, ouviam nossa saudação. Certa vez, mexi no pescoço para colocar o cabelo pra trás. Minha chefe não gostou. Disse que era proibido encostar na pele enquanto estivesse na frente dos clientes. Questão de higiene.

Para cada transeunte, um bom dia. Quase nunca eles respondiam de volta. Muitos ainda ouviam, olhavam pra gente e saíam sem falar nada. Se querem o superpoder da invisibilidade, posso dizer que não tem o efeito esperado.

Eu ficava lá, sem poder encostar na minha testa coçando, para agradar pessoas que nem percebiam a minha existência. « É um exercício de humildade », pensava.

E era. Passaram uns americanos. Pediram pizzas, alguns macarrons. Provaram o biscoito de lavanda. No final, o troco era de 70 centavos. Registrei, peguei o troco e o moço negou. « Fica pra você ! É uma gorjeta ». Com aquelas moedas na mão, me emocionei ! E pensei no quanto já tinha sido contra dar gorjetas na vida. Ainda sou, para quem distrata cliente.

No fim do expediente, a vitrine tinha que ser arrumada, limpa. Todos os macarrons deveriam ir pra geladeira. Os bolos para os potes. Os biscoitos emplastificados. Arranquei um pedaço do meu dedo na lâmina do plástico. Mas tudo bem. O chão deveria ser esfregado e era nessa hora que as baratas brincavam na nossa frente. Ai de você se pegasse o pano menos macio para limpar o vidro. E não adiantava justificar que os panos eram quase idênticos. Não adianta.

Depois de passar mais de 7 horas em pé e sem comer, finalmente a gente podia descansar. Eu, com mais de trinta anos, chegava em casa com dor nas pernas e precisava trabalhar (pela internet) com os pés pra cima. Pamela, quatro anos mais jovem, pegava o segundo turno e ia trabalhar em uma loja de roupas ou com jornais. Que fôlego!

Na internet eu lia comentários como « tá fácil pra você que não mora no Brasil ». Olhava pro meu joelho latejando e ria.

Entreguei todos os meus documentos para ser declarada naquele trabalho. A chefe passou a me elogiar muito, mas nunca me oficializou. Situação muito parecida com o que já vivi inúmeras vezes também no meu Brasil. Esse calo nem dói mais.

No dia do pagamento, sendo ele feito por hora de serviço, recebemos dois euros a menos por hora. Reclamamos. Ela disse que esse era o preço correto para quem não tinha experiência. Na verdade eu já tinha experiência em trabalhos parecidos tanto na França quanto no Canadá. Mas não contava. Imigrante não sabe de nada. Poderíamos ter entrado na justiça. Mas invisíveis como éramos, e por um trabalho de verão, decidimos apenas atualizar nossos currículos.foto (2)

Daquela experiência invisível guardamos algumas boas lembranças. Como das duas senhorinhas que passavam todos os dias para comprar tortas e um belo dia, pararam na minha frente e falaram « a gente ama você »! Pena que não é bem visto chorar no trabalho…

Ou dos grupos de japoneses que batiam palma quando a gente entregava alguma coisa com as duas mãos. Uma forma de reverência para passar algo de você para eles. Tão rica essa cultura!

Ou dos outros estrangeiros que achavam incrível as nossas buscas de vocabulário em todas as línguas. Mesmo que a única palavra que eu fale em polonês seja « soluço » e em holandês seja « durma bem »!

Ou mesmo dos atores do festival que passavam entre uma apresentação e outra e contavam sobre suas peças, com o coração nas palavras, e toda a emoção de um artista. Como eu amo Teatro!

Até da chefe. Tadinha! Ainda tão sem noção em sua forma de liderar. Ela conseguiu nos ouvir e atender quando falamos do crescimento do filão vegetariano/bio/vegano. E fez opções deliciosas. Consigo ver direitinho o que falta pra ela ganhar muito mais dinheiro. Quem sabe um dia.

De tanto fugir de mim, acabei criando uma relação com a barata pequenininha. Um dado momento, encontrando-a virada, fui lá e desvirei. Onde tem comida fora da geladeira, tem barata! É mais vitamina B12 pra sua dieta. Fique tranquilo.

Sempre procurei ser atenciosa com as pessoas, mas hoje ainda minha forma de ver os profissionais tem mudado bastante. Não tenho tanto dinheiro, mas meu bom dia é de graça e vai pra quem quiser ouvir. Aprecio as coisas feitas com carinho e a pessoa que está se esforçando. Dou like no youtube, comento nos blogs, deixo bilhetinhos de agradecimento nos hotéis e o troco para o empacotador.

A vida não pode ser acelerada a ponto de nem mais cumprimentarmos o frentista, o porteiro, o motorista do ônibus, o advogado do outro lado do e-mail, a atendente da empresa aérea, a enfermeira da troca do soro, a faxineira do corredor, o caixa do banco, a recepcionista do tribunal, o professor que entra na sala, a garçonete que tira o prato, o coveiro que tira o chapéu, o menino do xerox.

Para ver melhor não é preciso ficar invisível. Mas se você for invisível, tenha certeza que é temporário. E se é visível, mas não quer enxergar, tenha também a mesma certeza.

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Sobre Didi

Brasileira, mineira, advogada, professora e ex-professora. Comunicóloga nas horas vagas. direitoelegal@gmail.com

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  1. Há inúmeras formas de tornarmos nossos dias mais agradáveis e uma delas é sermos atenciosos com quem nos rodeia.

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  2. Minha querida, você é agradável de natureza, vida que segue, cada dia aprendemos mais né?

    Responder
  3. Bravo pour cette histoire Didi. Bien écrit et intéressant. Bises de Brasilia 🙂

    Responder
  4. Pingback: Quando eu fui invisível | escrevo.me

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