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Arquivo do dia: dezembro 26, 2015

Não somos hamsters: a amizade com o sexo oposto

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Quando eu era pequena, sempre que pedia um cachorro pra minha mãe, ganhava um passarinho, um coelho, um girino, uma cobra, um pato, uma galinha, uma chinchila, uma codorna, tudo, menos um cachorro.

Certa vez, ganhei dois hamsters. E esperta que era, escolhi um macho e uma fêmea, para ficarem amigos.48csv

Fomos lá naquele espaço asqueroso do Mercado Central de BH, que hoje é investigado pela CPI dos maus tratos, e compramos um casal. Naturalmente, eles desenvolveram uma relação muito mais estreita que uma amizade e em um mês a gente tinha 24 hamsters. A nossa casa parecia um laboratório de cosméticos, com a diferença que a gente tratava bem dos bichinhos e não lucrava com eles. Todos os meus amigos ganharam hamsters de presente. E aprendemos uma lição: Hamsters são lindos, fofos e inteligentes, mas não são como os humanos. E por que isso?

Porque se você coloca um macho e uma fêmea juntos, os feromônios dos hamsters serão mais fortes que qualquer outra coisa e eles vão se reproduzir. Muito! Com seres humanos normais a situação pode ser diferente.

Minha prima tem um grande amigo há mais de dez anos. Eles são tão amigos que se apresentam como irmãos. Durante anos, eles aguentaram perguntas sobre a honestidade daquela amizade. Ontem, na hora do almoço, estavam explicando que finalmente estão namorando pessoas que entendem a diferença de amizade para paquera.

Tem limites? Tem. Mas a amizade entre homem e mulher (ambos heteros) é possível. E é muito enriquecedora! Por que eles não namoram? Porque não querem. Porque estão apaixonados por outras pessoas, porque a relação deles é de amizade e ficou por isso mesmo. Ou simplesmente, porque não estamos falando de hamsters!

Minha tia avó estava almoçando com a gente também. Ela viveu anos casada com meu tio que era uma pessoa adorável, mas ainda com dificuldades de entender sobre relacionamentos. Não deixava ela sair sem ele, não deixava ela viajar, não gostava nem de convidar muita gente pra casa deles. Manias dele e de uma época, mas que influenciavam muito na vida dela. Depois que ela ficou viúva, apesar da saudade imensa, ela conheceu um outro lado da vida. Andou de avião pela primeira vez, foi para a Italia, mudou sua forma de vestir, de fazer projetos pra vida e até de andar.

Durante a conversa do almoço ela pediu para falar. Disse que realmente, não via nenhum problema nessas relações. Contou que tem um vizinho que é viúvo também e que eles se cumprimentam na rua e trocam algumas palavras de vez em quando. Bastou isso para uma vizinha patrulheira vir falar com ela que as pessoas poderiam interpretar mal aquela história. Ora… quando foi que perdemos o direito à amizade?

Uma pessoa viúva com certeza precisa de muitos amigos para superar esse momento. É cruel querer que ela fique sozinha, vivendo de memórias, quando poderia se apoiar em tanta gente, dos dois sexos, até com problemas parecidos, para vencer essa dor.

Em Belo Horizonte não tenho muitos amigos homens (héteros). Tenho um ou outro, que desaparecem quando começam a namorar. Não sei se por medo das namoradas ou de outros patrulheiros. Mas desaparecem (o que me dá certa preguiça, apesar de já ter feito isso também quando tive um energúmeno como namorado, mas passou).

Em Avignon, dei sorte de ter muitos amigos (homens e mulheres). Tomo o cuidado de sempre demonstrar a maior consideração com as namoradas dos amigos. Procuro sempre mandar um abraço pra elas quando envio alguma mensagem pro celular deles. Se tem festa, ou algum evento, convido os dois. Converso com os dois, sou gentil com os dois e não fico encostando muito em nenhum deles! Hehe! Na verdade, acho ótimo poder agregar as namoradas e namorados na turma. Vejo que isso conta muitos pontos pra alegria de um casal, em qualquer parte do mundo. E a gente só tem a ganhar.

Aceitar que é possível uma amizade entre sexos opostos pode ser muito construtivo pra sociedade. E é claro, tem casos e casos. Algumas pessoas abusam? Abusam. Algumas pessoas não são confiáveis? De fato. Tem gente que podendo ser gente, escolhe ser hamster. E nessa hora, minha amiga, o meu faro é de albatroz.

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Mais:

Foto meramente ilustrativa retirada daqui

Investigação do Mercado Central na CPI dos maus tratos de animais em BH 

A indústria cosmética e os testes em animais