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Arquivo do mês: janeiro 2016

Um ano sem carne

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No final de 2014, conversei com meus amigos sobre um possível projeto #2015semcarne. Muitos acharam que seria impossível. Mas eu queria tentar! E agora que consegui, venho aqui falar deste projeto.

A motivação para isso surgiu de muitos e variados pontos. Permita-me explicá-los aqui :

A primeira questão era por piedade com os animais mesmo. Eu não sentia que era preciso sacrificar tantos animais se poderia substituir a carne tão facilmente.

A segunda questão é que nunca gostei muito de carne. Entendo que podem ter sabores deliciosos, mas ainda acho que estão mais ligados ao molho e ao tempero que à própria carne. Costumo dizer que eu sempre fui vegetariana e só depois dos 30 tive coragem de dizer isso pra sociedade.

A terceira questão foi com a cultura da França (país onde moro atualmente) de comer pratos apenas com carne (uma carne toda decorada no centro do prato e nenhum acompanhamento que sustenta, como arroz, massa ou batatas). Comendo apenas carne, meu cérebro não entendia que eu tinha comido. E continuava pedindo comida (leia-se carboidratos, ou pelo menos uma salada cheia) o que me causava certo stress.

A quarta questão era uma dificuldade na comunicação da minha forma de alimentação. Era complicado recusar os pratos oferecidos na casa de alguns amigos franceses onde a única opção era um coelho, um pombo, uma lagosta que morreu gritando dentro da panela. Além de ser muito diferente da minha cultura o contato com esses pratos, era muito difícil explicar que não me despertavam interesse gástrico e ao mesmo tempo dizer que não era vegetariana, só não queria comer aquelas carnes. É estranho até para escrever isso agora!

A quinta e última motivação veio de uma gatinha que peguei na rua, e que precisou ser operada. Tive muita dificuldade para achar uma família para adotá-la. E até encontrar a família perfeita para ela, gastei muito tempo, dinheiro e energia para que ela ficasse bem. Tudo porque ela me inspirava compaixão. Nessa experiência pensei que não faria sentido chegar em casa e comer um hambúrguer, tendo me esforçado tanto para salvar um animal.

Explicados esses pontos, aproveito para ressalvar que estes comentários não se aplicam a situações extremas de muita fome ou de grande necessidade. Em situações de desespero muitos dos nossos conceitos e padrões mudam. Nada aqui se aplica a casos limite.

Tendo em vista essas considerações, decidi no dia 31 de dezembro de 2014 que em 2015 não seria consumidora de carne. Junto a essa decisão, resolvi outras coisas: Não compraria nada que tinha carne (lembrando que peixe é carne), molho de carne, tutano (como gelatina e aquelas balinhas molengas) e ou qualquer coisa do tipo que fosse substituível por algo mais sustentável no meu consumo (incluindo cosméticos muito duvidosos e roupas e acessórios de couro ou peles substituíveis – continuei usando o que de couro eu já tinha).

Os temperos sabor carne que já existiam na minha despensa, não joguei fora. Usei normalmente para não perdê-los, afinal o estrago já estava feito e eu não iria desconsumir uma coisa. Achei que a forma mais respeitosa com relação à morte daquele animal, naquele momento, seria pelo menos terminar de usar o que ainda existia no armário e não comprar mais.

Outra coisa, se em alguma refeição, oferecida por amigos, a comida vegetariana tivesse tido contato com a carne, eu iria comer assim mesmo para não criar uma repulsa à ideia do vegetarianismo. O importante era a pessoa respeitar e deixar sempre uma opção vegetariana para quem não queria carne. Muitas vezes, quem convidada já fazia um prato só, somente vegetariano. E isso era lindo. Também passei a convidar muita gente pra minha casa, oferecendo sempre alguma receita que não levasse carne como risotos, lasanhas de beringela, quiches. Até a minha chefe do restaurante, que fazia tortas cheias de bacon, lançou a semana Vegana e Vegetariana com sabores diferentes que fizeram o maior sucesso.

Percebi que depois que anunciei a minha escolha como « Sou vegetariana » tudo ficou mais fácil para as pessoas entenderem. Embora muitos ainda achem que eu coma peixe ou camarão. Mas não como não, viu.

Uma decisão que acho importante, e até política é de perguntar em todos os restaurantes por opções vegetarianas, mesmo se eu quiser comer apenas a sobremesa. No Mac Donald’s eu já sabia que não tinha a opção de sanduíche vegetariano, mas perguntei assim mesmo só pra saber a resposta do gerente. E o gerente na França me disse que achava que isso não atrairia muito o público. Que não era uma questão da atualidade. Por isso recomendo que quem quer ser vegetariano, passe a perguntar no Mac Donald’s também e em todos os outros restaurantes e lanchonetes, só para eles saberem que existe o interesse. #cadeopcaovegetariana

Quando em algum restaurante não tinha nada vegetariano, eu não gritava, nem fazia escândalo. Só falava « que pena », agradecia e saía. Quando era obrigada a ficar, pedia um suco ou café.

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(mercadinho de Oslo com deliciosas opções pra uma refeição perfeita e sem carne. Não sou eu na foto, só bati!)

A minha escolha foi ser vegetariana e não vegana. No meu entendimento atual, acho que não é necessário maltratar um animal à morte para termos queijos, leite, ovos. Eu sei que o mundo ainda é muito cruel com todos eles e que a indústria é a mesma. O leite que você bebe era para ser dado ao bezerro que virou o vitelo do restaurante da esquina. A vaca leiteira, depois de velha, também vira bife. A galinha que bota o ovo também vai pro prato. Eu sei disso. E acho horrível. Mas ainda acho que a minha opção alimentar não implicaria necessariamente nessa covardia. Ela existe porque ainda não nos organizamos de forma a comprar apenas de produtores éticos. Coisa que tentei com muito custo fazer na França. Para os ovos é mais fácil porque lá existe uma lei que te permite comprar ovos de acordo com a qualidade de vida das galinhas (vem informado nas caixas). Mas para o leite, o único lugar que descobri que tinha uma produção respeitosa de leite era muito longe, e os produtos não chegavam até onde eu precisava. O que fiz foi reduzir o consumo. Mas não cortei.

Feitas essas considerações, não tive grandes dificuldades durante o ano. Não passei fome, nem emagreci, nem engordei. De alguma forma, senti muito mais energia durante o ano, mas não tenho como provar que foi por conta da minha dieta.

Substituí a carne por várias coisas, uma delas era o champignon de Paris quando eu estava na França. Esses champignons são extremamente suculentos e valorizam bem o prato. Não deixando nada a desejar.

Já no Brasil, morro de amores pelos bifinhos de soja, típicos da casa da minha avó. Mas também adoro pratos com berinjelas, bifes de aveia, batatas recheadas, tomates com manjericão e muito azeite!

Não adoeci em 2015. Mesmo tendo passado por circunstâncias de baixa imunidade. Na minha cidade, consultei uma naturopata (espécie de nutricionista que analisa a sua alimentação e saúde em relação ao seu emocional e seus hábitos) e ela disse que minha alimentação estava ótima, que era perfeita para o meu tipo físico e o tipo de vida que eu levava!

Meu maior problema com a dieta veio do cinismo de algumas pessoas, dos comentários desnecessários de outras e até da intolerância de outras. E é impressionante a reação que a intolerância causa. Quanto mais as pessoas criticavam a minha escolha de não comer carne, mais eu queria não comer carne (compare isso com outras coisas para as quais somos tão intolerantes também!). Então, o projeto que era só para 2015, agora vai continuar…

Comer menos carne é uma necessidade do ser humano se quiser preservar o meio ambiente. Para produzir um quilo de carne é necessário produzir muitos quilos mais de outros alimentos. Isso cria uma conta que não fecha se você considerar o número de pessoas que existem no planeta. Nem estou falando para todo mundo virar vegetariano (ideia até muito simpática, mas nem estou falando disso). Na China, por exemplo, eles comem carne, mas é bem pouquinho, porque são muitas bocas para alimentar. Então são pedacinhos do tamanho de um dado, jogados sobre um macarrão ou um arroz. Na Inglaterra, o projeto Meat Free Monday (segunda sem carne) de Sir. Paul McCartney ganhou grande popularidade e lá, qualquer lanchonete, por menor que seja, tem no menu um prato para vegetarianos.

De uma forma geral, existe tanta opção de coisa gostosa pra gente colocar na panela que me parece falta de criatividade termos que comer carne em toda refeição. Não estou falando de casos extremos de quem não encontrou outra alternativa, ou de quem precisa de uma dieta específica com carne. Estou falando de gente que pode escolher ser diferente. Que pode escolher comer menos carne, fazer um equilíbrio na dieta entre seus gostos e o que entende que pode ser melhor pra própria saúde e pro planeta. O Brasil nem é um país frio pra gente se empanturrar tanto com tanta gordura animal como fazemos. Vamos pensar nisso !

Por último, e não menos importante, eu mantive como propósito não ser considerada muito chata como vegetariana. Um pouco, tudo bem! Neste texto escrevo o que esperei um ano para contar. Tento, na medida do possível, não ficar pregando para as pessoas sobre o vegetarianismo, porque cada um tem seu tempo e não adianta tentar convencer ninguém que não quiser mudar. O meu tempo foi em 2015. E me fez muito bem. O seu pode ser em 2016. Mas isso é uma coisa que só você pode saber!

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(oi!)

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Utilize também as tags durante o seu ano:

#2016semcarne

#menoscarne2016

#meatfree2016

#cadeopcaovegetariana

#goveggie

IMG_4136(mesa montada para uma noite vegana entre amigos)

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