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Arquivo do mês: março 2016

Crises e epidemias… que hora boa pra voltar pro Brasil

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Era um jantar entre amigos e fomos perguntar pros espanhóis sobre a monarquia no país deles. Pra quê? A coisa ficou quente. Sendo um país com inúmeros movimentos separatistas e muita revolta efervescente no seu povo, achamos melhor mudar de assunto. A americana não queria comentar sobre a possibilidade de ter um Trump pra chamar de presidente. Os italianos queriam esquecer o passado recente e o sírio preferia nem começar. Foi quando olharam pra mim. Fala do Brasil, Diorela. Como será a volta pro seu país?

Então senta que lá vem a história!

Meu país é muitos. E é muito rico. Existe uma diversidade e um encanto no Brasil que eu ainda não reconheci em outros lugares. Temos cores, temos espaço, temos terra que tudo dá, uma criatividade que brilha, belezas naturais e artificiais, o povo mais divertido que já conheci, uma constituição da república muito respeitável, um mar enorme pra chamar de nosso, florestas, pântanos, montanhas, todo tipo de alimento. Temos música pra falar de tudo. Um cinema de aplaudir de pé. Trabalhamos o dia inteiro e estudamos de noite. O sol põe todo mundo pra fora da cama. Somos sorridentes, amamos dançar e temos uma forma de ver a vida que devia ser patrimônio da Unesco. Apesar de tudo, estamos nos perdendo. Não saímos mais para praças e parques. Nossos programas são ir para o shopping ou ver a televisão que é sempre o centro da casa. Nos acostumamos a subir dois andares de elevador. Comemos porcarias demais. Ainda não pensamos muito em separar o lixo. E o pior de tudo, estamos desaprendendo a nos amar.

No meu país tem faltado água, tem faltado investimento em coisas básicas. Os hospitais estão sem antibiótico. As escolas, sem merenda. Muitos bebês tem nascido sem um pedaço do cérebro e a gente não sabe o motivo. Os mosquitos voam doenças sobre os brasileiros e viramos um bingo de epidemias. Minha Minas Gerais está morrendo porque só sabia viver de minas. E as minas nos cortaram inteiros. O Rio Doce ficou amargo. No governo, não há governo. Temo um jogo sujo e alguns ministérios de brinde. Na televisão daqui, já somos piada para os portugueses, quem diria. E as pessoas não sabem mais quem defender, quem acusar. Descobrimos que só temos santos em feriados. Mas ainda não temos feriado bom. Está difícil andar tranquilo nas ruas. Com a economia tão mal, a violência tem aumentado. E com ela o ódio à diferença. Muitos de nós seremos substituídos por máquinas, mas isso é no mundo inteiro. O trabalho já não será como antes, e eu não queria me entregar a quem ganha para destruir. É do fundo do poço que a gente vai ter que criar um impulso mesmo.

Mas não posso reclamar. O Brasil sempre me recebeu bem. Mesmo pra uma não religiosa é bonita a imagem do redentor de braços abertos acolhendo o horizonte. O povo brasileiro é, em sua grande maioria, formado por uma gente maravilhosa. Somos corajosos, trabalhadores, interessados, criativos. Nossa força está nisso e teremos que nos reinventar. Alguns grandes começaram a ver o sol nascer quadrado e aos poucos talvez serão muitos outros, de forma multipartidária, também irão. A justiça ainda é muito estranha no meu país, mas com as redes que temos feito, se a gente se importar em abrir um pouquinho a cabeça pra quem pensa diferente, talvez consigamos uma verdadeira revolução. A forma de ganhar e viver com dinheiro terá que mudar e estamos começando a entender isso também. Talvez seja a hora de aprendermos que somos nossos próprios redentores. E ninguém nos representa mais. Com aqueles mesmos braços que abraçam tão bem (no que a gente chama aqui na França de « carinho brasileiro »), podemos trabalhar e unir forças para reconstruir e nos ajudarmos como nação. Tive muita sorte de poder aprender algumas coisas que talvez sejam úteis nessa hora. Adoraria poder colaborar quando voltar pra minha terra.

Alguém quer sobremesa?

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Ps. “Faut rêver” pode ser traduzido como “é preciso sonhar”!