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Arquivo da categoria: Avião

Os anos passam

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Um texto que começa com um título desses tem que ser no mínimo, menos óbvio que o título!

Pois bem! Os anos passam! O mundo gira! E para provar as frases mais evidentes do universo vou contar duas histórias que intrigam, ou não, as pessoas à minha volta.

A primeira história é a do milk-shake de Ovomaltine. Quando eu morava em Belo Horizonte (que aflição falar isso assim) costumava frequentar um lugarzinho da moda que vendia um tal de milk-shake, adivinhe, de Ovomaltine. O lugarzinho era da moda e o preço era salgado, mas o milk-shake era uma delícia! Nessa mesma época, eu fazia estágio na TV da faculdade e era produtora de um programa sobre Saúde. Mesmo assim, eu consumia coisas horríveis para a saúde como… milk-shake (falei ”consumia” no passado para criar a ilusão de que hoje eu só me alimento de melão e granola). Eu tinha um colega de estágio de nome Airton. Ele era um cara legal, que chegava conversando com todo mundo, sempre sorrindo, sempre cheio de histórias. Um dia, conversando sobre nossa alimentação, decidimos que deveríamos mudar radicalmente: Ao invés de tomar milk-shake de Ovomaltine no lugarzinho da moda, agora, a gente passaria a tomar milk-shake de Ovomaltine em casa! Muito melhor! Muito mais barato.

Falamos várias vezes sobre isso, até que mudamos de estágio, nos formamos, mudamos um pouco nossas carreiras, ele foi morar em Londres e eu vim morar na França. E nada de milk-shake.

Nunca perdemos contato, mas nossas mensagens eletrônicas, sempre terminavam com o simbólico “E o nosso milk-shake?”.

Ok, passaram-se dez anos, porque, como diz o título do texto, os anos passam…

Um belo dia, estou aqui em Avignon, ocupada com a probabilidade de adotar um gato (o que veio a acontecer!) até que meu telefone toca. Atendo. “Didi, é Airton! Peguei um trem errado… ele vai parar em Avignon, vamos encontrar?”. Típico do Airton, vir me encontrar por acidente, mas que bom!!!

Ele chegou! Contou uma história incrível de como estava em Nice, pegou um taxista informal para uma viagem, pediu para ele parar rapidinho para ir no banheiro e quando voltou, pluft, o taxista tinha fugido com tudo dele, inclusive a camisa! Ele, sem camisa, no meio da estrada, com um celular quase sem bateria, conseguiu ajuda de estranhos até alcançar um posto policial, um cartão de crédito e uma camisa para vestir. Mesmo depois disso tudo, Airton, saindo do trem errado, chegou em Avignon com um sorriso no rosto e uma idéia na cabeça: Vamos tomar um milk-shake de Ovomaltine!!! Claro!!! Os sonhos não envelhecem, Clube da Esquina!

No dia seguinte, chamamos uma amiga do Chypre, um amigo do Marrocos, arrumamos a mesa, abrimos uma garrafa de champagne (coisas de Airton) e depois tomamos o nosso velho e bom milk-shake de Ovomaltine caseiro! Muito melhor que do lugarzinho da moda! Com gosto de 10 anos atrás. Como a delícia de reencontrar os amigos!

OvomaltineVinte minutos depois,  Airton partiu, desta vez para pegar o trem correto. Mas, na verdade, eu tenho certeza, ele estava no rumo certo desde o início. Volte sempre, meu colega querido!

 ***

A segunda história tem mais a ver com a data de hoje. Hoje é dia 08 de outubro. No dia 08 de outubro de 2011 eu estava voltando de férias na Europa com a minha mãe.

Pera, a história começa um pouco antes. Eu havia me formado em Direito. E havia passado na OAB. Passar na OAB não foi uma tarefa simples para mim. Eu não nasci no meio jurídico e a forma da minha mente trabalhar é um pouco diferente dos raciocínios mais óbvios deste universo, então, esta tarefa me exigiu uma dedicação, na mesma época em que estava fazendo monografia, trabalhando o dia inteiro e passando por outras dificuldades. Não foi fácil, mas foi recompensador. Passei e fiquei muuuuuito feliz!

Para comemorar, minha mãe sugeriu que a gente viajasse! Para onde? Ora, Sil (como eu a chamo carinhosamente, coincidentemente, é como também chamo minha melhor amiga brasileira), para viajar com você, temos que ir para a Europa. Minha mãe, por hobby, é uma especialista em história da civilização ocidental. Ela é tão especialista que durante a viagem eu me senti burra várias vezes ao tentar parecer inteligente e receber dela uma doce correção sobre história da arte, história das guerras, das civilizações etc. Mas a nossa viagem não foi unicamente em função da História! A nossa viagem tinha um propósito ainda maior: O cinema!

Eu e minha mãe gostamos muito de alguns filmes em comum. São eles: A Noviça Rebelde, Antes do Amanhecer, Adeus Lenin, Amadeus e O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (que eu descobri semana passada que aqui na França esse filme chama-se apenas ”Amelie”e e eu ficava igual uma boba falando o nome completo do filme na entrevista de mestrado…). O fato de gostarmos muito desses filmes citados fez com que a gente definisse uma lista de lugares para visitar baseada nas locações dos filmes. Então, foi uma viagem muito legal para Salzburgo, Viena, Berlim, Praga (Amadeus foi filmado lá) e Paris.

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Neste último ponto da viagem, Paris, estávamos no dia 08 de outubro, prontas para pegarmos o Avião, para irmos para Lisboa e depois para o Brasil (TAP, né?!). No aeroporto, eu estava morrendo de sono, e estava dormindo igual uma contorcionista na cadeira enquanto minha mãe reparava numa outra pessoa. Havia um rapaz na sala de embarque que assistia a um jogo de Rugby na televisão da sala. Mas ele não era discreto. Ele gritava quando a França fazia pontos, e pulava da cadeira quando era um “quase”.

O embarque foi aberto e eu fui acordada para ir pra fila. Fui pra fila e de lá reparei no rapaz fazendo auê com jogo de rugby. Homens e esportes… uma relação irracional, pensei. Mas esse cara até que é gatinho…

Entramos no avião. Minha mãe falou que não queria se sentar na janela pois ela tem claustrofobia. Eu sabia que no fundo ela queria, mas que como era minha mãe, queria me dar a oportunidade de aproveitar a janela… Tentei convencê-la do contrário falando “mas, mãe, imagina se um cara lindo e descabelado senta do seu lado e eu estou lá na janela…”. Imagine só! Rimos! Não adiantou, eu fiquei na janela.

Sentamos. Do lado dela não sentou ninguém. Comemoramos!!! Oba, mais vaga para as pernas. Tralalalalá!

As portas do avião já estavam quase se fechando quando… “Di, troca de lugar comigo”. O que??? “Faz o que eu tô te falando, troca de lugar comigo”. Mas você insistiu para eu ficar na janela e tal… Ela começou a me empurrar, ficar brava, usar a fúria de mãe e eu troquei, né?! Vai entender…

Assim que sentei na cadeira do meio, o carinha descabelado que estava olhando o jogo de Rugby se sentou do meu lado. Olhei pra minha mãe e ela estava dando uma risadinha. Perguntei “você fez de propósito?” e ela “claro!”.  Aí, ele se sentou e dormiu. E eu fiquei tão sem graça com a ideia de que minha mãe queria que eu paquerasse uma pessoa por escolha dela que dormi também. Ele acordou e minha mãe me cutucou na cadeira até eu acordar. Ela também me cutucou até eu conversar com ele, que era francês, estava terminando um doutorado, e estava indo pro Brasil, encontrar amigos brasileiros que fizeram faculdade com ele.

Quando fui introduzir minha mãe na conversa, ela estava olhando pra janela como se não existisse mais nada no mundo. Como se quisesse deixar a gente mais à vontade e a única fuga dela seria essa. Foi tão evidente que depois disso, ele adicionou meu facebook e bem… hoje completamos dois anos que nos conhecemos!

Ele entrou em contato comigo quando estava no Brasil e decidiu ir me visitar em BH, nem que tivesse que ficar na casa de alguém, no caso, de uma amiga minha que morava em região central e falava ótimo inglês (porque francês não dá muito pra exigir entre meus amigos): Carolina!

Carolina tinha três gatos e nem se preocupou com o fato de que a gente não tinha nenhuma referência do visitante estrangeiro. Ela queria mostrar a cidade e mudar de assunto um pouco. Foi uma excelente aliada. E eu só tenho a agradecer.

Os anos passam, é uma conclusão… e as coisas acontecem de forma surpreendente! Muito melhor do poderíamos imaginar! Aliás, nesta data, dia 08 de outubro, eu só tenho a agradecer a essas três mulheres incríveis: minha mãe, Carol e Amelie Poulain. Se eu moro na França hoje, a culpa é suas!

EuAlexis

 

 

 

“E se ainda quereis dilatar mais a vida, uni à alegria vossa a alegria do semelhante. Uni vosso esforço ao de outros e sentireis, assim, que vossa vida adquire mais corpo, porque o que os demais sentem, por reflexo o sentireis também vós. É como se todas as vidas constituíssem uma só, gigantesca. Se por vossa conta, por exemplo, desfrutais de dez episódios, nesta outra forma podereis desfrutar de cem, de mil, de inumeráveis acontecimentos; porque cada alegria, cada benefício que alcance vosso semelhante será vosso e desfrutareis dele. E, sendo assim, a existência adquirirá outro significado.” da Logosofia

Sobre o Brasil, o avião, o samba e as rosas

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Desde que fui para o Brasil, fiquei tão ocupada com gente legal em volta, que não tive tempo de parar para escrever. Eu acho que a vida perfeita é assim: estar ocupada com gente de bem!

O Brasil me passou uma sensação muito boa. Meu avô sempre diz quando os netos viajam “Bom mesmo é o Brasil”. E ele tem certa razão. É um país incrível! Com pessoas incríveis. Eu ficava pensando que todo mundo que conheço no Brasil daria um livro sucesso de vendas por suas histórias de vida. Dos meus primos aos meus vizinhos, me senti querida e bem vinda por todos! Gente com sangue correndo nas veias! Meu cachorro com as brincadeiras de sempre e o gosto de farofa na comida. Bom mesmo é o Brasil! Mas, tudo bem, eu tinha que voltar!

E voltei.  No avião de BH para Lisboa, sentei-me do lado de um senhor extremamente gentil. Advogado trabalhista de São Paulo, ele chamava-se Dirceu e ficamos boa parte do vôo rindo das coisas que alguns advogados fazem para fazer parecer mais inteligentes e mais trabalhadores para o cliente, o juiz e o chefe. Lamentamos também as condições atuais dos advogados no Brasil e eu desejei que ele me oferecesse uma parceria de trabalho com os casos que envolvessem a França. Ficamos de encontrar na saída do avião, mas nos perdemos. Tudo que sei é que ele se chama Dirceu, é muito simpático e advogado em São Paulo. Tomara que um dia ele encontre este blog. Eu lhe desejo todo sucesso do mundo! E agradeço pela companhia que fez a viagem ficar mais leve.

E quando eu acho que já tive toda sorte do mundo com esses avião, não é que a TAP me apronta uma?

Estava prestes a ingressar no avião de Lisboa-Marseille, cansada de ouvir uma alemã gritando no aeroporto, quando a funcionária portuguesa, ao verificar meu ticket de bordo, disse que tinha havido uma mudança na minha passagem. Respirei fundo e ela continuou: “Você vai de primeira classe”. “Ah, tudo bem”, aceitei sem esforço!

Uma vez a TAM me colocou na primeira classe para o Rio de Janeiro, mas eu só tive direito ao acento confortável e nada mais. Nesta viagem, porém, a TAP, além do acento, me deu um tratamento de estrela. Ofereceram jornais do mundo inteiro para eu ler, mas como estava anotando na hora, descartei! Depois vieram com um menu para eu escolher o almoço. Tinha polvo, pato, arroz, queijos variados etc. Escolhi o arroz mais simples, só que veio uma coisa deliciosa! Não sei explicar, era uma mistura com um purê e queijo, e um alhinho na medida ideal pro meu paladar. De sobremesa, um pudim com creme que, novamente, não sei explicar. Achei excelente a ideia de oferecerem aleatoriamente o serviço de primeira classe para os passageiros conhecerem. Será que foi aleatório mesmo? Será?!

O dia estava lindo e eu tinha um assento solitário. Olhei para a janela e agradeci a Deus, não só por aquilo, mas pelo Brasil, pela França, pelos aviões e pelo mundo que estou tendo a oportunidade de conhecer.

Continuei minhas anotações e imaginei a seguinte possibilidade “Vai que os comissários acham que sou uma escritora rica andando de primeiro classe”, e fantasiei o que seria ser uma pessoa que vive de escrever e consegue! Lembrei das minhas amigas escritoras Sabrina, Liliane e da Paula Pimenta! E lembrei da Luiza Voll, que trabalha na própria empresa que chama Contente! Como eu queria ter um trabalho assim, que me custasse ser incrível!

O que eu deveria fazer para merecer isso? Fiquei pensando… E peguei Julia Child para ler.

Alexis foi me pegar no aeroporto de Marseille com nosso carrinho de 23 anos, doado por uma senhorinha que não podia mais dirigir.

Viemos para casa e eu mal tive tempo de tomar banho, os italianos já começaram a chegar. Depois chegaram os espanhóis. Tínhamos um jantar de comida francesa naquela noite porque meu amor esqueceu que eu chegaria na quarta. Mas tudo bem!  Passei aspirador em tudo e ajudei a arrumar a mesa.

Na sexta tive uma prova que não consegui terminar. Escrevi tudo a lápis e na hora de passar a caneta acabou o tempo. Também, eu entendi que a prova duraria uma hora e ela, na verdade, durou apenas trinta minutos. Mesmo assim, eu passei à caneta correndo, ficou um garrancho. Eu tenho dois cursos superiores e uma pós-graduação e até hoje não aprendi que é absurdo escrever tudo a lápis para depois passar à caneta. Bem feito pra mim.

rosasAmarelas

Depois da prova, voltei para casa e comecei a arrumar a casa para a festa brasileira de sábado. Comprei rosas amarelas (que junto com as folhas dão um toque levemente verde-amarelo na decoração sem ficar parecendo escola de samba com temática brasileira) e tulipas. Comprei as tulipas só porque a Silvinha fala muito delas! E são realmente lindas! Coloquei as flores, uma por uma, em cada garrafa de vinho que tínhamos já vazia e que havíamos nos esquecido de levar para a reciclagem de vidro. Espalhei várias pela casa e gostei do efeito. Coloquei no corredor da escada, sobre a mesa, perto do aquecedor! Até Alexis elogiou!

Ele chegou mais cedo naquela sexta, pois haveria uma apresentação gratuita no grande teatro antigo de Orange (que fica a meia hora de Avignon). Fomos pra lá. Pegamos um congestionamento na entrada da cidade, mas achamos vaga fácil. Porém, estava chovendo e a apresentação fora transferida para o teatro da biblioteca que é bem menor e já estava lotado. O senhor da Legião Estrangeira (era um festival de aniversário da Legião) foi simpático para impedir a nossa entrada! Foi tão simpático que nem ficamos chateados. Decidimos explorar os restaurantes da região.

Alexis sempre lê os menus da porta do restaurante para saber se ele quer conhecer a culinária de lá. Eu costumo olhar mais o ambiente. E também os preços! Mas, claro, procuro ver se tem algo que eu realmente gosto de comer. E vi que o restaurante tinha massas! Ele viu que tinha muitas carnes exóticas. E os preços eram bons. Aceitamos!

A entrada do restaurante parecia simples, mas na verdade, era dentro de uma caverna! Tudo tudo tudo de pedra! Um ambiente delicioso! Fiquei tão feliz… Alexis me convenceu a dividir um vinho com ele (vinho aqui é mais barato que cerveja) e pediu uma carne crua (crua mesmo, nada nada esquentada, ela é exótica assim) com batatas. E eu pedi um tagliatelle à carbonara (mas a minha carbonara é muito melhor!).

Comemos razoavelmente bem, e o vinho era realmente bom. Achei que tinha gosto de danoninho, que me desculpem os henólogos!

No sábado seguinte tínhamos uma porção de coisas a cumprir. Na nossa casa teríamos festa! Seria uma festa brasileira e também um aniversário de uma amiga francesa (Claire), que estava meio sem tempo de organizar a própria festa.

Tínhamos que comprar as coisas pra festa, arrumar a casa, terminar de desfazer as malas, comprar um som que funcionasse (o outro parou de funcionar antes de eu ir pro Brasil) etc.

Fizemos tudo, mas foi uma correria. E, ainda por cima, ficamos perdidos no estacionamento do centro comercial gigante de Le Pontet. A gente saiu pro lado errado e Alexis insistia que era lá que estava o carro. O pior de fazer errado é ter certeza que está fazendo certo. Isso nos roubou preciosos quarenta minutos.

Cheguei, terminei de arrumar tudo e fui tomar banho, faltando cinco minutos pras 20h, uma vez que a festa começaria entre 20h30 e 21h. Na verdade, a gente queria que fosse 21h, mas a aniversariante francesa marcou 20h30 com a turma dela. Então teríamos que estar preparados já 20h30.

Eu estava no banho quando ouvi alguém batendo a porta. Alexis foi receber e era um casal de franceses que tinha entendido que a festa começaria 20h. Suspiramos e colocamos eles para nos ajudarem na arrumação. Na verdade, Alexis fez isso, eu ainda estava no banho! Eles montaram dois bancos novos que compramos!

Meu cabelo teve que terminar de secar naturalmente, o que significou uma festa brasileira com direito a cabelos de Gal Costa!

As pessoas foram chegando aos poucos até 21h15, quando de repente, uma enxurrada de gente decidiu chegar junta e eu perdi totalmente o controle de quem já tinha cumprimentado, quem já tinha oferecido as deliciosas coxinhas feitas pela amiga bahiana, Fernanda, e quem já tinha experimentado o gostoso pão de queijo do amigo Guilherme do Rio!

Também tinha que cumprir minha função de DJ, que não foi fácil, porque eu não achei nenhum CD especificamente só com músicas brasileiras ultra dançantes (que agora eu já achei, estavam atrás da caixa de som, mas enfim). Os CDs que tenho são muito variados, então toca um samba e depois toca um blues que faz todo mundo pensar que estou expulsando da festa. Mas não é isso. Aliás, eu nem entendo porque tem que ser uma euforia contínua… prefiro a alternância de modalidades de música, mas tudo bem. Coloquei Daniela Mercure, Chico Buarque, Zeca Baleiro, forró, sertanejo e até “Ai, se eu te pego”que foi pedido especial de um convidado europeu (claro). Achei melhor não incluir Los Hermanos, uma vez que é preciso tempo e ouvido crítico para amá-los.

Quando Zeca Baleiro começou o “samba do approach”  com Zeca Pagodinho todo mundo foi ao delírio! É uma música muito gostosa, com uma batida boa, e após algumas caipirinhas, todos já estavam prontos para aprender a sambar. As brasileiras cumpriram a missão de ensinar bem! O mais interessante é que eu, Fernanda e Vanessa, cada uma de uma região do Brasil, cada uma com um samba diferente. Mas o meu samba chama “samba-enganação”, porque não tenho a técnica não! Mas me divirto! Segundo a Vanessa é samba de bailarina. E eu adorei esse eufemismo!

A nossa amiga canadense foi uma das mais inspiradas para aprender e ela progrediu bem! O orientador do Alexis e sua esposa (uma das francesas mais simpáticas que já conheci) adoraram a exposição, eles estavam no Brasil na semana passada e voltaram cheios de boas impressões da minha terra.

Fiquei feliz de finalmente conhecer o namorado da Vanessa, também brasileiro. E de contar com a ajuda do marido da Fernanda, alemão, que se encarregou, junto com seu amigo Mihail (romeno) de fazer todas as caipirinhas e quebrar os gelos (nos dois sentidos).

SambaVan

Após um tempo, cada um dos 36 convidados já se sentia à vontade para preparar seu próprio drink. Inclusive, Vanessa pegou meu liquidificador e bateu leite condensado com tudo. O que, advirto, é um perigo!

Também tivemos sanduichinhos para comer e algumas salsichas estranhas… Fora o bolo de aniversário da Claire, que foi Antoine (seu namorado) que fez e estava uma delícia.

Uma bandeira do Brasil derramava do alto do mesanino. As palavras “ordem e progresso” intrigavam os convidados! Mas essas palavras, na verdade, foram inspiradas de um poema francês, que dizia uma trilogia “Amor, ordem e progresso”. Uma pena que o amor tenha sido tirado da bandeira, comentei. Amor é o que mais existe no Brasil!

Uma alemã apareceu aqui por volta de umas duas hora da manhã! Ela estava um pouco atrasada pro aniversário da Claire (ah, esses alemães pouco pontuais…). Deixamos ela entrar e rapidamente ela caiu na dança! Nosso amigo nigeriano mostrava os passos do hip hop que é uma aula que a gente faz junto, mas nunca junto. Sempre que falto ele vai, sempre que vou, ele falta e nunca nos encontramos na sala!

Uma inglesa veio despedir de mim e como a gente tinha ido procurar emprego juntas, perguntei se ela tinha recebido alguma coisa e ela disse que só negativas. Como eu. Ela disse estar preocupada e sentir muita falta dos amigos no país dela e de gente menos fria. Imagino que para uma inglesa os franceses não sejam tão amáveis. Falei para ela não desanimar por isso e que ela podia olhar que na nossa festa tínhamos diversas qualidades de franceses simpáticos, entre outras nacionalidades. Além disso, também falei que podemos ficar mais amigas, tomar um chá da tarde juntas (chá, Inglaterra, tudo a ver!). Foi quando ela me deu um abraço de despedida e comentamos “os franceses não abraçam… isso não é estranho?!”. De fato.

Por volta de duas e meia da manhã, várias pessoas foram embora. Algumas receberam as rosas amarelas na despedida! Flores amarelas significam amizade/afeto! Vi isso uma vez numa reportagem e nunca esqueci. Há alguns anos, enviei uma rosa amarela pra Babica quando a gente se formou em Direito, agradecendo pelos anos de companheirismo. Depois, ela me enviou rosas no meu aniversário. E com isso, viramos duas fofas enviando flores uma pra outra! Quando estive no Brasil agora, meu amigo Rafa também levou uma rosa da amizade pro nosso almoço. As velhinhas que estavam do lado, acharam a gente a coisa mais linda do mundo!

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Com o fim da festa, às 4 da matina, nossas cachaças se acabaram e precisamos encomendar mais! De modo geral, gostei muito da festa! Nenhum copo quebrado, só o Mister Batata todo bagunçado de novo. Foi melhor do que eu esperava! Gostei principalmente do tanto que a gente dançou, pois isso não é comum por aqui.

Na manhã seguinte, ao acordar, vi que tinha uma bolsa no meu quarto, que não era minha.

Aí Alexis olhou no celular e viu que tinha uma mensagem do orientador dele falando que era da esposa que tinha esquecido. Hehe! Como que alguém esquece a bolsa? Enfim, alguns minutos depois ele bateu à nossa porta todo molhado de chuva. Tinha vindo de bicicleta pegar a esquecida. A primeira coisa que ele perguntou quando abrimos a porta foi “e aí, dançaram muito samba depois que fui embora?”. Com nosso jeito hospitaleiro, além de devolvermos a bolsa, ainda doamos uma rosa amarela, que ele colocou entre os dentes de gozação e partiu pedalando. Que bom, parece que deixamos uma boa impressão!
fimdefesta
foto de fim de festa! Música “Kiss”. Canta comigo “Just want your extra time and your ***** kiss!”

Do doce ao azedo

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Tanta coisa pra falar… Mas como em Avignon não tem carnaval, minha rotina continuou sem muitas alterações, com exceção de que agora pratico Hip Hop, faço aula de mídias, ando de bicicleta, ajudo criancinhas no dever de casa e sou uma pessoa mais bem disposta! (E hoje é Valentine’s Day!)

No fim de janeiro estive em Madrid. Adorei! Fui com a Bruna, passeei com a Livinha e voltei sozinha. No avião da ida, fizemos uma amiga que tem um blog ótimo e filhos da minha idade!  No avião da volta não tive o mesmo prazer. Além de sentar do lado de um moço que não parava de roer a unha, um cara de óculos escuro falava inglês o tempo inteiro atrás de mim e chamava o comissário para tudo. Estava quase impossível ler o delicioso livro do Caco Barcelos (Abusado).

No fim do vôo, quando todos se levantaram, mas ninguém podia ainda sair, o tio de trás me perguntou de onde eu vinha. Disse que vinha do Brasil e o infeliz fez uma cara de dó. Perguntei em inglês se ele tinha algum problema com o Brasil e ele disse debochadamente: “Eu sinto muito”. Meu sangue subiu no teto e voltou. Existe uma máxima dentro de mim que diz que só brasileiro tem direito de falar mal do Brasil. A única coisa que consegui responder na língua que ele entende foi “pelo menos a gente consegue entender outra língua que não seja inglês”. Todos riram no avião. Aquele era Jack Nicholson saído de Laços de Ternura antes da parte da ternura. Que ódio latino ele me proporcionou, mas ele era tão caricato que nem precisei falar mais, o avião inteiro já estava com nojo do homem. Esse tipo de gente má nem representa risco, pois já se mostram ridículos no primeiro segundo. E só um detalhe: Ele não era americano e nem inglês… Não consegui identificar o sotaque, mas ele certamente não era de nenhum desses dois países. E mais, gente chata existe em todos os países.

Mas não é disso que quero falar agora. Quero falar de frutas, de sucos de fruta!

2012-09-23 14.33.27

Como sabem, adoro sucos de fruta! Gosto mais dos sucos do que da própria fruta em si em muitos casos (menos morango, banana, uva, kiwi e melancia)… No Brasil, é normal pedir os sucos prensados na hora pelo próprio restaurante se a indústria do refrigerante ainda não tiver subornado o dono do estabelecimento para parar de fazer isso. Em Vancouver não existia essa opção. Era sempre um suco industrializado e açucarado demais até pra mim… Eu ficava pensando como os diabéticos poderiam sobreviver em Vancouver…

Na França também não é fácil a sobrevivência para um diabético. Aqui já é difícil achar adoçante e vários deles são proibidos. E a fiscalização com adoçante é muito mais rígida que com o tráfico de drogas. Mas outro dia venderam uma lasanha à bolonhesa com carne de cavalo “por engano”… Eu não entendo esses critérios.

Desta forma, então eu me concentro em achar sucos de frutas naturais, porém industrializados, com pouco ou nenhum açúcar. E encontrei algumas marcas deliciosas! Entre elas, uma das marcas é de uma cooperativa idealizada pelo tio do Alexis. Já falei dele antes, de quando o conheci. Ele pratica o tipo de comércio fair trade que tem crescido entre as pessoas com vontade de ajudar o mundo. Enfim, acho superlegal a iniciativa, adoro o sabor do suco e, também, por ser de alguém próximo da família, eu procuro apoiar mais!

Só que é difícil achar esse suco para comprar aqui em Avignon. Por sorte, outro dia estava passando pelo Carrefour quando vi uns sucos como os do tio do Alexis, mas com uma embalagem um pouco mudada. Verifiquei se era fair trade e era aquele mesmo! Ai, que bom! Enchi o carrinho com os sucos. E ainda, para ajudar na divulgação, tomei a liberdade de mudar um pouco a disposição dos sucos no Carrefour. Como boa publicitária que sou, coloquei os sucos do tio dele na frente da Coca-Cola (chupa essa manga!), na frente de outros sucos açucarados, e espalhei até pro lado das sopas! Qualquer pessoa que passasse pelo supermercado seria obrigada a ver que existe aquela marca. Saí toda contente com meu trabalho.

Quando cheguei em casa, entrei no site indicado na embalagem, curti a página no facebook e deixei o suco bem bonito na mesa para o Alexis apreciar ao chegar. Ele chegou! Me cumprimentou e comentou “olha, o suco do concorrente do meu tio”!

Brincando de aviãozinho

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Há alguns dias publiquei a história da minha vinda pra a França, contei que havia conhecido um maestro no avião para Lisboa enquanto eu chorava por causa do filme em italiano. Não me lembro se contei que havia conseguido usar o toilete da primeira classe e que fui uma das primeiras a saltar do avião (lembrando que saltar é modo de falar porque sou uma senhora de trinta anos que nunca se ligou muito nesse tipo de esporte). Eu contei muita coisa sobre a viagem do avião BH-Lisboa, mas não contei sobre a viagem Lisboa-Paris, que, para mim, foi a mais surpreendente de todas. Deixei de contar propositalmente, porque queria escolher bem as palavras para isso.

Não o fiz. Não escolhi as palavras. Quase esqueci a história, então já era hora de escrever.
Há pouco menos de um ano, na viagem reversa, Paris-Lisboa, conheci a pessoa que eu hoje chamo de namorado. Foi tudo culpa da minha mãe, que me convenceu a trocar de lugar com ela no avião, na última hora, quando ela percebeu que aquele francês cabeludo e desajeitado iria se sentar na única poltrona restante que, coincidentemente, era do nosso lado. Não satisfeita, mamãe ainda impediu que eu dormisse durante toda a viagem e me cutucou até que eu cumprimentasse o rapaz.
Tal atitude dessa incrível mulher, que eu tenho a honra de ter sido gerada por, fez com que a minha vida mudasse significativamente e e ficasse com um ar mais provençal! Então agora, estou aqui, em Avignon, por causa da Sil, que me cutucou no avião. Bendita seja!
No avião Lisboa-Paris, portanto, eu estava com essa história na cabeça. E o avião estava vazio. Fiquei feliz ao ver que teria a minha cadeira mais duas apenas para pensar na vida.
No entanto, sentada lá, quase no fim do embarque, um rapaz de mais ou menos uns vinte e tantos anos se aproximou e indicou que se sentaria do meu lado. Tudo bem. Ele era muito alto, com traços bem africanos e carregava uma série de coisas. Não tive tempo de fazer muitas observações, pois logo que ele chegou, já pegou a outra cadeira vaga para ele e começou a dormir, me deixando meio sem jeito de mexer na minha cadeira. Pedi para o comissário para trocar de lugar, já que as saídas de emergência estavam completamente vazias. Assim, o moço teria o espaço dele para dormir, e eu o meu para pensar na vida. O comissário me pediu para esperar e dois minutos, depois falou que tudo bem. Levantei, peguei minha bagagem, dei tchau pro moço e troquei.
Estava bem feliz na saída de emergência, devidamente informada sobre como proceder em caso de emergência quando o moço se levantou da cadeira dele, veio até a minha cadeira e perguntou se tinha alguém sentado do meu lado. Eu disse que não. Ele pegou as coisas todas dele e veio sentar do meu lado também, ligando o computador e usando o espaço de apoio do cotovelo todo para ele.
Eu fiquei perplexa. O cara tinha três cadeiras só para ele. Eu tinha duas da saída de emergência. Por que ele viria sentar do meu lado, sem nem falar a minha língua, usando o computador e ocupando o espaço do meu cotovelo? Comecei a pensar que talvez ele tivesse me achado racista de ter trocado de cadeira, que talvez ele quisesse se exibir com o super Mac Air dele… enfim…
Chegando a comida, eu não gostava do iogurte oferecido… olhei pro lado… e, bem, usei a técnica mais ancestral para fazer amigos que consiste, basicamente, em oferecer um alimento ao outro. Ao mesmo tempo que ofereci meu iogurte, ele me ofereceu o dele. E logo em seguida falou alguma coisa em francês. Eu pedi para traduzir para o inglês, ele traduziu. E assim começamos a conversar.
Este moço era um jovem senegalês, estudante de ciência política em Paris. Ele falava, mais ou menos, uns seis idiomas diferentes, e tinha muita facilidade para explicar as nuances de cada um. Ao dizer que eu era advogada, tentei explicar que não trabalhava com mentiras. Geralmente, observo uma reação de susto e um pouco de desprezo em muita gente quando digo que sou advogada, então tenho tentado amenizar este preconceito com uma explicação rápida sobre o tema… Falei que um dos meus últimos trabalhos tinha relação com direitos autorais e ele me disse que teria que me indicar para a avó. O motivo: A avó escreveu um livro sobre como a vida poderia ser vivida sem a poligamia. Ela foi a primeira mulher de Senegal a pedir o divórcio. Ela não queria dividir o marido com outras mulheres e isso é bem válido! Achei surpreendente a história e triste saber que ela nunca ganhou um centavo com o livro, mas conseguiu espalhar o seu pensamento, o que, muitas vezes, é o melhor pagamento do escritor (não que o outro não tenha valor…).
Nossa conversa sobre poligamia foi longa e com opiniões diversas. Meu novo amigo era mulçumano, muito culto, muito simpático e não tivemos problemas em concordar em discordar. Situação semelhante ocorreu quando viajei Toronto-Vancouver do lado de um padre. Com quem, aliás, troco e-mails até hoje.
A ponto de pousarmos na bela e encantadora Paris, perguntei por quê, afinal, ele tinha resolvido sentar do meu lado depois que mudei de lugar. Ele disse que queria o espaço para as pernas. De fato, havia mais espaço! Comentei ainda que tinha ficado irritada por ele gastar o meu suporte para o cotovelo. Ele pediu desculpas e disse que não tinha percebido. Ele estava desculpado! Para mim, Sidy foi uma alegoria. O exemplo de como podemos mudar de opinião várias vezes. E várias vezes! E que seja sempre para melhor.
Era o prelúdio de uma viagem com muitas descobertas, eu concluía.
Ao chegarmos em Paris, outro amigo de avião, muito especial, me esperava com flores no aeroporto.