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Arquivo da categoria: Cidades

Quando as pessoas ajudam

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Em 2012 achei que seria uma boa ideia passar alguns meses na França aproveitando que minha vida afetiva se direcionava para lá. Para isso, eu precisaria tirar visto, me inscrever em uma escola, conhecer um pouco mais da língua, da administração, das possibilidades etc.

Naquela época entrei em contato com amigos de amigos que tinham vivido experiências parecidas. Nenhum deles me conhecia, mas todos foram muito receptivos para dar informações, conselhos, até ouvir desabafos.

Meus amigos, parentes, colegas de trabalho e vizinhos, todos vibraram com cada etapa que eu consegui superar para vir. Depois, quando consegui um mestrado, uma colega de trabalho da minha mãe, que nada me devia, corrigiu a formatação do meu trabalho e me deu conselhos preciosos para ter um dos melhores resultados da turma.

Passado o tempo, fui com a minha família brasileira para a Itália. Meu avô queria reencontrar as origens. Temos família vinda de várias cidades da Itália, mas o avô do meu avô era de uma cidade muito representativa pra ele. Foi por causa dele (do tataravô) que todo mundo da famiglia colocou « Henrique » no nome, até que a gente descobriu que o nome original dele não era Henrique, ele trocou de nome no Brasil. Mas, beleza. Vovô Henrique era de Porto Tolle, na Itália. Você já ouviu falar dessa cidade? Nem eu. Porto Tolle não é uma cidade muito turística e o acesso não é nada simples para quem não conhece, principalmente quando a gente está viajando com avós, pessoas que tem, naturalmente, a mobilidade mais reduzida.

Então fomos até Veneza, porque era a cidade mais próxima que conhecíamos para chegar até Porto Tolle, mas de lá, ainda era preciso pegar um barco, depois um trem, depois um ônibus para chegar no destino final. Muito complicado pra gente. Estávamos quase nos conformando com a ideia de morrer na praia (isso é uma expressão, tá?!) quando o pessoal do hotel comprou a nossa ideia de conhecer a cidade da família. Vários funcionários se engajaram em pesquisas, e um deles, em especial, ligou para todas as empresas de transporte para ver possibilidades de taxi, aluguel de carro, contratação de motorista, qualquer coisa que facilitasse, mas não fosse tão cara. Ele pechinchou até conseguir um preço aceitável e conseguiu. Por que ele fez isso??? Ele nem conhecia a gente, nem tinha obrigação contratual nenhuma. Bastava fazer o mínimo e tudo bem.

Em Porto Tolle, de novo, encontramos pessoas na praça. Que só de olhar pra gente já se dispuseram a falar todas as línguas possíveis para nos entender. Entenderam que estávamos procurando alguma notícia da nossa antiga família, do nosso avô, que saiu da cidade há 120 anos. Mesmo estando na porta de um velório, eles riam, explicavam e davam todas as indicações pra gente encontrar uma imobiliária que levava nosso sobrenome. Ao chegarmos lá, não foi preciso pedir duas vezes. Fomos recebidos como convidados especiais. Com um sorriso de orelha a orelha as pessoas nos mostraram suas famílias, contaram suas histórias, ligaram para outros parentes chegarem, nos levaram no cemitério e nos adicionaram em todas as redes sociais possíveis. Fizeram do meu dia um dos melhores dias da minha vida. Por pura gentileza.

Por que tanta atenção com gente que a gente nem conhece? Gente que pode não ter nada a oferecer em troca?

Onde foi que eu li que havia uma pesquisa (sempre uma pesquisa) dizendo que pessoas altruístas são mais felizes? No texto dizia que pessoas que fizeram alguma forma de gentileza ou trabalho voluntário nos últimos anos se consideravam mais felizes e com mais energia que as pessoas que viviam apenas pelas trocas mais imediatas? Tenho certeza que li isso e não faz muito tempo. Faz muito sentido. Tenho pena de quem age só por interesse, por vontade de levar vantagem ou por medo de perder alguma coisa. Se soubesse como a gente ganha sendo um pouquinho mais legal… Meu avô sempre foi desse discurso “é bom receber, mas é melhor ainda poder oferecer”. Desta vez ele ganhou muito! Todos nós!

Que pena que perdi o artigo que falava da felicidade das pessoas que ajudam. O que me sobra hoje são experiências reais, de pessoas felizes. Que apostam nos sonhos dos outros também!

Agora fica o desafio. Recebida a batata quente da corrente do bem, para quem irá a próxima boa ação?

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A casa ideal

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Quando me mudei para a França e entrei para a aula de francês, certa vez, a professora pediu para a gente descrever como seria uma casa ideal. Muita gente, e me incluo, imaginou a casa ideal com uma piscina, um jardim, um tanto de cachorros, uma cozinha grande etc… Fomos mais longe, inventamos um salão de beleza para a casa, uma biblioteca gigante, uma piscina de bolinhas, uma sala de cinema etc. Chegamos a colocar animais nos nossos parques particulares e recriamos imagens de casas e jardins megalomaníacos para colocar qualquer trabalho de Napoleão o Michael Jackson no chão.

Olhamos nossos desenhos e eles já beiravam o impossível, para não falar o ridículo. Quem, em sã consciência criaria e manteria uma casa tão grande, com tanta coisa para limpar, dar manutenção, cuidar, vigiar? Seríamos realmente felizes sozinhos num prédio construído pelos nossos caprichos?

Concluímos que uma casa assim não nos faria nada melhores. A gente nunca sairia de casa se morasse num lugar desses. Nunca faríamos novos amigos. Nunca encontraríamos a galera do clube, o pessoal do parque, o dono da venda da esquina… Ficaríamos cheios de manias.Até meio bobos. Seria uma vida mais solitária morar numa casa tão suficiente. Pensamos então que o grande seria fazer o exercício de inventar a cidade ideal. E não a casa. Só assim contaríamos com inúmeras interações humanas, novos caminhos para descobrir todos os dias e uma rotina ativa e saudável. Analisando bem, não há quintal melhor que aquele que dá pra uma cidade agradável de habitar.

Desde então, observo os lugares como se pudessem fazer parte do meu quintal. E trato as pessoas, como se fossem meus roommates. Afinal, não é isso que somos?!

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“A felicidade ou se reparte ou se perde”. da Logosofia

Ps. A foto que ilustra o  texto é de uma casa fofinha em Oslo, que fica de frente para o parque das esculturas!

Ps2. Já relatei este caso da aula de desenho de casas na página do facebook que mantenho com amigos: Vista da Cidade (aliás, nome de um antigo blog!)