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Arquivo da categoria: Cultura

O amante

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Um dia se conheceram e ela pensou ter sido por acaso.

Ele apareceu na hora certa. Quando ela mais precisava de algo diferente na vida. Com aquele jeito, aquelas palavras, a paixão foi fulminante. Era tudo novo. Ela nunca tinha escutado aquelas coisas antes. Ele sabia o que ela queria. Mais do que ela mesma.

Não demorou muito, ele ganhou alguns privilégios. Eles se viam várias vezes, se deliciavam juntos. Conheceram uma vida de prazer.

Então ela soube que ele não podia se dedicar à ela exclusivamente. Ele tinha outros compromissos. Não podia falar muito sobre isso. Mas faria o impossível para agradá-la. Ele disse. Ela se assustou. Mas confiou. Ele falava o que ela queria escutar. E ali, bastavam palavras.

Com o tempo e as dificuldades, ela entendeu. Ele precisava de mais poder. Precisava que ela o seguisse, que ela o ajudasse.

Alguns dias, ele chegava sorrateiro, chorava. Dizia que tudo iria mudar. Dizia que só queria ser diferente, que só precisava de tempo. Que seu amor era o maior do mundo.

Nesses dias, para ela, era como se seu coração respirasse aliviado. Eles se amavam onde estivessem. Ele gostava de vê-la ir à loucura. Arrancava sua respiração, arrancava gritos em seus devaneios. Era lindo, era surreal de bom estar perto dele. Ninguém mais poderia entender. Que homem, meu Deus, que homem !

Quando a questionavam sobre suas promessas vazias, ela dizia que tinham inveja, que eram ignorantes, que tinham medo dele. Explicava que tinha exemplos de seu amor. Mostrava alguns presentes. Algumas declarações, alguns feitos. Feitos que eram bonitos, válidos, mas sempre esporádicos. Parecia um projeto de escravidão. Ele servia pequenos sonhos e colhia sua servidão. Mas, não, claro que não. Ele queria o seu bem. Sempre quis!

Ela o defendia com unhas e dentes. Ninguém mais era como ele. Ela queria e precisava amá-lo. Ninguém mais a merecia. Sabia que lá fora, ninguém mais prestava e ela tinha certa razão nisso. Mas ele sim? Sim, sim, ele sim.

Em sua carência, ela se cegou. Muitas vezes, sentia que estava ajudando a construir algo. Que seriam mais fortes juntos. Mas ele a manipulava. Não cumpria as promessas. Não aparecia quando combinavam. Mas foi para isso que ela aprendeu a perdoar. Quando se encontravam, tudo era perfeito.

De tanto ser usada, ela perdia forças, energias, e a própria razão. Mas seu amor vingava. Era uma chama que ardia quente.

Na sua oratória, ele a conquistava como a viuva negra dá o bote em suas presas. Ser refém, para ela, havia virado um mérito. Ela não percebia o tempo passando, as oportunidades partindo, sua vida ruindo. Ele voltaria. Ele ajudaria. Ele iria salvá-la. Que parem com esse discurso absurdo! Ele era bom. Vejam só, ele é único !

Então um dia, ela ficou mal. Muito mal. Em seus delírios apaixonados, clamava pelo seu amor. Precisava dele, precisava de mais que suas palavras. Precisava de suas ações, de suas promessas em concreto. De sua vontade. De seu esforço.

Naquele dia, ele chegou propositadamente atrasado. E não se ocupou de pedir desculpas. Apenas se certificou do seu estado. Ela já não poderia mais dar prazer.

Então se foi enquanto ela agonizava.

E de longe, o populista ouviu a população flagelada gritar por seu nome. “Quando estiver melhor, eu volto”, explicou numa mensagem enviada mais tarde.

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Ps. Dedico este texto a todos os povos que sofrem com a hipocrisia de seus líderes e a todos que tentam escapar disso pacificamente. Que não seja este texto usado para espalhar ódio ou cinismo. Que sirva de metáfora para ponderarmos em relação a tantas circunstâncias abusivas da vida. Entendo que amar vai muito além de defender o que alguém está fazendo de errado. É também guiá-lo e cobrá-lo pelos acertos de forma severa, mas sensata.

 

 

D de Dior

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Desde que comecei a trabalhar para uma marca de roupas, o mundo fashion tem me chamado mais a atenção. E sim, é nessa ordem mesmo. Primeiro eu comecei a trabalhar para uma marca e depois a história da moda me atraiu.

Difícil admitir e fácil de observar, mas nunca fui muito ligada à moda. Tinha a impressão que isso estaria diretamente ligado a pessoas a)falsas b)chatas c)fúteis. Ignorava quase que por obrigação moral. Vestia-me com o que era possível. E ainda me visto. Mas tinha a ilusão que este mundo era mal frequentado. E, como todos os mundos, é um mundo que tem de tudo. Então eu gostava de algumas coisas, mas não buscava saber mais sobre. E me contentava com isso.

Das coisas que eu gostava, muitas encaminhava para a pessoa que conhecia do assunto, minha ex-chefe advogada, Patricia, que criou uma marca própria de roupas depois de se mudar para Dubai. De tanto mandar ideias e sugestões do que eu pensava que ficaria legal numa coleção, ela me chamou para trabalhar com ela, ajudar na comunicação e nas ideias. E que bom.

Diante deste novo desafio, algumas amarras tiveram que ser… desfeitas. E a busca por mais conhecimento sobre moda e história da moda me levou a um velho conhecido.

Dior. Sim, meu velho conhecido.

Dior não podia ser novidade na minha vida. Alguém que se chama Diorela não ousaria ignorar a existência de um perfume quase homônimo (na versão 2 Ls) da Christian Dior que, por mais forte e dor de cabeçudo que seja, ainda é um frasco que eu tento conservar na minha prateleira apesar de todo meu esforço e interesse pelo minimalismo.

Dentro do meu curso de História da Moda aprendi que foi Dior que retomou a cintura marcada ao foco da moda depois do livramento que Mademoiselle Chanel ofereceu para as mulheres do mundo com seus cortes retos.

Daí para frente, o universo conheceu uma feminilidade diferente que até hoje aceita críticas, mas ainda se delicia com suspiros e elogios de quem vê no design dos vestidos e roupas Dior algo a mais.

“Desenhei as mulheres flores”, dizia Dior no filme que hoje me levou ao cinema. Lá, sozinha, na última cadeira da platéia, me encantei com o sistema de produção da alta costura da marca.

Do designer italiano às costureiras de Paris, unidos ao estilista Raf Simons da Bélgica e seu braço direito, Peter, o filme mostrava o melhor dos mundos. E principalmente, os pequenos detalhes da criação que tanto fazem diferença no resultado final.

Detalhes como deixar que cada costureiro escolha o croquis que gosta mais para executar, pois isso faria com que trabalhassem melhor. O cuidado e atenção com o cliente. A simpatia e boa convivência entre a equipe. A busca pela estampa única, mas que também não deixe a roupa parecendo uma enorme melancia (cena do filme!). E o detalhe para o desfile: a escolha do cenário florido, nada mais conveniente para uma atmosfera Dior.

Dia e noite de trabalho intenso, sob a vigília do fantasma de Christian, que segundo os costureiros, nunca abandonou o atelier. É o que mantém a marca renomada no mundo da alta costura por mais de 50 anos.

Dirigir um filme que começa puro glamour e termina, atenção para o spoiler, entregando o lado humano de cada saia rodada da passarela não deve ter sido fácil. Saber medir a distância da câmera para a cena da reunião com advertências, para a produtora que tenta encontrar alternativas aos mandos do patrão diante de um telefone sem voz, para a assessoria de imprensa que corre, e o costureiro que apaga a última luz do atelier, é uma arte. O diretor Frédéric Tcheng teve um olhar que me atraiu muito, apesar de uma escolha musical inicialmente bem desconfortável, com o passar do filme, conseguiu me embalar melhor!

De mais a mais a realidade tem me atraído e tirado minha atenção da ficção.

Daí que de tempos em tempos eu até volte para o universo da fantasia, onde encontro metáforas, referências e as vezes até conforto. Mas por pouco tempo. Logo sinto saudade do que o mundo dos documentários, das pessoas reais e das biografias tem para ensinar ou oferecer. Na verdade, penso que se completam. E teimo em pensar até que se fizermos um esforço, veremos que são o mesmo.

Do lado do mundo real, vejo o esforço e o suor dos costureiros Florence, Monique, HongBo Li, Stephanie, Lilly, e tantos outros. O corte certeiro, a dor nas costas, a escolha da modelo, a adaptação do tecido, o vestido saindo do papel com muitas noites mal dormidas. Do lado fantástico, vemos as modelos girando, o batom laranja neon, as flores azuis em contraste com o vestido vermelho, o balanço das saias, os fotógrafos, as celebridades, o puro glamour. Não teria um se não fosse o outro.

Dior et Moi é um filme atraente. E que reconcilia com o universo da moda, mesmo sem nos convidar a dele participar. Me explicou muita coisa. Mostrou como amor ao trabalho faz toda a diferença apesar do stress. Esse filme me encheu de ideias. Uma delas, a de fazer um texto inteiro só com parágrafos começados com D. Essa letra tão linda, de Dança, Democracia, Deus, Dia, Doces, Delicadeza, Doar, Dormir. D de Dior.

Di-or.

“Aquilo que se faz com gosto todos o estimam” da Logosofia

Poema e Poesia

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O texto de hoje é o que inicialmente foi feito para uma postagem de divulgação de uma marca de roupas para a qual eu trabalho e amo, mas decidimos trocar o texto e eu não quero jogar fora isso, até porque realmente fiz pensando na marca e com muito carinho. Então o texto vai pro blog hoje. E é um texto em forma de poema. Aliás, você sabe qual é a diferença entre poema e poesia?

Eu já vi diversos lugares falando que é a mesma coisa, diversos lugares dando uma explicação mais técnica pela forma da escrita, mas a explicação que mais gostei foi de que poema é aquilo que foi escrito para ser bonitinho e poesia é aquilo que os outros acham que é bonitinho. Então, pra você não pagar de arrogante diga sempre que escreveu um poema, e cabe aos seus amigos dizerem se é uma poesia ou não. Haha!

Nesse mundo tão sofrido, quis pintar mais colorido

Desde qu’inventaram a roda, fui brincar de fazer moda,

mas se for só preto e branco, não tem graça, vou ser franco.

Com o meu lápis de cor, crio roupa com amor,

com o meu lápis de cor, nossa vida é indolor!

 

I could wish a less cold paint

for this world I like to invent

no more sorrow, pain will stop

with the rainbow I spread

We must love some color block

That’s the way my art is fed!

We must keep it colorful

to feel happy, to be cool!

Oslo!

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Passei seis dias em Oslo. Capital da Noruega. Nunca pensei na vida que um dia colocaria os pés na Noruega. Tinha uma boa impressão do país, principalmente em relação às ideias da Escandinávia e aos hidratantes labiais mas nada muito além disso.

Quando a oportunidade apareceu fui em frente. E lá estava, num dos poucos lugares onde eu poderia me considerar morena demais!

Muito embora seja pequena, Oslo tem problemas e soluções de cidade grande. Oslo tem metrô, trem e um sistema de ônibus que funciona impecavelmente. Todo mundo fala norueguês e inglês. Oslo tem restaurantes e lojas com um serviço razoável, mas poucas coisas artesanais, o que foi uma pena. Mas tem um porto e casas feitas de containeres, o que é genial! Para a lista de lamentações Oslo ainda tem muitos mendigos (uma surpresa, pois vimos que eles cogitavam inclusive proibir a mendicância – situação que gerou um estudo entre amigos!) e pessoas completamente dopadas pelas ruas. Nada do que citei é exclusividade de Oslo, mas são características que chamam atenção na cidade. Sobre a arquitetura, eu diria que é uma mistura da inglesa, com holandesa, com a contemporânea mundial. Mas não sou especialista, lembre-se!

Tive alguns pontos altos neste passeio. Um deles foi conhecer o navio do explorador dos Pólos, Roald Amundsem. Seu navio que chegou ao pólo Sul, chamado Fram, está inteiro dentro de um museu e lá podemos entrar dentro dele. É muito impressionante e bonito e impressionante de novo! Como alguém consegue convencer outros bons profissionais e viajarem com ele, colocando em risco suas vidas, seus casamentos e suas fortunas para ir pra onde? Pra um lugar cheio de neve, frio, gelo e ursos que comem gente!!!!! Bravo, Amundsen! Isso não é para qualquer um. Scott, o inglês que tentava o mesmo feito também quase conseguiu, mas a escolha de pôneis para puxar charretes no gelo foi menos acertada que a escolha de cachorros (como fez o norueguês).

Outro ponto alto da viagem foi conhecer o City Hall de Oslo, onde todo ano é entregue o prêmio Nobel da Paz. Um lugar magnífico. Como diria o prefeito da cidade, um lugar que por fora pode ter uma beleza questionável, mas por dentro deixa o que discutir. É maravilhoso! E tão especial…

Foi lá dentro que conheci pessoas nada menos que sensacionais, e que nos dias subsequentes nos acompanharam em mais turismo. Destas pessoas tirei algumas boas regras de como seriam as (minhas) companhias ideais para viagem. Características essas que todas reuniam, além de muita empatia!  1) Elas não eram “afetadas” com jeitos irritantes (pra mim) de falar ou manias de compras, 2) Tinham casos engraçados e/ou enriquecedores, 3) Sabiam ouvir também, 4) Tinham fome na mesma hora que eu, 5) Tinham soluções divertidas para problemas inusitados, 6) Tinham o caminhar na mesma velocidade média que o meu 7) Não ficavam xingando o Brasil a cada coisa boa que observam no outro país. Adorei!

Por último, três excelentes passeios foram no Vigeland Park, um parque cheio de estátuas feitas pelo senhor Vigeland; o Munch Museu, para conhecer o quadro grito e as noites estreladas de Van Gogh, infelizmente um museu ainda com a mania chata de proibir – inutilmente – fotos no local (talvez por trauma dos dois sequestros que o quadro de Munch já sofreu) e uma fazenda perdida nos arredores de Oslo, para onde fui sozinha apenas pra dar bom dia aos cavalos e as vacas. Que retribuiram!

Oslo é uma cidade cara, mas não é preciso gastar muito. Andar nas ruas é um evento, com lugares e gente bonita e simpática para apreciar. Pudemos aproveitar que no verão não anoitece por esses cantos. O que alterou completamente o nosso sono, mas foi divertido!

Não sei se um dia voltarei pra esse país. Mas é mais uma estrelinha no meu globo! E mais um coraçãozinho na memória. Noruega, sua linda!

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Ps. Este post faz parte da sequência de textos do meu projeto “33 textos antes dos 33 anos”. O texto também foi publicado no meu blog sobre serviços/turismo e boas impressões. Minha tia disse que não aguenta acompanhar todas as páginas que eu crio na internet. Então não vou nem comentar que em breve devo fazer um vídeo no canal do youtube sobre observações de Oslo!

O silêncio 

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Ontem meu avô pegou lugar no ônibus do lado de um francês. Ele queria muito conversar, mas o francês não falava português. Então meu avô me chamou para continuar o papo e fui lá me apresentar. Aproveitei para perguntar em qual cidade ele vivia na França, ao que ele sacou seu cartão de visitas e me disse que há 30 anos morava no Japão.

Uau, Japão, né… meu sonho é ir para Tokyo e entrar numa papelaria.

Só isso!

Minha conversa com ele começou por educação, mas ao falar do Japão, meus olhos brilharam. Foi outro dia que descobri que a partir dos seis anos de idade os japonesinhos aprendem a limpar tudo que sujam. No trabalho, são seres com incrível capacidade de concentração, organização e senso de utilização (minimalismo e qualidade total). Na arquitetura, desenvolveram as mais criativas formas de aproveitamento do espaço. No desenho, traços e formas que inspiraram o Impressionismo francês. É um povo que me atrai. Mas ao mesmo tempo, são pessoas que comem peixe vivo. Não há cultura perfeita. Uma realidade.

Contei que uma coisa que me intrigou nos japoneses que conheci foi a capacidade de fazerem silêncio. As conversas com eles eram seguidas de longos períodos de silêncio. Nós, na nossa cultura do « sem parar » temos horror ao silêncio. O silêncio é considerado constrangedor, errado, falta de assunto, falta de interesse, problema. Mas será que falar qualquer bobagem seria melhor que isso?

O colega de ônibus explicava sobre aquela cultura, « para o japonês o silêncio é uma reverência e uma arte ».

É tão elegante saber a hora de se conter, de dizer sem palavras, de responder com o silêncio. Tive a oportunidade de experimentar isso por vezes. Algumas delas diante de manifestações absurdas. Outras para grandes emoções. Outras para pequenas alegrias. Devo admitir que não domino essa técnica. Sou uma admiradora. Mas não domino. Por muitas vezes me pego contando casos sem graça apenas para evitar o silêncio.

“Repara bem no que não digo”, dizia Leminski. Seria tão mais fácil se a gente tivesse essa percepção melhor apurada.

Em 2013, depois de uma escalada com Alexis, nos vimos no cume de uma montanha numa ilha da Grécia. Sentamos no alto, vimos o céu, o mar, as árvores. O silêncio. Comentei que lá podíamos ouvir o silêncio. Dito isso, dois segundos depois meu telefone tocou. E no desespero de achar que era sobre o meu mestrado, tentei atender. Não consegui. Tentei ligar, não consegui. Tentei conseguir sinal, enviar mensagem. Matei, de forma irracional, aquele tesouro que havíamos acabado de encontrar. Passei a reparar que era quase impossível de perceber um silêncio assim novamente. Sempre há um som, mesmo que lá no fundo. Mesmo que vindo da geladeira, dos vizinhos. Sempre tem um som no ambiente.

Conheço mães de bebês dariam suas riquezas por um silêncio duradouro. Alguns escritores também. Penso que até médicos, advogados, dentistas. Com certeza dentistas! Precisamos equilibrar os trinados da vida com os respiros de sossego.

O silêncio total, no entanto, é uma mentira. Enquanto houver pensamento, o barulho será certo. O que precisamos, de fato, é de silêncio exterior, para ouvir, um pouco mais, o pulsar da nossa mente.

E não só de silêncio se fazem as sinfonias. O silêncio sem a esperança do som também não tem graça. Um dos meus maiores horrores é ficar perdida no Espaço Sideral, ou numa aula monótona.

O silêncio é bonito quando sabe sua hora. Na partitura de música ele recebe seus símbolos. Um deles tem carinhosamente o apelido de Zé Carioca, por lembrar um Z e um C unidos. Certa vez minha professora de piano elogiou uma interpretação. Foi um detalhe que aconteceu naquele dia. Enquanto eu tocava, antes do último acorde, fiz um silêncio maior.

Recomendo!

Isso também existe para a escrita e a fala. E como seria bom se eu pudesse usar com consciência. Ao invés de fazer meio sem querer como um dia no piano eu fiz. Na escrita, o silêncio curto pode vir na vírgula. O silêncio médio no ponto final. O maior na mudança de parágrafos. É preciso escrever muito para intuir esses momentos. E já deixo avisada uma coisa:

A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro. É uma arte. Saber a hora.

De calar.

Ensaio sobre a baranguice

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Estou em Oslo, quem diria, capital da Noruega! Nunca pensei que fosse parar aqui e nunca pensei que fosse encontrar uma parte da minha família aqui. E encontrei! Então essa é a hora em que eu devo fazer um daqueles comentários « nossa, como o mundo gira », « ai, como a vida me supreende ». E essa é a hora em que acontece de algum leitor rolar os olhos pra cima e suspirar um doce « não aguento mais ler essa baranga » enquanto fecha o notebook com a mão direita se for destro. Mas o que é ser barango pra você, meu filho? Você não acha que o mundo gira e a vida nos surpreende?

Essa questão tomou conta do nosso dia nessa cidade que não dorme (pelo menos no verão!). Ser barango é usar muitos clichês? É se vestir de oncinha? É se vestir com um número a menos do que ficaria confortável? Ser barango é se vestir diferentemente de como as pessoas esperariam que você se vestisse? Estaria esse conceito diretamente relacionado com o vestir ? Com o escrever ? Com o quê ?

Lembrei-me de uma conversa de restaurante que tive com o Airton. Já falei do Airton aqui neste blog. Ele é meu amigo há anos, desde que trabalhamos juntos em BH. Mas apareceu na minha casa em Avignon um dia em que pegou o trem errado pela Europa. Nenhum erro poderia ter sido mais agradável. Depois disso, passamos a contar um com o outro em momentos de apuros. Ele morando na capital da Inglaterra tornou-se um grande aliado para quando meu Hostel não parecia muito hospitaleiro.

Nesse dia, num restaurante londrino todo diferente, no qual a gente tinha que subir escadas sobre as mesas para chegar às nossas mesas, ele me contou aquilo que poderia ter sido tema para a minha monografia: como as pessoas se diferenciam umas das outras na Inglaterra.

Antes de continuar, preciso esclarecer que adoro a Inglaterra. Nem sempre foi assim. A primeira vez que estive lá, aos 15 anos, não curti a galera, por mais que fosse apaixonada com Spice Girls. Achei todo mundo rigoroso, metido e formatado. E achei que eles eram muito ligados à separação de classes : se você é rico você é legal, se você é pobre você não merece nada. Essa forma de pensar e a exatamente oposta a essa me dão um pouco de agonia.

Pois bem. Depois conheci ingleses legais. E resolvi dar uma segunda chance para o povo inglês. Great idea! Talvez eles tenham tido a mesma ideia, porque hoje tenho a impressão que nos damos bem. Passei a entender e respeitar diversos valores daquela cultura. Mas ainda vejo que é um universo que gosta de compartimentar os tipos de gente, pelo menos de uma forma mais explícita que vários outros. E rótulos assim, já dizia Gabi, são para geléias… mas uórever.

Airton me contou que hoje para o inglês não faz mais sentido julgar as pessoas pela aparência delas. Justo. Hoje o fast fashion fez da forma de se vestir algo universal. O pobre pode se vestir de rico e vice versa. O indiano se veste de carioca e a patricinha de cigana. Não há mais como saber. O que aparece diante dos nossos olhos é uma pessoa cuidadosamente vestida para fazer parecer o que é ou o que quer ser ou mesmo o que quer que a gente pense que ela quer que a gente pense que ela quer ser. Entende ? Não é como no período Rococó em que o bico do sapato denunciava quão « nobre » a pessoa era. Hoje todos temos acesso a todos os bicos de sapatos, marcas ou suas falsificações idênticas. Não vamos nos dar ao trabalho de procurar as coincidências nas estampas da Louis Vitton para sabermos se é uma bolsa real ou falsificada. Pelo menos, os ingleses não estão com tempo pra isso. Segundo meu amigo, eles arrumaram uma outra forma de etiquetar as pessoas. E essa forma está na linguagem.

Incrível!

A forma de falar sempre foi uma maneira de denunciar-se um pouco. Não à toa você conhece gente que escolhe não falar palavrão. Ou escolhe falá-los em algumas ocasiões especiais. Ou escolhe falá-los sempre. Tudo indica o que quer indicar ou que quer que você pense que quer indicar (eu sendo confusa e você já com a mão direita na tampa do computador, não ?!). Serve também para indicar a região de onde a pessoa vem, ou o grupo ao qual pertence ou quer pertencer.

Outras pessoas, decidem usar as palavras e expressões da moda. Enquanto os demais inventam ou revisitam (revisitar é uma palavra chatinha, né ?!) uma expressão já existente. Been there, done that, got the t-shirt. Claro !!! Faltava o « got the t-shirt » para ficar mais perfeito. Ou « faca de dois legumes » que minha mãe falava tanto que eu achava que essa era a expressão certa.

Para os ingleses, houve um tempo que aceitavam muitas palavras de origem francesa porque o francês era a língua da moda. Tudo que vinha da França era considerado chique. Então era comum usar expressões mais francesas para mostrar o status. Era. Hoje isso é visto como aquilo que algumas pessoas poderiam considerar barango.

« Mas então o barango é aquilo que já foi chique? », disse hoje minha tia ouvindo essa história. De certa forma sim. Não há uma regra na verdade. E a percepção de barango varia muito com o que você sente que é conveniente e o que você sente que não é. Há também a percepção daquilo que é tendência. E já reparei que é geralmente quando a coisa saiu de moda há muito tempo, mas começa a voltar de uma forma, digamos assim, revisitada (por favor, me passe um sinônimo pra essa palavra)! Em linhas gerais a gente concluiria que o barango está usando (mesmo que de forma verbal) o que está num passado recente da moda (moda sendo o que está em uso pela grande maioria das pessoas de seu grupo) e o que lança tendências é aquele que está sabendo encaixar algo antigo e demodé (mesmo que de forma verbal, de novo !) num contexto novo. Diferença até bem sutil, eu acho.

Talvez um dia eu faça um vídeo explicando as expressões que Airton me contou! Talvez eu precise reencontrar esse meu amigo para coletar mais informações a respeito. Vai que ele já mudou de ideia e eu estou aqui repetindo, barangamente, uma ideia retrógrada. Quem nunca?? Pois é, meu caro. O mundo dá voltas! A vida nos surpreende! E eu te agradeço, que até agora, ainda não tenha fechado esse computador.

Frio

PS: Este é o texto 2 do projeto 33 textos antes dos 33 anos. Obrigada!

Bloco do eu sozinho em outro país

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É comum ouvir de muita gente a afirmação de que Avignon é uma cidade hostil. De que é muito difícil fazer amigos aqui e de que nos sentimos sozinhos por muito tempo.

Tenho que concordar. Avignon foi a primeira cidade que me deu a sensação de solidão por um tempo maior que o normal. Nunca tinha experimentado isso antes, até porque sempre vivi rodeada da minha família. Nunca tive o desejo ou mesmo a pretensão de morar sozinha. Fiquei um tempo sozinha em Vancouver, no Canadá, mas não foi o bastante para me sentir sozinha. Em Avignon, mesmo morando com mais duas pessoas (Alexis e Pamela), percebo a solidão pinicar, principalmente quando eles não estão lá.

No livro « Clube dos Corações Solitários » que li coletivamente com meus colegas de último ano de Publicidade (beijo, Caricatura!), havia uma passagem em que a personagem saía pra um encontro, mas o homem só falava de si mesmo. Quando ela volta pra casa, e senta no meio fio, seu amigo pergunta como foi o encontro e ela comenta « você já se sentiu sozinho mesmo estando acompanhado ? ». É mais ou menos assim. Aqui na França, enquanto a amizade não pega no tranco, você pode estar em plena civilização, mas vai se sentir numa ilha deserta.

Estar só não é o problema. Pelo contrário, para pessoas como eu, é até recomendável. Preciso desse respiro. Mas também preciso do respiro das boas companhias! Segundo minha naturopata (uma profissão diferente que achei em Avignon, esse é um tipo psicológico equilibrado, o meu! Tive que dar um jeito de enfiar esse informação neste texto!). Mas estar só, e o pior, sentir-se só o tempo todo é pertubador. Sentir que, mesmo se você precisar, não terá ninguém. Poxa, isso não é legal. Pessoas morrem por causa disso.

Outro dia conheci um espanhol que estava fazendo teste para virar professor na Universidade de Avignon. Na minha ingenuidade achei que ele reunia todas as características de uma pessoa que teria prazer numa vida solitária. Mas não. Menos de 10 minutos de conversa, e ele já estava contando uns três casos de quando precisou de contato ou gentileza humana e não teve.

Foi morando na França que descobri que a gentileza não é a coisa mais comum do mundo. Eu achava que era normal ser gentil. Engano. Claro que conheço franceses muito gentis e fofos. Mas achei que fosse conhecer mais!

Já relatei uma vez que eu gosto de cuidar do jardim e dos gatos abandonados que moram perto da minha casa. Pois bem, dei um tempo de cuidar do jardim porque vi que era quase inútil. Quanto mais arrumava, mais sujeira aparecia. E umas sujeiras pesadas, estranhas. Fiquei um pouco frustrada. E isso me deu a impressão de estar sozinha. De ser a única a se importar. Mas continuei cuidando dos gatos. Outro dia apareceram na minha porta dois sacos de ração para gatos. Não tinha nome, nem bilhete, nada. Fiquei meio desconfiada, mas ao que tudo indica, era só ração mesmo (lembre-me depois de contar sobre a máfia das rações e a possibilidade de ter cães e gatos vegetarianos !). Essa pequena «gentileza » me deu um pouco mais de fôlego. E mais motivação para continuar o projeto.

Quando comecei este blog fiz um trato comigo mesma que não iria ficar falando de coisa negativa no blog. Não acho que esse tipo de mensagem leve a nada e só causaria mal entendidos. Então, por favor, leia este texto até o final para ver onde quero chegar e não ficar com uma impressão ruim (o muito ruim).

A hostilidade de Avignon existe. É fato. Costumo dizer que se não tivesse descoberto o grupo de couchsurfers, eu não teria amigos na cidade. Ou teria amigos que veria uma ou duas vezes por ano.

Tenho vizinhos que sequer respondem o « bom dia » que a gente dá. Outros respondem, mas a relação nunca passa de « como vai ? Olha que solão ! Ouvi dizer que vai chover ». Na época da Copa do Mundo foi maravilhoso, porque era quando as small talks (Silvinha me explicou que não é little talks !) duravam mais tempo : « E o Brasil, hein ?! Nossa, eles estão jogando um bolão ! ». Mas foi só a Alemanha devastar o nosso time que todo mundo passou a evitar esse assunto comigo e pronto, fiquei sem assunto de novo. Tenho uma vizinha que até hoje me evita… e eu não tenho certeza que é por causa da Copa do Mundo ou por ela me achar estranha mesmo (estranha onde???). Fato é que ela não me recebe casa dela nem quando eu estou com um embrulho de presente batendo na porta e vendo que ela está na sala assistindo televisão. Nesse nível!

Encontrar amigos em Avignon foi realmente uma das tarefas mais difíceis da minha vida. Sem amigos, eu costumava ver vídeos na internet para ouvir alguém falando comigo (olha que depressão) e as vezes pensava « nossa, que legal essa pessoa com tanta audiência! Ela nunca deve se sentir sozinha ! » (olha que depressão!!!).

Aí comecei a frequentar esse grupo de amigos de amigos que faziam couchsurfing. Comecei a aceitar couchsurfers também. E a fazer pão de queijo pra galera, brigadeiro, ser gentil por ser gentil. Passei a fazer o que a vida inteira me ensinaram a não fazer: conversar com estrahos! Mas estranhos com uma loucura que parece um pouco com a minha, Falcão! Chamar pra festas que tocam Macarena e Balão Mágico. E funcionou! Não com todos, mas com uma quantidade boa de gente com quem eu me identifico.

Hoje, na hora que eu quiser, tenho alguém para ligar, pra conversar, pra me dar conselho e até pra corrigir meus textos em idiomas não identificados.

Ainda por cima (amo essa expressão!), descobri grupos no whatsapp que aceitam estranhos e que se abrem para todo tipo de estranhos! Com gente do Brasil inteiro. A qualquer hora do dia ou da noite o povo tá lá no maior papo !

Mas é estranho! Ainda acho. Não ter companhias imediatas como vizinhos ou parentes. Mas beleza, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição, Amarante!

Lembrei que mini-solidões não são tão novas assim. Era normal quando eu mudava de escola, por exemplo. Teve uma vez que mandei um e-mail tão depressivo para minha amiga da escola anterior, falando da falta de amigos, que até hoje ela está escolhendo as palavras para responder.

Ou quando entrei pra faculdade de Direito, e depois pra outra faculdade de Direito. Mas no fim das contas, em todos esses lugares, fiz ótimos amigos depois de algumas semanas, quase todos rendem até hoje! Mesmo à distância.

O período de teste em Avignon foi o maior. E mais atípico. Era o lugar onde as pessoas torciam mais o nariz pra mim. E hoje eu mando tchauzinho pra elas quando começam a me julgar demais no restaurante! Ainda tenho momentos de solidão, mesmo com uma gatinha supercarinhosa e amigos muito presentes. Acontece! É por isso que sempre inventamos jantares vegetarianos juntos, noite de seriados, saídas para teatros, para ver eclipse, para caminhar, nadar nos rios, visitar museus, fazer aula de dança e doar roupas velhas. Descobrir os amigos que descobri em Avignon compensou os mais de 400 dias que passei na cidade, no bloco do eu sozinha, sem ter muita companhia. Eu convido você, futuro professor, a vir filosofar um pouco mais com a gente!

 

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OBS: Este texto faz parte do projeto 33 textos antes dos 33 anos!

Para ver vídeos que faço para um outro blog, clique aqui!

Sobre as fotos: A foto na mesa, embora não pareça, é sobre a chegada da primavera do ano passado, quando pudemos finalmente fazer algo ao ar livre sem morrer de frio! A foto das fantasias é sobre uma festa que na verdade não era à fantasia, mas três pessoas entenderam errado e foram fantasiadas, para não morrerem de vergonha todo mundo se fantasiou lá mesmo! A foto do coração é uma iniciativa linda da Sabrina Abreu ( #s2fragil ), e quem clicou foi a Livia Alen!