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Arquivo da categoria: Cultura

O que você poderia saber sobre Avignon antes de vir pra cá

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Quando cheguei em Avignon, há dois anos e meio, não sabia muita coisa. Achava que sabia! Mas nãaaa… Muita coisa que eu entendia como universal, não funcionava para a vida aqui. Muita coisa que eu não sabia que existia, passou a fazer parte da minha vida. Foi assim que, aos poucos, fui conhecendo e tentando entender melhor não só Avignon, mas também a França e, por mais incrível que pareça, também o Brasil e minha cidade, Belo Horizonte.

O tema Cidades é o meu preferido. Peter Smith do Guidebook da Vida Urbana disse algo do tipo “Quero estudar as cidades para entender a história da gentileza”.

Então, para quem está vindo a turismo ou para morar, deixo aqui algumas lições que aprendi na prática. Espero ajudar!

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  • Avignon é uma cidade em julho e outra nos outros meses.

Por isso, vou falar praticamente da cidade dos outros meses. Porque em julho tem o maior festival de teatro do mundo aqui e tudo vira festa! E é muito muito muito bom!

  • Você não achará táxi com facilidade.

Não é comum pedir táxi aqui. Eu mesma nem sei telefone de tele-táxi e quase não vejo taxi na cidade. Não sei se eles aceitariam fazer corridas por valores muito baixos… Só andei uma vez num táxi que encontrei por sorte na estação de trem mais distante e foi por causa do frio.

  • Programa no shopping é uma ideia que não existe.

Eu não tenho nada contra shopping. Acho até agradável andar em shopping quando não está lotado e desde que não seja a única opção de programa pros dias livres. Mas aqui essa ideia não é nem considerada. Os shoppings e centros comerciais até existem, mas eles nem tem praça de alimentação, nem são feitos para a gente reencontrar amigos. É apenas chegar, comprar e ir embora.

  • É mais fácil andar de bicicleta que de carro.

A cidade tem duas partes. A parte medieval, dentro dos muros e a parte industrial e residencial fora dos muros. Dentro dos muros os carros não cabem mais, mas eles entram. E ficam congestionados, as vezes até entalados mesmo nas ruas muito estreitas. Fora dos muros, ainda é possível fazer muita coisa de bicicleta e transporte público. Os carros fazem falta principalmente para viajar ou para grandes compras e mudanças. Mas se você pode dar preferência para a bicicleta, por que não?!

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  • Nem tudo é acessível para cadeiras de rodas ou carrinhos de bebê.

Simplesmente não sei como as pessoas que precisam de acessibilidade poderiam fazer para viver aqui. Não estou falando de órgãos administrativos, nem dos grandes teatros. Estou falando de entrar em restaurantes, visitar amigos e as vezes até andar nas ruas fininhas que nem calçada têm. A cidade é medieval e muitas coisas continuam com a mesma estrutura. Elevador é um conceito pouco visto na cidade.

  • Feiras! Muitas feiras!

Se você não gosta de feiras, Avignon é o lugar ideal para começar a gostar. Se já gosta, vai se esbaldar! Feiras de objetos usados, feiras de produtos naturais. Feiras de produtores que não destroem o planeta para ganhar dinheiro. Obrigada, França, por me fazer apaixonar (ainda mais) por essa ideia!

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  • Não é comum comer em restaurante todos os dias.

Comer fora aqui é muito caro. No Brasil, pode ser caro e pode não ser caro. Não adianta me dizer que é sempre caro. Quando eu trabalhava na Savassi, almoçava fora todos os dias, pratos deliciosos e não chegava nem perto dos preços daqui. Aqui, ou você compra um congelado, ou você aprende a cozinhar. Comer em restaurante todos os dias, mesmo para um turista, é uma coisa que pode ficar muito pesada.

  • Todo o comércio fecha depois das 19h. E nada abre domingo.

Isso está para mudar. Mas ainda não mudou. Depois das 19h só tem restaurantes. E mesmo restaurantes não recebem muita gente depois de 21h30. Se quiser chegar mais tarde, reserve antes. Se quiser comprar coisas depois de 19h, alguns mercadinhos árabes ficam abertos. Mas o que era aqui perto da minha casa já fechou…

  • Quando alguém te convida para jantar, não necessariamente será um jantar chique.

Acho legal que as pessoas convidem para jantares normais, sem grande ostentação. Mas geralmente a gente leva ou uma garrafa de vinho ou uma sobremesa (de preferência feita em casa). Eu adoro jantar na casa das pessoas, mas, cá entre nós, falando de brasileiro pra brasileiro : come uma banana antes de ir.

  • Não espere muita gentileza e civilidade urbana. Mas espere um pouco.

Aqui tem de tudo. Não é porque conseguiram se colocar no posto de « país de primeiro mundo » que já nascem educados e fofinhos. Por isso, quando vejo alguém falando mal do Brasil, penso que talvez essa pessoa devesse viajar mais. Aqui tem os mesmos problemas do Brasil, mas com mais dinheiro. Muitos jogam lixo na rua e a rua é suja. Muitos furam fila e acham que é normal. Muitos se recusam a prestar pequenos favores ou a dar informação. Muitas motos passam arrancando nossos tímpanos. A sorte é que não são todos. Muitos ainda são boas pessoas mesmo com estranhos!

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  • Não use salto em Avignon. Simplesmente.

Para andar na cidade o salto é muito desagradável porque há muita pedra e fenda nas ruas. Mesmo em ambientes fechados, não é muito comum ver gente de salto. Nas nossas festas, todo mundo que veio de salto teve que pedir chinelo emprestado. Porque pra dançar no taco daqui, sapato baixo era muito melhor. Mas isso não é uma regra absoluta, claro que para ocasiões especiais, tudo é possível.

  • Não confie nas pessoas da rua. Por enquanto.

Avignon já foi considerada a cidade mais delinquente da França. Descobri isso outro dia e fiquei muito assustada. Mas calma! Hoje ela é apenas a 14a mais pobre da França e diminuiu o nível de delinquência. Mesmo assim, além de ter muita gente na rua que até te segue para pedir dinheiro, com as mulheres ainda acontecem situações mais chatas. Existem, por exemplo, os « convidadores para sair » que costumam ser homens com aparência de educados que passam o dia na rua chamando as mulheres para beber algo com eles. Eles estão sempre na rua e chamam uma a cada cinco mulheres que passam pra sair com eles. Não sei o que acontece depois. Mas não recomendo confiar. Fora isso, os homens mexem com as mulheres tanto ou mais que no Brasil na rua. Outro dia, em uma hora de caminhada no centro de Avignon, contei cinco comentários hostis e um semi-simpático. É tanto abuso masculino que isso desencoraja as mulheres a saírem de casa. Nas ruas acaba havendo um desequilíbrio entre gêneros (e, aff, não só nas ruas).

  • O vento!

O vento aqui tem nome. Ele se chama Mistral. Isso porque ele vai entrar na sua vida e na sua casa e vai se fazer notar. No verão, ele é um bálsamo para o calor de 40 graus que enfrentamos. No inverno, ele testará as suas forças. Entrará dentro do seu casaco e congelará o seu sangue. Não há um ser vivo que resista a esse vento sem proteção. Por isso, no último inverno, acolhemos o máximo de gatos possíveis, que felizmente foram adotados. Luvas, cachecóis e gorros. Você vai precisar. E minha avó aceita encomendas, eu acho!

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  •  Programas ao ar livre em dia de sol!

As pessoas amam sair para sentar na grama quando o dia está ensolarado. E isso eu amo mais que tudo!!! Amigos e uma cesta de piquenique fazem meu dia mais feliz. Queira isso. Sempre! Na sua cidade também!

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  • Avignon não é uma pequena Paris.

A maioria das pessoas dessa região não é muito fã dos parisienses… Então não adianta fazer o discurso de que ama a França e falar de Paris. Eles podem entender mal. Em troca, Avignon tem lindos jardins e está numa região maravilhosa de produção de azeite, lavandas, mar de girassóis. Esteja preparado para ver coisas muito bonitas completamente diferentes de Paris. Mas é maravilhoso. Van Gogh se apaixonou pela Provence. Dê ouvidos à ele!

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  • Os restaurantes turísticos das praças mais turísticas: Evite.

Eles podem ser os piores possíveis, com a pior comida e o pior atendimento do mundo. Isso gera alguns traumas. Mas os outros são bons! Alguns dos meus preferidos são restaurantes de estrangeiros como caribenhos, vietnamitas, italianos, indianos, árabes, chineses e até ingleses. Os franceses também podem ser muito bons como o Offset (excelente o prato vegetariano), o Ginette e Marcel (para café), o Chapelier Toqué (comandado por um moço de Gana), todos os restaurantes vegetarianos, os dois kebabs da place de Corps Saint (que vendem kebabs vegetarianos e ganharam troféu Didi melhores Kebabs de Avignon), o sucão da rua De la Republique e todas as creperias e muitos mais!

  • Avignon não é uma cidade para fazer compras.

Se você vem a turismo, não escolha Avignon para fazer compras. Além de não ter tanta opção como muitas outras cidades, Avignon não é tão barata assim. Porém, tem lojas o suficiente para você, que vive aqui, poder se bastar sem ter que sair da cidade.

  • Muitos aluguéis em Avignon não contam o mês de julho.

Em média, por 450 euros mensais você consegue um quarto ou um estúdio ok em Avignon. As vezes, até com água, eletricidade e internet inclusos. Mas em julho os preços de aluguéis aumentam muito por causa do festival de teatro. Tente negociar antes de fechar o negócio. Alguns amigos conversaram com os proprietários dizendo que só aceitariam o aluguel se pudessem ficar pelo mesmo preço no estúdio ou quarto em julho. E conseguiram!

  • Quanto menos industrializado, mais apreciado.

Embora possa parecer um exagero algumas vezes, esse é um ponto que reconheço cada vez mais como certo. No mundo de hoje, a cada vez que você compra uma garrafa de leite normal, você está contribuindo para uma indústria nojenta que desrespeita a vida e a natureza ao máximo. Além disso, o que é feito apenas pensando no lucro, nem sempre leva em consideração a saúde do consumidor. Mas os abusos não ficam apenas na indústria alimentícia do discurso francês. Indústrias têxteis, farmacêuticas, cosmética, de entretenimento, da construção e até de eletrodomésticos também jogam (MUITO) sujo. Reflita!

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  • Nem todos os passeios para turistas aqui valem a pena.

Mas, bom, é você que sabe. Eu ia até enumerar alguns, mas pra quê, né ?! Você é que sabe mesmo! Fora que eu tenho amigos que são guias e são uns fofos! Se estiver de bom humor e em boa companhia, tudo vale a pena na verdade. Vou apagar esse tópico. Não, não vou não. Apenas leve em consideração!

  • Se você vem para estudar, a faculdade é linda, tem coisas muito legais, esportes e atividades variadas, mas tem suas peculiaridades também.

Vai com calma. Respire fundo. Se precisar, estou aqui.

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  • Avignon tem uma vida cultural muito legal!

Você pode ter coisas legais para fazer todos os dias! Aulas de dança gratuitas, restaurantes em que você paga o quanto quiser, shows de todo tipo de música, teatros, cinemas não comerciais e maravilhosos, exposições, festivais, encontros de amigos, tardes de tricot, rodas e conversas sobre temas sugeridos, patinação pela cidade, grupos de jogos, e até noites de forró. Basta procurar em sites como Le Bon Plans d’Avignon, eventos de Facebook ou mesmo o meu recém-nascido Découvrons Avignon!  Apesar disso, grande parte da população vive uma vida meio reclusa, só no videogame, seriado e fast food. É uma contradição. Até com o próprio clichê francês! Mas que existe para todo lado.

  • Os horários para comer são mais estritos.

Se você tiver que comer fora, é bom almoçar entre 12h e 13h20 da tarde. Depois fica arriscado não encontrar mais restaurante (francês) aberto em Avignon. Não é comum comer entre as refeições, por isso não é tão fácil encontrar lugares para lanchinhos na parte da tarde. Não existem pequenos sanduíches. Todos são grandes porque são feitos para substituir uma refeição. Logo, não existe nada pequenininho como uma empadinha, coxinha, juscelino, enrolado, charuto, pão de queijo, bolinho… Que saudade do Brasil!

  • Disputas políticas e tensão no ar.

Há uma grande rivalidade entre direita e esquerda atualmente (nossa, que país diferente!). Nem todos os moradores daqui gostam de estrangeiros. E nem todos os estrangeiros que moram aqui gostam do pessoal de Avignon. Há um clima tenso no ar. E muito delicado. Enquanto algumas pessoas picham palavras de ódio nas paredes, outras  fazem intervenções urbanas para falar com humor da situação crítica. Por isso, se você vier (ou mesmo se não vier), apesar de todos os problemas que encontrar, tente trazer um pouquinho mais de amor, de tolerância e de paciência, ok?!

IMG_7908(amigos do grupo de Couchsurfers, que se reune todas as quartas em Avignon, experimentando pão de queijo)

 

IMG_9455(minha gatinha e as flores do canteiro!)

O Baile dos não apaixonados!

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Uma das melhores coisas que já encontrei em Avignon foi o Baile dos Não Apaixonados!

Todas as segundas-feiras há uma oficina de dança diferente com danças medievais ou tradicionais de uma parte da europa e do mundo. Sabe aquelas danças de Orgulho e Preconceito, Shrek e outros? Pois é! Nas primeiras sexta-feiras de cada mês, a mesma associação promove um baile em algum lugar fofo ou de Avignon ou de cidades próximas. Adoro que o nome desse baile seja dos Não Apaixonados! Chega de fazer tudo pra paquera, meu povo!

Já fiz aula de dança irlandesa, italiana, espanhola e atualmente estou fazendo dança occitane! O ambiente é uma delícia, com pessoas de todas as idades e profissões. Fora que é muito engraçado, porque como ninguém é profissional na dança, cada um faz do que jeito que pode, não necessariamente do jeito certo.

Há um capítulo de Friends que eu amo, em que a Monica tenta fazer aula de sapateado e não consegue dançar como a professora. Desculpe o spoiler, mas o final deste episódio, para mim, é uma das melhores lições de vida. Ela desiste de dançar com perfeição e começa a dançar como pode. A professora avisa “ei, você está fazendo tudo errado” e ela “pelo menos eu estou dançando”!

Leva isso pra sua vida!

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Se quiser ver meu post sobre o assunto em francês (meu francês é como minha dança, sai o que é possível sair!), estou fazendo um blog sobre descobertas em Avignon, o Découvrons Avignon!

Os problemas do meu país e os meus problemas, sem entrar em detalhes

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Saiu um texto sobre os cinco sinais de que você deve passar um tempo fora do seu país. Um dos sinais que acho mais explícitos de que a pessoa precisa passar um tempo fora é quando ela começa a colocar a culpa de tudo no país ou na cidade dela (ô, já passei por isso). Não tem trabalho: ê Brasil. As pessoas são sem educação: só no Brasil. O tomate está caro: coisa do Brasil. A violência parece crescente: é o Brasil. Ninguém arruma namorado: os brasileiros não querem namorar. O custo de vida é elevado: só podia ser no Brasil. Enfim, as desculpas de sempre.

Tenho muitas críticas ao meu país ainda, mas descobri que muitas delas não eram cabidas apenas ao meu país e que algumas não eram nem mais cabidas ao país, mas a mim mesma como cidadã sem atitude suficiente.

Por que esperar do governo federal, estadual ou municipal tudo? Sei sua resposta. Você diz que é porque trabalha e paga seus impostos. Justo. Muita coisa não está a seu alcance. Você não pode promover a segurança da cidade. Mas pode incentivar a gentileza urbana, os bons modos no trânsito, a educação dos seus filhos, sobrinhos, primos e amigos. Isso é uma forma de contribuir para a diminuição da violência, sabia? Você também não pode construir um hospital, mas pode ir para o trabalho à pé, ou de transporte público ou de bicicleta a fim de desobstruir as vias de acesso a hospitais e centros de atendimento para quando algum amigo, parente ou mesmo desconhecido precisar. Você também pode criar o bom hábito de lavar as mãos antes das refeições, comer direito, praticar esportes e o bom humor, tudo faz bem pra saúde! Além disso, pode evitar acidentes protegendo tomadas, não raspando dois fios ao mesmo tempo, não dirigindo bêbado e deixando o cabo da panela sempre virado para dentro! Você jamais poderia criar parques na sua cidade, mas pode limpar a sua calçada, pode plantar uma árvore no meio de um matagal que você também pode cortar. Você pode adotar animais de rua, ou pelo menos criar alternativas inteligentes de alimentá-los com os restos da sua comida. Você pode chamar seus amigos para piqueniques que dêem valor a pequenas áreas verdes, e pode até revigorar pequenos jardins pela cidade. Isso vai te custar um saco de lixo e um par de luvas (mas você pode usar sacos plásticos como luvas). Essas coisas simples não tem CEP e são tão possíveis na França quanto no Brasil.

Eu sei, no Brasil você não tem tempo. E tempo é um luxo mesmo. Agora que eu moro fora percebo como perdia tempo no Brasil fazendo coisas que não precisava fazer com tanta frequência, como fazer a unha toda semana, passar mais tempo olhando pro telefone que para a vida da sua selva de pedra, passar mais tempo pedalando na bicicleta ergométrica que andando na rua com o cachorro, passar mais tempo lamentando por gente que não te faz bem que celebrando a companhia de gente que te quer bem! Claro, você não deve ter perdido tempo como eu. Você deve ser muito mais esperto e muito mais ativo. Nesse caso, nem se preocupe! Você já é ótimo! E se você é tão ótimo assim e é brasileiro, uau! Então meu país está cheio de gente boa! Mais um motivo de alegria e de honra para o meu país!

Aqui, deixo o link do texto que inspirou esse meu outro texto.

 

E por aqui, deixo um videozinho de ontem! Que gravei com o celular virado de novo… estou muito desacostumada.

Sobre eventos sociais e algumas percepções

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Sobre eventos sociais e algumas percepções

Houve uma época que eu pensei que detestava festas! Que nunca valeria a pena sair do meu canto para nenhum evento social porque sempre existiam muitos protocolos difíceis de seguir.

Nunca fui aquela garota sexy segurando a taça de champagne e isso parecia não caber no mundo. Até que conheci uma turminha boa de amigos que me fez perceber que qualquer desculpa é boa para estarmos juntos ! E, com sorte, dançarmos um pouco!

Este texto é uma análise pessoal de experiências e observações sobre eventos sociais.

Tudo começa no convite. 

Outro dia um amigo brasileiro que mora aqui em Avignon nos convidou para um piquenique de aniversário. Devo dizer que atualmente essa é uma das minhas formas preferidas de comemoração de qualquer coisa : piquenique ! Natureza, esportes ao ar livre, comida na toalha quadriculada. Amor eterno.

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Ele fez daqueles convites pelo facebook e eu me lembrei de algumas práticas que quero compartilhar. Nem todo mundo tem facebook ou olha o facebook com frequência, então, se você quer mesmo que alguém vá no seu evento, ligue, mande mensagens por outros lugares e confirme a presença!

Em convites públicos para aniversário como e-mails em que todo mundo vê o nome de todo mundo ou mensagens no facebook em que todos lêem tudo, acho de bom tom que, se você não puder ir, que mande uma mensagem particular para quem convidou. Já reparei uma tendência no mundo que é que quando muita gente começa a dizer que não vai, outras pessoas ficam com preguiça de ir « num evento que não vai ninguém » e desmarcam também. Se você informa discretamente que não vai, esse perigo diminui.

No lado contrário, se você informa a todos que vai, acho que estimula ainda mais a participação das pessoas (a não ser que você seja muito chato). Uma colega fez uma coisa muito fofa: No dia do piquenique, o céu amanheceu cinzento e feio. Ela mandou uma mensagem para todos assim « O céu está cinzento, parece que vai chover um pouco, mas não importa, eu estarei lá ». Isso foi bem motivador e muita gente que pensou em desistir, desistiu de desistir. Que preguiça de gente que precisa de condições perfeitas para sair de casa.

Um pouco de ajuda conta muito.

Outra coisa que reparei na Europa é que as pessoas aqui se oferecem frequentemente para ajudar nos preparativos dos eventos. Em abril fizemos uma festa surpresa para um amigo marroquino. O combinado era que eu deveria chamar o amigo com a desculpa de que tinha outro amigo marroquino para apresentá-lo e ao chegar na minha casa, todos já estariam aqui. Marquei com todo mundo 20h, tendo chamado o amigo 20h30. Às 20h da noite só haviam duas pessoas. Mas às 20h10, éramos 30 enchendo balões e arrumando tudo. Durante a semana precendete, muita gente me procurou para saber o que poderiam fazer para ajudar na festa. Eu não precisava de muita coisa, mas tudo que pedi, eles fizeram!

No fim de toda festa é de bom tom dar uma ajudinha ao dono da casa. Não é preciso muito. Lave um ou dois copos, passe um paninho no chão. Leve o lixo pra fora, separe os vidros, guarde o que estiver limpo. As pessoas aqui tem por hábito fazer essa pequena faxina antes de se despedirem, coisa que eu não tinha muito costume, admito. Por isso todas as festas que fiz aqui em casa foram leves porque não me custaram caro (cada um trouxe o que queria comer ou beber) e todos ajudaram na arrumação inicial e final. Depois que foram embora, a casa estava limpa e habitável!

No Brasil, também tem pessoas que tem essa percepção. Minha avó gostava de fazer pães de queijo aos domingos para toda a família. Com a idade aumentando, as dificuldades motoras também foram crescendo. Muitos dos meus tios e até primos, sem que fosse pedido, passaram a chegar mais cedo na casa dela para ajudar a limpar, fazer a massa dos pães de queijo e arrumar a casa, de forma que ela podia continuar as reuniões de domingo sem sentir o peso que a idade naturalmente traz.

caiu vinho no chao

 

Pontualidade!

Não é preciso chegar na hora exata (salvo no caso da festa surpresa porque era cronometrado mesmo). Mas atrasar mais que meia hora é falta de educação, vai! Ainda mais quando é jantar e você deixa as pessoas morrendo de fome, a comida esfriar… não é muito legal!

O contrário também acontece. As pessoas te chamam para almoçar meio dia e a comida só sai 4h da tarde. Isso me mata porque eu não consigo despistar a fome com amendoim e cerveja, numa boa!

Aqui na França, a pontualidade não é absoluta, mas quem chega atrasado, já chega pedindo desculpas. No Brasil essa prática é quase uma instituição. E não é legal. Além disso, tenho a impressão que tem gente que gosta de chegar atrasado só pra causar um efeito na hora que chega, como se fosse uma celebridade no tapete vermelho. Fala sério !

 

As comidas e bebidas preferidas

Uma coisa fofa dos brasileiros é se preocupar com o que os outros comem. Ao me convidarem para jantares no Brasil, muitas pessoas procuravam saber se eu comia carne, que tipo de carne, essas coisas, para preparem algo que fosse agradar. E até para não passarem pelo constrangimento de uma pessoa ter um ataque de alergia durante a refeição. Algo que acontecia muito na minha adolescência era que, como eu não gostava de refrigerante (e até hoje não bebo), ao almoçar na casa dos amigos, eles sempre advertiam suas mães para ter outra coisa pra beber. Seria simples se me dessem água, mas a cena que se repetia era. « O fulano me disse que você não gosta de refrigerante, então eu fiz uma limonada especialmente pra você ! ». E eu lá, bebia a limonada com cara boa, mesmo sem gostar de limonada! Aqui na França, com o tempo, as pessoas entenderam que sou chata com carnes e passaram a perguntar o que eu gostava de comer. Olha que legal! A minha chatura está tornando as pessoas mais fofas !

Músicas

Na minha opinião, uma festa com música boa não toca  apenas músicas da moda. Tem pra todo gosto. O que a gente faz aqui é que cada um vai no computador e seleciona uma música que gosta por vez. Como somos pessoas do mundo todo, geralmente no final da festa, pedimos cada um para colocar uma de seu país. E com a música, cada um ensina a fazer a dancinha do país. Da última vez, um convidado siriano nos surpreendeu com suas danças típicas e com a beleza de suas músicas. A gente conhece as tragédias do país e esquece que  em todas as culturas existe uma beleza, uma graça, que é o que conta para cada um. A amiga peruana colocou uma música que dançam com fogo, mas obviamente que a gente não imitou da mesma forma! Com o irlandês, sempre empolgamos nas músicas de  Riverdance! Com a grega, sempre dançamos zorba. E assim vai do Brasil à Russia, a gente dança e ri a noite inteira. É uma delícia essa turma !

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A  jogatina!

Muitos eventos como jantares, aniversários ou mesmo festas aqui na França tem um momento com jogos. Há um enorme gosto para jogos aqui na Europa. E eu aprendi alguns realmente divertidos. Os jogos podem ir desde mímica, imagem e ação, dança das cadeiras, até coisas mais elaboradas como caça ao tesouro ou desvendar um mistério criado especificamente para a situação. Tenho um amigo que de tanto jogar essas coisas, virou um profissional dos jogos e hoje ele tem uma associação que oferece uma vez por mês em Avignon uma noite de jogos para a população pelo custo de 3 euros anuais para adesão. Ele faz reuniões com a prefeita, com associações de bairro e escolas para elaborar as atividades. Acho isso o máximo!

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Todo mundo conversa com todo mundo.

Uma coisa que me irritava no Brasil é que eu tinha a impressão que as pessoas só faziam eventos para paquerar. E depois que elas tinham namorados, cônjuges e tal, paravam de fazer eventos com os solteiros para fazer somente eventos entre casais e comentar sobre a vida de casal. Enfim. Aqui também existe muita paquera, claro, o ser humano parece que não consegue ser feliz sozinho (brincadeira!). Mas há uma abertura maior para conversar com todo mundo, de criança a velho, de estrangeiro a nacional, sem importar muito se você está de decote ou não, se tem olho claro ou não, se é rico ou não, empregado ou desempregado. Somos todos interessantes! Desde que sejamos capazes de nos comunicar, por que não podemos conversar apenas para conhecermos uma pessoa a mais ? Que aflição de um mundo onde toda conversa tem que ter segundas intenções.

Nem tudo precisa ser churrasco 

No Brasil, um dos eventos que mais gostamos de fazer entre amigas é o brunch (aquele café da manhã que emenda com o almoço). Acho uma delícia e depois ainda sobra a tarde para fazer outras coisas.

Também gostamos muito de fazer noite de comidinhas enquanto a gente passa creme na cara e assiste filmes. Ou uma rodada de crepes onde cada um monta ou seu. Tem tanto jeito legal de reunir!

Do meu gosto pessoal, não sou muito fã de churrasco. Geralmente o evento deixa um ranço de gordura na pele e o fato de comer tanta carne me parece muito estranho. Mas como você já sabe, eu sou chata com carne. Flexitariana, para quem entende do assunto !

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Se você confirma, você vai.

A questão é simples : se você for num evento, confirme por educação para que o anfitrião possa se preparar para a sua presença (ui!), se você não for, diga que não pode. Não precisa dar a explicação completa, é só dizer que não pode e pronto. Sou a favor de reduzir o tanto de explicação que damos sobre a nossa vida para os demais (desde que realmente não tenhamos feito mal pra ninguém). Quanto mais explicamos, mais perguntam e mais palpitam, por melhores que as pessoas sejam.

Minha amiga Silvinha postou uma frase que a Liz Gilbert (aquela do Comer Rezar Amar) escreveu « As pessoas vão parar de te fazer perguntas se você começar a responder com danças interpretativas ». É bem por aí, tanto pra acabar com a mania de cuidar da vida dos outros, como para acabar com a mania de dar explicações demais sobre a sua própria!

Sobre as confirmações de presença, eu ainda tenho outra angústia: Pessoas que confirmam a presença numa festa e não vão. Simplesmente, parem de confirmar! Isso não é exclusividade do Brasil, infelizmente, mas é algo muito feio em toda parte. Aprendi a identificar essas pessoas rapidinho. São aquelas que estão sempre com dor de cabeça, dor de estômago, dor de cotovelo, problemas insolucionáveis. Tem gente que tem a ousadia de dizer que foi parar no hospital (e usam essa desculpa várias vezes). Que feio ficar brincando com doença assim só pra não ir numa festa. É preferível não confirmar e aparecer (levando o que for comer e beber) que confirmar e não aparecer.

 

Tudo bem se ninguém for na sua festa

Já tive muitos eventos fracassados. Já convidei gente da turma inteira de faculdade (que confirmaram) e no fim foram só quatro pessoas. Essas situações são muito chatas, mas acontecem. Não é culpa sua. Mas de fato é uma arte saber a quem convidar para seus próximos eventos. E quando convidar.

Aprendi que as vezes convidar na última hora é melhor do convidar com muita antecedência, pois as pessoas esquecem. Também pedir para elas levarem os sucos ou darem carona para outros ajuda a criar uma « obrigação de não desistir »para os que não são muito muito fiáveis nesse ponto.

Agora, se você preparou uma festona e ninguém foi, tenho uma dica: entre no grupo de couchsurfers da sua cidade e chame os couchsurfers pra sua festa. Geralmente funciona!

A hora de ir embora

Interessante esse blog chamar saída à francesa. Na França não existe saída à francesa. Eles chamam sair sem despedir de saída à inglesa! Mas eu adoro essa técnica quando o ambiente está muito cheio e você não é dos convidados principais (e nem tem ninguém contando com a sua carona).

Outro dia, estava numa festa ótima de despedida de brasileiros e espanhóis. Ótima ótima mesmo. Comida boa, música boa, papo bom, ambiente gostoso. Mas aí me veio ela : a sensação de estar no lugar errado. Não sei se alguém entende bem o que é isso. Pode estar tudo perfeito, mas de repente você sente que deveria estar em outro lugar. Tive que ir embora, mesmo deixando muita coisa legal pra trás. E saí sem despedir, e até meio triste, saí de fininho, já com saudade daquele povo. Imagino que a morte seja um pouco assim também.

Mas se você não tem que sair de fininho, pode despedir. E se você quer sair mais cedo, pode despedir também, principalmente do dono da festa. Antigamente eu tinha o hábito de fazer um drama quando alguém ia embora, como se a saída de uma pessoa fosse arruinar a minha festa. Aprendi com a Luiza Voll a ser diferente. Se a pessoa quer ir embora, ela não pergunta motivo nem nada, ela dá um abraço e agradece a presença. Grande garota!

 

Os chatos das festas

Não concordo com a idéia de que toda festa tenha um chato, mas concordo que quando ele existe, ele se faz notar rapidamente. Pessoas que falam muito perto das outras, pessoas que encostam demais, pessoas que só falam delas mesmas, pessoas que ficam de bico, pessoas repetitivas, pessoas que bebem demais e começam a agir como dementes, pessoas que bebem e começam a ofender as outras, pessoas que trazem maconha pra festa, pessoas que se acham muito gostosas, e agora os novos chatos : pessoas que ficam olhando pra tela do celular a festa inteira, pessoas que fazem selfies de dois em dois segundos, e os « jornalistas de rede sociais », que ficam reportando tudo sobre a festa no twitter, facebook ou whatsapp. Se sua vida está tão legal, por que você não sai da internet?

Os melhores convidados

Se você foi convidado para uma festa, certamente não  porque alguém queria te dar alimentos e bebidas, e sim porque você foi considerado interessante o suficiente para acrescentar para um ambiente. Olha que honra !

Meu pai uma vez relatou sobre uma amiga de oitenta anos que estava com ele num casamento. Num dado momento, ela se levantou da mesa em que estavam e chamou a todos para dançar. Com o espanto, ela respondeu « Não estamos aqui só para comer, vamos participar da festa! ».  Se está na chuva, é pra se molhar! Eterna admiração pelas pessoas que sabem alegrar os ambientes!

Se você não souber dançar, não é problema, ainda pode ficar no meio da pista dando mini-pulinhos, ou fazendo as danças erradas mesmo, pois ninguém está te dando nota pelos passos. Mas se não quiser, pode se oferecer para fazer caipirinhas, servir os salgadinhos, contar piadas para o amigo da perna quebra, ou tomar conta da fila do banheiro e conversar animadamente com as pessoas. O importante é cuidar para não deixar perder a animação do evento. Isso não é obrigação apenas do anfitrião, é de todo mundo que está lá!

Não é preciso bancar a festa inteira

Aprendi com os amigos que para fazer uma boa festa não é necessário gastar muito dinheiro. Geralmente o que precisamos é de uma caixa de som, guardanapos, copinhos, pratinhos e garfinhos plásticos. Uma caneta para anotar em cada copo e pratinho o nome das pessoas (para elas não perderem seus pertences e pegarem outros), alguma bebida e alguma comida. Não precisa ter a quantidade suficiente para todos, podemos pedir que cada pessoa leve um pouco de comida ou bebida ou os dois. Geralmente, sempre trazem o suficiente e acabamos conhecendo pratos diferentes e deliciosos, principalmente aqui que vem gente do mundo todo!

Meus pais e avós acham falta de educação convidar as pessoas e pedir para elas trazerem as comidas. Realmente, se for um evento formal, tipo um casamento, isso não é muito bem visto. Mas para uma festa de celebração da primavera, por exemplo, tudo bem! E quem se sentir ofendido com isso, é só não comparecer na festa! Com essa forma de reunir as pessoas, fica muito mais fácil nos reunirmos e muito mais barato, o que torna possível fazer festas com mais frequência.

Copinhos

A vida não é só festa… 

Mas, não, a vida não é só festa, claro. E não fazemos toda semana. Até porque, festa o tempo todo também cansa e fica meio sem sentido.

Mas quando estamos longe de casa, das nossas origens e de outros amigos tão queridos, uma das melhores idéias para espantar o banzo é se encontrar! Mas sem sermos escravos de eventos sociais, porque a vida vai muito além disso.

Não sou a pessoa que entende mais de festas no mundo.  E certamente que não faço questão de ser. Porém, tive algumas boas experiências em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Vancouver e Avignon. Posso garantir que as melhores festas que frequentei na vida foram feitas de idéias simples que reuniram pessoas legais. É sempre assim! Se quiser fazer uma festa boa, chame pessoas diferentes de você, de todas as idades e nacionalidades. Agregue ! Foi assim que aprendi com meus avós que faziam macarrão e pão de queijo e chamavam todo mundo que eles conheciam para comer junto. Foi assim que aprendi com as melhores pessoas que já conheci.

Amigos5abril2014

Abaixo, deixo alguns vídeos (gravados da forma errada) das nossas festinhas!

http://www.youtube.com/watch?v=zwDoHNJGrq4 (Avignon)

https://www.youtube.com/watch?v=neJGW2a6uOc (Vancouver)

https://www.youtube.com/watch?v=H9S0ErjUhOc (Rio de Janeiro)

Ps. As fotos que ilustram este post foram todas tiradas por amigos: Manuel, Gabrielle e a foto do Brasil esqueci qual das meninas tirou, provavelmente foi uma máquina da Jaque!

O manual da minha visita ideal

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Tem muito tempo que estou querendo escrever sobre isso, mas nunca acho que é o momento adequado. Isso porque toda hora ou alguém acabou de chegar aqui, ou acabou de sair, ou vai chegar, ou vai sair… Fica parecendo que é uma indireta para essa pessoa. E não é. Não é indireta para ninguém. É uma direta mesmo!

Eu gosto muito de visitas! Acho que elas alegram o ambiente e trazem formas diferentes de ver a vida. No entanto, também penso que alguns limites sejam saudáveis, por mais que eu queira que as visitas fiquem à vontade, também não quero parar de me sentir bem na minha casa. Então, segue a lista, que acho que funcionaria bem comigo.

1)   A visita ideal tem dia para chegar e dia para partir.

Por uma questão de organização, é importante saber esses detalhes que podem ser reajustados conforme as circunstâncias, mas, por favor, me passe as datas.

2)   A visita ideal pergunta antes de aparecer.

A visita ideal procura vir numa época em que eu não esteja muito atolada de coisas para fazer como trabalho ou provas finais ou algum problemão pra resolver, a menos que ela possa ajudar muito nisso! Parece bobo, mas como os problemas daqui são em outra língua que não meu idioma nativo, eu tenho muito mais dificuldade de resolver tudo, e preciso de muito mais tempo disponível para tal.

3)   A visita ideal sabe ser feliz sozinha.

Claro que  vamos adorar passear  e conversar com as pessoas que venham nos visitar, mas é preciso que a visita entenda que quem está de férias é ela, e que em diversos momentos não é possível dar muita atenção. Fora que depois de um tempo, eu sinto falta de ficar um pouco só comigo mesma. De me escutar. Então, se eu ficar uns 30 minutos fechada no meu quarto, não se espante, estou vivendo o solilóquio! Fique à vontade para pegar o que quiser na geladeira enquanto isso.

Mais detalhes aqui.

4)   A visita ideal faz bagunça, mas também ajuda a arrumar.

Não espero que a visita se sinta como visita de um tribunal. Quero que ela se sinta à vontade para comer quando tiver fome, para cozinhar quando quiser, para lavar suas próprias roupas e até para mudar a posição da cama dela, sacudir o tapete etc. Ela pode ficar à vontade para bagunçar, mas precisa ajudar à limpar. Não muito, mas um pouquinho. Se ela não ajudar em nada, ela vai me cansar mais que o necessário. Abro exceção para visitas grávidas ou doentes ou muito velhinhas. Elas não precisam ajudar por motivos óbvios! Mas essas também fazem menos bagunça! Eu acho.

5)   Na hora de comer, não é a visita que define quando vamos sair da mesa.

Ok, este talvez seja o ponto principal da minha lista. Sempre quis escrever isso. Existe uma coisa que considero muito importante que é o “momento da digestão”. Após comer, eu preciso ficar ainda uns 20 minutos sentada, esperando a digestão inicial. Não consigo levantar a lavar os pratos imediatamente. Mas os pratos serão lavados, não se preocupe. O que me perturba um pouco é a visita terminar de comer e determinar que já é hora de levantar com todos os pratos para lavá-los. Sei que é por boa intenção, mas prefiro de verdade que deixe os pratos quietinhos na pia por um tempo. Volte pra mesa pra gente bater um papo. Só mais meia horinha, depois podemos lavar tudo com música e dancinha. Mas deixa eu escolher esse momento, por favor?! Talvez eu queira lavar os pratos só no dia seguinte. É um direito que peço a licença para praticá-lo.

6)   Nada de práticas ilegais.

Infelizmente, o ponto mais polêmico da lista, mas sou forçada a pedir a todos os convidados que façam o óbvio: respeitem as leis do país. Conheço bem os argumentos e sou também militante pela legalização de muita coisa ainda ilegal. No entanto, enquanto isso não acontece, prefiro que respeitem a lei e a harmonia da casa. E deixa eu te contar uma novidade: é possível se divertir e até trocar idéias sem estar dopado. E não tentem fazer nada escondido também, porque isso é antipático e eu descubro sempre! Fora que o cheiro é enjoativo e as conversas mais ainda.

7)   A visita ideal tenta entender o ritmo da casa e respeitá-lo.

Tudo bem que toda visita tira a gente um pouco da rotina. Não precisa tirar tanto. Se quer fazer algo diferente, converse com a gente. Se não gosta de gatos, feche a porta do seu quarto. Se quer fazer mal pro meu gato, procure outra casa pra dormir. Visitas devem respeitar. E serão respeitadas também.

8)   Comentários sobre a decoração, a comida e a limpeza da casa só serão aceitos de forma construtiva.

Visitas que chegarem falando mal de tudo sem nenhuma solução para propor não receberão muitos sorrisos. Por que a pessoa se acha nesse direito? Que exemplo ela está dando? Para esse tipo de gente a porta estará sempre aberta (espero que tenham entendido o trocadilho!).

Visitas com sugestões construtivas, no entanto, são sempre muito bem vindas. Elas podem sugerir desde mudanças na decoração até  formas de desentupir a pia. Estamos abertos.

9)   A visita ideal se faz querer.

Quantas e quantas visitas já passaram por aqui e me deixaram morrendo de saudade. Todos deixaram um pouco de afeto pra gente aqui, seja em forma de cartinha, seja em forma de fofura. Nunca vou me esquecer da Bruna caindo da escada e dizendo que estava tudo bem, da minha mãe construindo uma escrivaninha com meu avô, da minha avó costurando nossas roupas rasgadas, do meu pai reconfigurando meu computador, da minha tia arrumando as nossas gavetas, do Clement comprando chocolate pro nosso aniversário, dos deliciosos cookies da Ju e da Luísa, da pequena Sofia e sua doçura com minha gatinha, da querida Jojo e seu ouvido sincero. Essas pessoas fazem uma falta danada. E a gente quer elas pra sempre!

10)    Não é preciso presente. É preciso presença!

Talvez o item 9 tenha dado a impressão de que o que a gente quer é ser presenteado. E não é mesmo preciso, até porque eu procuro aplicar o minimalismo na minha vida! A gente quer ser presenteado por pessoas que tornam a casa mais legal do que ela era antes e não o contrário.  A convivência deve enriquecer e a despedida deve ser sempre um anelo de reencontro e não um suspiro aliviado.

“Be our guest! Be our guest! Put our service to the test” do filme “A Bela e a Fera”

” a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial”– Trecho da Constituição Federal do Brasil em seu artigo 5o que trata dos direitos fundamentais do ser humano

“La maison de toute personne habitant le territoire français, est un asile inviolable. – Pendant la nuit, nul n’a le droit d’y entrer que dans le cas d’incendie, d’inondation, ou de réclamation faite de l’intérieur de la maison. – Pendant le jour, on peut y entrer pour un objet spécial déterminé ou par une loi, ou par un ordre émané d’une autorité publique.”– Art. 76 de uma antiga Constituição Francesa que falava mais ou menos a mesma coisa. Na atual, não consegui achar equivalente…

O amigo oculto de talentos

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Há alguns anos eu descobri que não era tão fã de amigo oculto. Pensava que a chance de dar errado era muito maior que de dar certo. Veja bem: Se o evento acontece no seu trabalho ou curso, você teria que se considerar amigo de todos para não passar pelo constrangimento de ter que abraçar o camarada que falou mal de você no dia anterior. Outra coisa, se você aceita participar de todos os amigos ocultos propostos, a chance de esquecer de um deles e ser obrigada a doar uma peça da sua roupa do corpo no dia também é grande (isso já me aconteceu quando eu era pequena e minha mãe me deu o colar que ela estava usando para servir de presente). Por fim, e não menos grave, quando você finalmente investe o seu tempo e dinheiro nessa brincadeira e recebe de volta um presente de alguém que não fez o mesmo, quanta decepção…. Então, eu me perguntava se esse tipo de celebração valia a pena.

Tudo bem, entendo a inteligência do amigo-oculto. Nem precisa, mas vou explicar: dessa forma, todo mundo ganha um presente. E ganhar presentes é sempre bom! Ou não?

Ano passado participei de um natal típico na França. Com árvore enfeitada, presentes vindos do “papai Noel”, gente reunida em torno de uma mesa, tudo como manda o figurino. Não tinha amigo oculto naquele natal francês, a ideia era a de todo mundo dar presente para todo mundo… Aí que eu me vi numa fria (literalmente! Olha o trocadilho de natal! hohoho!). Gastei muito dinheiro. Tentei não comprar nada de origens duvidosas, e mesmo assim gastei mais do que queria com pequenas lembrancinhas. Recebi muito também! E ótimos presentes! Mas tive inconvenientes inimagináveis com essa história e cheguei à conclusão de que prefiro um natal não-tradicional.

Para começar que eu não tenho religião e o natal não faz sentido pra mim nessa esfera. Em segundo lugar, é uma festa cara e cheia de protocolos complicados. Difícil conseguir agradar a galera. E para terminar, eu não tenho condição de presentear todo mundo que eu gosto da forma como eu queria e também acho que ninguém tem condição de me presentear como eu preciso (estou necessitando de um creme milagroso para cabelos-vassoura, de muitas passagens ida e volta para o Brasil e da cura do xenofobia, alguém?!) então para quê forçar uma frustração?

Embora muita gente nessa época reclame desta sensação ruim (repara procê ver!), eu não desgosto do natal como época do ano. Eu curto a ideia! Tenho muita simpatia  pela reunião da família e adoro a decoração à la Amelie Poulain: Verde e vermelho! Sou capaz de dizer até que tolero bem as músicas típicas de final de ano. Sendo a minha preferida, Somewhere in my Memory (ao ouvir, você saberá de qual filme ela veio!)

Então, se pensarmos que o encontro familiar pode ser uma coisa legal (e é!), fica faltando apenas um ajuste: os presentes. E, no nosso caso brasileiro, o amigo-oculto.

Como já demonstrei, não acho que deveríamos nos sentir obrigados a presentear materialmente, mas podemos fazer umas jogadas com isso! Caso a gente ache que esta brincadeira pode ser legal, por que o amigo oculto tem que ser tão moldado no consumismo? Por que a gente tem que fingir que é rico e que pode comprar coisas incríveis quando a gente não pode comprar, mas pode fazê-las?!

Minha tia (tia Denise, beijomeliga!) me mandou uma ideia legal esse ano: o Amigo Oculto de Talentos.

Eu já tinha ouvido ideias sobre como seria melhor, ao invés de dar presentes, oferecer experiências (como viagens, teatros, passeios). Também conhecia e a ideia de valorizar a produção local: Comprar em mercadinhos da esquina, e não em lojas de departamento.

Mas essa ideia de agora achei que reuniu bem as boas intenções anteriores. E em que consistiria?

Ao invés de comprarmos coisas já prontas, vamos oferecer algo que foi acrescido ou completamente feito com um talento pessoal.  Aí sempre tem alguém que diz que não sabe fazer nada. Para encorajar, exponho alguns exemplos que provam que, na verdade, todo mundo sabe fazer alguma coisa:

Uma torta gostosa, uma cópia de um artigo que você escreveu, um cachecol artesanal, um chaveiro de miçanga, um projeto de decoração da sala do amigo oculto, uma plantinha regada e cuidada pela própria pessoa, um banho no cachorro do amigo oculto, uma lavagem no carro do seu amigo, um desenho, um quadro, um texto, uma fórmula de creme capilar que a própria pessoa inventou com a vitamina de abacate, um filme produzido pela própria pessoa, ou um filme que a pessoa goste e anexe seus comentários pessoais sobre (isso também vale para um livro), um CD com músicas escolhidas pela própria pessoa, um álbum de fotos, um guia turístico de algum lugar que você gostou, um guia gastronômico da sua cidade, um guia cultural de lá também, uma agenda 2014 já com os aniversários dos familiares anotados e datas importantes grifadas (formaturas, lançamento de livros de amigos etc), um dicionário de palavras peculiares com significados só seus, um livro de recordações da vida, uma cor de esmalte fabricada por você mesmo, uma moldura de massinha, um guia de personal style, uma arrumação de guarda-roupas etc.

Um presente de talentos pode ser mais oportuno que um presente comum, desses fabricados na China ou testados em beagles sem necessidade. Ganhar presente é bom, mas ganhar um presente porque a pessoa que te deu foi obrigada a isso, parece nulo. Algo feito com carinho, mesmo que de pouco valor material, pode ter muito mais significado e espaço nas nossas recordações. Na mala que veio para a França, trouxe comigo alguns bilhetes e desenhos dos meus ex-alunos. Desaa forma, veio comigo um pouco da minha história e um carregamento de afeto.

Caso a amigo oculto não tenha nenhuma ideia de talento que possa oferecer como presente, ele também pode se valer do talento de outra pessoa próxima, como um folhado que a vizinha faz, ou um sabonete que a colega de trabalho modela, ou um kit de frutas vendidas pelo amigo do mercado central, ou um vale-cabeleireiro do salão preferido, e até um vale-limpeza dental (necessária a cada 6 meses) do seu dentista, basta juntar um bilhete contando a origem do presente e um pouco sobre a pessoa que o preparou.

Caso tudo pareça muito difícil, uma coletânea de azeites sempre pode resolver bem o problema e de forma simples!

Ao pensar sobre o assunto, diga-me, sinceramente, se não é muito mais prático que rodar lojas lotadas, pegar filas longas e preços altos por um produto que muitas vezes não fará tanta diferença… Que talento seria esse?

Prefiro fugir dessa tradição.

“Quanta coisa existe que eu não preciso para ser feliz”. Sócrates

UPDATE!

O blog Minimalizo me convidou para escrever um texto sobre este mesmo tema por lá! Esse blog é delicioso, vale a pena conhecer!

Outra dica: O 365 coisas que eu posso fazer

O lindo projeto “Imagina na Copa”

E um alô para uma leitora  que vive na Suiça, do Pipoca Crua . Ela me escreveu dizendo que adorou a indicação do documentário sobre alimentação como filme de domingo!!! (leia o post abaixo até o fim e entenderá)

O casamento da Fê

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Sexta-feira da semana passada foi o casamento da Fernanda, minha grande amiga bahiana, vizinha de cidade aqui na França.

Eu acho que, onde quer que a gente esteja, é necessário ter um amigo com um pouquinho mais de sangue correndo nas veias, e aqui em Avignon, tive a sorte de encontrar alguns bons brasileiros para me fazerem companhia nessa ideia meio complicada de mudar de país.

Sexta-feira ela resolveu casar. Fernanda é bahiana, da minha idade, da cor do pecado (ela deve estar cansada de ouvir isso), com sotaque manso e uma mão boa pra cozinha. Ela é formada em psicologia, com residência em hospital, especialista em materno-infantil e fala português, inglês, italiano e agora francês. Mesmo assim, ela passa a maior dificuldade, junto comigo, para arrumar emprego, conseguir o respeito das pessoas… essas coisas básicas, que a França mesmo enumerou na declaração dos direitos dos homens (e das mulheres, por favor).

Fernanda não resolveu se casar sozinha. Há algum tempo ela está acompanhada de seu alemão, que vamos chamar de Bernardo, pois o nome original dele é muito complicado. Bernardo tem cara de alemão, jeito de alemão, voz de alemão e tem duas grandes paixões na vida: Fernanda e construção de casas. Foi ele que arrumou o arame farpado da nossa casa (depois reajustado pelo meu avô) para ver se a gente parava de ser assaltado. Foi ele que ajudou e refez a instalação elétrica daqui também e, mais recentemente, se envolveu na dura tarefa de interromper um vazamento de água na nossa garagem. Sempre que ele vê alguma falha no sistema hidráulico, ele esbraveja em alemão. Tem mania de achar que o melhor de tudo ficou na Alemanha,  mas veio morar na França, e se casou com uma brasileira! Viva a diversidade!

CasamentoFeBeLindos

O casamento deles foi simples. Bem de celebridade. Uma cerimônia fechada apenas para os amigos mais próximos. A troca de alianças foi feita de manhã, diante do prefeito da cidade de Saint Andiol, que é uma simpatia.  Ele brincou que seria obrigado a abraçar a noiva e também se ofereceu para tirar fotos de todo mundo. Depois das formalidades, fomos fazer um brinde na casa deles e comer num restaurante próximo.

Alguns dos convidados, eram bahianos também.  Conversa vai, conversa vem, descubro que um dos bahianos conhecia um mineiro, publicitário, amigão meu! Que mundo pequeno!!!

Entre os convidados, também estavam a Vanessa, nossa amiga carioca,  responsável pelo brigadeiro do lanche. Que brigadeiro… Vanessa estava com a roupa toda feita com assessoria de moda e, obviamente, linda!  Também estavam o casal de cantores Nadia (argentina) e Rodolfo (holandês, crescido na Espanha), o nosso amigo romeno Mihail, o apicultor bigodudo Bob e mais alguns outros simpáticos!

CasamentoFeBetodomundo

CasamentoFeBeAlexis

CasamentoFeBeVaranda2

CasamentoFeBe4

Mas a coisa mais fofa que existia na festa era o pequeno menino. Como ele chamava mesmo? Esqueci…  Ele era o filho de um outro casal também multi-cultural (brasileira com alemão), tinha uns cinco anos e era um amor.

Esse menino era um charme por si só, mas teve uma frase dele que me marcou! Durante o almoço, enquanto falávamos de comida, de casamento, de relacionamentos, de pessoas e de comida de novo, ele estava calado. Perguntaram para ele  em que ele estava pensando e ele respondeu “eu estou desfrutando da vida”!

Olha que espontaneidade!

Se durante o seu casamento você consegue fazer uma criança de cinco anos dizer que está desfrutando da vida, minha filha, você vai ser feliz pra sempre!!!

Casamento Fernanda com Vanessa e Fe

Ps. Hoje é dia das crianças no Brasil. Feliz dia das crianças para você que continua desfrutando da vida, genuinamente, mesmo depois de crescido!