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Sobre eventos sociais e algumas percepções

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Sobre eventos sociais e algumas percepções

Houve uma época que eu pensei que detestava festas! Que nunca valeria a pena sair do meu canto para nenhum evento social porque sempre existiam muitos protocolos difíceis de seguir.

Nunca fui aquela garota sexy segurando a taça de champagne e isso parecia não caber no mundo. Até que conheci uma turminha boa de amigos que me fez perceber que qualquer desculpa é boa para estarmos juntos ! E, com sorte, dançarmos um pouco!

Este texto é uma análise pessoal de experiências e observações sobre eventos sociais.

Tudo começa no convite. 

Outro dia um amigo brasileiro que mora aqui em Avignon nos convidou para um piquenique de aniversário. Devo dizer que atualmente essa é uma das minhas formas preferidas de comemoração de qualquer coisa : piquenique ! Natureza, esportes ao ar livre, comida na toalha quadriculada. Amor eterno.

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Ele fez daqueles convites pelo facebook e eu me lembrei de algumas práticas que quero compartilhar. Nem todo mundo tem facebook ou olha o facebook com frequência, então, se você quer mesmo que alguém vá no seu evento, ligue, mande mensagens por outros lugares e confirme a presença!

Em convites públicos para aniversário como e-mails em que todo mundo vê o nome de todo mundo ou mensagens no facebook em que todos lêem tudo, acho de bom tom que, se você não puder ir, que mande uma mensagem particular para quem convidou. Já reparei uma tendência no mundo que é que quando muita gente começa a dizer que não vai, outras pessoas ficam com preguiça de ir « num evento que não vai ninguém » e desmarcam também. Se você informa discretamente que não vai, esse perigo diminui.

No lado contrário, se você informa a todos que vai, acho que estimula ainda mais a participação das pessoas (a não ser que você seja muito chato). Uma colega fez uma coisa muito fofa: No dia do piquenique, o céu amanheceu cinzento e feio. Ela mandou uma mensagem para todos assim « O céu está cinzento, parece que vai chover um pouco, mas não importa, eu estarei lá ». Isso foi bem motivador e muita gente que pensou em desistir, desistiu de desistir. Que preguiça de gente que precisa de condições perfeitas para sair de casa.

Um pouco de ajuda conta muito.

Outra coisa que reparei na Europa é que as pessoas aqui se oferecem frequentemente para ajudar nos preparativos dos eventos. Em abril fizemos uma festa surpresa para um amigo marroquino. O combinado era que eu deveria chamar o amigo com a desculpa de que tinha outro amigo marroquino para apresentá-lo e ao chegar na minha casa, todos já estariam aqui. Marquei com todo mundo 20h, tendo chamado o amigo 20h30. Às 20h da noite só haviam duas pessoas. Mas às 20h10, éramos 30 enchendo balões e arrumando tudo. Durante a semana precendete, muita gente me procurou para saber o que poderiam fazer para ajudar na festa. Eu não precisava de muita coisa, mas tudo que pedi, eles fizeram!

No fim de toda festa é de bom tom dar uma ajudinha ao dono da casa. Não é preciso muito. Lave um ou dois copos, passe um paninho no chão. Leve o lixo pra fora, separe os vidros, guarde o que estiver limpo. As pessoas aqui tem por hábito fazer essa pequena faxina antes de se despedirem, coisa que eu não tinha muito costume, admito. Por isso todas as festas que fiz aqui em casa foram leves porque não me custaram caro (cada um trouxe o que queria comer ou beber) e todos ajudaram na arrumação inicial e final. Depois que foram embora, a casa estava limpa e habitável!

No Brasil, também tem pessoas que tem essa percepção. Minha avó gostava de fazer pães de queijo aos domingos para toda a família. Com a idade aumentando, as dificuldades motoras também foram crescendo. Muitos dos meus tios e até primos, sem que fosse pedido, passaram a chegar mais cedo na casa dela para ajudar a limpar, fazer a massa dos pães de queijo e arrumar a casa, de forma que ela podia continuar as reuniões de domingo sem sentir o peso que a idade naturalmente traz.

caiu vinho no chao

 

Pontualidade!

Não é preciso chegar na hora exata (salvo no caso da festa surpresa porque era cronometrado mesmo). Mas atrasar mais que meia hora é falta de educação, vai! Ainda mais quando é jantar e você deixa as pessoas morrendo de fome, a comida esfriar… não é muito legal!

O contrário também acontece. As pessoas te chamam para almoçar meio dia e a comida só sai 4h da tarde. Isso me mata porque eu não consigo despistar a fome com amendoim e cerveja, numa boa!

Aqui na França, a pontualidade não é absoluta, mas quem chega atrasado, já chega pedindo desculpas. No Brasil essa prática é quase uma instituição. E não é legal. Além disso, tenho a impressão que tem gente que gosta de chegar atrasado só pra causar um efeito na hora que chega, como se fosse uma celebridade no tapete vermelho. Fala sério !

 

As comidas e bebidas preferidas

Uma coisa fofa dos brasileiros é se preocupar com o que os outros comem. Ao me convidarem para jantares no Brasil, muitas pessoas procuravam saber se eu comia carne, que tipo de carne, essas coisas, para preparem algo que fosse agradar. E até para não passarem pelo constrangimento de uma pessoa ter um ataque de alergia durante a refeição. Algo que acontecia muito na minha adolescência era que, como eu não gostava de refrigerante (e até hoje não bebo), ao almoçar na casa dos amigos, eles sempre advertiam suas mães para ter outra coisa pra beber. Seria simples se me dessem água, mas a cena que se repetia era. « O fulano me disse que você não gosta de refrigerante, então eu fiz uma limonada especialmente pra você ! ». E eu lá, bebia a limonada com cara boa, mesmo sem gostar de limonada! Aqui na França, com o tempo, as pessoas entenderam que sou chata com carnes e passaram a perguntar o que eu gostava de comer. Olha que legal! A minha chatura está tornando as pessoas mais fofas !

Músicas

Na minha opinião, uma festa com música boa não toca  apenas músicas da moda. Tem pra todo gosto. O que a gente faz aqui é que cada um vai no computador e seleciona uma música que gosta por vez. Como somos pessoas do mundo todo, geralmente no final da festa, pedimos cada um para colocar uma de seu país. E com a música, cada um ensina a fazer a dancinha do país. Da última vez, um convidado siriano nos surpreendeu com suas danças típicas e com a beleza de suas músicas. A gente conhece as tragédias do país e esquece que  em todas as culturas existe uma beleza, uma graça, que é o que conta para cada um. A amiga peruana colocou uma música que dançam com fogo, mas obviamente que a gente não imitou da mesma forma! Com o irlandês, sempre empolgamos nas músicas de  Riverdance! Com a grega, sempre dançamos zorba. E assim vai do Brasil à Russia, a gente dança e ri a noite inteira. É uma delícia essa turma !

Laemcasa

A  jogatina!

Muitos eventos como jantares, aniversários ou mesmo festas aqui na França tem um momento com jogos. Há um enorme gosto para jogos aqui na Europa. E eu aprendi alguns realmente divertidos. Os jogos podem ir desde mímica, imagem e ação, dança das cadeiras, até coisas mais elaboradas como caça ao tesouro ou desvendar um mistério criado especificamente para a situação. Tenho um amigo que de tanto jogar essas coisas, virou um profissional dos jogos e hoje ele tem uma associação que oferece uma vez por mês em Avignon uma noite de jogos para a população pelo custo de 3 euros anuais para adesão. Ele faz reuniões com a prefeita, com associações de bairro e escolas para elaborar as atividades. Acho isso o máximo!

Placar

Todo mundo conversa com todo mundo.

Uma coisa que me irritava no Brasil é que eu tinha a impressão que as pessoas só faziam eventos para paquerar. E depois que elas tinham namorados, cônjuges e tal, paravam de fazer eventos com os solteiros para fazer somente eventos entre casais e comentar sobre a vida de casal. Enfim. Aqui também existe muita paquera, claro, o ser humano parece que não consegue ser feliz sozinho (brincadeira!). Mas há uma abertura maior para conversar com todo mundo, de criança a velho, de estrangeiro a nacional, sem importar muito se você está de decote ou não, se tem olho claro ou não, se é rico ou não, empregado ou desempregado. Somos todos interessantes! Desde que sejamos capazes de nos comunicar, por que não podemos conversar apenas para conhecermos uma pessoa a mais ? Que aflição de um mundo onde toda conversa tem que ter segundas intenções.

Nem tudo precisa ser churrasco 

No Brasil, um dos eventos que mais gostamos de fazer entre amigas é o brunch (aquele café da manhã que emenda com o almoço). Acho uma delícia e depois ainda sobra a tarde para fazer outras coisas.

Também gostamos muito de fazer noite de comidinhas enquanto a gente passa creme na cara e assiste filmes. Ou uma rodada de crepes onde cada um monta ou seu. Tem tanto jeito legal de reunir!

Do meu gosto pessoal, não sou muito fã de churrasco. Geralmente o evento deixa um ranço de gordura na pele e o fato de comer tanta carne me parece muito estranho. Mas como você já sabe, eu sou chata com carne. Flexitariana, para quem entende do assunto !

BrunchMeninas

Se você confirma, você vai.

A questão é simples : se você for num evento, confirme por educação para que o anfitrião possa se preparar para a sua presença (ui!), se você não for, diga que não pode. Não precisa dar a explicação completa, é só dizer que não pode e pronto. Sou a favor de reduzir o tanto de explicação que damos sobre a nossa vida para os demais (desde que realmente não tenhamos feito mal pra ninguém). Quanto mais explicamos, mais perguntam e mais palpitam, por melhores que as pessoas sejam.

Minha amiga Silvinha postou uma frase que a Liz Gilbert (aquela do Comer Rezar Amar) escreveu « As pessoas vão parar de te fazer perguntas se você começar a responder com danças interpretativas ». É bem por aí, tanto pra acabar com a mania de cuidar da vida dos outros, como para acabar com a mania de dar explicações demais sobre a sua própria!

Sobre as confirmações de presença, eu ainda tenho outra angústia: Pessoas que confirmam a presença numa festa e não vão. Simplesmente, parem de confirmar! Isso não é exclusividade do Brasil, infelizmente, mas é algo muito feio em toda parte. Aprendi a identificar essas pessoas rapidinho. São aquelas que estão sempre com dor de cabeça, dor de estômago, dor de cotovelo, problemas insolucionáveis. Tem gente que tem a ousadia de dizer que foi parar no hospital (e usam essa desculpa várias vezes). Que feio ficar brincando com doença assim só pra não ir numa festa. É preferível não confirmar e aparecer (levando o que for comer e beber) que confirmar e não aparecer.

 

Tudo bem se ninguém for na sua festa

Já tive muitos eventos fracassados. Já convidei gente da turma inteira de faculdade (que confirmaram) e no fim foram só quatro pessoas. Essas situações são muito chatas, mas acontecem. Não é culpa sua. Mas de fato é uma arte saber a quem convidar para seus próximos eventos. E quando convidar.

Aprendi que as vezes convidar na última hora é melhor do convidar com muita antecedência, pois as pessoas esquecem. Também pedir para elas levarem os sucos ou darem carona para outros ajuda a criar uma « obrigação de não desistir »para os que não são muito muito fiáveis nesse ponto.

Agora, se você preparou uma festona e ninguém foi, tenho uma dica: entre no grupo de couchsurfers da sua cidade e chame os couchsurfers pra sua festa. Geralmente funciona!

A hora de ir embora

Interessante esse blog chamar saída à francesa. Na França não existe saída à francesa. Eles chamam sair sem despedir de saída à inglesa! Mas eu adoro essa técnica quando o ambiente está muito cheio e você não é dos convidados principais (e nem tem ninguém contando com a sua carona).

Outro dia, estava numa festa ótima de despedida de brasileiros e espanhóis. Ótima ótima mesmo. Comida boa, música boa, papo bom, ambiente gostoso. Mas aí me veio ela : a sensação de estar no lugar errado. Não sei se alguém entende bem o que é isso. Pode estar tudo perfeito, mas de repente você sente que deveria estar em outro lugar. Tive que ir embora, mesmo deixando muita coisa legal pra trás. E saí sem despedir, e até meio triste, saí de fininho, já com saudade daquele povo. Imagino que a morte seja um pouco assim também.

Mas se você não tem que sair de fininho, pode despedir. E se você quer sair mais cedo, pode despedir também, principalmente do dono da festa. Antigamente eu tinha o hábito de fazer um drama quando alguém ia embora, como se a saída de uma pessoa fosse arruinar a minha festa. Aprendi com a Luiza Voll a ser diferente. Se a pessoa quer ir embora, ela não pergunta motivo nem nada, ela dá um abraço e agradece a presença. Grande garota!

 

Os chatos das festas

Não concordo com a idéia de que toda festa tenha um chato, mas concordo que quando ele existe, ele se faz notar rapidamente. Pessoas que falam muito perto das outras, pessoas que encostam demais, pessoas que só falam delas mesmas, pessoas que ficam de bico, pessoas repetitivas, pessoas que bebem demais e começam a agir como dementes, pessoas que bebem e começam a ofender as outras, pessoas que trazem maconha pra festa, pessoas que se acham muito gostosas, e agora os novos chatos : pessoas que ficam olhando pra tela do celular a festa inteira, pessoas que fazem selfies de dois em dois segundos, e os « jornalistas de rede sociais », que ficam reportando tudo sobre a festa no twitter, facebook ou whatsapp. Se sua vida está tão legal, por que você não sai da internet?

Os melhores convidados

Se você foi convidado para uma festa, certamente não  porque alguém queria te dar alimentos e bebidas, e sim porque você foi considerado interessante o suficiente para acrescentar para um ambiente. Olha que honra !

Meu pai uma vez relatou sobre uma amiga de oitenta anos que estava com ele num casamento. Num dado momento, ela se levantou da mesa em que estavam e chamou a todos para dançar. Com o espanto, ela respondeu « Não estamos aqui só para comer, vamos participar da festa! ».  Se está na chuva, é pra se molhar! Eterna admiração pelas pessoas que sabem alegrar os ambientes!

Se você não souber dançar, não é problema, ainda pode ficar no meio da pista dando mini-pulinhos, ou fazendo as danças erradas mesmo, pois ninguém está te dando nota pelos passos. Mas se não quiser, pode se oferecer para fazer caipirinhas, servir os salgadinhos, contar piadas para o amigo da perna quebra, ou tomar conta da fila do banheiro e conversar animadamente com as pessoas. O importante é cuidar para não deixar perder a animação do evento. Isso não é obrigação apenas do anfitrião, é de todo mundo que está lá!

Não é preciso bancar a festa inteira

Aprendi com os amigos que para fazer uma boa festa não é necessário gastar muito dinheiro. Geralmente o que precisamos é de uma caixa de som, guardanapos, copinhos, pratinhos e garfinhos plásticos. Uma caneta para anotar em cada copo e pratinho o nome das pessoas (para elas não perderem seus pertences e pegarem outros), alguma bebida e alguma comida. Não precisa ter a quantidade suficiente para todos, podemos pedir que cada pessoa leve um pouco de comida ou bebida ou os dois. Geralmente, sempre trazem o suficiente e acabamos conhecendo pratos diferentes e deliciosos, principalmente aqui que vem gente do mundo todo!

Meus pais e avós acham falta de educação convidar as pessoas e pedir para elas trazerem as comidas. Realmente, se for um evento formal, tipo um casamento, isso não é muito bem visto. Mas para uma festa de celebração da primavera, por exemplo, tudo bem! E quem se sentir ofendido com isso, é só não comparecer na festa! Com essa forma de reunir as pessoas, fica muito mais fácil nos reunirmos e muito mais barato, o que torna possível fazer festas com mais frequência.

Copinhos

A vida não é só festa… 

Mas, não, a vida não é só festa, claro. E não fazemos toda semana. Até porque, festa o tempo todo também cansa e fica meio sem sentido.

Mas quando estamos longe de casa, das nossas origens e de outros amigos tão queridos, uma das melhores idéias para espantar o banzo é se encontrar! Mas sem sermos escravos de eventos sociais, porque a vida vai muito além disso.

Não sou a pessoa que entende mais de festas no mundo.  E certamente que não faço questão de ser. Porém, tive algumas boas experiências em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Vancouver e Avignon. Posso garantir que as melhores festas que frequentei na vida foram feitas de idéias simples que reuniram pessoas legais. É sempre assim! Se quiser fazer uma festa boa, chame pessoas diferentes de você, de todas as idades e nacionalidades. Agregue ! Foi assim que aprendi com meus avós que faziam macarrão e pão de queijo e chamavam todo mundo que eles conheciam para comer junto. Foi assim que aprendi com as melhores pessoas que já conheci.

Amigos5abril2014

Abaixo, deixo alguns vídeos (gravados da forma errada) das nossas festinhas!

http://www.youtube.com/watch?v=zwDoHNJGrq4 (Avignon)

https://www.youtube.com/watch?v=neJGW2a6uOc (Vancouver)

https://www.youtube.com/watch?v=H9S0ErjUhOc (Rio de Janeiro)

Ps. As fotos que ilustram este post foram todas tiradas por amigos: Manuel, Gabrielle e a foto do Brasil esqueci qual das meninas tirou, provavelmente foi uma máquina da Jaque!

O manual da minha visita ideal

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Tem muito tempo que estou querendo escrever sobre isso, mas nunca acho que é o momento adequado. Isso porque toda hora ou alguém acabou de chegar aqui, ou acabou de sair, ou vai chegar, ou vai sair… Fica parecendo que é uma indireta para essa pessoa. E não é. Não é indireta para ninguém. É uma direta mesmo!

Eu gosto muito de visitas! Acho que elas alegram o ambiente e trazem formas diferentes de ver a vida. No entanto, também penso que alguns limites sejam saudáveis, por mais que eu queira que as visitas fiquem à vontade, também não quero parar de me sentir bem na minha casa. Então, segue a lista, que acho que funcionaria bem comigo.

1)   A visita ideal tem dia para chegar e dia para partir.

Por uma questão de organização, é importante saber esses detalhes que podem ser reajustados conforme as circunstâncias, mas, por favor, me passe as datas.

2)   A visita ideal pergunta antes de aparecer.

A visita ideal procura vir numa época em que eu não esteja muito atolada de coisas para fazer como trabalho ou provas finais ou algum problemão pra resolver, a menos que ela possa ajudar muito nisso! Parece bobo, mas como os problemas daqui são em outra língua que não meu idioma nativo, eu tenho muito mais dificuldade de resolver tudo, e preciso de muito mais tempo disponível para tal.

3)   A visita ideal sabe ser feliz sozinha.

Claro que  vamos adorar passear  e conversar com as pessoas que venham nos visitar, mas é preciso que a visita entenda que quem está de férias é ela, e que em diversos momentos não é possível dar muita atenção. Fora que depois de um tempo, eu sinto falta de ficar um pouco só comigo mesma. De me escutar. Então, se eu ficar uns 30 minutos fechada no meu quarto, não se espante, estou vivendo o solilóquio! Fique à vontade para pegar o que quiser na geladeira enquanto isso.

Mais detalhes aqui.

4)   A visita ideal faz bagunça, mas também ajuda a arrumar.

Não espero que a visita se sinta como visita de um tribunal. Quero que ela se sinta à vontade para comer quando tiver fome, para cozinhar quando quiser, para lavar suas próprias roupas e até para mudar a posição da cama dela, sacudir o tapete etc. Ela pode ficar à vontade para bagunçar, mas precisa ajudar à limpar. Não muito, mas um pouquinho. Se ela não ajudar em nada, ela vai me cansar mais que o necessário. Abro exceção para visitas grávidas ou doentes ou muito velhinhas. Elas não precisam ajudar por motivos óbvios! Mas essas também fazem menos bagunça! Eu acho.

5)   Na hora de comer, não é a visita que define quando vamos sair da mesa.

Ok, este talvez seja o ponto principal da minha lista. Sempre quis escrever isso. Existe uma coisa que considero muito importante que é o “momento da digestão”. Após comer, eu preciso ficar ainda uns 20 minutos sentada, esperando a digestão inicial. Não consigo levantar a lavar os pratos imediatamente. Mas os pratos serão lavados, não se preocupe. O que me perturba um pouco é a visita terminar de comer e determinar que já é hora de levantar com todos os pratos para lavá-los. Sei que é por boa intenção, mas prefiro de verdade que deixe os pratos quietinhos na pia por um tempo. Volte pra mesa pra gente bater um papo. Só mais meia horinha, depois podemos lavar tudo com música e dancinha. Mas deixa eu escolher esse momento, por favor?! Talvez eu queira lavar os pratos só no dia seguinte. É um direito que peço a licença para praticá-lo.

6)   Nada de práticas ilegais.

Infelizmente, o ponto mais polêmico da lista, mas sou forçada a pedir a todos os convidados que façam o óbvio: respeitem as leis do país. Conheço bem os argumentos e sou também militante pela legalização de muita coisa ainda ilegal. No entanto, enquanto isso não acontece, prefiro que respeitem a lei e a harmonia da casa. E deixa eu te contar uma novidade: é possível se divertir e até trocar idéias sem estar dopado. E não tentem fazer nada escondido também, porque isso é antipático e eu descubro sempre! Fora que o cheiro é enjoativo e as conversas mais ainda.

7)   A visita ideal tenta entender o ritmo da casa e respeitá-lo.

Tudo bem que toda visita tira a gente um pouco da rotina. Não precisa tirar tanto. Se quer fazer algo diferente, converse com a gente. Se não gosta de gatos, feche a porta do seu quarto. Se quer fazer mal pro meu gato, procure outra casa pra dormir. Visitas devem respeitar. E serão respeitadas também.

8)   Comentários sobre a decoração, a comida e a limpeza da casa só serão aceitos de forma construtiva.

Visitas que chegarem falando mal de tudo sem nenhuma solução para propor não receberão muitos sorrisos. Por que a pessoa se acha nesse direito? Que exemplo ela está dando? Para esse tipo de gente a porta estará sempre aberta (espero que tenham entendido o trocadilho!).

Visitas com sugestões construtivas, no entanto, são sempre muito bem vindas. Elas podem sugerir desde mudanças na decoração até  formas de desentupir a pia. Estamos abertos.

9)   A visita ideal se faz querer.

Quantas e quantas visitas já passaram por aqui e me deixaram morrendo de saudade. Todos deixaram um pouco de afeto pra gente aqui, seja em forma de cartinha, seja em forma de fofura. Nunca vou me esquecer da Bruna caindo da escada e dizendo que estava tudo bem, da minha mãe construindo uma escrivaninha com meu avô, da minha avó costurando nossas roupas rasgadas, do meu pai reconfigurando meu computador, da minha tia arrumando as nossas gavetas, do Clement comprando chocolate pro nosso aniversário, dos deliciosos cookies da Ju e da Luísa, da pequena Sofia e sua doçura com minha gatinha, da querida Jojo e seu ouvido sincero. Essas pessoas fazem uma falta danada. E a gente quer elas pra sempre!

10)    Não é preciso presente. É preciso presença!

Talvez o item 9 tenha dado a impressão de que o que a gente quer é ser presenteado. E não é mesmo preciso, até porque eu procuro aplicar o minimalismo na minha vida! A gente quer ser presenteado por pessoas que tornam a casa mais legal do que ela era antes e não o contrário.  A convivência deve enriquecer e a despedida deve ser sempre um anelo de reencontro e não um suspiro aliviado.

“Be our guest! Be our guest! Put our service to the test” do filme “A Bela e a Fera”

” a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial”– Trecho da Constituição Federal do Brasil em seu artigo 5o que trata dos direitos fundamentais do ser humano

“La maison de toute personne habitant le territoire français, est un asile inviolable. – Pendant la nuit, nul n’a le droit d’y entrer que dans le cas d’incendie, d’inondation, ou de réclamation faite de l’intérieur de la maison. – Pendant le jour, on peut y entrer pour un objet spécial déterminé ou par une loi, ou par un ordre émané d’une autorité publique.”– Art. 76 de uma antiga Constituição Francesa que falava mais ou menos a mesma coisa. Na atual, não consegui achar equivalente…

O amigo oculto de talentos

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Há alguns anos eu descobri que não era tão fã de amigo oculto. Pensava que a chance de dar errado era muito maior que de dar certo. Veja bem: Se o evento acontece no seu trabalho ou curso, você teria que se considerar amigo de todos para não passar pelo constrangimento de ter que abraçar o camarada que falou mal de você no dia anterior. Outra coisa, se você aceita participar de todos os amigos ocultos propostos, a chance de esquecer de um deles e ser obrigada a doar uma peça da sua roupa do corpo no dia também é grande (isso já me aconteceu quando eu era pequena e minha mãe me deu o colar que ela estava usando para servir de presente). Por fim, e não menos grave, quando você finalmente investe o seu tempo e dinheiro nessa brincadeira e recebe de volta um presente de alguém que não fez o mesmo, quanta decepção…. Então, eu me perguntava se esse tipo de celebração valia a pena.

Tudo bem, entendo a inteligência do amigo-oculto. Nem precisa, mas vou explicar: dessa forma, todo mundo ganha um presente. E ganhar presentes é sempre bom! Ou não?

Ano passado participei de um natal típico na França. Com árvore enfeitada, presentes vindos do “papai Noel”, gente reunida em torno de uma mesa, tudo como manda o figurino. Não tinha amigo oculto naquele natal francês, a ideia era a de todo mundo dar presente para todo mundo… Aí que eu me vi numa fria (literalmente! Olha o trocadilho de natal! hohoho!). Gastei muito dinheiro. Tentei não comprar nada de origens duvidosas, e mesmo assim gastei mais do que queria com pequenas lembrancinhas. Recebi muito também! E ótimos presentes! Mas tive inconvenientes inimagináveis com essa história e cheguei à conclusão de que prefiro um natal não-tradicional.

Para começar que eu não tenho religião e o natal não faz sentido pra mim nessa esfera. Em segundo lugar, é uma festa cara e cheia de protocolos complicados. Difícil conseguir agradar a galera. E para terminar, eu não tenho condição de presentear todo mundo que eu gosto da forma como eu queria e também acho que ninguém tem condição de me presentear como eu preciso (estou necessitando de um creme milagroso para cabelos-vassoura, de muitas passagens ida e volta para o Brasil e da cura do xenofobia, alguém?!) então para quê forçar uma frustração?

Embora muita gente nessa época reclame desta sensação ruim (repara procê ver!), eu não desgosto do natal como época do ano. Eu curto a ideia! Tenho muita simpatia  pela reunião da família e adoro a decoração à la Amelie Poulain: Verde e vermelho! Sou capaz de dizer até que tolero bem as músicas típicas de final de ano. Sendo a minha preferida, Somewhere in my Memory (ao ouvir, você saberá de qual filme ela veio!)

Então, se pensarmos que o encontro familiar pode ser uma coisa legal (e é!), fica faltando apenas um ajuste: os presentes. E, no nosso caso brasileiro, o amigo-oculto.

Como já demonstrei, não acho que deveríamos nos sentir obrigados a presentear materialmente, mas podemos fazer umas jogadas com isso! Caso a gente ache que esta brincadeira pode ser legal, por que o amigo oculto tem que ser tão moldado no consumismo? Por que a gente tem que fingir que é rico e que pode comprar coisas incríveis quando a gente não pode comprar, mas pode fazê-las?!

Minha tia (tia Denise, beijomeliga!) me mandou uma ideia legal esse ano: o Amigo Oculto de Talentos.

Eu já tinha ouvido ideias sobre como seria melhor, ao invés de dar presentes, oferecer experiências (como viagens, teatros, passeios). Também conhecia e a ideia de valorizar a produção local: Comprar em mercadinhos da esquina, e não em lojas de departamento.

Mas essa ideia de agora achei que reuniu bem as boas intenções anteriores. E em que consistiria?

Ao invés de comprarmos coisas já prontas, vamos oferecer algo que foi acrescido ou completamente feito com um talento pessoal.  Aí sempre tem alguém que diz que não sabe fazer nada. Para encorajar, exponho alguns exemplos que provam que, na verdade, todo mundo sabe fazer alguma coisa:

Uma torta gostosa, uma cópia de um artigo que você escreveu, um cachecol artesanal, um chaveiro de miçanga, um projeto de decoração da sala do amigo oculto, uma plantinha regada e cuidada pela própria pessoa, um banho no cachorro do amigo oculto, uma lavagem no carro do seu amigo, um desenho, um quadro, um texto, uma fórmula de creme capilar que a própria pessoa inventou com a vitamina de abacate, um filme produzido pela própria pessoa, ou um filme que a pessoa goste e anexe seus comentários pessoais sobre (isso também vale para um livro), um CD com músicas escolhidas pela própria pessoa, um álbum de fotos, um guia turístico de algum lugar que você gostou, um guia gastronômico da sua cidade, um guia cultural de lá também, uma agenda 2014 já com os aniversários dos familiares anotados e datas importantes grifadas (formaturas, lançamento de livros de amigos etc), um dicionário de palavras peculiares com significados só seus, um livro de recordações da vida, uma cor de esmalte fabricada por você mesmo, uma moldura de massinha, um guia de personal style, uma arrumação de guarda-roupas etc.

Um presente de talentos pode ser mais oportuno que um presente comum, desses fabricados na China ou testados em beagles sem necessidade. Ganhar presente é bom, mas ganhar um presente porque a pessoa que te deu foi obrigada a isso, parece nulo. Algo feito com carinho, mesmo que de pouco valor material, pode ter muito mais significado e espaço nas nossas recordações. Na mala que veio para a França, trouxe comigo alguns bilhetes e desenhos dos meus ex-alunos. Desaa forma, veio comigo um pouco da minha história e um carregamento de afeto.

Caso a amigo oculto não tenha nenhuma ideia de talento que possa oferecer como presente, ele também pode se valer do talento de outra pessoa próxima, como um folhado que a vizinha faz, ou um sabonete que a colega de trabalho modela, ou um kit de frutas vendidas pelo amigo do mercado central, ou um vale-cabeleireiro do salão preferido, e até um vale-limpeza dental (necessária a cada 6 meses) do seu dentista, basta juntar um bilhete contando a origem do presente e um pouco sobre a pessoa que o preparou.

Caso tudo pareça muito difícil, uma coletânea de azeites sempre pode resolver bem o problema e de forma simples!

Ao pensar sobre o assunto, diga-me, sinceramente, se não é muito mais prático que rodar lojas lotadas, pegar filas longas e preços altos por um produto que muitas vezes não fará tanta diferença… Que talento seria esse?

Prefiro fugir dessa tradição.

“Quanta coisa existe que eu não preciso para ser feliz”. Sócrates

UPDATE!

O blog Minimalizo me convidou para escrever um texto sobre este mesmo tema por lá! Esse blog é delicioso, vale a pena conhecer!

Outra dica: O 365 coisas que eu posso fazer

O lindo projeto “Imagina na Copa”

E um alô para uma leitora  que vive na Suiça, do Pipoca Crua . Ela me escreveu dizendo que adorou a indicação do documentário sobre alimentação como filme de domingo!!! (leia o post abaixo até o fim e entenderá)

O casamento da Fê

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Sexta-feira da semana passada foi o casamento da Fernanda, minha grande amiga bahiana, vizinha de cidade aqui na França.

Eu acho que, onde quer que a gente esteja, é necessário ter um amigo com um pouquinho mais de sangue correndo nas veias, e aqui em Avignon, tive a sorte de encontrar alguns bons brasileiros para me fazerem companhia nessa ideia meio complicada de mudar de país.

Sexta-feira ela resolveu casar. Fernanda é bahiana, da minha idade, da cor do pecado (ela deve estar cansada de ouvir isso), com sotaque manso e uma mão boa pra cozinha. Ela é formada em psicologia, com residência em hospital, especialista em materno-infantil e fala português, inglês, italiano e agora francês. Mesmo assim, ela passa a maior dificuldade, junto comigo, para arrumar emprego, conseguir o respeito das pessoas… essas coisas básicas, que a França mesmo enumerou na declaração dos direitos dos homens (e das mulheres, por favor).

Fernanda não resolveu se casar sozinha. Há algum tempo ela está acompanhada de seu alemão, que vamos chamar de Bernardo, pois o nome original dele é muito complicado. Bernardo tem cara de alemão, jeito de alemão, voz de alemão e tem duas grandes paixões na vida: Fernanda e construção de casas. Foi ele que arrumou o arame farpado da nossa casa (depois reajustado pelo meu avô) para ver se a gente parava de ser assaltado. Foi ele que ajudou e refez a instalação elétrica daqui também e, mais recentemente, se envolveu na dura tarefa de interromper um vazamento de água na nossa garagem. Sempre que ele vê alguma falha no sistema hidráulico, ele esbraveja em alemão. Tem mania de achar que o melhor de tudo ficou na Alemanha,  mas veio morar na França, e se casou com uma brasileira! Viva a diversidade!

CasamentoFeBeLindos

O casamento deles foi simples. Bem de celebridade. Uma cerimônia fechada apenas para os amigos mais próximos. A troca de alianças foi feita de manhã, diante do prefeito da cidade de Saint Andiol, que é uma simpatia.  Ele brincou que seria obrigado a abraçar a noiva e também se ofereceu para tirar fotos de todo mundo. Depois das formalidades, fomos fazer um brinde na casa deles e comer num restaurante próximo.

Alguns dos convidados, eram bahianos também.  Conversa vai, conversa vem, descubro que um dos bahianos conhecia um mineiro, publicitário, amigão meu! Que mundo pequeno!!!

Entre os convidados, também estavam a Vanessa, nossa amiga carioca,  responsável pelo brigadeiro do lanche. Que brigadeiro… Vanessa estava com a roupa toda feita com assessoria de moda e, obviamente, linda!  Também estavam o casal de cantores Nadia (argentina) e Rodolfo (holandês, crescido na Espanha), o nosso amigo romeno Mihail, o apicultor bigodudo Bob e mais alguns outros simpáticos!

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Mas a coisa mais fofa que existia na festa era o pequeno menino. Como ele chamava mesmo? Esqueci…  Ele era o filho de um outro casal também multi-cultural (brasileira com alemão), tinha uns cinco anos e era um amor.

Esse menino era um charme por si só, mas teve uma frase dele que me marcou! Durante o almoço, enquanto falávamos de comida, de casamento, de relacionamentos, de pessoas e de comida de novo, ele estava calado. Perguntaram para ele  em que ele estava pensando e ele respondeu “eu estou desfrutando da vida”!

Olha que espontaneidade!

Se durante o seu casamento você consegue fazer uma criança de cinco anos dizer que está desfrutando da vida, minha filha, você vai ser feliz pra sempre!!!

Casamento Fernanda com Vanessa e Fe

Ps. Hoje é dia das crianças no Brasil. Feliz dia das crianças para você que continua desfrutando da vida, genuinamente, mesmo depois de crescido!

O casamento grego

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No início do ano fomos convidados para o casamento de uma amiga na Grécia que se daria no final de Agosto.

Antes disso, tivemos a visita das duas famílias na nossa casa. A minha, vinda de mais longe, veio para tudo mudar! Dizem que família de italiano é assim, arruma a casa inteira, pinta as paredes, costura as roupas rasgadas e, quando saem, deixam um rastro de saudade. Foi duro despedir. A nossa geladeira ficou repleta de amor, mas o vazio passou para dentro do coração.

Que consolo? Vamos para a Grécia!

Ah, a Grécia. Sinceramente, nunca tinha dedicado muito tempo mental para refletir sobre a Grécia atual não. Ela se resumia aos trabalhos de Hércules, ao Deus da Comunicação (Hermes), à Deusa da Justiça (Themis) e àquelas esculturas peladas, todas em forma, para dar inveja aos pobres mortais cheios de celulite. Não, a Grécia atual não estava nos meus planos. Ela estava em crise. Dizem que sofria com a corrupção. Me parecia um cenário já conhecido.

E foi aí minha surpresa.

A Grécia é sim um cenário conhecido, mas é também exuberante, surpreendente, um dos lugares mais lindos que já conheci!

Do lado conhecido, a Grécia tem gente como a gente! Gente que sorri, que dá bom dia com gosto, gente acolhedora, que cozinha com um tanto de gordura, que morre de calor, que arrasta o chinelo na cozinha e que trata o cliente como o rei do mundo.

Do lado exuberante, a Grécia é a definição que eu tinha de paraíso. Tudo é bonito! Para cima, para baixo, para todos os lado. Tudo é fotogênico. Lá vi a maior concentração de pessoas bonitas da minha vida (fisicamente falando). Os gregos são monumentais em todos os sentidos! Vi o sol se pondo como poesia. As águas mais generosas do mar estão lá, transparentes, chamando para um mergulho! E o suco de laranja… O sabor da felicidade!

Tive a ventura de contar com a companhia da minha tia para o casamento grego! Eu nunca consegui terminar de assistir o filme homônimo porque tenho um problema de televisãolepsia (não sei se existe essa palavra, provavelmente não porque o word está fazendo aquele riscadinho vermelho, que aliás, ele também fez para a palavra “word”).

Kleio foi a noiva. Kleio é uma pessoa muito animada! Um pouco como as minhas amigas brasileiras! Ela nos deu a maior atenção no dia em que chegamos na Ilha de Évia, onde seria a cerimônia e nos apresentou ainda duas outras francesas de Avignon que para lá foram também pra ver o tão falado casamento grego.

Kleio nos contou que haveria uma cerimônia religiosa ortodoxa (religião predominante na Grécia, e ortodoxo o word reconhece, né?!) e depois uma festa para 557 convidados. Na hora que ela falou isso, Alexis e eu caímos para trás! QUINHENTOS E CINQUENTA E SETE PESSOAS! Calma, dizem que casamento grego é com todo mundo mesmo. A ilha inteira estaria presente! E mais um pouco. E a gente, de novo, pensou, como é possível com a crise? É possível!

Fomos pra tal cerimônia religiosa. Mas não entramos. A cerimônia foi numa capela, no alto de uma montanha, com vista para o mar. Na capela cabiam umas 20 pessoas. Imagino que umas 50 se amontoaram lá. Do lado de fora, ficaram umas 300 (porque muita gente pula a parte religiosa, né?!). Dessas 300, duzentas e noventa estavam fofocando, falando sobre as roupas dos outros (dá de tudo!), falando sobre a crise, sobre a Europa, sobre a Syria, sobre os EUA, sobre comida, sobre bebida e sobre outras coisas que não eram o casamento. As 10 restantes, estavam blasfemando o fato de ninguém estar prestando atenção nos dizeres do padre, que eram cantados num grego antigo que nem a noiva entendia. Mas diz a noiva que o padre nem pergunta se eles se aceitam mutuamente para amar e respeitar, na saúde e na doença… Segundo ela, se você está lá pra casar, é porque já aceitou o fardo. É.

Então ela saiu da igreja, molhada de suor, ainda fazia dia, embora já fossem 8h da noite. Tocaram o sino, todo mundo carregou todo mundo, todo mundo brindou, tirou foto, pulou, assistiu o pôr-do-sol no mar e se foi pra festa.

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Estávamos famintos quando chegamos na festa que era no mesmo hotel em que ficamos (por 20 euros a diária, com piscina, quarto enorme, tudo limpo, mas recepcionista que só fala grego, embora simpática). Na mesa em que ficamos, encontramos um pão para cada prato. Pegamos um pedacinho do pão pra matar a fome. Não deu certo. Tiramos mais um pedacinho. Ai, que fome. Mais um pedacinho. E os salgadinhos que não chegam? Eu e minha tia começamos a fantasiar que ia aparecer uma coxinha com catupiry, uma empadinha de camarão, um bolinho de queijo… E lá se foi o pão inteiro. E não era pequeno. Mas fome, né?! A gente tem que respeitar.

No que terminamos de comer o pão, começamos a pensar em pegar o pão que estava sobre os outros pratos da mesa, já que não tinham outras pessoas para se sentarem lá. Até que chegaram outras pessoas. Primeiro duas donzelas gregas. Com vestidos tomara-que-caia, elas estavam morrendo de frio (de noite estava mais ou menos uns 19 graus). Depois chegou um moço e ficou conversando com ela. Ainda faltavam dois pratos, com dois pães, quando chegaram eles. Eles! Não os noivos, os noivos ficaram duas horas tirando fotos antes de aparecerem na festa (que agonia que eu tenho disso), mas chegaram Helení e Dimitri! Dois gregos também!

Pronto, perdemos a oportunidade de pegar mais pão… Como que a gente vai conversar com esse povo? A gente fala grego? Eles falam francês? Não. Português? Não. Inglês? “Yes! I can speak English!”, disse Helení com um tom sério. Não me lembro muito bem como começamos a conversa. Talvez eu tenha insinuado para ela que queria mais pão, mas sei que, no fim das contas, ela estava fazendo a gente dar gargalhadas de tudo que ela falava!

Helení era advogada na Grécia! Que espelho! Falava do lado bom e ruim da profissão, mas falava com leveza! No fundo, acho que ela nasceu pro teatro (como todo grego). Dimitri, seu noivo (eles se casariam em cinco dias), era escultor! Você já conheceu um escultor na sua vida? Tenho certeza que conheci a definição de escultor naquele dia. Era um homem grande, de cabelos volumosos, barba, sorriso largo, forte e muito bem humorado! Dizia não falar muito inglês, mas que compreendia tudo. Uma simpatia! Helení era magrinha, mas ocupava todos os espaços. Falava que iria nos ensinar a dançar, explicava a letra das músicas, contava o que sabia sobre o Brasil, sobre a Grécia, sobre suas idéias. Gente, que vontade de ser amiga dela! Toda vez que ela falava alguma coisa que nos fazia rir, Dimitri a pegava pela cintura e lhe tascava um beijo na bochecha, como quem diz “Que orgulho de estar ao seu lado!”. Fofo! No casamento dos outros, eles mostravam sua própria história de amor, sem indelicadezas!

Finalmente os noivos chegaram! E a música começou. Seria uma hora de danças típicas. Quando começou, era apenas Kleio e sua mãe, numa ciranda doce! Helení nos traduziu a música que apresentava o eu-lírico de uma mãe que se despede da filha que vai se casar. A mãe diz que sentirá saudades e que é para o marido a fazer feliz e orgulhosa dele. Feliz e orgulhosa dele. Que lindo!

Depois uma roda. Não sei bem em que hora aconteceu a valsa de marido com esposa, pai com filha, filha com avô, essas coisas, mas teve uma roda. Dessa eu me lembro! De repente, 557 convidados se levantam e vão pra roda de braços dados. É de arrepiar.

Lembra que a gente só tinha comido pão? Pois bem, nessa hora a comida começou a chegar. Chegou um prato de batatas e a gente traçou ele todo. Um prato de macarrão (esse estava meio super cozido, mas a gente comeu). Aí começou a chegar salada, empanadas de queijo, uma carne amarrada no papel laminado e eu já estava satisfeita. Pra que fui comer o pão inteiro???? Não parava de chegar comida depois.

Helení pegou nossa mão e nos levou pro meio da roda. Um passo pra frente, outro pra trás na diagonal, dá uma balançada e passa o outro pé… Parecia fácil, mas a minha coordenação motora não estava muito refinada. A do Alexis, então, era completamente oposta ao que eles faziam. Minha tia dançava, e ria, e filmava, e ria, e dançava, e comia alguma coisa… até que…

Até que começou a chegar uma bebida grega que chama Tsipuro (é assim que escreve? Aposto que não, word não está reconhecendo). Muito bem! Essa bebida é tomada em shots, pois é forte como a Vodka!

Tinha um garçom pra se ocupar de cada mesa. E a gente começou a ser servido daquilo. E tudo que a gente falava que era bom, a gente bebia um shot para comemorar. A noiva foi cumprimentar a mesa e todo mundo com seu shot! A música estava boa? Viva! Mais um shot! Antes de dançar, um shot, depois de dançar, outro shot!

A  música grega é tão linda! Tem tanta influência oriental… fica com uma sonoridade diferente, vibrante! Foge do tom-tom-semitom-tom-tom-tom-semitom!

Mas a música grega acabou… e aí o DJ começou aquele repertório básico internacional que toca em 100% das festas com mais de 200 pessoas (YMCA, La Bamba,  tudo do Bee Gees, Twist and Shout, Raining Men etc). E lá fomos com as duas francesas, a minha tia e Helení dançar!

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A noiva tirou meu Alexis para uma dança. E ele foi todo engraçado! Fazendo caras e bocas que renderam boas fotos (embora com definição à desejar).

Tocaram também algumas músicas brasileiras! Tchecheretchetche-tche-tche! Nessa hora,  já deviam ser umas duas da manhã, o garçom veio até a nossa mesa, com umas duas ou três novas garrafas de Tsipuro, puxou uma cadeira, sentou, serviu o meu copo, serviu um copo pra ele, brindou e bebeu!

Foi a deixa. Depois disso, ele trouxe tanta sobremesa pra gente, que até hoje eu fico me perguntando por quê  não comi mais (pensamento de gorda). E toda hora ele vinha tomar um shot com a gente. Eu já estava ficando preocupada.

Helení dançava. Kleio dançava. O noivo foi jogado na piscina e seguido por todos os seus amigos. Dimitri bebia e ria pra Alexis que bebia e ria pro garçom, que bebia, servia nossos copos e trazia sobremesa. E eu e minha tia na sobremesa. As duas francesas riam, comiam sobremesa e bebiam a tal da água que passarinho não pode de jeito nenhum!

Quatro horas da manhã decidimos ir pro quarto pegar as havaianas, essa coisa de classe que toda mulher faz em fim de festa, né?! Ficar de chinelo. Mas minha tia teve uma ideia melhor! Ela trocou a roupa inteira, por outra roupa ainda mais bonita! Só uma diva para fazer isso. Minha tia perdeu alguns quilos nos últimos anos e se tornou uma das mulheres mais vistosas que conheço! Ela com o vestido azul marinho estava ganhando de Kate Middleton na elegância. Sério!

Então voltamos pra festa. Eu de havaianas e minha tia de vestido azul (antes era pêssego).  Passamos pelo noivo de camiseta e bermuda e sentamos na mesa. Conversamos um pouco com o garçom. Ouvimos a música. Dançamos um pouquinho e depois de 30 minutos minha tia decidiu que queria dormir! Haha! Nos abraçamos e ela se foi.

Mais trinta minutos. Dançamos um pouco mais.  Um pouquinho mais de Tsipuro. Muita água para compensar. Muito doce para não ter gastrite e dali música, dali dança. As francesas foram dormir.

Eu, Alexis, Dimitri e Helení resistimos. Os dois últimos, mais que a gente. Eles ainda estavam dançando, se abraçando. Eu e Alexis, sentados na mesa, meio zumbis, de chinelo…

Decidimos despedir. Antes ele colocou uma garrafa de Tsipuro separada. O que é isso que você está fazendo? “Vou levar de lembrança”, ele disse. Avisou pro Garçom! Avisou pra Kleio! Despedimos dela! E depois despedimos do outro casal. Tão simpáticos… será que nos veremos novamente?

Duas horas depois de ter apagado no quarto, abri os olhos e ainda se ouvia a música. Muita música! Muitas risadas… Bateu um arrependimento de ter ido embora. Mas que forças eu teria para ficar até depois de 6h da manhã?

No dia seguinte, refleti sobre essa festa. Estranho, não estava com dor de cabeça. Foi uma festa legal! Muito animada, principalmente, com pessoas interessadas em participar de uma festa animada (porque não basta um bom DJ se ninguém quiser dançar, ou rir, ou conversar). Mas concluí uma coisa, o casamento tradicional brasileiro tem mais ou menos o mesmo tanto de gente do casamento tradicional grego, só que a gente não conta e não dançamos de braços unidos. Deveríamos começar!

Eu deixo o meu conselho: Se um dia você tiver a oportunidade de presenciar um casamento grego, não perca. É incrível!

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Ps. As fotos com data foram tiradas pela amiga francesa Colette Guerido!

Pérolas de um francês

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De volta à vida com computador, depois de ter tido a casa invadida durante o festival de teatro de Avignon, ganhei de aniversário, além de vários sustos, um novo computador (que o bandido não seja um leitor do blog).

A mesma pessoa que me ofereceu este simpático computador, também me oferece diariamente algumas pérolas, que para mim são pérolas, quando para os outros, parece, são apenas constatações de verdades. Sem querer me desentender com uma cultura diferente, quero expor alguns casos que recordo que, além de me surpreenderem, também me fazem ver o quanto somos diferentes.

Cena 1: No último fim de semana, no restaurante. Calor de 35 graus. Enquanto aguardamos atendimento na mesa, Alexis pega o saleiro, despeja um pouco sobre mão e come. Uma amiga questiona o  motivo e ele diz: “É que estou com sede, estou fazendo isso para o meu corpo reter a água”. Eu e a amiga nos entreolhamos. Fade out.

Cena 2: Mostra mala. Eu, feliz, com o tráfico de fio dental que nós brasileiros fazemos aqui para a França. Não conseguimos achar um fio dental que funcionasse aqui. Cheguei a pensar em processar uma empresa por conta do péssimo fio dental que eles vendem. Mas agora, nós, brasileiros, estamos orgulhosos com nossos produtos trazidos, em segredo, do Brasil! Num plano sequência, entra um francês, depara-se com a quantidade de fios dentais e exclama: “Isso faz mal para os dentes, todos os dentistas da França desencorajam seu uso”. Corta cena.

Cena 3: Numa loja de móveis. Quatro horas da tarde. Eu, morta de fome. Entro numa lanchonete a procura de algo que me lembre um misto-quente. Abre plano. Entra Alexis que diz “Por que você tem que comer de 3 em 3 horas? Nenhum nutricionista aprova esse comportamento”. Som ambiente. Fecha imagem em close no rosto da donzela faminta.

Observação: Alexis fez a leitura deste texto antes de sua publicação e insiste que eu diga que, na cena 3, neste dia, me recusei a comer na hora do almoço. Na verdade, eu estava com dor de garganta na hora do almoço e tomei apenas um leite. Esta observação não colabora muito com o restante do texto. Nhé!

Então teve um francês que falou do Brasil

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Estou no Brasil esta semana. E sábado meu avô veio rindo comentar que um francês deu entrevista para o jornal, falando sobre as impressões dele sobre o Brasil e Belo Horizonte. Depois minha tia veio fazer o mesmo comentário e me mandou o link. Depois uma amiga. Depois outra. Depois uma colega de trabalho da minha mãe me mandou o link. E no facebook começaram a falar disso bem ou mal. E quando a coisa viraliza desse jeito, ou você pega carona no sucesso e faz um texto relacionado, ou você fica dias digerindo o que foi escrito e pensando bem ou mal do que foi escrito e não faz mais nada. Eu estou na onda de digerir e pegar carona!

Bom, no texto do jornal, chegou-se à exaustão o número de vezes que foi informado que o francês não queria ofender ninguém com suas observações. Concordo. Muita coisa do que ele falou faz sentido pra mim. Algumas outras não. De qualquer forma, não o levo a mal. Até porque, fizemos uma troca. Ele veio pra cá, eu pra lá. E falo também do país dele, com o cuidado de não ofender, mas expresso minhas observações que, em alguns casos, carregam críticas.

É muito complicado fazer uma crítica. Primeiro que quem somos nós com nossas imperfeições e incompetências para falarmos dos outros? Eu tenho aflição, por exemplo, de gente feia que xinga outra pessoa de feia. Mas olha aí eu já achando essa primeira uma pessoa feia?

Então, o ideal seria engolir a crítica e deixar por isso mesmo? Mas aí como fica nossa vontade de mudar o mundo? Claro, tudo começa com o exemplo! E depois?

Outro problema é que quando a gente está mais vulnerável a gente se sente ofendido mais fácil. Eu me sinto muito mais ofendida com comentários na França que com comentários no Brasil, porque lá ainda não é meu domínio… ainda estou em teste por lá. Então, tudo vira trauma nesse cenário.

No Brasil, quando eu descobria que alguma pessoa não gostava de mim, eu me sentia lisongeada porque significava que, de alguma forma, eu representava uma ameaça praquela pessoa. Na França, quando fico sabendo disso, vou pro banheiro chorar. Olha que bobeira!

Bom, mas seguindo a linha de sucesso do senhor Olivier, o gênio indomável francês que escreveu observações sobre o meu país e a minha cidade, vou também listar algumas observações (minhas, nada baseado em estudos demográficos ou estatísticos) sobre o país dele, que escolhi para viver e que estou adorando! E também farei um comparativo com o meu país.

  1. Existe uma fascinação mútua entre Brasil e França. Tudo que tem um ar francês no Brasil faz sucesso. E tudo que tem “Brésil” na França faz sucesso. No entanto, os franceses ainda tem conceitos muito caricaturais do Brasil. Estaríamos nós fazendo o mesmo?
  2. A França tem uma multiculturalidade linda! Pessoas de todas as origens, línguas e culturas estão lá. Há um grande respeito às diferenças e à busca pela igualdade de direitos. Você tem todo direito de ser diferente na França, desde que não engorde.
  3. A França tem uma cozinha reconhecida internacionalmente. Eles aprenderam a fazer grandes pratos de forma refinada e inteligente. Dizem que porque já sofreram muito com guerras, eles sempre comem o que é oferecido, e aprenderam a fazer tudo delicioso. Mas o sofrimento da guerra não os ensinou a estocar alimentos. Se a comida sobra no jantar, ela vai pro lixo.
  4. Ainda sobre comida, os pratos franceses costumam ter dois ou três elementos diferentes no máximo. Um prato de arroz, feijão, farofa e carne já é considerado um exagero, mesmo que pese menos que um prato francês com purê de batatas e carne semi-crua! Não entendo.
  5. Em Avignon não se encontra um fio dental que preste. E ao comentar isso com alguns franceses, eles dizem que é porque fio dental faz mal para os dentes. E juram que foram os dentistas franceses que mandaram esse recado. Comentei com minha dentista e ela precisou sentar-se.
  6. Em Avignon, por ser uma cidade medieval, as ruas são muito estreitas, mesmo assim, tem pista para bicicleta. Quando o carro vem, no entanto, a bicicleta tem que sair. O pedestre também tem que parar de andar. No fim das contas, as ruas não são feitas para ninguém. Mas tudo bem.
  7. Em Avignon, ninguém ajuda mulher que estiver carregando peso.  E ninguém avisa se você estiver com chocolate no nariz.
  8. Em Avignon, as formas de socialização são: Fumar, tomar vinho, jantar junto, subir uma montanha e assistir um jogo de Rugby. Nessa ordem. O shopping é só para fazer compras. Ponto pra eles!
  9. Em Avignon é raro pegar um táxi e é mal visto pela sociedade pagar por um serviço de entrega. Salvo no caso da Amazon. Avignon quase não tem livrarias mais, porque os franceses vão para as livrarias, leem os livros todos lá dentro e quando querem comprar, compram pela internet.
  10. Na França, você pode ser a pessoa mais chata e inconveniente do mundo, se você souber cozinhar bem, terá garantida uma cota de bons amigos e admiradores franceses.
  11. Franceses, de uma forma geral, não se interessam por música. É um assunto que nunca rende com eles.
  12. Na França, o feminismo é mais intenso. Tanto que chegam a ficar ofendidos se num teatro o homem estiver num degrau acima da mulher. Se por um lado, acho exagerado, por outro, comemoro que temos muito menos homens machistas entre os franceses.
  13. Na França, ter um namorado é visto como algo corrente. Olha que legal! Ninguém precisa ficar exibindo e falando dele com os amigos ou nas redes sociais como um troféu.
  14. Em Avignon, todo mundo que cruza na rua se cumprimenta, mesmo sem se conhecer, salvo alguns imigrantes e alguns maníacos da cidade. Fiz o teste aqui em Belo Horizonte e todo mundo retribuiu com um sorriso! É tão simples e gostoso!
  15. Em Avignon, os motoristas de ônibus não odeiam os outros motoristas e nem os ciclistas!
  16. Na França, o francês não é falado lindamente como nos filmes. Eles falam arrastando, cortando palavras e acham que, se falarem muitos palavrões, estarão rompendo com as convenções. Depois eles se reúnem todos em dezembro para comemorar o natal.
  17. Na França, dois dias depois do Natal, a gente encontra milhares de pinheiros mutilados e jogados na rua. Depois eles falam que se preocupam com a natureza. Em alguns pontos de Paris, encontrei áreas destinadas à reciclagem das árvores de natal. E se a gente quebrasse as convenções parando destruir as plantas no fim do ano?
  18. Na França, sempre que possível, eles vão te fazer alguma crítica. Elogios são raros. Mas são honestos. No Brasil, a gente elogia demais. E critica escondido.
  19. Na França, as pessoas se cumprimentam por beijinhos. Inclusive homem com homem.  E o número de beijos pode variar de um a quatro, dependendo da região.
  20. Na França, a salada é comida depois do jantar. E o queijo é comido depois da salada, sempre acompanhado de pão.  E vinho, se estiverem bem humorados ou mal humorados!
  21. Na França, a gentileza pode fazer milagres. No Brasil, também!
  22. Na França, os professores conseguem viver com seus salários! E agora estão mudando o costume de falar a nota de todo mundo em voz alta.
  23. Na França, as crianças não tem aula nas quartas-feiras e de 60 em 60 dias tiram duas semanas de férias! E, surpresa!, elas voltam muito mais inteligentes!
  24. Na França é difícil assistir um filme no cinema na versão original com legendas. Deve ser porque no interior da França são poucos os que falam inglês, mesmo sendo tão barato o ensino de idiomas para europeus.
  25. Na França, usar drogas é visto como normal. Fumar muito é visto como normal. Mas comer nutella não pode. Isso faz mal pra saúde.
  26. Na França, talvez em toda a Europa (sei lá), existe a possibilidade de comprar o ovo de acordo com a qualidade de vida da galinha. Isso é obrigatório nos rótulos! Eu dou preferência sempre para o ovo da galinha mais livre e contente!  Mas e se o ovo veio antes da galinha?
  27. Na França, os banheiros tem estantes de livros. Mas não tem chuveirinho, ou bidê! E são poucos os franceses que lavam as mãos. Eles falam que faz mal pra pele.
  28. Na França não existe palavra para “gostar”, só “amar”. Aí inventaram o “aime bien”, que tem um valor menor que “aime”.
  29. Na França, o planejamento de utilização do espaço é um pouco questionável. Falta praticidade, sobra espaço. Mas é bom porque dá para jogar amarelinha dentro do toilette. Aliás, amarelinha é um jogo francês, segundo a professora!
  30. Na França, a beleza é mais sutil. O cabelo branco é mais aceito e as mulheres só passam maquiagem para eventos importantes. Eu amo a forma como os franceses enxergam a beleza. Mas sou a favor de algumas pessoas mudarem um pouco o visual…
  31. Na França, poucos alisam os cabelos. Poucos fazem cirurgia plástica. E acho que nunca vi alguém com mega hair. Aliás, a França é o país das mulheres finas de cabelo curto!
  32. Na França, acontece a mesma coisa que no Brasil: as pessoas repetem o que leram no jornal como se fosse a opinião delas. A diferença é que tem mais opção de jornal por lá.
  33. Na França, que bom, não existe calça jeans com strass! Não existe bolsa combinando com sapato e sombra combinando com vestido. Nem elevador com cheiro de Victoria Secrets…
  34. Em Avignon, toda terça-feira, as coisas úteis, porém descartadas são colocadas para fora das casas, gentilmente oferecidas aos demais. Com isso já conseguimos uma linda poltrona.
  35. Em Avignon, mesmo com os incômodos das ruas estreitas, é possível se dar ao luxo de fazer tudo de bicicleta! Mas é impossível comprar um remédio à meia noite se você estiver morrendo. Eu sinto muita falta de serviços de conveniência por lá.
  36. Na França, e principalmente em Avignon, os carros são mais velhinhos. O nosso, por exemplo, foi doado por uma senhora boazinha e tem 23 anos. Ninguém mede o valor de uma pessoa pelo carro que ela ostenta. Aliás, tudo que o francês ostenta está no vinho e na culinária. Salvo as leitoras de Vogue.
  37. Na França, os jornalistas são muito simpáticos, e são humildes para apurar fatos. Se perguntados, eles dizem não sofrer censura.
  38. Na França, eles são muito legais com os amigos. Fazem de tudo para agradá-los, mas nunca visitam a avó no hospital.
  39. Na França, mesmo se você trabalhar na mesma rua da casa dos seus pais, você vai ter que sair de casa aos vinte anos. Mesmo que os pais continuem sustentando os filhos. Lá é normal uma pessoa de vinte e cinco anos nunca ter trabalhado, mas se achar independente por não morar com os pais.
  40. Na França, ninguém quer se casar. Com exceção dos gays.
  41. Na França, a moda agora é fazer aula de Salsa. E muitos acham que é uma dança brasileira.
  42. Na França, tudo é tão burocrático quanto no Brasil. E tem gente que trabalha com vontade e gente que trabalha sem vontade no serviço público. A diferença é que tem mais serviço público que aqui.
  43. Na França, existe o maravilhoso site Le Bon Coin, para compra e venda de tudo que for de ocasião! A nossa casa foi mobiliada com ele. E estou totalmente fascinada!
  44. Na França, muitos acham certo ter circo com animais. Poucos são os que se preocupam com o bem estar do bichinhos. Mas isso está melhorando a partir do momento que começaram a enxergar uma coexistência entre todos nós!
  45. Na França, as pessoas são pontuais. Menos quando estão entre brasileiros, espanhóis e italianos…
  46. Em Avignon, 9 horas da noite, a cidade já morreu. Nos 5 meses de frio que temos.
  47. Em Avignon, as pessoas fingem que entenderam o teatro sem sentido com homens pelados rolando nas bananas. Por que não fingem que entenderam a música bonita que estava tocando no bar?
  48.  Na França, eles são muito politizados. Para se ter uma ideia, o país entrou em guerra no Mali e perderam alguns soldados. A população foi em peso às ruas. Mas para protestar contra o casamento homossexual.
  49. Na França, a liberdade é um pouco confundida ainda com uma outra palavra bastante semelhante. Mas, sério, eu tiro meu chapéu para as grandes obras que já produziram em nome da Liberdade.
  50.  Na França, a gente se sente mais imortal! No bom sentido da palavra.

Como saber que você está morrendo de saudade do Brasil

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Algumas práticas me levam a concluir uma obviedade: Que saudade do Brasil!

1) Abro a geladeira e encontro um pote de sorvete! Meus olhos brilham. Abro o pote e a decepção: É sorvete. Saudade de comer feijão!

2) Chego em casa e olho meu e-mail de cinco em cinco minutos. Chega um e-mail do namorado. Ignoro. O que eu quero mesmo é ver e-mail dos meus pais!

3) Dou uma mordida na comida de ante-ontem. Está velha demais, quero largar. Olho para o lado e falta alguém. Junto tudo para levar pros gatos da rua. E cadê o Peter pra me dar a patinha por um pedaço de linguiça passada?

4) No restaurante universitário, deixo um bilhete no guardanapo para o chef: “O senhor poderia fazer arroz mais vezes por mês? Adoro arroz! Obrigada”. Nunca fui atendida.

5) Olho para o céu azul e acho ele lindo. Procuro alguém para cantar comigo “moro, num país Tropical! ” .

6) Vou para a feira de trabalhos e a recrutadora pergunta “mas o que vocês estão fazendo na França? Não tem emprego no Brasil não?”. A gente agradece a gentileza e sai pensando “Tem mais que aqui!”.

7) Oito horas da noite. Não tem muito para comer em casa. Penso em ir ao supermercado. Não dá, já fechou.

8) Você vai até o xerox da universidade. É você mesma que descobre sozinha como fazer tudo sozinha. Nesse mundo solitário, me lembro de como os xeroqueiros do Tribunal e da Justiça Federal eram gentis comigo. E jogo um pensamento bom para eles.

9) Nunca fui de comprar muitos livros, mas só porque não tem livro em Português aqui, estou com abstinência pedindo encomendas até pra dentista se ela vier pra França.

10) Vou até a farmácia e não tem revista Sorria para comprar. Não tem nem um chocolate…

11) A professora entrega a correção da redação. Eu espero um comentário positivo, afinal, escrevi bastante, falei muito sobre meus sentimentos em relação à adaptação, abri meu coração. Recebo em troca um comentário diante da sala inteira: “Você precisa escrever melhor”. Bullying.

12) O menininho da escola não quer estudar e eu procuro palavras de estímulo em francês… não encontro. Me esforço para fazer sorrisos que o levem a concluir que ele deve terminar o dever com alegria. Sou uma pessoa tão estranha em outro idioma…

13) Chego num bar e me apresento para amigos de amigos. Perguntam de onde sou e respondo orgulhosa do Brasil. Eles mandam um  “Hola, que tal?!”. Mas isso é espanhol, meu senhor.

14) Na saída, todo mundo dá três beijinhos começando pela bochecha esquerda. Eu trocaria os três por um abraço.

Meu Brasil, te vejo na semana que vem!!!

 

 

Uma experiência com a experimentação

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Na casa da minha avó paterna tem uns disquinhos de vinil com histórias para crianças. Eu costumava ouvir várias vezes aquelas histórias, com especial preferência por duas: O flautista mágico e A roupa nova do Rei.

Esta última, uma ironia sobre um rei que encomenda a mais bonita roupa de um costureiro. Este, sem tempo e criatividade para terminar o trabalho, não o faz e diz ao rei que havia costurado uma roupa que apenas pessoas inteligentes enxergariam. O rei, temendo parecer ignorante, diz que a roupa é linda e veste-se de nada para desfilar pela cidade.

Não tenho mais disquinhos da minha avó para escutar. E na falta de avó aqui (as duas queridas!), de primos e de pão-de-queijo em família, a gente na França tem que arrumar outros programas para fazer.

Um deles é ir a cinemas, teatros, shows e danças. Como nossa vida cultural ficou ativa… Ontem foi dia para ver dança.

Um pouco desconfiada da descrição, fui ao teatro com Alexis e dois amigos. Chegando lá, uma fila enorme anunciava que seria um grande espetáculo.

Apertada nas cadeiras da platéia, ouvi quando o diretor pediu que todos desligassem o celular não apenas pelo som, mas porque a luz poderia tirar a concentração dos bailarinos. Desliguei tudo.

Apagaram-se as luzes. E continuaram apagadas. E lá na frente, depois de uns 10 minutos, eu vi um vulto que era quase nada… Vi que o vulto andava. Depois sumia. Depois andava de novo. E sumia.

Depois vi cinco vultos. Não tinha música, mas um som roco de uma nota só.

Os cinco vultos andaram até o centro formando um vulto maior. Me perguntei onde estaria a dança…

Ouvi barulho de coisa caindo no chão. Depois os vultos se esfregando no chão.

As luzes acenderam. Vimos cinco homens pelados se esfregando entre bananas, tomates e uvas. Esse foi o fim.

Algumas palmas começaram tímidas lá do fundo. Alguém gritou “vocês me fizeram perder tempo”. Bati palma sem som, só de dó. Mas com dó de mim também. E de gente que tenta fazer da arte algo mais honesto  para o público e perde credibilidade por conta desse tipo de esfoliação intelectual…

O que é Arte? O que é Dança? O que é Experimentação? O que é Estética? Ai, se eu te pego, Duchamp!

Na saída do teatro, uma conhecida disse que precisávamos ter referência para entender aquilo. Mas isso não seria para entender tudo e também o nada?

Contei o caso para meu pai e ele se lembrou exatamente da metáfora da Roupa Nova do Rei. Essas são nossas referências. Lembrei-me de outra: A do circo de pulgas.

Uma coisa boa vi nessa história: Ali estava uma possível solução para o desemprego.  Te explico agora: Escolha um nome latim, qualquer um menos Carpe Diem que é muito manjado, invente um conceito doidão tipo “retornando às origens”, “a inocência da dança”, “a solidão do ser humano”  e faça pessoas caminharem no palco com luz quase completamente apagada. Pronto, você já pode ganhar dinheiro com isso.

Devemos sim exercer a nossa democracia com relação às artes, e claro que nenhuma vai agradar 100% das pessoas. Mas penso que anunciar uma dança que não é dança, cobrar caro e não dar direito nem de levantar para sair do espetáculo, isso é um jogada maldosa de marketing.

Eu me senti o rei pelado na rua. Fiquei com tanta saudade dos grandes grupos brasileiros: do Grupo Corpo, da Deborah Colker, da Companhia Será Quê,  saudade também das pessoas que jogam capoeira na Savassi,  das minhas amigas que dançam coreografias até nos banheiros do Cine Glória do Rio e da minha priminha que dança na sala da vovó. Tudo muito mais bonito, muito mais artístico… Para mim. Que saudade dessas referências!