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Arquivo da categoria: Descobertas

A regra é clara : onde não puderes amar, não te demores 

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Essa moça, a Frida Kahlo, você pode não gostar das pinturas dela. Pode achar colorido demais, surrealista demais, doloroso demais, mexicano demais, oye ! Mas chamo sua atenção pra uma frase da artista : Onde não puderes amar, não te demores. Pois é, é a mesma que está no título.

Leia isso com o sotaque que quiser, o importante é que a gente perceba a grandeza dessa ideia. E vou usar exemplos pessoais para ilustrar.

Trabalhava eu num escritório muito grande. Melhor hora do dia era a hora do almoço. Chamava a galera toda pra comermos juntos porque sou dessas! A gente praticamente fechava o restaurante à quilo da rua. Fazíamos piadinha com as cenouras, contávamos os casos do fim de semana, reclamávamos do sistema do escritório, do sistema judiciário, ríamos de novo, experimentávamos as comidas uns dos outros, sugeríamos soluções pros problemas do mundo. E assim foi até que os sócios se separaram e com isso o clima do escritório mudou muito. Todos se dividiram. Muita gente saiu. Clientes saíram. O ambiente ficou bem pesado. Quem tinha um plano B foi pro plano B e eu me encontrei almoçando sozinha. Por dias. Tentei resolver de todas as maneiras que pude. Continuei sozinha. O trabalho tinha virado só trabalho. Morro de dó de quem trabalha apenas por dinheiro. E ficava com dó de mim mesma comendo naquela mesa de restaurante sozinha. Eu, uma pessoa que gosta da companhia de outras pessoas (mas não de todas!). Quando a vida me deu a oportunidade de sair, saí.

Em relacionamentos é igual. Vivi alguns pra contar. Inícios lindos, você não tenha dúvida. Se é pra começar alguma coisa, que comece bem. Hoje não sei nem mais descrever, porque a sensação já se apagou mesmo. Só lembro de ter achado na época que era bom. E ter vivido todas as milhares de rupturas como pequenas mortes, pequenos lutos. Dores insuportáveis que hoje também não me lembro mais da sensação. A gente esquece do bom e do ruim. Mas uma coisa não esqueço. Tentar resolver problemas, conflitos e crises vale a pena e deve ser feito. Mas forçar a barra com quem não te quer não vale. Primeiro que a chance de funcionar é mínima, e se funcionar, a chance de virar um relacionamento abusivo é enorme. Logo, não vale a pena ! Isso faz muita gente adoecer.

Frida tinha calo nessa história: não demore num amor não correspondido. Mas mesmo para ela era difícil. A melhor dica que já ouvi pra segurar essa barra é doar todo esse amor para seus projetos, sua família (a parte que te ama) e pra natureza (animais e plantas). A chance de ser correspondido é bem maior e isso vai te devolvendo a energia perdida. Olha o case Adele! Também acho digno escutar uns sertanejos !

(adoro pagar de bem resolvida enquanto escrevo com um olho no teclado e outro no celular!)

Amizades igualmente merecem uma revisão. Ela é sua amiga por quê mesmo ? Quando foi que vocês puderam contar uns com os outros ? Você convida pra tudo e eles não te convidam pra nada ? Cadê correspondência ?

Outro dia, conversando com uns artistas, perguntei o que era « amar » e ouvi « doar sem esperar de volta ». Ah, os artistas… Isso pra mim é muito bonito, mas me serve apenas como a descrição do amor materno/paterno na fase da primeira infância. Mesmo os pais, imagino, esperam algum retorno positivo dos filhos depois de mais velhos. Não necessariamente na mesma moeda. Não necessariamente no mesmo nível de entrega, mas num certo reconhecimento, uma certa atenção. Uma reciprocidade.

Reciprocidade, meu irmão, é uma palavra que faz sentido na hora de falar de amor, de cuidado, de espera e até de ambiente de trabalho. As pessoas precisam ser bem recebidas. As pessoas precisam de retorno. Até planta precisa de luz!

Uma amiga e eu fazíamos a relação com o girassol. Essa flor que não perde tempo com o que é sombra. Ela vai em busca do que dá energia e brilha de volta. Nessa onda, atrai ainda mais coisa boa (abelhas, borboletas, polinizadores em geral).

Um pouquinho de força todo mundo tem dentro de si. E pode ser multiplicada. Melhor que se multiplique.

Vou ali preparar meu jantar pra comer sozinha, de novo, nesta cidade onde já tive tantas histórias, tantos amigos e tantos amores. Tem acontecido assim, apesar dos meus esforços em contrário. Isso não pode e nem vai durar muito tempo. A regra é clara.

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Conheça Frida Kahlo

Minha vida com os árabes

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Da novela o Clone até pouco tempo antes de passar um período no Canadá, meu conhecimento sobre o mundo árabe manteve-se mais ou menos reduzido à comida com grão de bico, dança do ventre, algumas mulheres de véu, alguns homens barbudos, religião monoteísta, música dodecafônica. Vez ou outra a televisão me lembrava que alguém, teoricamente em nome de uma parcela muçulmana, executava ações terroristas. E minha cultura árabe parava por aí.

No Canadá conheci muitos árabes, inclusive um dos filhos do rei da Arábia Saudita (que passou um reveillon lá em casa). Eles eram todos gentis, divertidos, inteligentes e ricos. Algumas ideias absurdas que eu podia fazer sobre essas pessoas foram se esfarelando. Fiquei com a seguinte impressão : Árabes são ótimos e ricos. Beleza.

Vim morar na França. Os árabes daqui não têm o mesmo padrão de vida do Canadá. Mas não mesmo. Aqui eles eram mais gente como a gente. E, em alguns momentos, mais gente que a gente.

Foi assim que conheci Nadia, minha amiga marroquina do mestrado. A única que entendeu que eu estava boiando no sistema daqui. Me ajudou do início ao fim e foi a única a fazer esforço para manter contato comigo depois que formamos.

Foi assim que conheci Skandal, um amigo sírio. Uma pessoa que se ouvir você falar que não está tomando leite, ele vai descobrir uma receita vegana de creme de amendoim e fazer um pote pra você no dia seguinte. Quando Skandal soube que meu pai estava aqui me visitando, cruzou a cidade no meio da semana de provas finais com um temperinho sírio. Disse que era para meu pai levar pro Brasil « alguma coisa da Síria ».

Um dia a argelina que trabalha no mercado onde compro legumes me reconheceu na rua. Perguntou como estava a vida (eu tinha emagrecido 10 kgs) e, preocupada, passou-me o telefone da casa dela. Falou que quando eu precisasse, ela estaria aqui de carro e eu poderia ficar na casa dela o quanto fosse necessário. Repito : Essa é apenas a mulher que me vendia legumes.

No dia que caí de bicicleta sobre vários cacos de vidro, eu estava até bem ousada. Um shortinho, uma blusinha fina, sozinha numa avenida de rota rápida. Um árabe parou o carro. Perguntou se eu estava bem, desentortou minha bicicleta, falou pra eu lavar o machucado e foi embora.

Quando vou no kebab comer meu falafel (#goveggie, guys), que é uma das coisas mais baratas que dá pra comer por aqui, é comum que o pessoal de lá ofereça a sobremesa ou fritas extras sem cobrar.

Quando Hikmat, outra amiga árabe, veio me visitar pela primeira vez, ela trouxe uma pulseira de presente para agradecer a minha hospitalidade de 20 minutos para uma xícara de chá. Eles adoram presentear ! Fairouz , outra amigona que ama chá, comprou um kit de banho pra mim porque uma vez elogiei o que ela tinha na pia. E tantas vezes mais, ela me salvou de enrascadas, essa gênia!

“Zulikha, por que você usa véu e se cobre toda ?”, perguntei para uma amiga da Argélia que fez essa escolha. Ela contou sobre uma experiência muito próxima da morte que a fez querer estudar mais o mundo do além. O lugar que foi buscar as respostas era o livro que sua família considerava sagrado. Aliado a isso, embora este livro não determinasse nada específico sobre o uso de roupa completamente coberta, ela entendeu que desta forma se sentiria melhor.

Durante o debate da semana que definiria o vencedor das eleições primárias da esquerda moderada francesa, Benoit Hamon (hoje o candidato oficial) discutia a questão : « Se a mulher usa porque quer, eu defenderei seu direito. Se usa por imposição, eu defenderei sua liberdade ». Lembrei de Zulikha dizendo « meu marido não dá a mínima pra essas coisas ».

Uma vez fizemos um aniversário surpresa para Ahmed, um amigo marroquino, na minha casa. Vieram pessoas do mundo inteiro. Isso porque é Ahmed o único entre nosso grupo que se ocupa de manter viva a idéia de acolher estrangeiros nos encontros couchsurfing de todas as quarta-feiras. As vezes ele vai e fica sozinho. Outras, ele arruma papo com um alemão de 70 anos, ou com um casal de koreanos. Mas ele está sempre lá, depois do trabalho, disposto a falar todas as línguas, porque sabe que alguém pode precisar. Como um dia eu precisei e ele também. É a pessoa mais aberta que existe. E a única que realmente memorizou todas capitais do mundo inteiro. Mas não deixe ele virar o DJ da sua festa. Ele escolhe músicas de 10 minutos cada. Esses árabes !

Hoje, voltando pra casa de noite, encontrei mais um amigo das arábias. Podia ter sido o advogado tunisiano que faz doutorado aqui, podia ter sido o engenheiro libanês que prepara a festa da primavera. Podia ter sido o agricultor iraniano que toca piano como mestre (os iranianos nem são árabes). Mas foi um matemático marroquino. Ele me disse que sua mãe estava aqui para visitá-lo e ficou feliz de ver como ele tem se alimentado bem. Árabes ! , pensei. Pessoas de um coração enorme. É assim que percebo agora, esse grupo tão vasto e diverso.

Que sorte a minha encontrá-los.

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 “Es por el signo de la amistad por el que se unen los hombres, los pueblos y las razas, y es bajo sus auspicios que ha de haber paz en la tierra.” Da Logosofia

  • Este texto foi escrito ao som de : El Arbi, Fatamorgana e Baile de los Pobres – músicas que sempre embalam nossas festas !

50 nuncas de 2015

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Ah, 2015. Este ano pregou muitas peças na minha vida, e imagino que na sua também. As vezes o balanço é até doloroso. Entre crise, terrorismo, discurso de ódio, racismo, intolerância, gente estranha e gente falsa… parece não ter sobrado espaço para coisas boas. Mas sobrou, gente. Cada um tem na vida bons frutos a recolher, tenho certeza.

Como há alguns anos tenho feito a lista de 50 coisas que nunca tinha feito antes e que fiz naquele ano, pensei em fazer um esforço para encontrar mais 50 nuncas pra este 2015. No início foi difícil, porque tenho por meta só colocar coisas boas na lista a ser relembrada. Depois consegui até passar de 50 e tive que editar pra ficar bonitinho. Caso seja do seu interesse, dê uma olhada na minha lista. Pode ser que ela te lembre do lado bom do seu ano também.

  • Aceitei couchsurfers pela primeira vez (sim, só temos nuncas nesta lista !). E recebi pessoas da Alemanha e da Áustria muito simpáticas, mas que estranhamente não conheciam The Sound of Music ! O.o
  • Conheci a Escandinávia, que é ponto central do grupo de estudos criado com uma amiga (Idéias da Escandinávia). Na verdade apenas Oslo, na Noruega ! Mas adorei. Quem quiser participar do grupo de estudos, deixe o contato nos comentários.

IMG_5347(Oslo, Noruega)

 

  • Encontrei Livinha em Avignon, que chegou bem no dia meu aniversário, pulando de alegria!
  • Encontrei Silvinha em Avignon e fui com ela à super prisão do Conde de Monte Cristo em Marseille e do homem da máscara de ferro.
  • Encontrei Luísa em Avignon e descobri como fazer malas à vácuo e fotos de uma pessoa ruiva!
  • Comecei a trabalhar com moda, para a By My Hands Fashion, e descobri um outro mundo da confecção que pode ser feita com ética. Além disso, adorei poder trabalhar de novo com a Pati, minha ex-chefe advogada. Participamos do Fashion Revolution Day e mudamos muito nossa forma de consumir também.

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  • Comecei a escrever para um jornal francês e ralei muito para conseguir publicar em outra língua.
  • Fiz uma doação para a wikipedia e para o crowdfounding de um projeto importante. Aprendizado que recebi da minha mãe. Se é importante pra gente, e podemos contribuir, tentemos!
  • Vivi quase um mês em Milão, na Itália, com minha família amada que só andava pela casa dançando e cantarolando! Antes disso, aprendi a falar o básico do italiano com uma amiga muito querida.

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(pomba posando pra mim na praça principal de Milão, a mulher logo atrás também fez pose)

  • Virei colunista de um site de slow lifestyle ( Review) e me senti ainda mais próxima de um estilo de vida minimalista e cuidadoso que me atrai muito.
  • Participei de um capítulo de um livro espanhol sobre a judicialização da saúde no Brasil.
  • Conheci o interior de São Paulo (Itu, Sorocaba, Brotas e São Carlos).
  • Aproveitei uma tirolesa gigante em Brotas! E conheci as chamadas « areias que cantam ». Brotas é uma cidade incrível, que vale a pena.

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  • Morei meses com uma peruana (Pamelita!) e comemos muito arroz com batata juntas para desespero dos franceses!
  • Fiz uma grande viagem de milhas, o que me permitiu passar na Inglaterra só para jantar.
  • Trabalhei no mercado de Avignon durante o festival de teatro e entendi o que era ser invisível.
  • Conheci Veneza, a primeira cidade capitalista do mundo ocidental. Florença, a cidade de Da Vinci e Galileu. E Verona, a cidade de Romeu e Julieta. Morri de amores pela Itália.

  • Cozinhei um quiche com leite azedo tido como perdido e ele ficou ótimo.
  • Ganhei um desenho de um garotinho da Tanzânia que conheci no trem. Ele não tinha lugar para sentar, e se apertou com a gente nas cadeiras. A mãe dele me lembrava muito diversas mães brasileiras, que apesar de extremamente pobres, só espalhavam amor.
  • Descobri que franceses dão espaço entre as palavras e os pontos de exclamação e interrogação e finalmente entendi porque o meu Word faz assim !
  • Passei todo o ano sem comer carne. E não foi tão difícil assim. Cumpri meu projeto #2015semcarne! E vou continuar.
  • Produzi o VEDA ( Vlog Everyday April) para o canal do youtube Direito é Legal.

  • Fiz o projeto s2 Frágil em Madrid e Avignon, um projeto de levar mais consideração ao coração alheio, criado pela jornalista e amiga Sabrina Abreu.IMG_5400
  • Fui num congresso de Economia Criativa em Madrid
  • Consegui ver o quadro O Grito! em Oslo e o Nascimento da Vênus em Florença. Dois sonhos !
  • Fui apresentada ao Fram, o navio dos conquistadores do Pólo Sul. « Pólo Sul » é um dos livros preferidos do meu pai. E como eu gostaria que ele estivesse comigo nesse dia.
  • Participei de uma passeata pela paz na França. Logo depois do primeiro atentado em janeiro. Foram milhões de pessoas. Emocionante. Mas vimos que é preciso mais, muito mais que isso.
  • Dei uma festa à fantasia. Duas, na verdade, considerando que a primeira era normal, até que chegaram umas pessoas fantasiadas porque entenderam errado o convite e aí todos nos fantasiamos para eles não ficarem sem graça! Eu amo essa turma.
  • Conheci Clermont Ferrand, Sisteron e Orleans, na França. Três cidades lindas.

  • Passei um domingo inteiro num café conversando e fazendo projetos com uma amiga! Um domingo inteiro ! Num café! Conversando!
  • Escrevi para a presidente (do Brasil) dando algumas sugestões – sempre de forma cordial e respeitosa –  e para a prefeita (de Avignon) também dando outras sugestões. Nenhuma das duas me acolheu. Mas não desistirei.
  • Conheci uma pessoa que conhece uma pessoa que conhece a atriz que fez Amelie Poulain! Estou chegando perto do meu sonho.
  • Fui chamada pela Flavia Calina (vlogger sobre educação infantil) para um café com ela (mas não pude ir) ! Convite via e-mail. Foi outro sonho. Que infelizmente ficou distante.
  • Reencontrei meus alunos 10 anos depois do fim das aulas! E foi maravilhoso! Maravilhoso!
  • Fui fotógrafa do casamento de uma amiga em Nimes, na França. Ela se casou vestida de By My Hands e foi a nossa noiva modelo!

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  • Reencontrei o lado perdido da minha família na Itália. E vivi um dos dias mais gloriosos da minha vida ! Eles nos receberam de braços abertos, como se nunca tivéssemos separado. Sangue do meu sangue!
  • Pela primeira vez deixei um bilhete para o lixeiro. E alguém deixou presentes pra mim na porta de casa. Não nessa ordem.
  • Fizemos um jantar totalmente vegano lá em casa com excelente adesão. Em outro dia, produzimos um enorme encontro de thanksgiving onde cada um dos 26 convidados levou pelo menos uma notícia boa. E finalmente, fizemos outro jantar com gente do mundo inteiro, onde cada um contou sobre o que amava em seu país. A vida faz muito mais sentido pra mim quando esses encontros acontecem.
  • Assisti a um evento pelo skype, graças a minha prima querida que ficou segurando o telefone enquanto eu via o resto da família participar.
  • Aceitei um convite para tomar um chá com estranhos que conheci na rua, num domingo de tarde (eram um casal). E como não senti que a situação era forçada, aceitei. Foi ótimo!
  • Conheci a sala Minas Gerais em Belo Horizonte com uma orquestra sensacional e bati palma até parar de sentir as mãos !
  • Aprendi a fazer sabão e fiz ! Valorize o seu sabonete artesanal, viu?!
  • Perdi um avião (por culpa da companhia) e conheci uma turma muito legal com quem passei quase 24h conversando!
  • Escrevi 33 textos no projeto « 33 textos antes dos 33 anos » em 33 dias. Estão todos aqui no blog, ou com links para eles. Criei a página escrevo.me onde coloco alguns textos e projetos para ficar com uma cara profissional!
  • Aderi ao Low Poo (uso reduzido de shampoo) e gostei do resultado! A gente se faz mal achando que estamos fazendo bem. Não precisamos esfregar tanta coisa no couro cabeludo para ele ficar limpo. Sério.
  • Tive uma reunião profissional em Paris, o que me fez sentir extremamente feliz ! E mais adulta do que nunca!
  • Fui almoçar na casa da moça que trabalhou por anos na casa da minha avó e aprendi muita coisa com a simplicidade da cozinha dela que deixa a comida no ponto certo (pro meu paladar!).
  • Gravei um podcast com as minhas amigas ! Agora estamos esperando o aparelho em que foi gravado ajudar para conseguirmos publicar.
  • Presenciei um casamento lindo de pessoas de mais de sessenta anos se casando pela primeira vez !
  • Participei de um flashmob, pela semana da gentileza. Finalmente! Fazia tempo que eu queria viver esse nunca.

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Feliz 2016, amigos! Sejamos maiores que os nossos problemas.

Quando eu fui invisível

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Em julho deste ano, eu voltava da Itália e queria ver a Pam, minha amiga peruana que mora no andar de baixo da nossa casa. Ela me mandou uma mensagem dizendo que estaria no mercado até o início da tarde. Passei lá. Andei o mercado inteiro e não achei a garota. Até que olhei melhor e vi que ela estava trabalhando numa tenda de patisserie. Cheguei rindo dizendo que tinha passado direto por ela e não tinha reconhecido. Ela não riu.

Alguns segundos depois, recebo o convite « você está procurando um trabalho para esse verão ? »(Na França, julho é verão e em Avignon ainda é o grande Festival de Teatro). Sem pestanejar respondi que sim. Desde que me formei estou condicionada a aceitar os trabalhos que me aparecem. Nem sempre são a melhor opção e eu tenho que aprender a selecionar mais. Não foi o caso.

No dia seguinte comecei. Ao chegar lá, com o currículo na mão, fui em direção à chefe para entregar o papel e ela me cortou. Disse que estava ocupada, que não tinha tempo. Que era para deixar em algum lugar. Deixei sobre uma mesa. Algumas horas depois, ela me chamou atenção dizendo que eu tinha que ter guardado o papel na gaveta. Tudo bem.

Pamela me ensinou a usar a máquina registradora, a embalar as pizzas, a arrumar os suspiros, a saber os igredientes dos bolinhos, a limpar as bordas das tortas. Mas era tanta coisa para aprender, que a cada hora eu perguntava onde estava mais alguma coisa, e ouvia a mulher resmungando « Não te ensinaram nada? ».

Na frente da vitrine a gente era ensinada a dar bom dia para todos os clientes com um grande sorriso. Todas as pessoas que passavam, independentemente de comprarem ou olharem pra gente, ouviam nossa saudação. Certa vez, mexi no pescoço para colocar o cabelo pra trás. Minha chefe não gostou. Disse que era proibido encostar na pele enquanto estivesse na frente dos clientes. Questão de higiene.

Para cada transeunte, um bom dia. Quase nunca eles respondiam de volta. Muitos ainda ouviam, olhavam pra gente e saíam sem falar nada. Se querem o superpoder da invisibilidade, posso dizer que não tem o efeito esperado.

Eu ficava lá, sem poder encostar na minha testa coçando, para agradar pessoas que nem percebiam a minha existência. « É um exercício de humildade », pensava.

E era. Passaram uns americanos. Pediram pizzas, alguns macarrons. Provaram o biscoito de lavanda. No final, o troco era de 70 centavos. Registrei, peguei o troco e o moço negou. « Fica pra você ! É uma gorjeta ». Com aquelas moedas na mão, me emocionei ! E pensei no quanto já tinha sido contra dar gorjetas na vida. Ainda sou, para quem distrata cliente.

No fim do expediente, a vitrine tinha que ser arrumada, limpa. Todos os macarrons deveriam ir pra geladeira. Os bolos para os potes. Os biscoitos emplastificados. Arranquei um pedaço do meu dedo na lâmina do plástico. Mas tudo bem. O chão deveria ser esfregado e era nessa hora que as baratas brincavam na nossa frente. Ai de você se pegasse o pano menos macio para limpar o vidro. E não adiantava justificar que os panos eram quase idênticos. Não adianta.

Depois de passar mais de 7 horas em pé e sem comer, finalmente a gente podia descansar. Eu, com mais de trinta anos, chegava em casa com dor nas pernas e precisava trabalhar (pela internet) com os pés pra cima. Pamela, quatro anos mais jovem, pegava o segundo turno e ia trabalhar em uma loja de roupas ou com jornais. Que fôlego!

Na internet eu lia comentários como « tá fácil pra você que não mora no Brasil ». Olhava pro meu joelho latejando e ria.

Entreguei todos os meus documentos para ser declarada naquele trabalho. A chefe passou a me elogiar muito, mas nunca me oficializou. Situação muito parecida com o que já vivi inúmeras vezes também no meu Brasil. Esse calo nem dói mais.

No dia do pagamento, sendo ele feito por hora de serviço, recebemos dois euros a menos por hora. Reclamamos. Ela disse que esse era o preço correto para quem não tinha experiência. Na verdade eu já tinha experiência em trabalhos parecidos tanto na França quanto no Canadá. Mas não contava. Imigrante não sabe de nada. Poderíamos ter entrado na justiça. Mas invisíveis como éramos, e por um trabalho de verão, decidimos apenas atualizar nossos currículos.foto (2)

Daquela experiência invisível guardamos algumas boas lembranças. Como das duas senhorinhas que passavam todos os dias para comprar tortas e um belo dia, pararam na minha frente e falaram « a gente ama você »! Pena que não é bem visto chorar no trabalho…

Ou dos grupos de japoneses que batiam palma quando a gente entregava alguma coisa com as duas mãos. Uma forma de reverência para passar algo de você para eles. Tão rica essa cultura!

Ou dos outros estrangeiros que achavam incrível as nossas buscas de vocabulário em todas as línguas. Mesmo que a única palavra que eu fale em polonês seja « soluço » e em holandês seja « durma bem »!

Ou mesmo dos atores do festival que passavam entre uma apresentação e outra e contavam sobre suas peças, com o coração nas palavras, e toda a emoção de um artista. Como eu amo Teatro!

Até da chefe. Tadinha! Ainda tão sem noção em sua forma de liderar. Ela conseguiu nos ouvir e atender quando falamos do crescimento do filão vegetariano/bio/vegano. E fez opções deliciosas. Consigo ver direitinho o que falta pra ela ganhar muito mais dinheiro. Quem sabe um dia.

De tanto fugir de mim, acabei criando uma relação com a barata pequenininha. Um dado momento, encontrando-a virada, fui lá e desvirei. Onde tem comida fora da geladeira, tem barata! É mais vitamina B12 pra sua dieta. Fique tranquilo.

Sempre procurei ser atenciosa com as pessoas, mas hoje ainda minha forma de ver os profissionais tem mudado bastante. Não tenho tanto dinheiro, mas meu bom dia é de graça e vai pra quem quiser ouvir. Aprecio as coisas feitas com carinho e a pessoa que está se esforçando. Dou like no youtube, comento nos blogs, deixo bilhetinhos de agradecimento nos hotéis e o troco para o empacotador.

A vida não pode ser acelerada a ponto de nem mais cumprimentarmos o frentista, o porteiro, o motorista do ônibus, o advogado do outro lado do e-mail, a atendente da empresa aérea, a enfermeira da troca do soro, a faxineira do corredor, o caixa do banco, a recepcionista do tribunal, o professor que entra na sala, a garçonete que tira o prato, o coveiro que tira o chapéu, o menino do xerox.

Para ver melhor não é preciso ficar invisível. Mas se você for invisível, tenha certeza que é temporário. E se é visível, mas não quer enxergar, tenha também a mesma certeza.

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Muitas vidas

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Um dia percebi que não era uma só, mas várias. E que bom!

Claro, você pode pensar que é patológico assumir múltiplas características. As vezes é mesmo. Mas na maioria das vezes é positivo e muito comum. Pensa comigo.

A pessoa que você é como estudante é muito diferente da pessoa que você é como vendedor, como mãe ou pai, como vizinho. Todos compartilham alguns valores em comum, mas são diferentes. Certo? E cada um pode acrescentar um pouco mais para o outro.

Eu pensava que até os meus trinta anos, estaria casada, com filhos, tendo uma carreira profissional de sucesso etc. Nada disso aconteceu. Mas tantas outras coisas que eu nem poderia imaginar aconteceram que valeu a pena do mesmo jeito. Se um dia estou  de salto na capital da Noruega, no outro estou esfregando chão do lado das baratas do mercado de Avignon. Se um dia tenho um cachorro, no outro, estou com uma gatinha. E, sinceramente, gosto de ver e viver essa diversidade porque isso me enriquece. E me deixa com a sensação de ter e criar oportunidades para aprender mais.

Quando alguém pergunta o que eu quero ser, tenho muita dificuldade de responder porque quero ser tanta coisa, em tantas vidas. Professora, advogada, vendedora, cozinheira, escritora, faxineira, auxiliar de veterinário, diplomata, cuidadora, fotógrafa, administradora, editora, artista, cientista, além de mãe, vó e namorada.

Talvez eu precise de muitas vidas para realizar tudo isso. Ou talvez essa vida seja mesmo para ser múltipla !

Quando as pessoas ajudam

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Em 2012 achei que seria uma boa ideia passar alguns meses na França aproveitando que minha vida afetiva se direcionava para lá. Para isso, eu precisaria tirar visto, me inscrever em uma escola, conhecer um pouco mais da língua, da administração, das possibilidades etc.

Naquela época entrei em contato com amigos de amigos que tinham vivido experiências parecidas. Nenhum deles me conhecia, mas todos foram muito receptivos para dar informações, conselhos, até ouvir desabafos.

Meus amigos, parentes, colegas de trabalho e vizinhos, todos vibraram com cada etapa que eu consegui superar para vir. Depois, quando consegui um mestrado, uma colega de trabalho da minha mãe, que nada me devia, corrigiu a formatação do meu trabalho e me deu conselhos preciosos para ter um dos melhores resultados da turma.

Passado o tempo, fui com a minha família brasileira para a Itália. Meu avô queria reencontrar as origens. Temos família vinda de várias cidades da Itália, mas o avô do meu avô era de uma cidade muito representativa pra ele. Foi por causa dele (do tataravô) que todo mundo da famiglia colocou « Henrique » no nome, até que a gente descobriu que o nome original dele não era Henrique, ele trocou de nome no Brasil. Mas, beleza. Vovô Henrique era de Porto Tolle, na Itália. Você já ouviu falar dessa cidade? Nem eu. Porto Tolle não é uma cidade muito turística e o acesso não é nada simples para quem não conhece, principalmente quando a gente está viajando com avós, pessoas que tem, naturalmente, a mobilidade mais reduzida.

Então fomos até Veneza, porque era a cidade mais próxima que conhecíamos para chegar até Porto Tolle, mas de lá, ainda era preciso pegar um barco, depois um trem, depois um ônibus para chegar no destino final. Muito complicado pra gente. Estávamos quase nos conformando com a ideia de morrer na praia (isso é uma expressão, tá?!) quando o pessoal do hotel comprou a nossa ideia de conhecer a cidade da família. Vários funcionários se engajaram em pesquisas, e um deles, em especial, ligou para todas as empresas de transporte para ver possibilidades de taxi, aluguel de carro, contratação de motorista, qualquer coisa que facilitasse, mas não fosse tão cara. Ele pechinchou até conseguir um preço aceitável e conseguiu. Por que ele fez isso??? Ele nem conhecia a gente, nem tinha obrigação contratual nenhuma. Bastava fazer o mínimo e tudo bem.

Em Porto Tolle, de novo, encontramos pessoas na praça. Que só de olhar pra gente já se dispuseram a falar todas as línguas possíveis para nos entender. Entenderam que estávamos procurando alguma notícia da nossa antiga família, do nosso avô, que saiu da cidade há 120 anos. Mesmo estando na porta de um velório, eles riam, explicavam e davam todas as indicações pra gente encontrar uma imobiliária que levava nosso sobrenome. Ao chegarmos lá, não foi preciso pedir duas vezes. Fomos recebidos como convidados especiais. Com um sorriso de orelha a orelha as pessoas nos mostraram suas famílias, contaram suas histórias, ligaram para outros parentes chegarem, nos levaram no cemitério e nos adicionaram em todas as redes sociais possíveis. Fizeram do meu dia um dos melhores dias da minha vida. Por pura gentileza.

Por que tanta atenção com gente que a gente nem conhece? Gente que pode não ter nada a oferecer em troca?

Onde foi que eu li que havia uma pesquisa (sempre uma pesquisa) dizendo que pessoas altruístas são mais felizes? No texto dizia que pessoas que fizeram alguma forma de gentileza ou trabalho voluntário nos últimos anos se consideravam mais felizes e com mais energia que as pessoas que viviam apenas pelas trocas mais imediatas? Tenho certeza que li isso e não faz muito tempo. Faz muito sentido. Tenho pena de quem age só por interesse, por vontade de levar vantagem ou por medo de perder alguma coisa. Se soubesse como a gente ganha sendo um pouquinho mais legal… Meu avô sempre foi desse discurso “é bom receber, mas é melhor ainda poder oferecer”. Desta vez ele ganhou muito! Todos nós!

Que pena que perdi o artigo que falava da felicidade das pessoas que ajudam. O que me sobra hoje são experiências reais, de pessoas felizes. Que apostam nos sonhos dos outros também!

Agora fica o desafio. Recebida a batata quente da corrente do bem, para quem irá a próxima boa ação?

Meu e-mail virou uma caixa de propaganda

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Tenho formação em Publicidade. E acho lindo pessoas que contam histórias sobre e apresentam produtos que fazem diferença na vida das pessoas. Um exemplo disso foi quando conheci a fábrica da Michelin. Poxa, uma empresa centenária que mudou a história de uma cidade e faz parte da vida de tanta gente… Achei incrível e aplaudo os publicitários que participaram dessa conquista, mesmo que no início tenham usado o bonequinho fumando.

Mas quando tudo vira propaganda, essa cena me deprime. E a publicitária que existe em mim se revira num misto de antipatia e decepção com as ações que tenho visto.

Antes (muito antes) eu ficava feliz quando abria meu e-mail e via que tinha muita coisa pra ler. Que legal, muita gente lembrou de mim! Pensava!

Depois que comecei a trabalhar usando e-mails profissionais, descobri como a quantidade não significava afeto, muito menos saudade. Advogado recebe mais de 100 e-mails por dia de clientes e publicações de prazos. Estamos lá concentrados numa defesa e o tempo todo, naquele cantinho de baixo, um pop-up popupa! Dizem que demora cerca de 4 minutos para se refazer completamente de uma distração. Calcule a dificuldade.

Mas hoje meu e-mail particular, não o profissional, o particular, virou uma caixa de propaganda. Eu já tinha desconfiado que isso iria acontecer quando notei que ninguém mais se dava ao trabalho de responder e-mails pessoais. Mesmo que fossem escritos contando casos em comum, relatando experiências, descobertas, declarações. Nada importa mais por e-mail, é isso? Será que ficamos mesmo tão atarefados a ponto de deixar os amigos falando sozinhos? Talvez.

Percebi que depois que inventaram o celular esperto que recebe e-mail eu mesma tenho tido mais dificuldade de respondê-los porque quando olho pelo celular, deixo para responder depois. E no mundo de hoje o depois não tem muita chance. Quantas ideias já perdi tendo deixado para realizar depois… Não dá! Deve ser por isso que o whatsapp informa a hora e o momento que você viu a mensagem. Para que aquilo fique em forma de culpa, infernizando a sua cabeça, até você responder.

Numa boa, eu prefiro e-mail para superar distâncias. No e-mail dá tempo de desenvolver um raciocínio. No whatsapp a interrupção pode ser imediata. Assim como a ausência perturbadora do interlocutor !

Mas não interessa. As coisas mudaram e meu e-mail fica todo dia com mais 60 mensagens não lidas de produtos que foram muito mal selecionados para mim. Muito mal. Nem sei por quê continuo olhando meus e-mails… Chego a questionar a eficácia desses cookies que além de terem um nome que dá fome, não servem muito para verificar meus reais interesses.

Então, vou deixar aqui uma lista de interesses para facilitar o trabalho dos colegas publicitários, ok?!

  • eu sou interessada em tudo que diz respeito a cidades, urbanismo, intervenções urbanas, interação humana, mundo plano. Mas não adianta mandar textos longos. Pode mandar textos curtos, uma vez por semana.
  • eu sou interessada em salvar pessoas, animais e florestas, assino diversas petições, mas procuro a coerência delas. Não adianta fazer petição pro SUS pagar um medicamento se tem outro equivalente tão bom quanto. E, por incrível que pareça, sei do que estou falando.
  • Tenho um crescente interesse pelo que se refere a comércio justo, agricultura biológica, economia criativa, minimalismo, mas prefiro participar de um grupo de discussão sobre o assunto a receber um conselho publicitário sobre essas coisas.
  • Adoro cursos online, documentários e muitos vídeos do youtube. Se a frequência não for grande, adoraria receber recomendações de pessoas que tenham os interesses parecidos com os meus (ou mesmo diferentes de vez em quando).
  • Sou interessada em ofertas de passagens de avião, mas não precisa enviar todo dia não. Pode ser uma coletânea por mês.
  • Gosto muito de direito, fotografia, línguas, música, moda, arte, culinária, decoração e teatro também, mas é duro ver esse tipo de amor sendo usado apenas para vender algo. Então, muito cuidado. Pode vender, mas ofereça mais que isso.
  • Tenho diversos outros interesses na vida, mas não vejo como tão comerciais, então é melhor usar banners mesmo ao invés de ficar lotando o meu e-mail e criando uma certa antipatia da marca.

Porém, senhores publicitários, meu maior interesse ainda é pelos meus amigos. Se estiverem passando bem, se tiverem um caso pra contar, eles serão sempre priorizados! É por causa deles que eu ainda mantenho redes sociais, e-mails e telefone. Adoraria poder também realmente confiar no unsubscribe. Mas sabe o que talvez pudesse me fazer continuar inscrita? Se você, publicitário por trás do spam, mandasse e-mails reais, falando de você mesmo e de porquê o meu e-mail foi parar no seu mailing. Isso não seria fantástico? Um abraço do seu público alvo!