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Arquivo da categoria: Estudo

Falemos de contratos

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Desde que me aprofundei mais em Contratos passei a interpretar essa existência deles de forma abrangente. Muito abrangente mesmo! Sei que isso acontece com quase toda profissão. Meu professor de matemática falava “tudo é matemática”. Meus amigos nutricionistas dizem “tudo é caloria”. Meu colega publicitário dizia “tudo é marketing”. E eu digo que quase tudo é um contrato! Não tudo! Mas muita coisa é.

O nascimento é um contrato com a vida (e não adianta virar os olhos achando que é clichê, sabidão, é assim mesmo!)! O casamento é um contrato de comunhão de vida. O check in do avião é um contrato de embarque. O “eu te aviso” é um contrato. O “pode deixá” é outro. O joinha que você mandou na rede social quando sua amiga pediu uma encomenda é também! O “vamu encontrá às 6” também é um contrato, assim como todas as vendas, aluguéis, empréstimos e doações são igualmente contratos. Com ou seu papel.

O papel no contrato apenas preserva melhor as provas! Mas há uma hora em todo contrato que a única coisa que rege é a confiança.

Um amigo paulista estava me contando que num hotel em Dublin (Dublin, gente!), ao pagar em dinheiro a conta de 430 euros, ele deu uma nota de 500 euros e três de dez para facilitar. A recepcionista não devolveu o troco, alegando que ele havia dado apenas quatrocentos. Como assim??? Ele poderia ter chamado a polícia, poderia ter entrado na justiça. Mas era estrangeiro e tinha que correr para pegar um avião. Nessa hora, aquela recepcionista se aproveitou de todas essas condições para quebrar uma das coisas mais sérias da vida que é a confiança.

Todo contrato é de confiança. E pode ser verbal, mas a escrita é importante, muito embora exista uma frase que diga que “quando os contratantes são de confiança não é preciso papel e quando não são, não adianta”. Eu não deveria repetir essa frase, mas quero analisá-la. Contratantes de confiança não necessariamente entendem tudo da mesma forma, interpretam tudo da mesma forma, e mais, não necessariamente preveem situações que possam acontecer, ou mesmo prevendo, não necessariamente sabem como resolver sem uma estipulação contratual bem delimitada em papel. A outra questão é que nem sempre o contrato será resolvido entre os contratantes iniciais. Se uma pessoa perde a vida, ou desaparece ou perde a lucidez, será outra pessoa que irá dar continuidade ao que foi definido. E nessa hora, só o papel. Ainda existe a questão das alterações no contrato e dos esquecimentos (possíveis e sem má intenção). E, por fim, a questão tributária, contábil, negocial etc. Até aqui, estou falando apenas de gente honesta, correta, amiga. Quando se está falando de gente desonesta o primeiro conselho é não fazer contrato, mas o segundo é fazê-lo com tudo registrado.

Em muitos casos, no entanto, o papel não é suficiente para evitar transtornos. Infelizmente, muitos contratos são feitos com a intenção de abusar, oprimir, desequilibrar um dos lados. Não digo todos e não condeno a existência do chamado contrato de adesão. Mas tenho ficado muito inquieta com alguns contratos que ando lendo como contratos de caução (com u, como precaução!) que não definem qual o estado que deve a coisa ser devolvida. Ou contratos de aluguéis que tiram totalmente a privacidade do locatário. Contratos de cessão de direitos que não definem prazos, nem delimitam os direitos. Contratos que proíbem disputas judiciais… Até alguns contratos de prestação de serviços que não levam em consideração o tempo, o custo, os meios e o resultado.

Também me inquieta que muitos contratantes achem que não é importante ler o contrato, pois diante de qualquer problema resolverão na justiça. Não é possível prever até quando os juízes vão se considerar justo ler contratos de quem não os leu.

Mas quem lê contratos? Estima-se que a média de tempo de leitura de um contrato considerado grande seja de 20 minutos. E tempo é dinheiro! Há casos de empresas que oferecem até mil doláres no meio de seus textos contratuais para ver quem está lendo os contratos. Em cinco meses, e após 3 mil contratos, a empresa de softwares PCPitstop teve que pagar uma única vez o valor oferecido!

E quantas vezes você já quis cancelar tudo porque leu o contrato e não concordou e depois todo mundo te falou o famoso “é assim mesmo”? Nem sempre é assim não, viu?! Cobrança dupla por serviços já embutidos no preço (como taxa para carrinho em aeroporto) ou uso da sua imagem pelas Administradoras das redes sociais (alguns direitos são inalienáveis, ainda mais num contrato de adesão) são abusos. E não tendo como consertar esses deslizes (vamos chamar assim!) você tem sim direito de pedir pro juiz revisar no caso de algum problema.

 

Mas falemos de coisa boa! Falemos de honrar bons contratos.

Os melhores contratos são aqueles que funcionam bem para os dois lados. No meu caso, adoro trabalhar com amigos por isso. Eu faço com gosto, trabalho feliz e eles recebem um trabalho feito dessa forma. Gosto que as coisas estejam às claras. Em alguns casos, posso até trabalhar de graça ou quase de graça. Mas preciso de um bom retorno.  O tempo, os conhecimentos, a pesquisa, o stress e até o sono vão nos custar alguma coisa. Sejamos honestos, o nosso trabalho merece ser recompensado.

Temos um contrato com a gente mesmo também, não temos? Cada um tem o seu. E neste caso, você tem respeitado?

 

 

PS. Este texto faz parte do projeto 33 textos antes dos 33 anos e será postado também no meu outro blog de Direito!

 

 

Um dia de seminário

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Existe uma expressão tanto em português quanto em francês que diz “dá a mão, quer o braço”. Essa expressão dispensa explicações, mas outro dia, encontrou uma demonstração!

Na última sexta-feira foi realizado um seminário na faculdade e a organizadora havia pedido à turma para ajudar em alguns pontos. Muitos se dispuseram a participar da recepção, mas quando ela pediu para ajudarem no audiovisual, todos ficaram calados. “É fácil, vocês só precisam ajudar o responsável por isso a colocar os nomes e legendas de cada convidado”. Concordei com o serviço, eu tinha a sequência de nomes no programa, não era nada complicado. No entanto, informei que terei que sair um pouquinho mais cedo, pois iria viajar. Ela disse que não serviria, que eu teria que me arranjar. M’arranjei.

Um dia antes, ela me mandou um e-mail quase meia-noite dizendo que toda a ordem havia mudado, muitos nomes estavam cancelados e outros seriam inseridos. Também me pediu para chegar meia hora mais cedo do que o previsto. Anotei tudo, mudei tudo no meu roteiro, não dormi direito com medo de perder a hora e cheguei lá cedo.

Assim que a encontrei e falei “bom dia”, a mulher começou a reclamar que eu não falava francês. Expliquei que era de origem diferente, mas que entendia o francês e que para esse trabalho não haveria problema algum. Mesmo assim, ela não se convenceu. Disse que precisaria de alguém para o powerpoint também, que talvez eu não fosse boa o suficiente (para passar os slides…). Falei que eu poderia fazer, mas que caso eu ficasse muito presa no lugar em que estava o pessoal do audiovisual, poderíamos pedir a outra pessoa.

Pedimos. Outro colega aceitou o serviço. Depois, não sei por quê, ele desistiu, sem me avisar. A mulher veio me cobrar uma explicação sobre ele e sobre onde estariam os pen-drives com as apresentações. Eu não sabia e não tinha como saber. Ela ficou nervosa. Disse que ela ia fazer o powerpoint. “Ok”, eu disse.  Na hora de passar o troço, ela ficou sentada como uma besta. E eu fui (também como uma besta) passar o tal do ppt.

Quando voltei, ela reclamou que a legenda de um dos debatedores estava abreviada. Expliquei que a legenda era grande demais inteira, por isso abreviamos. Ela reclamou de novo, começou a falar entre os dentes, como se estivesse com ódio. E estava. Mudamos a bendita legenda para o que ela queria. Ficou feio. Suspirei.

O seminário contava com a presença de ministros, prefeitos, políticos em geral e muita gente importante para falar de um assunto que eu adoro: Urbanismo. Teria sido um excelente seminário se cada um tivesse contado alguma experiência prática, idéias novas e aprendizados. Somente alguns poucos debatedores apresentaram experiências. Os outros se limitaram à teoria e aos discursos enormes, quando o previsto era apenas 10 minutos para cada. Achei falta de educação.

Na hora do coquetel, eu estava conversando com uma colega do mestrado, quando a organizadora veio marcar presença: “Então, tivemos um problema lá, né?!”, disse a simpática. Eu expliquei que não sabia que o menino do powerpoint tinha desistido, mas que por fim deu tudo certo. Ela continuou “não estou falando disso, estou falando da abreviatura na legenda”. E minha colega perguntou se por acaso aquilo seria grave. E ela começou a reclamar que poderia ser muito grave, que as pessoas vão ficar reclamando com ela… Respirei fundo. “Olha, eu estou aqui para fazer o melhor possível. Achamos melhor abreviar porque as referências dele estavam muito grandes. Se alguém reclamar com  você pode falar que foi minha responsabilidade. Que se tiver alguém para fazer isso melhor, que faça no meu lugar”, cortei.

Depois disso ela melhorou comigo. Começou a falar que não tinha problema, que aconteceram muitas mudanças no programa, e que ninguém teria direito de reclamar. Eu olhei o relógio e disse que já era hora de voltar porque eu tinha ficado de ajudar o senhorzinho do audiovisual a passar o nome dos outros debatedores antes de recomeçar segunda parte. Ela achou impressionante que eu iria sair antes de almoçar e falou para eu não ficar me exigindo tanto. Eu, que já tinha comido um cheeseburguer escondida na lanchonete em que trabalhei, falei com ela que “imagina, a responsabilidade em primeiro lugar!”. Como eu me gabei nesse momento!!!

De tarde, tudo se passou melhor! Um dos debatedores adorou o fato de que eu era brasileira, e toda hora vinha falar alguma palavra que ele sabia em português. “Oi! Saudade”, “Oi! Bahia de todos os Santos!”. Era sem sentido, mas era bonitinho! Achei muito legal conhecer a ministra responsável pela descentralização na França. Um trabalho que eu adoraria acompanhar mais de perto!

FotoMinistra

Um outro debatedor, também muito simpático, me ofereceu um livro de presente. Mas eu sou tão desacostumada com esse tipo de oferecimento que falei “Ah, obrigada, mas eu já tenho esse livro” (e tinha mesmo). Boba! Era a chance de conseguir um contato profissional legal. Que vontade de dar control Z na vida de vez em quando…

Naquele dia cheguei a pensar em nunca mais me oferecer para ajudar assim aqui na França, porque eles abusam com muita facilidade. E poucas vezes agradecem. Mas depois vi que a minha maior recompensa nem viria da pessoa que me pediu a ajuda, mas dos gestos solidários dos meus colegas de sala que nunca tinham conversado comigo e que, de repente, começaram a me chamar de Didi, começaram a me inserir nas rodas e passaram a se interessar mais pela minha presença. Também nas pequenas atenções dos participantes, que me cumprimentavam com apertos de mão, e se sentavam do meu lado, oferecendo sorrisos e comentários engraçadinhos. No fundo, qualquer trabalho, seja ele voluntário ou não, desde que digno, enobrece as pessoas. É como se a gente dissesse para o mundo: Vejam só, eu não sou completamente inútil!

Quando o seminário finalmente terminou (o final foi cansativo, viu?! Sugiro menos horas por dia para essas atividades), eu agradeci o senhorzinho do audiovisual pelo dia de trabalho (ele era muito gentil). E fui saindo de mansinho para a minha viagem. “Bonne weekend, merci beaucoup”, ouvi. Era a organizadora me agradecendo. Que milagre!

 

Um presente de amigo oculto e a vida no presente

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Todo ano eu tento escapar de amigo oculto. Nunca consegui. Desta vez, a professora saiu comigo no amigo oculto.  Isso foi interessante! Ela me deu um livro de receitas e um livro didático de pronunciação de palavras (a sutileza francesa!). Meu namorado, ao tomar contato com o livro de culinária, separou um vinho para a professora com um bilhete de gratidão. Devo entregar para ela amanhã. Ela vai achar que estou tentando comprar uma boa nota na prova, o que não é verdade. Não ligo muito para nota, embora me esforce dentro de certos limites para não tirar notas tão ruins. E, sim, adorei o presente!

amigoOcultoPor falar nisso, eu ando pensando que num país onde nota tenha tanta importância na vida das pessoas, os professores não poderiam ser tão relapsos com relação à cola. Durante a prova, eu pude ver que tinha gente usando smartphone, consultando caderno, colegas, livros e até o computador. Não acho isso muito justo. Assim como também não acho justo que a nota vá dizer para o governo quem é que pode fazer curso superior e quem é que não vai poder estudar mais (coisa que é estigmatizada entre os 14 e 16 anos dos alunos daqui).

Dando sequência, ontem tivemos quatro provas e uma apresentação de coral fora de Avignon (sou cantora do coral da faculdade). Fernanda, minha companheira brasileira de Coral, não sabia se ia até o último minuto, quando resolveu partir. Ainda bem, assim tive carona, quase interrompida por um velhinho que atravessou a rua abruptamente numa via de alta velocidade. Escapamos de machucar alguém graças aos reflexos da bahiana.

Fora isso, o caminho era fácil, segundo o google, só que o endereço estava errado. A gente parou perto de onde achamos que era. Caminhamos pela cidade de Le Pontet que estava congelante. Não era lá. Voltamos para o carro, andamos um quarteirão e decidimos que já estava perto. Caminhamos mais um quilômetro e nada. Voltamos num frio perigoso, a ponto de eu parar de sentir os lábios e falar torto (uma experiência estranha), pegamos o carro de novo e andamos (de carro agora) até que a Bruna (outra companheia brasileira do coral) nos deu dicas valiosas para encontrar algo que lembrava o Chateau de Fargues, onde seria nossa apresentação.

E era!

A professora, um pouco iniciante nessa área de apresentações, teve ótimas ideias para a apresentação: Resolveu mudar a forma de cantar as músicas, fazer coreografias e apresentar uma música em língua provençal antiga que chama Occitan (e é por isso que l’occitane chama L’occitane!). Por essas e outras, em vários momentos, a gente foi obrigada a fazer playback, mas na maioria do tempo, cantamos!

Alexis chegou nas duas últimas músicas porque ele também estava com o endereço errado. Então ele achou que eu cantei praticamente tudo! (temos poucas fotos desse dia)

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No fim de semana, depois de carbonizar um bolo de laranja, eu fui passear por Fontaine de Vaucluse e adorei aquele pequeno vilarejo… Não sei porquê, lembrei-me muito do conto do flautista mágico quando passei por lá.

Há alguns dias também conheci a cidade de Uzes. Outro lugar belíssimo! Aqui perto tem muitas cidades incríveis. As vezes, me dá um pouco de claustrofobia em Avignon, mas saber que temos essas possibilidades tão próximas é um alívio.

O meu último post rendeu piadas das colegas e do namorado dizendo que nunca mais iriam num mercado de pulgas comigo. Eu estranhei o quão baratas eram as coisas, mas dizem que é assim mesmo. Sinceramente, nunca vi nada tão barato assim em Belo Horizonte, a não ser o bolo da Dona Valmíria que é o melhor do mundo. Ela realmente precisa aprender a cobrar mais caro (quem quiser, passo o contato por e-mail – ela cozinha de tudo e até diet)! E, sim, lembrei que conheço muita gente que trabalha de graça, como disse no texto abaixo. Enfim, ainda estranho quando encontro preços tão acessíveis. Assim como estranho gente que não goste de cachorro, ou de comer macarrão…

Por fim, amanhã tenho minhas últimas provas deste semestre que na verdade durou apenas três meses e meio. No início, tive muita dificuldade com o método de ensino e agora que já estava pegando o jeito, vai acabar. Não que eu esteja achando ruim!

Não posso esquecer de levar o vinho para a professora…

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Ps. Feliz aniversário para a minha cidade, Belo Horizonte, que hoje, no incrível dia 12/12/12, completa 115 anos!

Uma prova final para começar

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Sábado agora é minha última prova do primeiro semestre de Francês.

Eu adorei ter entrado para essa escola por dois motivos: 1) é tão óbvio que nem deveria falar, mas é aprender francês; 2) meus colegas.

Minha turma, talvez pelo caráter principiante que deixa todo mundo no mesmo nível, se deu muito bem. Fizemos lembrancinhas pro bebê da nossa amiga que nasceu no fim do curso, marcamos amigo oculto (algo que geralmente não me atrai) e até procurar emprego um com o outro a gente procurou. Eles realmente me inspiraram simpatia e acho que um dos fatores tem a ver com o primeiro fator que é o de aprender francês. Tenho uma teoria de que quem vai aprender francês ou é muito chato e quer saber falar coisinhas complicadinhas só para aparecer, mas teve preguiça de estudar alemão OU é muito legal e realmente admira coisas legais da França como a eterna admiração pela liberdade, pela igualdade, pela fraternidade, o croissant…a torre Eifel o buldogue francês, a Amelie Poulain e o Victor Hugo. Ou seja! Eu dei sorte que na minha turma só tinha esse tipo de gente.

Então, no sábado, como estive viajando pelo Brasil na última semana, vou fazer a segunda chamada da prova de Francês. A questão é que eu ainda estou meio tensa para falar. “Como se tivesse um ovo na minha garganta”, diz minha amiga Silvinha ao expressar que também tem dificuldade de formular frases no idioma de Voltaire.

Mas estou tranquila que esta prova final é só o começo de uma longa carreira de estudante. Depois de 10 anos de faculdade, estava com saudade de ter arrepios antes de uma prova final.