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Arquivo da categoria: Eu queria mudar o mundo

A regra é clara : onde não puderes amar, não te demores 

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Essa moça, a Frida Kahlo, você pode não gostar das pinturas dela. Pode achar colorido demais, surrealista demais, doloroso demais, mexicano demais, oye ! Mas chamo sua atenção pra uma frase da artista : Onde não puderes amar, não te demores. Pois é, é a mesma que está no título.

Leia isso com o sotaque que quiser, o importante é que a gente perceba a grandeza dessa ideia. E vou usar exemplos pessoais para ilustrar.

Trabalhava eu num escritório muito grande. Melhor hora do dia era a hora do almoço. Chamava a galera toda pra comermos juntos porque sou dessas! A gente praticamente fechava o restaurante à quilo da rua. Fazíamos piadinha com as cenouras, contávamos os casos do fim de semana, reclamávamos do sistema do escritório, do sistema judiciário, ríamos de novo, experimentávamos as comidas uns dos outros, sugeríamos soluções pros problemas do mundo. E assim foi até que os sócios se separaram e com isso o clima do escritório mudou muito. Todos se dividiram. Muita gente saiu. Clientes saíram. O ambiente ficou bem pesado. Quem tinha um plano B foi pro plano B e eu me encontrei almoçando sozinha. Por dias. Tentei resolver de todas as maneiras que pude. Continuei sozinha. O trabalho tinha virado só trabalho. Morro de dó de quem trabalha apenas por dinheiro. E ficava com dó de mim mesma comendo naquela mesa de restaurante sozinha. Eu, uma pessoa que gosta da companhia de outras pessoas (mas não de todas!). Quando a vida me deu a oportunidade de sair, saí.

Em relacionamentos é igual. Vivi alguns pra contar. Inícios lindos, você não tenha dúvida. Se é pra começar alguma coisa, que comece bem. Hoje não sei nem mais descrever, porque a sensação já se apagou mesmo. Só lembro de ter achado na época que era bom. E ter vivido todas as milhares de rupturas como pequenas mortes, pequenos lutos. Dores insuportáveis que hoje também não me lembro mais da sensação. A gente esquece do bom e do ruim. Mas uma coisa não esqueço. Tentar resolver problemas, conflitos e crises vale a pena e deve ser feito. Mas forçar a barra com quem não te quer não vale. Primeiro que a chance de funcionar é mínima, e se funcionar, a chance de virar um relacionamento abusivo é enorme. Logo, não vale a pena ! Isso faz muita gente adoecer.

Frida tinha calo nessa história: não demore num amor não correspondido. Mas mesmo para ela era difícil. A melhor dica que já ouvi pra segurar essa barra é doar todo esse amor para seus projetos, sua família (a parte que te ama) e pra natureza (animais e plantas). A chance de ser correspondido é bem maior e isso vai te devolvendo a energia perdida. Olha o case Adele! Também acho digno escutar uns sertanejos !

(adoro pagar de bem resolvida enquanto escrevo com um olho no teclado e outro no celular!)

Amizades igualmente merecem uma revisão. Ela é sua amiga por quê mesmo ? Quando foi que vocês puderam contar uns com os outros ? Você convida pra tudo e eles não te convidam pra nada ? Cadê correspondência ?

Outro dia, conversando com uns artistas, perguntei o que era « amar » e ouvi « doar sem esperar de volta ». Ah, os artistas… Isso pra mim é muito bonito, mas me serve apenas como a descrição do amor materno/paterno na fase da primeira infância. Mesmo os pais, imagino, esperam algum retorno positivo dos filhos depois de mais velhos. Não necessariamente na mesma moeda. Não necessariamente no mesmo nível de entrega, mas num certo reconhecimento, uma certa atenção. Uma reciprocidade.

Reciprocidade, meu irmão, é uma palavra que faz sentido na hora de falar de amor, de cuidado, de espera e até de ambiente de trabalho. As pessoas precisam ser bem recebidas. As pessoas precisam de retorno. Até planta precisa de luz!

Uma amiga e eu fazíamos a relação com o girassol. Essa flor que não perde tempo com o que é sombra. Ela vai em busca do que dá energia e brilha de volta. Nessa onda, atrai ainda mais coisa boa (abelhas, borboletas, polinizadores em geral).

Um pouquinho de força todo mundo tem dentro de si. E pode ser multiplicada. Melhor que se multiplique.

Vou ali preparar meu jantar pra comer sozinha, de novo, nesta cidade onde já tive tantas histórias, tantos amigos e tantos amores. Tem acontecido assim, apesar dos meus esforços em contrário. Isso não pode e nem vai durar muito tempo. A regra é clara.

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Mais:

Conheça Frida Kahlo

O amante

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Um dia se conheceram e ela pensou ter sido por acaso.

Ele apareceu na hora certa. Quando ela mais precisava de algo diferente na vida. Com aquele jeito, aquelas palavras, a paixão foi fulminante. Era tudo novo. Ela nunca tinha escutado aquelas coisas antes. Ele sabia o que ela queria. Mais do que ela mesma.

Não demorou muito, ele ganhou alguns privilégios. Eles se viam várias vezes, se deliciavam juntos. Conheceram uma vida de prazer.

Então ela soube que ele não podia se dedicar à ela exclusivamente. Ele tinha outros compromissos. Não podia falar muito sobre isso. Mas faria o impossível para agradá-la. Ele disse. Ela se assustou. Mas confiou. Ele falava o que ela queria escutar. E ali, bastavam palavras.

Com o tempo e as dificuldades, ela entendeu. Ele precisava de mais poder. Precisava que ela o seguisse, que ela o ajudasse.

Alguns dias, ele chegava sorrateiro, chorava. Dizia que tudo iria mudar. Dizia que só queria ser diferente, que só precisava de tempo. Que seu amor era o maior do mundo.

Nesses dias, para ela, era como se seu coração respirasse aliviado. Eles se amavam onde estivessem. Ele gostava de vê-la ir à loucura. Arrancava sua respiração, arrancava gritos em seus devaneios. Era lindo, era surreal de bom estar perto dele. Ninguém mais poderia entender. Que homem, meu Deus, que homem !

Quando a questionavam sobre suas promessas vazias, ela dizia que tinham inveja, que eram ignorantes, que tinham medo dele. Explicava que tinha exemplos de seu amor. Mostrava alguns presentes. Algumas declarações, alguns feitos. Feitos que eram bonitos, válidos, mas sempre esporádicos. Parecia um projeto de escravidão. Ele servia pequenos sonhos e colhia sua servidão. Mas, não, claro que não. Ele queria o seu bem. Sempre quis!

Ela o defendia com unhas e dentes. Ninguém mais era como ele. Ela queria e precisava amá-lo. Ninguém mais a merecia. Sabia que lá fora, ninguém mais prestava e ela tinha certa razão nisso. Mas ele sim? Sim, sim, ele sim.

Em sua carência, ela se cegou. Muitas vezes, sentia que estava ajudando a construir algo. Que seriam mais fortes juntos. Mas ele a manipulava. Não cumpria as promessas. Não aparecia quando combinavam. Mas foi para isso que ela aprendeu a perdoar. Quando se encontravam, tudo era perfeito.

De tanto ser usada, ela perdia forças, energias, e a própria razão. Mas seu amor vingava. Era uma chama que ardia quente.

Na sua oratória, ele a conquistava como a viuva negra dá o bote em suas presas. Ser refém, para ela, havia virado um mérito. Ela não percebia o tempo passando, as oportunidades partindo, sua vida ruindo. Ele voltaria. Ele ajudaria. Ele iria salvá-la. Que parem com esse discurso absurdo! Ele era bom. Vejam só, ele é único !

Então um dia, ela ficou mal. Muito mal. Em seus delírios apaixonados, clamava pelo seu amor. Precisava dele, precisava de mais que suas palavras. Precisava de suas ações, de suas promessas em concreto. De sua vontade. De seu esforço.

Naquele dia, ele chegou propositadamente atrasado. E não se ocupou de pedir desculpas. Apenas se certificou do seu estado. Ela já não poderia mais dar prazer.

Então se foi enquanto ela agonizava.

E de longe, o populista ouviu a população flagelada gritar por seu nome. “Quando estiver melhor, eu volto”, explicou numa mensagem enviada mais tarde.

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Ps. Dedico este texto a todos os povos que sofrem com a hipocrisia de seus líderes e a todos que tentam escapar disso pacificamente. Que não seja este texto usado para espalhar ódio ou cinismo. Que sirva de metáfora para ponderarmos em relação a tantas circunstâncias abusivas da vida. Entendo que amar vai muito além de defender o que alguém está fazendo de errado. É também guiá-lo e cobrá-lo pelos acertos de forma severa, mas sensata.

 

 

Minha vida com os árabes

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Da novela o Clone até pouco tempo antes de passar um período no Canadá, meu conhecimento sobre o mundo árabe manteve-se mais ou menos reduzido à comida com grão de bico, dança do ventre, algumas mulheres de véu, alguns homens barbudos, religião monoteísta, música dodecafônica. Vez ou outra a televisão me lembrava que alguém, teoricamente em nome de uma parcela muçulmana, executava ações terroristas. E minha cultura árabe parava por aí.

No Canadá conheci muitos árabes, inclusive um dos filhos do rei da Arábia Saudita (que passou um reveillon lá em casa). Eles eram todos gentis, divertidos, inteligentes e ricos. Algumas ideias absurdas que eu podia fazer sobre essas pessoas foram se esfarelando. Fiquei com a seguinte impressão : Árabes são ótimos e ricos. Beleza.

Vim morar na França. Os árabes daqui não têm o mesmo padrão de vida do Canadá. Mas não mesmo. Aqui eles eram mais gente como a gente. E, em alguns momentos, mais gente que a gente.

Foi assim que conheci Nadia, minha amiga marroquina do mestrado. A única que entendeu que eu estava boiando no sistema daqui. Me ajudou do início ao fim e foi a única a fazer esforço para manter contato comigo depois que formamos.

Foi assim que conheci Skandal, um amigo sírio. Uma pessoa que se ouvir você falar que não está tomando leite, ele vai descobrir uma receita vegana de creme de amendoim e fazer um pote pra você no dia seguinte. Quando Skandal soube que meu pai estava aqui me visitando, cruzou a cidade no meio da semana de provas finais com um temperinho sírio. Disse que era para meu pai levar pro Brasil « alguma coisa da Síria ».

Um dia a argelina que trabalha no mercado onde compro legumes me reconheceu na rua. Perguntou como estava a vida (eu tinha emagrecido 10 kgs) e, preocupada, passou-me o telefone da casa dela. Falou que quando eu precisasse, ela estaria aqui de carro e eu poderia ficar na casa dela o quanto fosse necessário. Repito : Essa é apenas a mulher que me vendia legumes.

No dia que caí de bicicleta sobre vários cacos de vidro, eu estava até bem ousada. Um shortinho, uma blusinha fina, sozinha numa avenida de rota rápida. Um árabe parou o carro. Perguntou se eu estava bem, desentortou minha bicicleta, falou pra eu lavar o machucado e foi embora.

Quando vou no kebab comer meu falafel (#goveggie, guys), que é uma das coisas mais baratas que dá pra comer por aqui, é comum que o pessoal de lá ofereça a sobremesa ou fritas extras sem cobrar.

Quando Hikmat, outra amiga árabe, veio me visitar pela primeira vez, ela trouxe uma pulseira de presente para agradecer a minha hospitalidade de 20 minutos para uma xícara de chá. Eles adoram presentear ! Fairouz , outra amigona que ama chá, comprou um kit de banho pra mim porque uma vez elogiei o que ela tinha na pia. E tantas vezes mais, ela me salvou de enrascadas, essa gênia!

“Zulikha, por que você usa véu e se cobre toda ?”, perguntei para uma amiga da Argélia que fez essa escolha. Ela contou sobre uma experiência muito próxima da morte que a fez querer estudar mais o mundo do além. O lugar que foi buscar as respostas era o livro que sua família considerava sagrado. Aliado a isso, embora este livro não determinasse nada específico sobre o uso de roupa completamente coberta, ela entendeu que desta forma se sentiria melhor.

Durante o debate da semana que definiria o vencedor das eleições primárias da esquerda moderada francesa, Benoit Hamon (hoje o candidato oficial) discutia a questão : « Se a mulher usa porque quer, eu defenderei seu direito. Se usa por imposição, eu defenderei sua liberdade ». Lembrei de Zulikha dizendo « meu marido não dá a mínima pra essas coisas ».

Uma vez fizemos um aniversário surpresa para Ahmed, um amigo marroquino, na minha casa. Vieram pessoas do mundo inteiro. Isso porque é Ahmed o único entre nosso grupo que se ocupa de manter viva a idéia de acolher estrangeiros nos encontros couchsurfing de todas as quarta-feiras. As vezes ele vai e fica sozinho. Outras, ele arruma papo com um alemão de 70 anos, ou com um casal de koreanos. Mas ele está sempre lá, depois do trabalho, disposto a falar todas as línguas, porque sabe que alguém pode precisar. Como um dia eu precisei e ele também. É a pessoa mais aberta que existe. E a única que realmente memorizou todas capitais do mundo inteiro. Mas não deixe ele virar o DJ da sua festa. Ele escolhe músicas de 10 minutos cada. Esses árabes !

Hoje, voltando pra casa de noite, encontrei mais um amigo das arábias. Podia ter sido o advogado tunisiano que faz doutorado aqui, podia ter sido o engenheiro libanês que prepara a festa da primavera. Podia ter sido o agricultor iraniano que toca piano como mestre (os iranianos nem são árabes). Mas foi um matemático marroquino. Ele me disse que sua mãe estava aqui para visitá-lo e ficou feliz de ver como ele tem se alimentado bem. Árabes ! , pensei. Pessoas de um coração enorme. É assim que percebo agora, esse grupo tão vasto e diverso.

Que sorte a minha encontrá-los.

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 “Es por el signo de la amistad por el que se unen los hombres, los pueblos y las razas, y es bajo sus auspicios que ha de haber paz en la tierra.” Da Logosofia

  • Este texto foi escrito ao som de : El Arbi, Fatamorgana e Baile de los Pobres – músicas que sempre embalam nossas festas !

Um ano sem carne

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No final de 2014, conversei com meus amigos sobre um possível projeto #2015semcarne. Muitos acharam que seria impossível. Mas eu queria tentar! E agora que consegui, venho aqui falar deste projeto.

A motivação para isso surgiu de muitos e variados pontos. Permita-me explicá-los aqui :

A primeira questão era por piedade com os animais mesmo. Eu não sentia que era preciso sacrificar tantos animais se poderia substituir a carne tão facilmente.

A segunda questão é que nunca gostei muito de carne. Entendo que podem ter sabores deliciosos, mas ainda acho que estão mais ligados ao molho e ao tempero que à própria carne. Costumo dizer que eu sempre fui vegetariana e só depois dos 30 tive coragem de dizer isso pra sociedade.

A terceira questão foi com a cultura da França (país onde moro atualmente) de comer pratos apenas com carne (uma carne toda decorada no centro do prato e nenhum acompanhamento que sustenta, como arroz, massa ou batatas). Comendo apenas carne, meu cérebro não entendia que eu tinha comido. E continuava pedindo comida (leia-se carboidratos, ou pelo menos uma salada cheia) o que me causava certo stress.

A quarta questão era uma dificuldade na comunicação da minha forma de alimentação. Era complicado recusar os pratos oferecidos na casa de alguns amigos franceses onde a única opção era um coelho, um pombo, uma lagosta que morreu gritando dentro da panela. Além de ser muito diferente da minha cultura o contato com esses pratos, era muito difícil explicar que não me despertavam interesse gástrico e ao mesmo tempo dizer que não era vegetariana, só não queria comer aquelas carnes. É estranho até para escrever isso agora!

A quinta e última motivação veio de uma gatinha que peguei na rua, e que precisou ser operada. Tive muita dificuldade para achar uma família para adotá-la. E até encontrar a família perfeita para ela, gastei muito tempo, dinheiro e energia para que ela ficasse bem. Tudo porque ela me inspirava compaixão. Nessa experiência pensei que não faria sentido chegar em casa e comer um hambúrguer, tendo me esforçado tanto para salvar um animal.

Explicados esses pontos, aproveito para ressalvar que estes comentários não se aplicam a situações extremas de muita fome ou de grande necessidade. Em situações de desespero muitos dos nossos conceitos e padrões mudam. Nada aqui se aplica a casos limite.

Tendo em vista essas considerações, decidi no dia 31 de dezembro de 2014 que em 2015 não seria consumidora de carne. Junto a essa decisão, resolvi outras coisas: Não compraria nada que tinha carne (lembrando que peixe é carne), molho de carne, tutano (como gelatina e aquelas balinhas molengas) e ou qualquer coisa do tipo que fosse substituível por algo mais sustentável no meu consumo (incluindo cosméticos muito duvidosos e roupas e acessórios de couro ou peles substituíveis – continuei usando o que de couro eu já tinha).

Os temperos sabor carne que já existiam na minha despensa, não joguei fora. Usei normalmente para não perdê-los, afinal o estrago já estava feito e eu não iria desconsumir uma coisa. Achei que a forma mais respeitosa com relação à morte daquele animal, naquele momento, seria pelo menos terminar de usar o que ainda existia no armário e não comprar mais.

Outra coisa, se em alguma refeição, oferecida por amigos, a comida vegetariana tivesse tido contato com a carne, eu iria comer assim mesmo para não criar uma repulsa à ideia do vegetarianismo. O importante era a pessoa respeitar e deixar sempre uma opção vegetariana para quem não queria carne. Muitas vezes, quem convidada já fazia um prato só, somente vegetariano. E isso era lindo. Também passei a convidar muita gente pra minha casa, oferecendo sempre alguma receita que não levasse carne como risotos, lasanhas de beringela, quiches. Até a minha chefe do restaurante, que fazia tortas cheias de bacon, lançou a semana Vegana e Vegetariana com sabores diferentes que fizeram o maior sucesso.

Percebi que depois que anunciei a minha escolha como « Sou vegetariana » tudo ficou mais fácil para as pessoas entenderem. Embora muitos ainda achem que eu coma peixe ou camarão. Mas não como não, viu.

Uma decisão que acho importante, e até política é de perguntar em todos os restaurantes por opções vegetarianas, mesmo se eu quiser comer apenas a sobremesa. No Mac Donald’s eu já sabia que não tinha a opção de sanduíche vegetariano, mas perguntei assim mesmo só pra saber a resposta do gerente. E o gerente na França me disse que achava que isso não atrairia muito o público. Que não era uma questão da atualidade. Por isso recomendo que quem quer ser vegetariano, passe a perguntar no Mac Donald’s também e em todos os outros restaurantes e lanchonetes, só para eles saberem que existe o interesse. #cadeopcaovegetariana

Quando em algum restaurante não tinha nada vegetariano, eu não gritava, nem fazia escândalo. Só falava « que pena », agradecia e saía. Quando era obrigada a ficar, pedia um suco ou café.

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(mercadinho de Oslo com deliciosas opções pra uma refeição perfeita e sem carne. Não sou eu na foto, só bati!)

A minha escolha foi ser vegetariana e não vegana. No meu entendimento atual, acho que não é necessário maltratar um animal à morte para termos queijos, leite, ovos. Eu sei que o mundo ainda é muito cruel com todos eles e que a indústria é a mesma. O leite que você bebe era para ser dado ao bezerro que virou o vitelo do restaurante da esquina. A vaca leiteira, depois de velha, também vira bife. A galinha que bota o ovo também vai pro prato. Eu sei disso. E acho horrível. Mas ainda acho que a minha opção alimentar não implicaria necessariamente nessa covardia. Ela existe porque ainda não nos organizamos de forma a comprar apenas de produtores éticos. Coisa que tentei com muito custo fazer na França. Para os ovos é mais fácil porque lá existe uma lei que te permite comprar ovos de acordo com a qualidade de vida das galinhas (vem informado nas caixas). Mas para o leite, o único lugar que descobri que tinha uma produção respeitosa de leite era muito longe, e os produtos não chegavam até onde eu precisava. O que fiz foi reduzir o consumo. Mas não cortei.

Feitas essas considerações, não tive grandes dificuldades durante o ano. Não passei fome, nem emagreci, nem engordei. De alguma forma, senti muito mais energia durante o ano, mas não tenho como provar que foi por conta da minha dieta.

Substituí a carne por várias coisas, uma delas era o champignon de Paris quando eu estava na França. Esses champignons são extremamente suculentos e valorizam bem o prato. Não deixando nada a desejar.

Já no Brasil, morro de amores pelos bifinhos de soja, típicos da casa da minha avó. Mas também adoro pratos com berinjelas, bifes de aveia, batatas recheadas, tomates com manjericão e muito azeite!

Não adoeci em 2015. Mesmo tendo passado por circunstâncias de baixa imunidade. Na minha cidade, consultei uma naturopata (espécie de nutricionista que analisa a sua alimentação e saúde em relação ao seu emocional e seus hábitos) e ela disse que minha alimentação estava ótima, que era perfeita para o meu tipo físico e o tipo de vida que eu levava!

Meu maior problema com a dieta veio do cinismo de algumas pessoas, dos comentários desnecessários de outras e até da intolerância de outras. E é impressionante a reação que a intolerância causa. Quanto mais as pessoas criticavam a minha escolha de não comer carne, mais eu queria não comer carne (compare isso com outras coisas para as quais somos tão intolerantes também!). Então, o projeto que era só para 2015, agora vai continuar…

Comer menos carne é uma necessidade do ser humano se quiser preservar o meio ambiente. Para produzir um quilo de carne é necessário produzir muitos quilos mais de outros alimentos. Isso cria uma conta que não fecha se você considerar o número de pessoas que existem no planeta. Nem estou falando para todo mundo virar vegetariano (ideia até muito simpática, mas nem estou falando disso). Na China, por exemplo, eles comem carne, mas é bem pouquinho, porque são muitas bocas para alimentar. Então são pedacinhos do tamanho de um dado, jogados sobre um macarrão ou um arroz. Na Inglaterra, o projeto Meat Free Monday (segunda sem carne) de Sir. Paul McCartney ganhou grande popularidade e lá, qualquer lanchonete, por menor que seja, tem no menu um prato para vegetarianos.

De uma forma geral, existe tanta opção de coisa gostosa pra gente colocar na panela que me parece falta de criatividade termos que comer carne em toda refeição. Não estou falando de casos extremos de quem não encontrou outra alternativa, ou de quem precisa de uma dieta específica com carne. Estou falando de gente que pode escolher ser diferente. Que pode escolher comer menos carne, fazer um equilíbrio na dieta entre seus gostos e o que entende que pode ser melhor pra própria saúde e pro planeta. O Brasil nem é um país frio pra gente se empanturrar tanto com tanta gordura animal como fazemos. Vamos pensar nisso !

Por último, e não menos importante, eu mantive como propósito não ser considerada muito chata como vegetariana. Um pouco, tudo bem! Neste texto escrevo o que esperei um ano para contar. Tento, na medida do possível, não ficar pregando para as pessoas sobre o vegetarianismo, porque cada um tem seu tempo e não adianta tentar convencer ninguém que não quiser mudar. O meu tempo foi em 2015. E me fez muito bem. O seu pode ser em 2016. Mas isso é uma coisa que só você pode saber!

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(oi!)

Se gostou, ajude a compartilhar esta ideia e este texto!

Utilize também as tags durante o seu ano:

#2016semcarne

#menoscarne2016

#meatfree2016

#cadeopcaovegetariana

#goveggie

IMG_4136(mesa montada para uma noite vegana entre amigos)

50 nuncas de 2015

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Ah, 2015. Este ano pregou muitas peças na minha vida, e imagino que na sua também. As vezes o balanço é até doloroso. Entre crise, terrorismo, discurso de ódio, racismo, intolerância, gente estranha e gente falsa… parece não ter sobrado espaço para coisas boas. Mas sobrou, gente. Cada um tem na vida bons frutos a recolher, tenho certeza.

Como há alguns anos tenho feito a lista de 50 coisas que nunca tinha feito antes e que fiz naquele ano, pensei em fazer um esforço para encontrar mais 50 nuncas pra este 2015. No início foi difícil, porque tenho por meta só colocar coisas boas na lista a ser relembrada. Depois consegui até passar de 50 e tive que editar pra ficar bonitinho. Caso seja do seu interesse, dê uma olhada na minha lista. Pode ser que ela te lembre do lado bom do seu ano também.

  • Aceitei couchsurfers pela primeira vez (sim, só temos nuncas nesta lista !). E recebi pessoas da Alemanha e da Áustria muito simpáticas, mas que estranhamente não conheciam The Sound of Music ! O.o
  • Conheci a Escandinávia, que é ponto central do grupo de estudos criado com uma amiga (Idéias da Escandinávia). Na verdade apenas Oslo, na Noruega ! Mas adorei. Quem quiser participar do grupo de estudos, deixe o contato nos comentários.

IMG_5347(Oslo, Noruega)

 

  • Encontrei Livinha em Avignon, que chegou bem no dia meu aniversário, pulando de alegria!
  • Encontrei Silvinha em Avignon e fui com ela à super prisão do Conde de Monte Cristo em Marseille e do homem da máscara de ferro.
  • Encontrei Luísa em Avignon e descobri como fazer malas à vácuo e fotos de uma pessoa ruiva!
  • Comecei a trabalhar com moda, para a By My Hands Fashion, e descobri um outro mundo da confecção que pode ser feita com ética. Além disso, adorei poder trabalhar de novo com a Pati, minha ex-chefe advogada. Participamos do Fashion Revolution Day e mudamos muito nossa forma de consumir também.

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  • Comecei a escrever para um jornal francês e ralei muito para conseguir publicar em outra língua.
  • Fiz uma doação para a wikipedia e para o crowdfounding de um projeto importante. Aprendizado que recebi da minha mãe. Se é importante pra gente, e podemos contribuir, tentemos!
  • Vivi quase um mês em Milão, na Itália, com minha família amada que só andava pela casa dançando e cantarolando! Antes disso, aprendi a falar o básico do italiano com uma amiga muito querida.

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(pomba posando pra mim na praça principal de Milão, a mulher logo atrás também fez pose)

  • Virei colunista de um site de slow lifestyle ( Review) e me senti ainda mais próxima de um estilo de vida minimalista e cuidadoso que me atrai muito.
  • Participei de um capítulo de um livro espanhol sobre a judicialização da saúde no Brasil.
  • Conheci o interior de São Paulo (Itu, Sorocaba, Brotas e São Carlos).
  • Aproveitei uma tirolesa gigante em Brotas! E conheci as chamadas « areias que cantam ». Brotas é uma cidade incrível, que vale a pena.

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  • Morei meses com uma peruana (Pamelita!) e comemos muito arroz com batata juntas para desespero dos franceses!
  • Fiz uma grande viagem de milhas, o que me permitiu passar na Inglaterra só para jantar.
  • Trabalhei no mercado de Avignon durante o festival de teatro e entendi o que era ser invisível.
  • Conheci Veneza, a primeira cidade capitalista do mundo ocidental. Florença, a cidade de Da Vinci e Galileu. E Verona, a cidade de Romeu e Julieta. Morri de amores pela Itália.

  • Cozinhei um quiche com leite azedo tido como perdido e ele ficou ótimo.
  • Ganhei um desenho de um garotinho da Tanzânia que conheci no trem. Ele não tinha lugar para sentar, e se apertou com a gente nas cadeiras. A mãe dele me lembrava muito diversas mães brasileiras, que apesar de extremamente pobres, só espalhavam amor.
  • Descobri que franceses dão espaço entre as palavras e os pontos de exclamação e interrogação e finalmente entendi porque o meu Word faz assim !
  • Passei todo o ano sem comer carne. E não foi tão difícil assim. Cumpri meu projeto #2015semcarne! E vou continuar.
  • Produzi o VEDA ( Vlog Everyday April) para o canal do youtube Direito é Legal.

  • Fiz o projeto s2 Frágil em Madrid e Avignon, um projeto de levar mais consideração ao coração alheio, criado pela jornalista e amiga Sabrina Abreu.IMG_5400
  • Fui num congresso de Economia Criativa em Madrid
  • Consegui ver o quadro O Grito! em Oslo e o Nascimento da Vênus em Florença. Dois sonhos !
  • Fui apresentada ao Fram, o navio dos conquistadores do Pólo Sul. « Pólo Sul » é um dos livros preferidos do meu pai. E como eu gostaria que ele estivesse comigo nesse dia.
  • Participei de uma passeata pela paz na França. Logo depois do primeiro atentado em janeiro. Foram milhões de pessoas. Emocionante. Mas vimos que é preciso mais, muito mais que isso.
  • Dei uma festa à fantasia. Duas, na verdade, considerando que a primeira era normal, até que chegaram umas pessoas fantasiadas porque entenderam errado o convite e aí todos nos fantasiamos para eles não ficarem sem graça! Eu amo essa turma.
  • Conheci Clermont Ferrand, Sisteron e Orleans, na França. Três cidades lindas.

  • Passei um domingo inteiro num café conversando e fazendo projetos com uma amiga! Um domingo inteiro ! Num café! Conversando!
  • Escrevi para a presidente (do Brasil) dando algumas sugestões – sempre de forma cordial e respeitosa –  e para a prefeita (de Avignon) também dando outras sugestões. Nenhuma das duas me acolheu. Mas não desistirei.
  • Conheci uma pessoa que conhece uma pessoa que conhece a atriz que fez Amelie Poulain! Estou chegando perto do meu sonho.
  • Fui chamada pela Flavia Calina (vlogger sobre educação infantil) para um café com ela (mas não pude ir) ! Convite via e-mail. Foi outro sonho. Que infelizmente ficou distante.
  • Reencontrei meus alunos 10 anos depois do fim das aulas! E foi maravilhoso! Maravilhoso!
  • Fui fotógrafa do casamento de uma amiga em Nimes, na França. Ela se casou vestida de By My Hands e foi a nossa noiva modelo!

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  • Reencontrei o lado perdido da minha família na Itália. E vivi um dos dias mais gloriosos da minha vida ! Eles nos receberam de braços abertos, como se nunca tivéssemos separado. Sangue do meu sangue!
  • Pela primeira vez deixei um bilhete para o lixeiro. E alguém deixou presentes pra mim na porta de casa. Não nessa ordem.
  • Fizemos um jantar totalmente vegano lá em casa com excelente adesão. Em outro dia, produzimos um enorme encontro de thanksgiving onde cada um dos 26 convidados levou pelo menos uma notícia boa. E finalmente, fizemos outro jantar com gente do mundo inteiro, onde cada um contou sobre o que amava em seu país. A vida faz muito mais sentido pra mim quando esses encontros acontecem.
  • Assisti a um evento pelo skype, graças a minha prima querida que ficou segurando o telefone enquanto eu via o resto da família participar.
  • Aceitei um convite para tomar um chá com estranhos que conheci na rua, num domingo de tarde (eram um casal). E como não senti que a situação era forçada, aceitei. Foi ótimo!
  • Conheci a sala Minas Gerais em Belo Horizonte com uma orquestra sensacional e bati palma até parar de sentir as mãos !
  • Aprendi a fazer sabão e fiz ! Valorize o seu sabonete artesanal, viu?!
  • Perdi um avião (por culpa da companhia) e conheci uma turma muito legal com quem passei quase 24h conversando!
  • Escrevi 33 textos no projeto « 33 textos antes dos 33 anos » em 33 dias. Estão todos aqui no blog, ou com links para eles. Criei a página escrevo.me onde coloco alguns textos e projetos para ficar com uma cara profissional!
  • Aderi ao Low Poo (uso reduzido de shampoo) e gostei do resultado! A gente se faz mal achando que estamos fazendo bem. Não precisamos esfregar tanta coisa no couro cabeludo para ele ficar limpo. Sério.
  • Tive uma reunião profissional em Paris, o que me fez sentir extremamente feliz ! E mais adulta do que nunca!
  • Fui almoçar na casa da moça que trabalhou por anos na casa da minha avó e aprendi muita coisa com a simplicidade da cozinha dela que deixa a comida no ponto certo (pro meu paladar!).
  • Gravei um podcast com as minhas amigas ! Agora estamos esperando o aparelho em que foi gravado ajudar para conseguirmos publicar.
  • Presenciei um casamento lindo de pessoas de mais de sessenta anos se casando pela primeira vez !
  • Participei de um flashmob, pela semana da gentileza. Finalmente! Fazia tempo que eu queria viver esse nunca.

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Feliz 2016, amigos! Sejamos maiores que os nossos problemas.

Quando eu fui invisível

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Em julho deste ano, eu voltava da Itália e queria ver a Pam, minha amiga peruana que mora no andar de baixo da nossa casa. Ela me mandou uma mensagem dizendo que estaria no mercado até o início da tarde. Passei lá. Andei o mercado inteiro e não achei a garota. Até que olhei melhor e vi que ela estava trabalhando numa tenda de patisserie. Cheguei rindo dizendo que tinha passado direto por ela e não tinha reconhecido. Ela não riu.

Alguns segundos depois, recebo o convite « você está procurando um trabalho para esse verão ? »(Na França, julho é verão e em Avignon ainda é o grande Festival de Teatro). Sem pestanejar respondi que sim. Desde que me formei estou condicionada a aceitar os trabalhos que me aparecem. Nem sempre são a melhor opção e eu tenho que aprender a selecionar mais. Não foi o caso.

No dia seguinte comecei. Ao chegar lá, com o currículo na mão, fui em direção à chefe para entregar o papel e ela me cortou. Disse que estava ocupada, que não tinha tempo. Que era para deixar em algum lugar. Deixei sobre uma mesa. Algumas horas depois, ela me chamou atenção dizendo que eu tinha que ter guardado o papel na gaveta. Tudo bem.

Pamela me ensinou a usar a máquina registradora, a embalar as pizzas, a arrumar os suspiros, a saber os igredientes dos bolinhos, a limpar as bordas das tortas. Mas era tanta coisa para aprender, que a cada hora eu perguntava onde estava mais alguma coisa, e ouvia a mulher resmungando « Não te ensinaram nada? ».

Na frente da vitrine a gente era ensinada a dar bom dia para todos os clientes com um grande sorriso. Todas as pessoas que passavam, independentemente de comprarem ou olharem pra gente, ouviam nossa saudação. Certa vez, mexi no pescoço para colocar o cabelo pra trás. Minha chefe não gostou. Disse que era proibido encostar na pele enquanto estivesse na frente dos clientes. Questão de higiene.

Para cada transeunte, um bom dia. Quase nunca eles respondiam de volta. Muitos ainda ouviam, olhavam pra gente e saíam sem falar nada. Se querem o superpoder da invisibilidade, posso dizer que não tem o efeito esperado.

Eu ficava lá, sem poder encostar na minha testa coçando, para agradar pessoas que nem percebiam a minha existência. « É um exercício de humildade », pensava.

E era. Passaram uns americanos. Pediram pizzas, alguns macarrons. Provaram o biscoito de lavanda. No final, o troco era de 70 centavos. Registrei, peguei o troco e o moço negou. « Fica pra você ! É uma gorjeta ». Com aquelas moedas na mão, me emocionei ! E pensei no quanto já tinha sido contra dar gorjetas na vida. Ainda sou, para quem distrata cliente.

No fim do expediente, a vitrine tinha que ser arrumada, limpa. Todos os macarrons deveriam ir pra geladeira. Os bolos para os potes. Os biscoitos emplastificados. Arranquei um pedaço do meu dedo na lâmina do plástico. Mas tudo bem. O chão deveria ser esfregado e era nessa hora que as baratas brincavam na nossa frente. Ai de você se pegasse o pano menos macio para limpar o vidro. E não adiantava justificar que os panos eram quase idênticos. Não adianta.

Depois de passar mais de 7 horas em pé e sem comer, finalmente a gente podia descansar. Eu, com mais de trinta anos, chegava em casa com dor nas pernas e precisava trabalhar (pela internet) com os pés pra cima. Pamela, quatro anos mais jovem, pegava o segundo turno e ia trabalhar em uma loja de roupas ou com jornais. Que fôlego!

Na internet eu lia comentários como « tá fácil pra você que não mora no Brasil ». Olhava pro meu joelho latejando e ria.

Entreguei todos os meus documentos para ser declarada naquele trabalho. A chefe passou a me elogiar muito, mas nunca me oficializou. Situação muito parecida com o que já vivi inúmeras vezes também no meu Brasil. Esse calo nem dói mais.

No dia do pagamento, sendo ele feito por hora de serviço, recebemos dois euros a menos por hora. Reclamamos. Ela disse que esse era o preço correto para quem não tinha experiência. Na verdade eu já tinha experiência em trabalhos parecidos tanto na França quanto no Canadá. Mas não contava. Imigrante não sabe de nada. Poderíamos ter entrado na justiça. Mas invisíveis como éramos, e por um trabalho de verão, decidimos apenas atualizar nossos currículos.foto (2)

Daquela experiência invisível guardamos algumas boas lembranças. Como das duas senhorinhas que passavam todos os dias para comprar tortas e um belo dia, pararam na minha frente e falaram « a gente ama você »! Pena que não é bem visto chorar no trabalho…

Ou dos grupos de japoneses que batiam palma quando a gente entregava alguma coisa com as duas mãos. Uma forma de reverência para passar algo de você para eles. Tão rica essa cultura!

Ou dos outros estrangeiros que achavam incrível as nossas buscas de vocabulário em todas as línguas. Mesmo que a única palavra que eu fale em polonês seja « soluço » e em holandês seja « durma bem »!

Ou mesmo dos atores do festival que passavam entre uma apresentação e outra e contavam sobre suas peças, com o coração nas palavras, e toda a emoção de um artista. Como eu amo Teatro!

Até da chefe. Tadinha! Ainda tão sem noção em sua forma de liderar. Ela conseguiu nos ouvir e atender quando falamos do crescimento do filão vegetariano/bio/vegano. E fez opções deliciosas. Consigo ver direitinho o que falta pra ela ganhar muito mais dinheiro. Quem sabe um dia.

De tanto fugir de mim, acabei criando uma relação com a barata pequenininha. Um dado momento, encontrando-a virada, fui lá e desvirei. Onde tem comida fora da geladeira, tem barata! É mais vitamina B12 pra sua dieta. Fique tranquilo.

Sempre procurei ser atenciosa com as pessoas, mas hoje ainda minha forma de ver os profissionais tem mudado bastante. Não tenho tanto dinheiro, mas meu bom dia é de graça e vai pra quem quiser ouvir. Aprecio as coisas feitas com carinho e a pessoa que está se esforçando. Dou like no youtube, comento nos blogs, deixo bilhetinhos de agradecimento nos hotéis e o troco para o empacotador.

A vida não pode ser acelerada a ponto de nem mais cumprimentarmos o frentista, o porteiro, o motorista do ônibus, o advogado do outro lado do e-mail, a atendente da empresa aérea, a enfermeira da troca do soro, a faxineira do corredor, o caixa do banco, a recepcionista do tribunal, o professor que entra na sala, a garçonete que tira o prato, o coveiro que tira o chapéu, o menino do xerox.

Para ver melhor não é preciso ficar invisível. Mas se você for invisível, tenha certeza que é temporário. E se é visível, mas não quer enxergar, tenha também a mesma certeza.

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Este 26 de junho.

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Este dia. O dia em que vi ataques extremistas absurdos. O dia em que vi decisões judiciais para grandes, grandes causas. 26 de junho. O dia que me inspirou diversas emoções diferentes.

O texto de hoje foi parar no meu outro blog: Neste mundo cheio de cores.

#lovewins

Pare com a falação

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Outro dia, estávamos aqui em casa jantando arroz com verduras e ele comentou comigo que tinha a impressão que eu estava me alimentando melhor. Era verdade. Mas havia algo a mais naquela história. Eu não estava me alimentando tão melhor. Eu só estava mais tranquila com o meu jeito de comer.

Explico.

Quando cheguei na França, vim um pouco iludida. Achei que o mundo aqui seria meio o mundo de Amelie Poulain. Que todas as pessoas tinham algo de muito fofos. Que todos os franceses adoravam os brasileiros, que todos os franceses eram quase tão brilhantes como Voltaire e Diderot, que filosofavam em todos os encontros e que todo mundo gostaria de saber mais sobre a minha curiosa cultura. Ou seja, eu estava equivocada.

Aqui, peço licença para acabar com a ingenuidade das pessoas que eventualmente estiverem pensando como eu (mas se você pensa como eu, me manda um e-mail, vamos ser amigas!). Eu, toda feliz, cheguei numa França ainda muito preconceituosa, xenofóbica, enfim, com problemas comuns a quase todos os países do mundo, mas muito diferente do que esperava. Me esforcei para encontrar coisas legais e fofas aqui, mas foram muitos desencontros e entre eles uma falação chata sobre carne como se fosse a única boa coisa a ser comida no mundo.

Eu não concordava, mas era eu que tinha que me adaptar, não é?! Eu era a intrusa. Eles estavam no habitat deles.

Passei a tentar recusar as coisas que eu não gostava de forma educada (eu achava educada!). Eram muitas ofertas, muitas insistências e, da minha parte, muitos nãos.

De tanto recusar coisas que os demais consideravam normal, virei a chata do círculo. Passei a responder que eu recusava para chocar mesmo! Até drogas. E assumi o papel de chata que nunca julguei merecedora (alguém julga?).

Evitei escrever sobre este assunto de forma explícita para não ficar parecendo a depressiva da França, até porque, aqui tem muitas coisas e pessoas que vão além desse mundinho bobo, mas este foi o primeiro tormento que me cercou quando cheguei aqui.

Como estratégia de defesa, comecei a levantar algumas bandeiras que antes eu até simpatizava, mas não era tão militante.

Não adiantou, eu estava enxugando gelo. Quem é contra, não troca de ideia por discursos de ódio, bandeiras e gritos.

No dia que ele falou que eu estava comendo melhor. Pensei em uma amiga minha. Uma amiga minha da Síria que mora aqui.

Ela é mulçumana e usa véu. Não pode mostrar o cabelo para outro homem que não seja o marido. Também não pode comer alguns tipos de carne e tem todo um ritual do islã a seguir. Um dia ela me disse que nem sempre ela foi assim. Ela me disse que não usava véu, não seguia muito a religião… até que criaram todo um alarde contra os mulçumanos. E a história sangrenta da Síria mostra como é difícil conviver com a intolerância. Ela perdeu seu pai, seus vizinhos e, como única alternativa que encontrou em meio à perseguição, tornou-se mais religiosa.

Muito embora não tenhamos as mesmas formas de ver o mundo, eu entendo esse posicionamento dela. E acho que é isso que acontece com todo mundo que se sente acoado, ameaçado, desrespeitado por suas escolhas. Eles se apegam ainda mais àquilo que todo mundo tenta tirar deles. Não é mais uma disputa de quem tem a razão, mas uma disputa de quem se impõe mais. Uma disposta de poder. E entre extremos não há mais razão.

Outro dia aprendi que essa reação exagerada à opressão se chama Efeito Mola. A mola tem um estado de repouso, mas quando é muito comprimida tende a expandir mais além do seu estado perfeito. Ou seja, a perseguição é talvez a estratégia menos inteligente para fazer alguém mudar a forma de pensar.

Meu cachorro não pode pegar minhas meias. Quando ele pega e eu corro atrás, ele leva embora e baba em todas. Quando ele pega as meias e eu ignoro, ele devolve um minuto e meio depois! É muito mais simples. Com o tempo, ele até parou de achar graça no furto das meias.

Não como carne mais (e isso também começou na França). Se criam uma roda de críticos sobre a minha alimentação o que eu faço é me tornar mais rígida na alimentação vegetariana (que atualmente aceita comer coisas que encostam em carne). E assim por diante.

O meu conselho é, se você quer realmente ajudar alguém, tente mostrar as vantagens (de forma simpática e empática) das suas escolhas. Evite falar mal das escolhas alheias. Isso gera uma reação oposta. Em outras palavras: Pare de amolar os diferentes!

 

Falemos de contratos

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Desde que me aprofundei mais em Contratos passei a interpretar essa existência deles de forma abrangente. Muito abrangente mesmo! Sei que isso acontece com quase toda profissão. Meu professor de matemática falava “tudo é matemática”. Meus amigos nutricionistas dizem “tudo é caloria”. Meu colega publicitário dizia “tudo é marketing”. E eu digo que quase tudo é um contrato! Não tudo! Mas muita coisa é.

O nascimento é um contrato com a vida (e não adianta virar os olhos achando que é clichê, sabidão, é assim mesmo!)! O casamento é um contrato de comunhão de vida. O check in do avião é um contrato de embarque. O “eu te aviso” é um contrato. O “pode deixá” é outro. O joinha que você mandou na rede social quando sua amiga pediu uma encomenda é também! O “vamu encontrá às 6” também é um contrato, assim como todas as vendas, aluguéis, empréstimos e doações são igualmente contratos. Com ou seu papel.

O papel no contrato apenas preserva melhor as provas! Mas há uma hora em todo contrato que a única coisa que rege é a confiança.

Um amigo paulista estava me contando que num hotel em Dublin (Dublin, gente!), ao pagar em dinheiro a conta de 430 euros, ele deu uma nota de 500 euros e três de dez para facilitar. A recepcionista não devolveu o troco, alegando que ele havia dado apenas quatrocentos. Como assim??? Ele poderia ter chamado a polícia, poderia ter entrado na justiça. Mas era estrangeiro e tinha que correr para pegar um avião. Nessa hora, aquela recepcionista se aproveitou de todas essas condições para quebrar uma das coisas mais sérias da vida que é a confiança.

Todo contrato é de confiança. E pode ser verbal, mas a escrita é importante, muito embora exista uma frase que diga que “quando os contratantes são de confiança não é preciso papel e quando não são, não adianta”. Eu não deveria repetir essa frase, mas quero analisá-la. Contratantes de confiança não necessariamente entendem tudo da mesma forma, interpretam tudo da mesma forma, e mais, não necessariamente preveem situações que possam acontecer, ou mesmo prevendo, não necessariamente sabem como resolver sem uma estipulação contratual bem delimitada em papel. A outra questão é que nem sempre o contrato será resolvido entre os contratantes iniciais. Se uma pessoa perde a vida, ou desaparece ou perde a lucidez, será outra pessoa que irá dar continuidade ao que foi definido. E nessa hora, só o papel. Ainda existe a questão das alterações no contrato e dos esquecimentos (possíveis e sem má intenção). E, por fim, a questão tributária, contábil, negocial etc. Até aqui, estou falando apenas de gente honesta, correta, amiga. Quando se está falando de gente desonesta o primeiro conselho é não fazer contrato, mas o segundo é fazê-lo com tudo registrado.

Em muitos casos, no entanto, o papel não é suficiente para evitar transtornos. Infelizmente, muitos contratos são feitos com a intenção de abusar, oprimir, desequilibrar um dos lados. Não digo todos e não condeno a existência do chamado contrato de adesão. Mas tenho ficado muito inquieta com alguns contratos que ando lendo como contratos de caução (com u, como precaução!) que não definem qual o estado que deve a coisa ser devolvida. Ou contratos de aluguéis que tiram totalmente a privacidade do locatário. Contratos de cessão de direitos que não definem prazos, nem delimitam os direitos. Contratos que proíbem disputas judiciais… Até alguns contratos de prestação de serviços que não levam em consideração o tempo, o custo, os meios e o resultado.

Também me inquieta que muitos contratantes achem que não é importante ler o contrato, pois diante de qualquer problema resolverão na justiça. Não é possível prever até quando os juízes vão se considerar justo ler contratos de quem não os leu.

Mas quem lê contratos? Estima-se que a média de tempo de leitura de um contrato considerado grande seja de 20 minutos. E tempo é dinheiro! Há casos de empresas que oferecem até mil doláres no meio de seus textos contratuais para ver quem está lendo os contratos. Em cinco meses, e após 3 mil contratos, a empresa de softwares PCPitstop teve que pagar uma única vez o valor oferecido!

E quantas vezes você já quis cancelar tudo porque leu o contrato e não concordou e depois todo mundo te falou o famoso “é assim mesmo”? Nem sempre é assim não, viu?! Cobrança dupla por serviços já embutidos no preço (como taxa para carrinho em aeroporto) ou uso da sua imagem pelas Administradoras das redes sociais (alguns direitos são inalienáveis, ainda mais num contrato de adesão) são abusos. E não tendo como consertar esses deslizes (vamos chamar assim!) você tem sim direito de pedir pro juiz revisar no caso de algum problema.

 

Mas falemos de coisa boa! Falemos de honrar bons contratos.

Os melhores contratos são aqueles que funcionam bem para os dois lados. No meu caso, adoro trabalhar com amigos por isso. Eu faço com gosto, trabalho feliz e eles recebem um trabalho feito dessa forma. Gosto que as coisas estejam às claras. Em alguns casos, posso até trabalhar de graça ou quase de graça. Mas preciso de um bom retorno.  O tempo, os conhecimentos, a pesquisa, o stress e até o sono vão nos custar alguma coisa. Sejamos honestos, o nosso trabalho merece ser recompensado.

Temos um contrato com a gente mesmo também, não temos? Cada um tem o seu. E neste caso, você tem respeitado?

 

 

PS. Este texto faz parte do projeto 33 textos antes dos 33 anos e será postado também no meu outro blog de Direito!

 

 

Sobre o Minimalismo e o Maximalismo

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Este é um caso de amor à segunda vista.

No meu primeiro contato com a palavra “minimalismo”,  ela  não me atraiu. A teoria e a prática me pareciam duas coisas desconexas e impossíveis.  Mas com o tempo aprendi que o minimalismo se aplica exatamente na humildade de tentar minimalizar, não como um conceito fim “eu sou”, mas num gerúndio de transformação: “Eu estou me tornando”, ou mesmo “eu estou tentando me tornar”.

Sei que muita gente detesta e rejeita esse conceito. E me ocorreu que talvez o problema nem seja o minimalismo em si, mas o que ele não é e o que tantos acham que é.

O que não é minimalismo ?

A partir do nome « minimalismo » vejo que muita gente não se interessa nem por ouvir falar do assunto porque já julga errado previamente. Prejulga. Sinceramente, algumas vezes eu preferia que fosse outra palavra. Acho que se a gente chamasse o minimalismo de « Leveza » sofreríamos menos com reações contrárias ao conceito.

Muito embora a palavra « Minimalismo » seja pertinente e hoje vejo que é até bonita e adequada, ela é comumente confundida com outros movimentos que também carregam a idéia ou o discurso de «mínimo ».

Essa semana mesma uma amiga minha disse que detestava a ideia de minimalismo porque ela não curtia o design minimalista. Ora, se a gente entende por design minimalista aquelas casas com uma aparência fria, tudo em preto e branco, talvez muita gente não goste mesmo. Porque se relacionar minimalismo a frieza, a ideia vai por água abaixo. E todo minimalista passa a ser considerado « sem graça », « sem vida ».

Vou falar da minha casa. A minha casa não é só minha. Eu vivo com mais duas pessoas. E eu sou a mais engajada em manter um espaço mais minimalista. Talvez seja porque eu sou a mais engajada também com a faxina da casa. Pessoas que não faxinam a própria casa talvez não tenham essa preocupação.

Preciso de espaços vazios, mas não quero uma casa completamente vazia. Tenho quadros nas paredes. Quadros pintados pela minha mãe. Tenho plantas! Um cabeça de batata decorativo! Tenho uma gatinha ! Tenho até imãs na geladeira que servem apenas para me lembrar que eu venho do Brasil!

Mas não temos um sofá na sala ou uma mesa de centro. Porque gostamos da sala aberta para dar festas, para dançarmos e para fazermos abdominais (e como precisamos!).

Minha luta atual é em liberar os armários das panelas. Já fiz as contas e nós usamos no máximo 6 panelas diferentes. E temos 12. Não precisamos! Podemos até ficar com 7. Mas 12 não precisamos. Toda vez que abro o armário elas caem todas em cima de mim. Tenho que abrir e segurar com o joelho ao mesmo tempo. Quero minimalizar essa questão. Mas ainda estou convencendo os demais moradores sobre isso.

Minimalismo hoje, para mim, é minimizar problemas. E isso é ser mais leve, nã0 ?! Não tem nenhum minimalista patrulhando ninguém. Aliás, isso não seria minimalizar, ficar tomando conta da vida dos outros. O minimalista quer maximizar o aproveitamento da sua própria vida. O que também não nos faz egoístas, apenas mais circunspectos.

Eu não parei de fazer compras. Continuo fazendo, mas com mais atenção. Tanto ao meu dinheiro, quanto à forma de produção do produto e à minha necessidade de ter o produto. Vi, por exemplo, que eu não combinava com botas de salto alto. Toda vez que usava, era como se fosse por obrigação e não por prazer. Só porque eu ganhei uma bota, não significa obrigação de uso, mas ela tem como obrigação, até legal, de cumprir sua função social (servir a algo). Parei de usar e estou dando um encaminhamento pra ela. Um problema a menos! Mesma coisa para maquiagem cintilante que não me cai bem e um tanto de bugiganga que só ocupava espaço, acumulava poeira e me dava alergia e trabalho pra limpar.

E assim vou eliminando sem dor esses pequenos problemas do dia-a-dia. Maximizando meus pequenos prazeres, minhas horas de conforto, meu sorriso e minha atenção para meu trabalho, meus projetos e para as pessoas que eu amo!

O minimalismo tira de você a obrigação de comprar, de acumular, de ter para ser, mesmo de fazer as unhas toda semana. Fica só o prazer em fazer essas coisas quando você sentir que te faz bem.

Por isso sugiro que o conceito, em alguns momentos, seja explicado como sinônimo de maximalismo!

Mfog3

Ps. Este é o terceiro texto do projeto 33 textos antes dos 33 anos.

A foto que ilustra é de um restaurante em Avignon com a imagem de Alice na parede, aquela que dependendo do seu tamanho vê as coisas ou muito grandes ou pequenas demais!

Um abração nada mínimo para as meninas do blog Minimalizo!