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Arquivo da categoria: Franceses

50 nuncas de 2015

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Ah, 2015. Este ano pregou muitas peças na minha vida, e imagino que na sua também. As vezes o balanço é até doloroso. Entre crise, terrorismo, discurso de ódio, racismo, intolerância, gente estranha e gente falsa… parece não ter sobrado espaço para coisas boas. Mas sobrou, gente. Cada um tem na vida bons frutos a recolher, tenho certeza.

Como há alguns anos tenho feito a lista de 50 coisas que nunca tinha feito antes e que fiz naquele ano, pensei em fazer um esforço para encontrar mais 50 nuncas pra este 2015. No início foi difícil, porque tenho por meta só colocar coisas boas na lista a ser relembrada. Depois consegui até passar de 50 e tive que editar pra ficar bonitinho. Caso seja do seu interesse, dê uma olhada na minha lista. Pode ser que ela te lembre do lado bom do seu ano também.

  • Aceitei couchsurfers pela primeira vez (sim, só temos nuncas nesta lista !). E recebi pessoas da Alemanha e da Áustria muito simpáticas, mas que estranhamente não conheciam The Sound of Music ! O.o
  • Conheci a Escandinávia, que é ponto central do grupo de estudos criado com uma amiga (Idéias da Escandinávia). Na verdade apenas Oslo, na Noruega ! Mas adorei. Quem quiser participar do grupo de estudos, deixe o contato nos comentários.

IMG_5347(Oslo, Noruega)

 

  • Encontrei Livinha em Avignon, que chegou bem no dia meu aniversário, pulando de alegria!
  • Encontrei Silvinha em Avignon e fui com ela à super prisão do Conde de Monte Cristo em Marseille e do homem da máscara de ferro.
  • Encontrei Luísa em Avignon e descobri como fazer malas à vácuo e fotos de uma pessoa ruiva!
  • Comecei a trabalhar com moda, para a By My Hands Fashion, e descobri um outro mundo da confecção que pode ser feita com ética. Além disso, adorei poder trabalhar de novo com a Pati, minha ex-chefe advogada. Participamos do Fashion Revolution Day e mudamos muito nossa forma de consumir também.

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  • Comecei a escrever para um jornal francês e ralei muito para conseguir publicar em outra língua.
  • Fiz uma doação para a wikipedia e para o crowdfounding de um projeto importante. Aprendizado que recebi da minha mãe. Se é importante pra gente, e podemos contribuir, tentemos!
  • Vivi quase um mês em Milão, na Itália, com minha família amada que só andava pela casa dançando e cantarolando! Antes disso, aprendi a falar o básico do italiano com uma amiga muito querida.

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(pomba posando pra mim na praça principal de Milão, a mulher logo atrás também fez pose)

  • Virei colunista de um site de slow lifestyle ( Review) e me senti ainda mais próxima de um estilo de vida minimalista e cuidadoso que me atrai muito.
  • Participei de um capítulo de um livro espanhol sobre a judicialização da saúde no Brasil.
  • Conheci o interior de São Paulo (Itu, Sorocaba, Brotas e São Carlos).
  • Aproveitei uma tirolesa gigante em Brotas! E conheci as chamadas « areias que cantam ». Brotas é uma cidade incrível, que vale a pena.

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  • Morei meses com uma peruana (Pamelita!) e comemos muito arroz com batata juntas para desespero dos franceses!
  • Fiz uma grande viagem de milhas, o que me permitiu passar na Inglaterra só para jantar.
  • Trabalhei no mercado de Avignon durante o festival de teatro e entendi o que era ser invisível.
  • Conheci Veneza, a primeira cidade capitalista do mundo ocidental. Florença, a cidade de Da Vinci e Galileu. E Verona, a cidade de Romeu e Julieta. Morri de amores pela Itália.

  • Cozinhei um quiche com leite azedo tido como perdido e ele ficou ótimo.
  • Ganhei um desenho de um garotinho da Tanzânia que conheci no trem. Ele não tinha lugar para sentar, e se apertou com a gente nas cadeiras. A mãe dele me lembrava muito diversas mães brasileiras, que apesar de extremamente pobres, só espalhavam amor.
  • Descobri que franceses dão espaço entre as palavras e os pontos de exclamação e interrogação e finalmente entendi porque o meu Word faz assim !
  • Passei todo o ano sem comer carne. E não foi tão difícil assim. Cumpri meu projeto #2015semcarne! E vou continuar.
  • Produzi o VEDA ( Vlog Everyday April) para o canal do youtube Direito é Legal.

  • Fiz o projeto s2 Frágil em Madrid e Avignon, um projeto de levar mais consideração ao coração alheio, criado pela jornalista e amiga Sabrina Abreu.IMG_5400
  • Fui num congresso de Economia Criativa em Madrid
  • Consegui ver o quadro O Grito! em Oslo e o Nascimento da Vênus em Florença. Dois sonhos !
  • Fui apresentada ao Fram, o navio dos conquistadores do Pólo Sul. « Pólo Sul » é um dos livros preferidos do meu pai. E como eu gostaria que ele estivesse comigo nesse dia.
  • Participei de uma passeata pela paz na França. Logo depois do primeiro atentado em janeiro. Foram milhões de pessoas. Emocionante. Mas vimos que é preciso mais, muito mais que isso.
  • Dei uma festa à fantasia. Duas, na verdade, considerando que a primeira era normal, até que chegaram umas pessoas fantasiadas porque entenderam errado o convite e aí todos nos fantasiamos para eles não ficarem sem graça! Eu amo essa turma.
  • Conheci Clermont Ferrand, Sisteron e Orleans, na França. Três cidades lindas.

  • Passei um domingo inteiro num café conversando e fazendo projetos com uma amiga! Um domingo inteiro ! Num café! Conversando!
  • Escrevi para a presidente (do Brasil) dando algumas sugestões – sempre de forma cordial e respeitosa –  e para a prefeita (de Avignon) também dando outras sugestões. Nenhuma das duas me acolheu. Mas não desistirei.
  • Conheci uma pessoa que conhece uma pessoa que conhece a atriz que fez Amelie Poulain! Estou chegando perto do meu sonho.
  • Fui chamada pela Flavia Calina (vlogger sobre educação infantil) para um café com ela (mas não pude ir) ! Convite via e-mail. Foi outro sonho. Que infelizmente ficou distante.
  • Reencontrei meus alunos 10 anos depois do fim das aulas! E foi maravilhoso! Maravilhoso!
  • Fui fotógrafa do casamento de uma amiga em Nimes, na França. Ela se casou vestida de By My Hands e foi a nossa noiva modelo!

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  • Reencontrei o lado perdido da minha família na Itália. E vivi um dos dias mais gloriosos da minha vida ! Eles nos receberam de braços abertos, como se nunca tivéssemos separado. Sangue do meu sangue!
  • Pela primeira vez deixei um bilhete para o lixeiro. E alguém deixou presentes pra mim na porta de casa. Não nessa ordem.
  • Fizemos um jantar totalmente vegano lá em casa com excelente adesão. Em outro dia, produzimos um enorme encontro de thanksgiving onde cada um dos 26 convidados levou pelo menos uma notícia boa. E finalmente, fizemos outro jantar com gente do mundo inteiro, onde cada um contou sobre o que amava em seu país. A vida faz muito mais sentido pra mim quando esses encontros acontecem.
  • Assisti a um evento pelo skype, graças a minha prima querida que ficou segurando o telefone enquanto eu via o resto da família participar.
  • Aceitei um convite para tomar um chá com estranhos que conheci na rua, num domingo de tarde (eram um casal). E como não senti que a situação era forçada, aceitei. Foi ótimo!
  • Conheci a sala Minas Gerais em Belo Horizonte com uma orquestra sensacional e bati palma até parar de sentir as mãos !
  • Aprendi a fazer sabão e fiz ! Valorize o seu sabonete artesanal, viu?!
  • Perdi um avião (por culpa da companhia) e conheci uma turma muito legal com quem passei quase 24h conversando!
  • Escrevi 33 textos no projeto « 33 textos antes dos 33 anos » em 33 dias. Estão todos aqui no blog, ou com links para eles. Criei a página escrevo.me onde coloco alguns textos e projetos para ficar com uma cara profissional!
  • Aderi ao Low Poo (uso reduzido de shampoo) e gostei do resultado! A gente se faz mal achando que estamos fazendo bem. Não precisamos esfregar tanta coisa no couro cabeludo para ele ficar limpo. Sério.
  • Tive uma reunião profissional em Paris, o que me fez sentir extremamente feliz ! E mais adulta do que nunca!
  • Fui almoçar na casa da moça que trabalhou por anos na casa da minha avó e aprendi muita coisa com a simplicidade da cozinha dela que deixa a comida no ponto certo (pro meu paladar!).
  • Gravei um podcast com as minhas amigas ! Agora estamos esperando o aparelho em que foi gravado ajudar para conseguirmos publicar.
  • Presenciei um casamento lindo de pessoas de mais de sessenta anos se casando pela primeira vez !
  • Participei de um flashmob, pela semana da gentileza. Finalmente! Fazia tempo que eu queria viver esse nunca.

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Feliz 2016, amigos! Sejamos maiores que os nossos problemas.

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Bloco do eu sozinho em outro país

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É comum ouvir de muita gente a afirmação de que Avignon é uma cidade hostil. De que é muito difícil fazer amigos aqui e de que nos sentimos sozinhos por muito tempo.

Tenho que concordar. Avignon foi a primeira cidade que me deu a sensação de solidão por um tempo maior que o normal. Nunca tinha experimentado isso antes, até porque sempre vivi rodeada da minha família. Nunca tive o desejo ou mesmo a pretensão de morar sozinha. Fiquei um tempo sozinha em Vancouver, no Canadá, mas não foi o bastante para me sentir sozinha. Em Avignon, mesmo morando com mais duas pessoas (Alexis e Pamela), percebo a solidão pinicar, principalmente quando eles não estão lá.

No livro « Clube dos Corações Solitários » que li coletivamente com meus colegas de último ano de Publicidade (beijo, Caricatura!), havia uma passagem em que a personagem saía pra um encontro, mas o homem só falava de si mesmo. Quando ela volta pra casa, e senta no meio fio, seu amigo pergunta como foi o encontro e ela comenta « você já se sentiu sozinho mesmo estando acompanhado ? ». É mais ou menos assim. Aqui na França, enquanto a amizade não pega no tranco, você pode estar em plena civilização, mas vai se sentir numa ilha deserta.

Estar só não é o problema. Pelo contrário, para pessoas como eu, é até recomendável. Preciso desse respiro. Mas também preciso do respiro das boas companhias! Segundo minha naturopata (uma profissão diferente que achei em Avignon, esse é um tipo psicológico equilibrado, o meu! Tive que dar um jeito de enfiar esse informação neste texto!). Mas estar só, e o pior, sentir-se só o tempo todo é pertubador. Sentir que, mesmo se você precisar, não terá ninguém. Poxa, isso não é legal. Pessoas morrem por causa disso.

Outro dia conheci um espanhol que estava fazendo teste para virar professor na Universidade de Avignon. Na minha ingenuidade achei que ele reunia todas as características de uma pessoa que teria prazer numa vida solitária. Mas não. Menos de 10 minutos de conversa, e ele já estava contando uns três casos de quando precisou de contato ou gentileza humana e não teve.

Foi morando na França que descobri que a gentileza não é a coisa mais comum do mundo. Eu achava que era normal ser gentil. Engano. Claro que conheço franceses muito gentis e fofos. Mas achei que fosse conhecer mais!

Já relatei uma vez que eu gosto de cuidar do jardim e dos gatos abandonados que moram perto da minha casa. Pois bem, dei um tempo de cuidar do jardim porque vi que era quase inútil. Quanto mais arrumava, mais sujeira aparecia. E umas sujeiras pesadas, estranhas. Fiquei um pouco frustrada. E isso me deu a impressão de estar sozinha. De ser a única a se importar. Mas continuei cuidando dos gatos. Outro dia apareceram na minha porta dois sacos de ração para gatos. Não tinha nome, nem bilhete, nada. Fiquei meio desconfiada, mas ao que tudo indica, era só ração mesmo (lembre-me depois de contar sobre a máfia das rações e a possibilidade de ter cães e gatos vegetarianos !). Essa pequena «gentileza » me deu um pouco mais de fôlego. E mais motivação para continuar o projeto.

Quando comecei este blog fiz um trato comigo mesma que não iria ficar falando de coisa negativa no blog. Não acho que esse tipo de mensagem leve a nada e só causaria mal entendidos. Então, por favor, leia este texto até o final para ver onde quero chegar e não ficar com uma impressão ruim (o muito ruim).

A hostilidade de Avignon existe. É fato. Costumo dizer que se não tivesse descoberto o grupo de couchsurfers, eu não teria amigos na cidade. Ou teria amigos que veria uma ou duas vezes por ano.

Tenho vizinhos que sequer respondem o « bom dia » que a gente dá. Outros respondem, mas a relação nunca passa de « como vai ? Olha que solão ! Ouvi dizer que vai chover ». Na época da Copa do Mundo foi maravilhoso, porque era quando as small talks (Silvinha me explicou que não é little talks !) duravam mais tempo : « E o Brasil, hein ?! Nossa, eles estão jogando um bolão ! ». Mas foi só a Alemanha devastar o nosso time que todo mundo passou a evitar esse assunto comigo e pronto, fiquei sem assunto de novo. Tenho uma vizinha que até hoje me evita… e eu não tenho certeza que é por causa da Copa do Mundo ou por ela me achar estranha mesmo (estranha onde???). Fato é que ela não me recebe casa dela nem quando eu estou com um embrulho de presente batendo na porta e vendo que ela está na sala assistindo televisão. Nesse nível!

Encontrar amigos em Avignon foi realmente uma das tarefas mais difíceis da minha vida. Sem amigos, eu costumava ver vídeos na internet para ouvir alguém falando comigo (olha que depressão) e as vezes pensava « nossa, que legal essa pessoa com tanta audiência! Ela nunca deve se sentir sozinha ! » (olha que depressão!!!).

Aí comecei a frequentar esse grupo de amigos de amigos que faziam couchsurfing. Comecei a aceitar couchsurfers também. E a fazer pão de queijo pra galera, brigadeiro, ser gentil por ser gentil. Passei a fazer o que a vida inteira me ensinaram a não fazer: conversar com estrahos! Mas estranhos com uma loucura que parece um pouco com a minha, Falcão! Chamar pra festas que tocam Macarena e Balão Mágico. E funcionou! Não com todos, mas com uma quantidade boa de gente com quem eu me identifico.

Hoje, na hora que eu quiser, tenho alguém para ligar, pra conversar, pra me dar conselho e até pra corrigir meus textos em idiomas não identificados.

Ainda por cima (amo essa expressão!), descobri grupos no whatsapp que aceitam estranhos e que se abrem para todo tipo de estranhos! Com gente do Brasil inteiro. A qualquer hora do dia ou da noite o povo tá lá no maior papo !

Mas é estranho! Ainda acho. Não ter companhias imediatas como vizinhos ou parentes. Mas beleza, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição, Amarante!

Lembrei que mini-solidões não são tão novas assim. Era normal quando eu mudava de escola, por exemplo. Teve uma vez que mandei um e-mail tão depressivo para minha amiga da escola anterior, falando da falta de amigos, que até hoje ela está escolhendo as palavras para responder.

Ou quando entrei pra faculdade de Direito, e depois pra outra faculdade de Direito. Mas no fim das contas, em todos esses lugares, fiz ótimos amigos depois de algumas semanas, quase todos rendem até hoje! Mesmo à distância.

O período de teste em Avignon foi o maior. E mais atípico. Era o lugar onde as pessoas torciam mais o nariz pra mim. E hoje eu mando tchauzinho pra elas quando começam a me julgar demais no restaurante! Ainda tenho momentos de solidão, mesmo com uma gatinha supercarinhosa e amigos muito presentes. Acontece! É por isso que sempre inventamos jantares vegetarianos juntos, noite de seriados, saídas para teatros, para ver eclipse, para caminhar, nadar nos rios, visitar museus, fazer aula de dança e doar roupas velhas. Descobrir os amigos que descobri em Avignon compensou os mais de 400 dias que passei na cidade, no bloco do eu sozinha, sem ter muita companhia. Eu convido você, futuro professor, a vir filosofar um pouco mais com a gente!

 

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OBS: Este texto faz parte do projeto 33 textos antes dos 33 anos!

Para ver vídeos que faço para um outro blog, clique aqui!

Sobre as fotos: A foto na mesa, embora não pareça, é sobre a chegada da primavera do ano passado, quando pudemos finalmente fazer algo ao ar livre sem morrer de frio! A foto das fantasias é sobre uma festa que na verdade não era à fantasia, mas três pessoas entenderam errado e foram fantasiadas, para não morrerem de vergonha todo mundo se fantasiou lá mesmo! A foto do coração é uma iniciativa linda da Sabrina Abreu ( #s2fragil ), e quem clicou foi a Livia Alen!

 

O que você poderia saber sobre Avignon antes de vir pra cá

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Quando cheguei em Avignon, há dois anos e meio, não sabia muita coisa. Achava que sabia! Mas nãaaa… Muita coisa que eu entendia como universal, não funcionava para a vida aqui. Muita coisa que eu não sabia que existia, passou a fazer parte da minha vida. Foi assim que, aos poucos, fui conhecendo e tentando entender melhor não só Avignon, mas também a França e, por mais incrível que pareça, também o Brasil e minha cidade, Belo Horizonte.

O tema Cidades é o meu preferido. Peter Smith do Guidebook da Vida Urbana disse algo do tipo “Quero estudar as cidades para entender a história da gentileza”.

Então, para quem está vindo a turismo ou para morar, deixo aqui algumas lições que aprendi na prática. Espero ajudar!

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  • Avignon é uma cidade em julho e outra nos outros meses.

Por isso, vou falar praticamente da cidade dos outros meses. Porque em julho tem o maior festival de teatro do mundo aqui e tudo vira festa! E é muito muito muito bom!

  • Você não achará táxi com facilidade.

Não é comum pedir táxi aqui. Eu mesma nem sei telefone de tele-táxi e quase não vejo taxi na cidade. Não sei se eles aceitariam fazer corridas por valores muito baixos… Só andei uma vez num táxi que encontrei por sorte na estação de trem mais distante e foi por causa do frio.

  • Programa no shopping é uma ideia que não existe.

Eu não tenho nada contra shopping. Acho até agradável andar em shopping quando não está lotado e desde que não seja a única opção de programa pros dias livres. Mas aqui essa ideia não é nem considerada. Os shoppings e centros comerciais até existem, mas eles nem tem praça de alimentação, nem são feitos para a gente reencontrar amigos. É apenas chegar, comprar e ir embora.

  • É mais fácil andar de bicicleta que de carro.

A cidade tem duas partes. A parte medieval, dentro dos muros e a parte industrial e residencial fora dos muros. Dentro dos muros os carros não cabem mais, mas eles entram. E ficam congestionados, as vezes até entalados mesmo nas ruas muito estreitas. Fora dos muros, ainda é possível fazer muita coisa de bicicleta e transporte público. Os carros fazem falta principalmente para viajar ou para grandes compras e mudanças. Mas se você pode dar preferência para a bicicleta, por que não?!

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  • Nem tudo é acessível para cadeiras de rodas ou carrinhos de bebê.

Simplesmente não sei como as pessoas que precisam de acessibilidade poderiam fazer para viver aqui. Não estou falando de órgãos administrativos, nem dos grandes teatros. Estou falando de entrar em restaurantes, visitar amigos e as vezes até andar nas ruas fininhas que nem calçada têm. A cidade é medieval e muitas coisas continuam com a mesma estrutura. Elevador é um conceito pouco visto na cidade.

  • Feiras! Muitas feiras!

Se você não gosta de feiras, Avignon é o lugar ideal para começar a gostar. Se já gosta, vai se esbaldar! Feiras de objetos usados, feiras de produtos naturais. Feiras de produtores que não destroem o planeta para ganhar dinheiro. Obrigada, França, por me fazer apaixonar (ainda mais) por essa ideia!

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  • Não é comum comer em restaurante todos os dias.

Comer fora aqui é muito caro. No Brasil, pode ser caro e pode não ser caro. Não adianta me dizer que é sempre caro. Quando eu trabalhava na Savassi, almoçava fora todos os dias, pratos deliciosos e não chegava nem perto dos preços daqui. Aqui, ou você compra um congelado, ou você aprende a cozinhar. Comer em restaurante todos os dias, mesmo para um turista, é uma coisa que pode ficar muito pesada.

  • Todo o comércio fecha depois das 19h. E nada abre domingo.

Isso está para mudar. Mas ainda não mudou. Depois das 19h só tem restaurantes. E mesmo restaurantes não recebem muita gente depois de 21h30. Se quiser chegar mais tarde, reserve antes. Se quiser comprar coisas depois de 19h, alguns mercadinhos árabes ficam abertos. Mas o que era aqui perto da minha casa já fechou…

  • Quando alguém te convida para jantar, não necessariamente será um jantar chique.

Acho legal que as pessoas convidem para jantares normais, sem grande ostentação. Mas geralmente a gente leva ou uma garrafa de vinho ou uma sobremesa (de preferência feita em casa). Eu adoro jantar na casa das pessoas, mas, cá entre nós, falando de brasileiro pra brasileiro : come uma banana antes de ir.

  • Não espere muita gentileza e civilidade urbana. Mas espere um pouco.

Aqui tem de tudo. Não é porque conseguiram se colocar no posto de « país de primeiro mundo » que já nascem educados e fofinhos. Por isso, quando vejo alguém falando mal do Brasil, penso que talvez essa pessoa devesse viajar mais. Aqui tem os mesmos problemas do Brasil, mas com mais dinheiro. Muitos jogam lixo na rua e a rua é suja. Muitos furam fila e acham que é normal. Muitos se recusam a prestar pequenos favores ou a dar informação. Muitas motos passam arrancando nossos tímpanos. A sorte é que não são todos. Muitos ainda são boas pessoas mesmo com estranhos!

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  • Não use salto em Avignon. Simplesmente.

Para andar na cidade o salto é muito desagradável porque há muita pedra e fenda nas ruas. Mesmo em ambientes fechados, não é muito comum ver gente de salto. Nas nossas festas, todo mundo que veio de salto teve que pedir chinelo emprestado. Porque pra dançar no taco daqui, sapato baixo era muito melhor. Mas isso não é uma regra absoluta, claro que para ocasiões especiais, tudo é possível.

  • Não confie nas pessoas da rua. Por enquanto.

Avignon já foi considerada a cidade mais delinquente da França. Descobri isso outro dia e fiquei muito assustada. Mas calma! Hoje ela é apenas a 14a mais pobre da França e diminuiu o nível de delinquência. Mesmo assim, além de ter muita gente na rua que até te segue para pedir dinheiro, com as mulheres ainda acontecem situações mais chatas. Existem, por exemplo, os « convidadores para sair » que costumam ser homens com aparência de educados que passam o dia na rua chamando as mulheres para beber algo com eles. Eles estão sempre na rua e chamam uma a cada cinco mulheres que passam pra sair com eles. Não sei o que acontece depois. Mas não recomendo confiar. Fora isso, os homens mexem com as mulheres tanto ou mais que no Brasil na rua. Outro dia, em uma hora de caminhada no centro de Avignon, contei cinco comentários hostis e um semi-simpático. É tanto abuso masculino que isso desencoraja as mulheres a saírem de casa. Nas ruas acaba havendo um desequilíbrio entre gêneros (e, aff, não só nas ruas).

  • O vento!

O vento aqui tem nome. Ele se chama Mistral. Isso porque ele vai entrar na sua vida e na sua casa e vai se fazer notar. No verão, ele é um bálsamo para o calor de 40 graus que enfrentamos. No inverno, ele testará as suas forças. Entrará dentro do seu casaco e congelará o seu sangue. Não há um ser vivo que resista a esse vento sem proteção. Por isso, no último inverno, acolhemos o máximo de gatos possíveis, que felizmente foram adotados. Luvas, cachecóis e gorros. Você vai precisar. E minha avó aceita encomendas, eu acho!

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  •  Programas ao ar livre em dia de sol!

As pessoas amam sair para sentar na grama quando o dia está ensolarado. E isso eu amo mais que tudo!!! Amigos e uma cesta de piquenique fazem meu dia mais feliz. Queira isso. Sempre! Na sua cidade também!

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  • Avignon não é uma pequena Paris.

A maioria das pessoas dessa região não é muito fã dos parisienses… Então não adianta fazer o discurso de que ama a França e falar de Paris. Eles podem entender mal. Em troca, Avignon tem lindos jardins e está numa região maravilhosa de produção de azeite, lavandas, mar de girassóis. Esteja preparado para ver coisas muito bonitas completamente diferentes de Paris. Mas é maravilhoso. Van Gogh se apaixonou pela Provence. Dê ouvidos à ele!

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  • Os restaurantes turísticos das praças mais turísticas: Evite.

Eles podem ser os piores possíveis, com a pior comida e o pior atendimento do mundo. Isso gera alguns traumas. Mas os outros são bons! Alguns dos meus preferidos são restaurantes de estrangeiros como caribenhos, vietnamitas, italianos, indianos, árabes, chineses e até ingleses. Os franceses também podem ser muito bons como o Offset (excelente o prato vegetariano), o Ginette e Marcel (para café), o Chapelier Toqué (comandado por um moço de Gana), todos os restaurantes vegetarianos, os dois kebabs da place de Corps Saint (que vendem kebabs vegetarianos e ganharam troféu Didi melhores Kebabs de Avignon), o sucão da rua De la Republique e todas as creperias e muitos mais!

  • Avignon não é uma cidade para fazer compras.

Se você vem a turismo, não escolha Avignon para fazer compras. Além de não ter tanta opção como muitas outras cidades, Avignon não é tão barata assim. Porém, tem lojas o suficiente para você, que vive aqui, poder se bastar sem ter que sair da cidade.

  • Muitos aluguéis em Avignon não contam o mês de julho.

Em média, por 450 euros mensais você consegue um quarto ou um estúdio ok em Avignon. As vezes, até com água, eletricidade e internet inclusos. Mas em julho os preços de aluguéis aumentam muito por causa do festival de teatro. Tente negociar antes de fechar o negócio. Alguns amigos conversaram com os proprietários dizendo que só aceitariam o aluguel se pudessem ficar pelo mesmo preço no estúdio ou quarto em julho. E conseguiram!

  • Quanto menos industrializado, mais apreciado.

Embora possa parecer um exagero algumas vezes, esse é um ponto que reconheço cada vez mais como certo. No mundo de hoje, a cada vez que você compra uma garrafa de leite normal, você está contribuindo para uma indústria nojenta que desrespeita a vida e a natureza ao máximo. Além disso, o que é feito apenas pensando no lucro, nem sempre leva em consideração a saúde do consumidor. Mas os abusos não ficam apenas na indústria alimentícia do discurso francês. Indústrias têxteis, farmacêuticas, cosmética, de entretenimento, da construção e até de eletrodomésticos também jogam (MUITO) sujo. Reflita!

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  • Nem todos os passeios para turistas aqui valem a pena.

Mas, bom, é você que sabe. Eu ia até enumerar alguns, mas pra quê, né ?! Você é que sabe mesmo! Fora que eu tenho amigos que são guias e são uns fofos! Se estiver de bom humor e em boa companhia, tudo vale a pena na verdade. Vou apagar esse tópico. Não, não vou não. Apenas leve em consideração!

  • Se você vem para estudar, a faculdade é linda, tem coisas muito legais, esportes e atividades variadas, mas tem suas peculiaridades também.

Vai com calma. Respire fundo. Se precisar, estou aqui.

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  • Avignon tem uma vida cultural muito legal!

Você pode ter coisas legais para fazer todos os dias! Aulas de dança gratuitas, restaurantes em que você paga o quanto quiser, shows de todo tipo de música, teatros, cinemas não comerciais e maravilhosos, exposições, festivais, encontros de amigos, tardes de tricot, rodas e conversas sobre temas sugeridos, patinação pela cidade, grupos de jogos, e até noites de forró. Basta procurar em sites como Le Bon Plans d’Avignon, eventos de Facebook ou mesmo o meu recém-nascido Découvrons Avignon!  Apesar disso, grande parte da população vive uma vida meio reclusa, só no videogame, seriado e fast food. É uma contradição. Até com o próprio clichê francês! Mas que existe para todo lado.

  • Os horários para comer são mais estritos.

Se você tiver que comer fora, é bom almoçar entre 12h e 13h20 da tarde. Depois fica arriscado não encontrar mais restaurante (francês) aberto em Avignon. Não é comum comer entre as refeições, por isso não é tão fácil encontrar lugares para lanchinhos na parte da tarde. Não existem pequenos sanduíches. Todos são grandes porque são feitos para substituir uma refeição. Logo, não existe nada pequenininho como uma empadinha, coxinha, juscelino, enrolado, charuto, pão de queijo, bolinho… Que saudade do Brasil!

  • Disputas políticas e tensão no ar.

Há uma grande rivalidade entre direita e esquerda atualmente (nossa, que país diferente!). Nem todos os moradores daqui gostam de estrangeiros. E nem todos os estrangeiros que moram aqui gostam do pessoal de Avignon. Há um clima tenso no ar. E muito delicado. Enquanto algumas pessoas picham palavras de ódio nas paredes, outras  fazem intervenções urbanas para falar com humor da situação crítica. Por isso, se você vier (ou mesmo se não vier), apesar de todos os problemas que encontrar, tente trazer um pouquinho mais de amor, de tolerância e de paciência, ok?!

IMG_7908(amigos do grupo de Couchsurfers, que se reune todas as quartas em Avignon, experimentando pão de queijo)

 

IMG_9455(minha gatinha e as flores do canteiro!)

Por que a tristeza parece escolher suas notícias?

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Ontem em Paris. Uma das cidades mais lindas e poéticas do mundo assistia a um evento de terror e crueldade contra os jornalistas e desenhistas do periódico Charlie Hebdo. Os ataques intolerantes e sem dó repercutiram por todo o país e circularam o planeta como um dos maiores atentados terroristas em território francês. Algo sem a menor racionalidade, sem desculpas.

Desde que me mudei para cá, conheci o trabalho deste jornal. Eram publicações de charges sobre diversos temas e entre eles o tema religião. Muitas charges, na minha opinião, eram boas, outras, me pareciam um tanto quanto agressivas, não me agradavam. Nunca me identifiquei com a política editorial dele. No entanto, essa era a forma que eles escolheram para ganhar dinheiro. E essa discussão do certo e errado caberia ao mercado e à justiça. Nunca a um terrorista.

O ataque realizado foi considerado uma afronta ao que chamamos de “liberdade de expressão”. E temos que reconhecer a importância dessa liberdade. Mais do que nunca, acho que se ela for cortada, pouco valeria a pena trabalhar, escrever, pensar. O que aconteceu não passa por nenhuma lógica. E por isso é tão chocante.

E é imensamente triste. Todas as cidades da França e todos nós prestamos homenagem às vítimas ontem de noite, e elas ainda continuarão por algum tempo.

Algo de ruim, muito ruim, porém, permanece no ar. E essa angústia, esse blues, paira como névoa nas nossas vidas e nos nossos pensamentos que constantemente suspiram comentários como “mas por quê?” e “até quando?”.

Não tem jeito. Não tem resposta clara. Podemos tentar entender as convicções e as armadilhas. As alfinetadas e as ameaças. Traçar uma linha cronológica dos fatos. Mas no fim, tudo parece sem sentido. Uma briga de criança por um brinquedo tem mais embasamento que qualquer argumento de uma hecatombe.

E junto a isso, me ocorrem lembranças não muito boas, que eu preferia ter esquecido. Sobre o ano passado e algumas barbáries igualmente irracionais.

Ano passado acompanhei com enorme angústia as mortes de palestinos em Gaza. Que pareciam se justificar pelas também absurdas ofensas a vida dos israelenses e dos judeus. Quando parecia ter melhorado, vieram mais notícias sobre os horríveis massacres na Síria e de ocidentais pelo EI, ou daesh (em árabe). Nunca quis escrever muito sobre isso, porque não queria imortalizar essas coisas. A cada nova notícia, meu coração parecia desritmar, minhas mãos ficavam frias e minha mente só dizia «e você não pode fazer nada », o que é uma das piores coisas que sua mente pode dizer para você mesma.

Porém, embora eu não quisessse escrever. Queria muito conversar sobre. Precisava conversar. Precisava de gente para me ouvir e me entender. E não encontrei quase ninguém. Mandei mensagens para a família, amigos, procurei até os clientes do restaurante em que eu trabalhava. Ninguém parecia se importar muito com aqueles fatos. E isso foi doloroso. Mas todo mundo já deve ter passado por algo parecido.

Meu consolo veio com a mesma solidão. Entre uma atividade e outra, fui me ocupando até desaparecer a agonia de não poder fazer nada. Adotei o jardim de gatinhos abandonados perto da minha casa. E tentava fazer alguma coisa que inspirasse alguma paz, mesmo que ninguém estivesse vendo.

Nessa iniciativa, tive a surpresa de ver bons resultados. Alguns vizinhos começaram a perceber o que eu fazia e passaram a prestar pequenas ajudas também. Muitos chegavam apenas para me cumprimentar, outros, levavam comida para os gatos, retiravam o lixo das plantas etc. Conheci uma outra senhora que fazia a mesma coisa que eu. Ficamos amigas. E pudemos unir um pouco nossas forças. Nesse gesto simples, encontrei um alento que estava me fazendo falta.

Ouvi de algumas pessoas que eu não poderia me deixar afetar tanto com as notícias porque, do contrário, não consegueria fazer mais nada da vida. Elas estavam certas, teoricamente. Não podemos decair o ânimo por toda notícia ruim. Mas por que a tristeza parece escolher algumas?

Por que nos abalamos mais com algumas notícias do que com outras?

Por que o caso Izabella Nardoni abalou tanto a opinião pública e o mesmo caso, com um outro menininho em Belo Horizonte não gerou tanta repercussão ?

Por que o cachorro que morreu na enchente de Santa Catarina ganhou mais lágrimas que as 135 pessoas que também perderam a vida na mesma tragédia ?

Por que não acordamos chorando todos os dias por todas as injustiças que acontecem diariamente entre a nossa cidade e as fábricas de trabalho escravo da China que tem grades nas janelas para os funcionários não se matarem ?

Na minha compreensão, realizamos uma seleção de tragédias para chorar, por empatia, em alguns casos, e ignorância, em outros, exatamente para não perdermos o ritmo da vida que tem também coisas tão lindas.

O avião que sai da Malásia e aterriza sem problemas numa cidade da Holanda não vira notícia, porque tudo deu certo. As pessoas que são promovidas por terem feito um bom trabalho, as crianças que foram e voltaram da escola. Os cachorros que não estão passando fome. Os velhinhos que fazem pilates sem problemas. As flores que se abriram na primavera. O golfinho que encontrou uma golfinha para amar. Nada disso é notícia, porque é normal. E o normal é estar bem. Não diria nem feliz, mas bem.

Quando algo de horrível acontece perto de nós, tudo parece perder a importância. E filtramos todos os probleminhas do cotidiano. E daí que eu tenho olheiras. E daí que a comida de ontem estava fria. E daí que sua calça está apertada, que seu colega não vai com a sua cara, que o trânsito está complicado. E daí que vai passar big brother de novo na televisão. E daí que a impressora não tem entrada USB. O seu coração ainda está batendo, meu amigo! Tome isso como uma boa notícia.

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“Quando você elevar a sua mira, pergunte-se, por vez, se, no meio de uma tempestade solar, no centro do Mar da Tranquilidade, não haveria alguém exatamente como você que também elevando o olhar, estaria também preso nesta geometria, igualmente lutando contra o medo, a raiva, a loucura, o desespero e a apatia. ” do lindo livro A Vida de Pi

(em francês “Quand vous élevez le regard, vous vous demandez parfois si au milieu d’une tempête solaire, si au centre de la mer de Tranquillité, il n’y aurait pas quelqu’un d’exactament comme vous qui élève lui aussi le regard, lui aussi coincé dans cette géométrie, lui aussi en train de lutter contre la peur, la rage, la folie, la désespérance et l’apathie.” L’histoire de Pi)

Sobre eventos sociais e algumas percepções

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Sobre eventos sociais e algumas percepções

Houve uma época que eu pensei que detestava festas! Que nunca valeria a pena sair do meu canto para nenhum evento social porque sempre existiam muitos protocolos difíceis de seguir.

Nunca fui aquela garota sexy segurando a taça de champagne e isso parecia não caber no mundo. Até que conheci uma turminha boa de amigos que me fez perceber que qualquer desculpa é boa para estarmos juntos ! E, com sorte, dançarmos um pouco!

Este texto é uma análise pessoal de experiências e observações sobre eventos sociais.

Tudo começa no convite. 

Outro dia um amigo brasileiro que mora aqui em Avignon nos convidou para um piquenique de aniversário. Devo dizer que atualmente essa é uma das minhas formas preferidas de comemoração de qualquer coisa : piquenique ! Natureza, esportes ao ar livre, comida na toalha quadriculada. Amor eterno.

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Ele fez daqueles convites pelo facebook e eu me lembrei de algumas práticas que quero compartilhar. Nem todo mundo tem facebook ou olha o facebook com frequência, então, se você quer mesmo que alguém vá no seu evento, ligue, mande mensagens por outros lugares e confirme a presença!

Em convites públicos para aniversário como e-mails em que todo mundo vê o nome de todo mundo ou mensagens no facebook em que todos lêem tudo, acho de bom tom que, se você não puder ir, que mande uma mensagem particular para quem convidou. Já reparei uma tendência no mundo que é que quando muita gente começa a dizer que não vai, outras pessoas ficam com preguiça de ir « num evento que não vai ninguém » e desmarcam também. Se você informa discretamente que não vai, esse perigo diminui.

No lado contrário, se você informa a todos que vai, acho que estimula ainda mais a participação das pessoas (a não ser que você seja muito chato). Uma colega fez uma coisa muito fofa: No dia do piquenique, o céu amanheceu cinzento e feio. Ela mandou uma mensagem para todos assim « O céu está cinzento, parece que vai chover um pouco, mas não importa, eu estarei lá ». Isso foi bem motivador e muita gente que pensou em desistir, desistiu de desistir. Que preguiça de gente que precisa de condições perfeitas para sair de casa.

Um pouco de ajuda conta muito.

Outra coisa que reparei na Europa é que as pessoas aqui se oferecem frequentemente para ajudar nos preparativos dos eventos. Em abril fizemos uma festa surpresa para um amigo marroquino. O combinado era que eu deveria chamar o amigo com a desculpa de que tinha outro amigo marroquino para apresentá-lo e ao chegar na minha casa, todos já estariam aqui. Marquei com todo mundo 20h, tendo chamado o amigo 20h30. Às 20h da noite só haviam duas pessoas. Mas às 20h10, éramos 30 enchendo balões e arrumando tudo. Durante a semana precendete, muita gente me procurou para saber o que poderiam fazer para ajudar na festa. Eu não precisava de muita coisa, mas tudo que pedi, eles fizeram!

No fim de toda festa é de bom tom dar uma ajudinha ao dono da casa. Não é preciso muito. Lave um ou dois copos, passe um paninho no chão. Leve o lixo pra fora, separe os vidros, guarde o que estiver limpo. As pessoas aqui tem por hábito fazer essa pequena faxina antes de se despedirem, coisa que eu não tinha muito costume, admito. Por isso todas as festas que fiz aqui em casa foram leves porque não me custaram caro (cada um trouxe o que queria comer ou beber) e todos ajudaram na arrumação inicial e final. Depois que foram embora, a casa estava limpa e habitável!

No Brasil, também tem pessoas que tem essa percepção. Minha avó gostava de fazer pães de queijo aos domingos para toda a família. Com a idade aumentando, as dificuldades motoras também foram crescendo. Muitos dos meus tios e até primos, sem que fosse pedido, passaram a chegar mais cedo na casa dela para ajudar a limpar, fazer a massa dos pães de queijo e arrumar a casa, de forma que ela podia continuar as reuniões de domingo sem sentir o peso que a idade naturalmente traz.

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Pontualidade!

Não é preciso chegar na hora exata (salvo no caso da festa surpresa porque era cronometrado mesmo). Mas atrasar mais que meia hora é falta de educação, vai! Ainda mais quando é jantar e você deixa as pessoas morrendo de fome, a comida esfriar… não é muito legal!

O contrário também acontece. As pessoas te chamam para almoçar meio dia e a comida só sai 4h da tarde. Isso me mata porque eu não consigo despistar a fome com amendoim e cerveja, numa boa!

Aqui na França, a pontualidade não é absoluta, mas quem chega atrasado, já chega pedindo desculpas. No Brasil essa prática é quase uma instituição. E não é legal. Além disso, tenho a impressão que tem gente que gosta de chegar atrasado só pra causar um efeito na hora que chega, como se fosse uma celebridade no tapete vermelho. Fala sério !

 

As comidas e bebidas preferidas

Uma coisa fofa dos brasileiros é se preocupar com o que os outros comem. Ao me convidarem para jantares no Brasil, muitas pessoas procuravam saber se eu comia carne, que tipo de carne, essas coisas, para preparem algo que fosse agradar. E até para não passarem pelo constrangimento de uma pessoa ter um ataque de alergia durante a refeição. Algo que acontecia muito na minha adolescência era que, como eu não gostava de refrigerante (e até hoje não bebo), ao almoçar na casa dos amigos, eles sempre advertiam suas mães para ter outra coisa pra beber. Seria simples se me dessem água, mas a cena que se repetia era. « O fulano me disse que você não gosta de refrigerante, então eu fiz uma limonada especialmente pra você ! ». E eu lá, bebia a limonada com cara boa, mesmo sem gostar de limonada! Aqui na França, com o tempo, as pessoas entenderam que sou chata com carnes e passaram a perguntar o que eu gostava de comer. Olha que legal! A minha chatura está tornando as pessoas mais fofas !

Músicas

Na minha opinião, uma festa com música boa não toca  apenas músicas da moda. Tem pra todo gosto. O que a gente faz aqui é que cada um vai no computador e seleciona uma música que gosta por vez. Como somos pessoas do mundo todo, geralmente no final da festa, pedimos cada um para colocar uma de seu país. E com a música, cada um ensina a fazer a dancinha do país. Da última vez, um convidado siriano nos surpreendeu com suas danças típicas e com a beleza de suas músicas. A gente conhece as tragédias do país e esquece que  em todas as culturas existe uma beleza, uma graça, que é o que conta para cada um. A amiga peruana colocou uma música que dançam com fogo, mas obviamente que a gente não imitou da mesma forma! Com o irlandês, sempre empolgamos nas músicas de  Riverdance! Com a grega, sempre dançamos zorba. E assim vai do Brasil à Russia, a gente dança e ri a noite inteira. É uma delícia essa turma !

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A  jogatina!

Muitos eventos como jantares, aniversários ou mesmo festas aqui na França tem um momento com jogos. Há um enorme gosto para jogos aqui na Europa. E eu aprendi alguns realmente divertidos. Os jogos podem ir desde mímica, imagem e ação, dança das cadeiras, até coisas mais elaboradas como caça ao tesouro ou desvendar um mistério criado especificamente para a situação. Tenho um amigo que de tanto jogar essas coisas, virou um profissional dos jogos e hoje ele tem uma associação que oferece uma vez por mês em Avignon uma noite de jogos para a população pelo custo de 3 euros anuais para adesão. Ele faz reuniões com a prefeita, com associações de bairro e escolas para elaborar as atividades. Acho isso o máximo!

Placar

Todo mundo conversa com todo mundo.

Uma coisa que me irritava no Brasil é que eu tinha a impressão que as pessoas só faziam eventos para paquerar. E depois que elas tinham namorados, cônjuges e tal, paravam de fazer eventos com os solteiros para fazer somente eventos entre casais e comentar sobre a vida de casal. Enfim. Aqui também existe muita paquera, claro, o ser humano parece que não consegue ser feliz sozinho (brincadeira!). Mas há uma abertura maior para conversar com todo mundo, de criança a velho, de estrangeiro a nacional, sem importar muito se você está de decote ou não, se tem olho claro ou não, se é rico ou não, empregado ou desempregado. Somos todos interessantes! Desde que sejamos capazes de nos comunicar, por que não podemos conversar apenas para conhecermos uma pessoa a mais ? Que aflição de um mundo onde toda conversa tem que ter segundas intenções.

Nem tudo precisa ser churrasco 

No Brasil, um dos eventos que mais gostamos de fazer entre amigas é o brunch (aquele café da manhã que emenda com o almoço). Acho uma delícia e depois ainda sobra a tarde para fazer outras coisas.

Também gostamos muito de fazer noite de comidinhas enquanto a gente passa creme na cara e assiste filmes. Ou uma rodada de crepes onde cada um monta ou seu. Tem tanto jeito legal de reunir!

Do meu gosto pessoal, não sou muito fã de churrasco. Geralmente o evento deixa um ranço de gordura na pele e o fato de comer tanta carne me parece muito estranho. Mas como você já sabe, eu sou chata com carne. Flexitariana, para quem entende do assunto !

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Se você confirma, você vai.

A questão é simples : se você for num evento, confirme por educação para que o anfitrião possa se preparar para a sua presença (ui!), se você não for, diga que não pode. Não precisa dar a explicação completa, é só dizer que não pode e pronto. Sou a favor de reduzir o tanto de explicação que damos sobre a nossa vida para os demais (desde que realmente não tenhamos feito mal pra ninguém). Quanto mais explicamos, mais perguntam e mais palpitam, por melhores que as pessoas sejam.

Minha amiga Silvinha postou uma frase que a Liz Gilbert (aquela do Comer Rezar Amar) escreveu « As pessoas vão parar de te fazer perguntas se você começar a responder com danças interpretativas ». É bem por aí, tanto pra acabar com a mania de cuidar da vida dos outros, como para acabar com a mania de dar explicações demais sobre a sua própria!

Sobre as confirmações de presença, eu ainda tenho outra angústia: Pessoas que confirmam a presença numa festa e não vão. Simplesmente, parem de confirmar! Isso não é exclusividade do Brasil, infelizmente, mas é algo muito feio em toda parte. Aprendi a identificar essas pessoas rapidinho. São aquelas que estão sempre com dor de cabeça, dor de estômago, dor de cotovelo, problemas insolucionáveis. Tem gente que tem a ousadia de dizer que foi parar no hospital (e usam essa desculpa várias vezes). Que feio ficar brincando com doença assim só pra não ir numa festa. É preferível não confirmar e aparecer (levando o que for comer e beber) que confirmar e não aparecer.

 

Tudo bem se ninguém for na sua festa

Já tive muitos eventos fracassados. Já convidei gente da turma inteira de faculdade (que confirmaram) e no fim foram só quatro pessoas. Essas situações são muito chatas, mas acontecem. Não é culpa sua. Mas de fato é uma arte saber a quem convidar para seus próximos eventos. E quando convidar.

Aprendi que as vezes convidar na última hora é melhor do convidar com muita antecedência, pois as pessoas esquecem. Também pedir para elas levarem os sucos ou darem carona para outros ajuda a criar uma « obrigação de não desistir »para os que não são muito muito fiáveis nesse ponto.

Agora, se você preparou uma festona e ninguém foi, tenho uma dica: entre no grupo de couchsurfers da sua cidade e chame os couchsurfers pra sua festa. Geralmente funciona!

A hora de ir embora

Interessante esse blog chamar saída à francesa. Na França não existe saída à francesa. Eles chamam sair sem despedir de saída à inglesa! Mas eu adoro essa técnica quando o ambiente está muito cheio e você não é dos convidados principais (e nem tem ninguém contando com a sua carona).

Outro dia, estava numa festa ótima de despedida de brasileiros e espanhóis. Ótima ótima mesmo. Comida boa, música boa, papo bom, ambiente gostoso. Mas aí me veio ela : a sensação de estar no lugar errado. Não sei se alguém entende bem o que é isso. Pode estar tudo perfeito, mas de repente você sente que deveria estar em outro lugar. Tive que ir embora, mesmo deixando muita coisa legal pra trás. E saí sem despedir, e até meio triste, saí de fininho, já com saudade daquele povo. Imagino que a morte seja um pouco assim também.

Mas se você não tem que sair de fininho, pode despedir. E se você quer sair mais cedo, pode despedir também, principalmente do dono da festa. Antigamente eu tinha o hábito de fazer um drama quando alguém ia embora, como se a saída de uma pessoa fosse arruinar a minha festa. Aprendi com a Luiza Voll a ser diferente. Se a pessoa quer ir embora, ela não pergunta motivo nem nada, ela dá um abraço e agradece a presença. Grande garota!

 

Os chatos das festas

Não concordo com a idéia de que toda festa tenha um chato, mas concordo que quando ele existe, ele se faz notar rapidamente. Pessoas que falam muito perto das outras, pessoas que encostam demais, pessoas que só falam delas mesmas, pessoas que ficam de bico, pessoas repetitivas, pessoas que bebem demais e começam a agir como dementes, pessoas que bebem e começam a ofender as outras, pessoas que trazem maconha pra festa, pessoas que se acham muito gostosas, e agora os novos chatos : pessoas que ficam olhando pra tela do celular a festa inteira, pessoas que fazem selfies de dois em dois segundos, e os « jornalistas de rede sociais », que ficam reportando tudo sobre a festa no twitter, facebook ou whatsapp. Se sua vida está tão legal, por que você não sai da internet?

Os melhores convidados

Se você foi convidado para uma festa, certamente não  porque alguém queria te dar alimentos e bebidas, e sim porque você foi considerado interessante o suficiente para acrescentar para um ambiente. Olha que honra !

Meu pai uma vez relatou sobre uma amiga de oitenta anos que estava com ele num casamento. Num dado momento, ela se levantou da mesa em que estavam e chamou a todos para dançar. Com o espanto, ela respondeu « Não estamos aqui só para comer, vamos participar da festa! ».  Se está na chuva, é pra se molhar! Eterna admiração pelas pessoas que sabem alegrar os ambientes!

Se você não souber dançar, não é problema, ainda pode ficar no meio da pista dando mini-pulinhos, ou fazendo as danças erradas mesmo, pois ninguém está te dando nota pelos passos. Mas se não quiser, pode se oferecer para fazer caipirinhas, servir os salgadinhos, contar piadas para o amigo da perna quebra, ou tomar conta da fila do banheiro e conversar animadamente com as pessoas. O importante é cuidar para não deixar perder a animação do evento. Isso não é obrigação apenas do anfitrião, é de todo mundo que está lá!

Não é preciso bancar a festa inteira

Aprendi com os amigos que para fazer uma boa festa não é necessário gastar muito dinheiro. Geralmente o que precisamos é de uma caixa de som, guardanapos, copinhos, pratinhos e garfinhos plásticos. Uma caneta para anotar em cada copo e pratinho o nome das pessoas (para elas não perderem seus pertences e pegarem outros), alguma bebida e alguma comida. Não precisa ter a quantidade suficiente para todos, podemos pedir que cada pessoa leve um pouco de comida ou bebida ou os dois. Geralmente, sempre trazem o suficiente e acabamos conhecendo pratos diferentes e deliciosos, principalmente aqui que vem gente do mundo todo!

Meus pais e avós acham falta de educação convidar as pessoas e pedir para elas trazerem as comidas. Realmente, se for um evento formal, tipo um casamento, isso não é muito bem visto. Mas para uma festa de celebração da primavera, por exemplo, tudo bem! E quem se sentir ofendido com isso, é só não comparecer na festa! Com essa forma de reunir as pessoas, fica muito mais fácil nos reunirmos e muito mais barato, o que torna possível fazer festas com mais frequência.

Copinhos

A vida não é só festa… 

Mas, não, a vida não é só festa, claro. E não fazemos toda semana. Até porque, festa o tempo todo também cansa e fica meio sem sentido.

Mas quando estamos longe de casa, das nossas origens e de outros amigos tão queridos, uma das melhores idéias para espantar o banzo é se encontrar! Mas sem sermos escravos de eventos sociais, porque a vida vai muito além disso.

Não sou a pessoa que entende mais de festas no mundo.  E certamente que não faço questão de ser. Porém, tive algumas boas experiências em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Vancouver e Avignon. Posso garantir que as melhores festas que frequentei na vida foram feitas de idéias simples que reuniram pessoas legais. É sempre assim! Se quiser fazer uma festa boa, chame pessoas diferentes de você, de todas as idades e nacionalidades. Agregue ! Foi assim que aprendi com meus avós que faziam macarrão e pão de queijo e chamavam todo mundo que eles conheciam para comer junto. Foi assim que aprendi com as melhores pessoas que já conheci.

Amigos5abril2014

Abaixo, deixo alguns vídeos (gravados da forma errada) das nossas festinhas!

http://www.youtube.com/watch?v=zwDoHNJGrq4 (Avignon)

https://www.youtube.com/watch?v=neJGW2a6uOc (Vancouver)

https://www.youtube.com/watch?v=H9S0ErjUhOc (Rio de Janeiro)

Ps. As fotos que ilustram este post foram todas tiradas por amigos: Manuel, Gabrielle e a foto do Brasil esqueci qual das meninas tirou, provavelmente foi uma máquina da Jaque!

Um dia de seminário

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Existe uma expressão tanto em português quanto em francês que diz “dá a mão, quer o braço”. Essa expressão dispensa explicações, mas outro dia, encontrou uma demonstração!

Na última sexta-feira foi realizado um seminário na faculdade e a organizadora havia pedido à turma para ajudar em alguns pontos. Muitos se dispuseram a participar da recepção, mas quando ela pediu para ajudarem no audiovisual, todos ficaram calados. “É fácil, vocês só precisam ajudar o responsável por isso a colocar os nomes e legendas de cada convidado”. Concordei com o serviço, eu tinha a sequência de nomes no programa, não era nada complicado. No entanto, informei que terei que sair um pouquinho mais cedo, pois iria viajar. Ela disse que não serviria, que eu teria que me arranjar. M’arranjei.

Um dia antes, ela me mandou um e-mail quase meia-noite dizendo que toda a ordem havia mudado, muitos nomes estavam cancelados e outros seriam inseridos. Também me pediu para chegar meia hora mais cedo do que o previsto. Anotei tudo, mudei tudo no meu roteiro, não dormi direito com medo de perder a hora e cheguei lá cedo.

Assim que a encontrei e falei “bom dia”, a mulher começou a reclamar que eu não falava francês. Expliquei que era de origem diferente, mas que entendia o francês e que para esse trabalho não haveria problema algum. Mesmo assim, ela não se convenceu. Disse que precisaria de alguém para o powerpoint também, que talvez eu não fosse boa o suficiente (para passar os slides…). Falei que eu poderia fazer, mas que caso eu ficasse muito presa no lugar em que estava o pessoal do audiovisual, poderíamos pedir a outra pessoa.

Pedimos. Outro colega aceitou o serviço. Depois, não sei por quê, ele desistiu, sem me avisar. A mulher veio me cobrar uma explicação sobre ele e sobre onde estariam os pen-drives com as apresentações. Eu não sabia e não tinha como saber. Ela ficou nervosa. Disse que ela ia fazer o powerpoint. “Ok”, eu disse.  Na hora de passar o troço, ela ficou sentada como uma besta. E eu fui (também como uma besta) passar o tal do ppt.

Quando voltei, ela reclamou que a legenda de um dos debatedores estava abreviada. Expliquei que a legenda era grande demais inteira, por isso abreviamos. Ela reclamou de novo, começou a falar entre os dentes, como se estivesse com ódio. E estava. Mudamos a bendita legenda para o que ela queria. Ficou feio. Suspirei.

O seminário contava com a presença de ministros, prefeitos, políticos em geral e muita gente importante para falar de um assunto que eu adoro: Urbanismo. Teria sido um excelente seminário se cada um tivesse contado alguma experiência prática, idéias novas e aprendizados. Somente alguns poucos debatedores apresentaram experiências. Os outros se limitaram à teoria e aos discursos enormes, quando o previsto era apenas 10 minutos para cada. Achei falta de educação.

Na hora do coquetel, eu estava conversando com uma colega do mestrado, quando a organizadora veio marcar presença: “Então, tivemos um problema lá, né?!”, disse a simpática. Eu expliquei que não sabia que o menino do powerpoint tinha desistido, mas que por fim deu tudo certo. Ela continuou “não estou falando disso, estou falando da abreviatura na legenda”. E minha colega perguntou se por acaso aquilo seria grave. E ela começou a reclamar que poderia ser muito grave, que as pessoas vão ficar reclamando com ela… Respirei fundo. “Olha, eu estou aqui para fazer o melhor possível. Achamos melhor abreviar porque as referências dele estavam muito grandes. Se alguém reclamar com  você pode falar que foi minha responsabilidade. Que se tiver alguém para fazer isso melhor, que faça no meu lugar”, cortei.

Depois disso ela melhorou comigo. Começou a falar que não tinha problema, que aconteceram muitas mudanças no programa, e que ninguém teria direito de reclamar. Eu olhei o relógio e disse que já era hora de voltar porque eu tinha ficado de ajudar o senhorzinho do audiovisual a passar o nome dos outros debatedores antes de recomeçar segunda parte. Ela achou impressionante que eu iria sair antes de almoçar e falou para eu não ficar me exigindo tanto. Eu, que já tinha comido um cheeseburguer escondida na lanchonete em que trabalhei, falei com ela que “imagina, a responsabilidade em primeiro lugar!”. Como eu me gabei nesse momento!!!

De tarde, tudo se passou melhor! Um dos debatedores adorou o fato de que eu era brasileira, e toda hora vinha falar alguma palavra que ele sabia em português. “Oi! Saudade”, “Oi! Bahia de todos os Santos!”. Era sem sentido, mas era bonitinho! Achei muito legal conhecer a ministra responsável pela descentralização na França. Um trabalho que eu adoraria acompanhar mais de perto!

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Um outro debatedor, também muito simpático, me ofereceu um livro de presente. Mas eu sou tão desacostumada com esse tipo de oferecimento que falei “Ah, obrigada, mas eu já tenho esse livro” (e tinha mesmo). Boba! Era a chance de conseguir um contato profissional legal. Que vontade de dar control Z na vida de vez em quando…

Naquele dia cheguei a pensar em nunca mais me oferecer para ajudar assim aqui na França, porque eles abusam com muita facilidade. E poucas vezes agradecem. Mas depois vi que a minha maior recompensa nem viria da pessoa que me pediu a ajuda, mas dos gestos solidários dos meus colegas de sala que nunca tinham conversado comigo e que, de repente, começaram a me chamar de Didi, começaram a me inserir nas rodas e passaram a se interessar mais pela minha presença. Também nas pequenas atenções dos participantes, que me cumprimentavam com apertos de mão, e se sentavam do meu lado, oferecendo sorrisos e comentários engraçadinhos. No fundo, qualquer trabalho, seja ele voluntário ou não, desde que digno, enobrece as pessoas. É como se a gente dissesse para o mundo: Vejam só, eu não sou completamente inútil!

Quando o seminário finalmente terminou (o final foi cansativo, viu?! Sugiro menos horas por dia para essas atividades), eu agradeci o senhorzinho do audiovisual pelo dia de trabalho (ele era muito gentil). E fui saindo de mansinho para a minha viagem. “Bonne weekend, merci beaucoup”, ouvi. Era a organizadora me agradecendo. Que milagre!

 

Pérolas de um francês

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De volta à vida com computador, depois de ter tido a casa invadida durante o festival de teatro de Avignon, ganhei de aniversário, além de vários sustos, um novo computador (que o bandido não seja um leitor do blog).

A mesma pessoa que me ofereceu este simpático computador, também me oferece diariamente algumas pérolas, que para mim são pérolas, quando para os outros, parece, são apenas constatações de verdades. Sem querer me desentender com uma cultura diferente, quero expor alguns casos que recordo que, além de me surpreenderem, também me fazem ver o quanto somos diferentes.

Cena 1: No último fim de semana, no restaurante. Calor de 35 graus. Enquanto aguardamos atendimento na mesa, Alexis pega o saleiro, despeja um pouco sobre mão e come. Uma amiga questiona o  motivo e ele diz: “É que estou com sede, estou fazendo isso para o meu corpo reter a água”. Eu e a amiga nos entreolhamos. Fade out.

Cena 2: Mostra mala. Eu, feliz, com o tráfico de fio dental que nós brasileiros fazemos aqui para a França. Não conseguimos achar um fio dental que funcionasse aqui. Cheguei a pensar em processar uma empresa por conta do péssimo fio dental que eles vendem. Mas agora, nós, brasileiros, estamos orgulhosos com nossos produtos trazidos, em segredo, do Brasil! Num plano sequência, entra um francês, depara-se com a quantidade de fios dentais e exclama: “Isso faz mal para os dentes, todos os dentistas da França desencorajam seu uso”. Corta cena.

Cena 3: Numa loja de móveis. Quatro horas da tarde. Eu, morta de fome. Entro numa lanchonete a procura de algo que me lembre um misto-quente. Abre plano. Entra Alexis que diz “Por que você tem que comer de 3 em 3 horas? Nenhum nutricionista aprova esse comportamento”. Som ambiente. Fecha imagem em close no rosto da donzela faminta.

Observação: Alexis fez a leitura deste texto antes de sua publicação e insiste que eu diga que, na cena 3, neste dia, me recusei a comer na hora do almoço. Na verdade, eu estava com dor de garganta na hora do almoço e tomei apenas um leite. Esta observação não colabora muito com o restante do texto. Nhé!