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Arquivo da categoria: Paris

D de Dior

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Desde que comecei a trabalhar para uma marca de roupas, o mundo fashion tem me chamado mais a atenção. E sim, é nessa ordem mesmo. Primeiro eu comecei a trabalhar para uma marca e depois a história da moda me atraiu.

Difícil admitir e fácil de observar, mas nunca fui muito ligada à moda. Tinha a impressão que isso estaria diretamente ligado a pessoas a)falsas b)chatas c)fúteis. Ignorava quase que por obrigação moral. Vestia-me com o que era possível. E ainda me visto. Mas tinha a ilusão que este mundo era mal frequentado. E, como todos os mundos, é um mundo que tem de tudo. Então eu gostava de algumas coisas, mas não buscava saber mais sobre. E me contentava com isso.

Das coisas que eu gostava, muitas encaminhava para a pessoa que conhecia do assunto, minha ex-chefe advogada, Patricia, que criou uma marca própria de roupas depois de se mudar para Dubai. De tanto mandar ideias e sugestões do que eu pensava que ficaria legal numa coleção, ela me chamou para trabalhar com ela, ajudar na comunicação e nas ideias. E que bom.

Diante deste novo desafio, algumas amarras tiveram que ser… desfeitas. E a busca por mais conhecimento sobre moda e história da moda me levou a um velho conhecido.

Dior. Sim, meu velho conhecido.

Dior não podia ser novidade na minha vida. Alguém que se chama Diorela não ousaria ignorar a existência de um perfume quase homônimo (na versão 2 Ls) da Christian Dior que, por mais forte e dor de cabeçudo que seja, ainda é um frasco que eu tento conservar na minha prateleira apesar de todo meu esforço e interesse pelo minimalismo.

Dentro do meu curso de História da Moda aprendi que foi Dior que retomou a cintura marcada ao foco da moda depois do livramento que Mademoiselle Chanel ofereceu para as mulheres do mundo com seus cortes retos.

Daí para frente, o universo conheceu uma feminilidade diferente que até hoje aceita críticas, mas ainda se delicia com suspiros e elogios de quem vê no design dos vestidos e roupas Dior algo a mais.

“Desenhei as mulheres flores”, dizia Dior no filme que hoje me levou ao cinema. Lá, sozinha, na última cadeira da platéia, me encantei com o sistema de produção da alta costura da marca.

Do designer italiano às costureiras de Paris, unidos ao estilista Raf Simons da Bélgica e seu braço direito, Peter, o filme mostrava o melhor dos mundos. E principalmente, os pequenos detalhes da criação que tanto fazem diferença no resultado final.

Detalhes como deixar que cada costureiro escolha o croquis que gosta mais para executar, pois isso faria com que trabalhassem melhor. O cuidado e atenção com o cliente. A simpatia e boa convivência entre a equipe. A busca pela estampa única, mas que também não deixe a roupa parecendo uma enorme melancia (cena do filme!). E o detalhe para o desfile: a escolha do cenário florido, nada mais conveniente para uma atmosfera Dior.

Dia e noite de trabalho intenso, sob a vigília do fantasma de Christian, que segundo os costureiros, nunca abandonou o atelier. É o que mantém a marca renomada no mundo da alta costura por mais de 50 anos.

Dirigir um filme que começa puro glamour e termina, atenção para o spoiler, entregando o lado humano de cada saia rodada da passarela não deve ter sido fácil. Saber medir a distância da câmera para a cena da reunião com advertências, para a produtora que tenta encontrar alternativas aos mandos do patrão diante de um telefone sem voz, para a assessoria de imprensa que corre, e o costureiro que apaga a última luz do atelier, é uma arte. O diretor Frédéric Tcheng teve um olhar que me atraiu muito, apesar de uma escolha musical inicialmente bem desconfortável, com o passar do filme, conseguiu me embalar melhor!

De mais a mais a realidade tem me atraído e tirado minha atenção da ficção.

Daí que de tempos em tempos eu até volte para o universo da fantasia, onde encontro metáforas, referências e as vezes até conforto. Mas por pouco tempo. Logo sinto saudade do que o mundo dos documentários, das pessoas reais e das biografias tem para ensinar ou oferecer. Na verdade, penso que se completam. E teimo em pensar até que se fizermos um esforço, veremos que são o mesmo.

Do lado do mundo real, vejo o esforço e o suor dos costureiros Florence, Monique, HongBo Li, Stephanie, Lilly, e tantos outros. O corte certeiro, a dor nas costas, a escolha da modelo, a adaptação do tecido, o vestido saindo do papel com muitas noites mal dormidas. Do lado fantástico, vemos as modelos girando, o batom laranja neon, as flores azuis em contraste com o vestido vermelho, o balanço das saias, os fotógrafos, as celebridades, o puro glamour. Não teria um se não fosse o outro.

Dior et Moi é um filme atraente. E que reconcilia com o universo da moda, mesmo sem nos convidar a dele participar. Me explicou muita coisa. Mostrou como amor ao trabalho faz toda a diferença apesar do stress. Esse filme me encheu de ideias. Uma delas, a de fazer um texto inteiro só com parágrafos começados com D. Essa letra tão linda, de Dança, Democracia, Deus, Dia, Doces, Delicadeza, Doar, Dormir. D de Dior.

Di-or.

“Aquilo que se faz com gosto todos o estimam” da Logosofia

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Por que a tristeza parece escolher suas notícias?

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Ontem em Paris. Uma das cidades mais lindas e poéticas do mundo assistia a um evento de terror e crueldade contra os jornalistas e desenhistas do periódico Charlie Hebdo. Os ataques intolerantes e sem dó repercutiram por todo o país e circularam o planeta como um dos maiores atentados terroristas em território francês. Algo sem a menor racionalidade, sem desculpas.

Desde que me mudei para cá, conheci o trabalho deste jornal. Eram publicações de charges sobre diversos temas e entre eles o tema religião. Muitas charges, na minha opinião, eram boas, outras, me pareciam um tanto quanto agressivas, não me agradavam. Nunca me identifiquei com a política editorial dele. No entanto, essa era a forma que eles escolheram para ganhar dinheiro. E essa discussão do certo e errado caberia ao mercado e à justiça. Nunca a um terrorista.

O ataque realizado foi considerado uma afronta ao que chamamos de “liberdade de expressão”. E temos que reconhecer a importância dessa liberdade. Mais do que nunca, acho que se ela for cortada, pouco valeria a pena trabalhar, escrever, pensar. O que aconteceu não passa por nenhuma lógica. E por isso é tão chocante.

E é imensamente triste. Todas as cidades da França e todos nós prestamos homenagem às vítimas ontem de noite, e elas ainda continuarão por algum tempo.

Algo de ruim, muito ruim, porém, permanece no ar. E essa angústia, esse blues, paira como névoa nas nossas vidas e nos nossos pensamentos que constantemente suspiram comentários como “mas por quê?” e “até quando?”.

Não tem jeito. Não tem resposta clara. Podemos tentar entender as convicções e as armadilhas. As alfinetadas e as ameaças. Traçar uma linha cronológica dos fatos. Mas no fim, tudo parece sem sentido. Uma briga de criança por um brinquedo tem mais embasamento que qualquer argumento de uma hecatombe.

E junto a isso, me ocorrem lembranças não muito boas, que eu preferia ter esquecido. Sobre o ano passado e algumas barbáries igualmente irracionais.

Ano passado acompanhei com enorme angústia as mortes de palestinos em Gaza. Que pareciam se justificar pelas também absurdas ofensas a vida dos israelenses e dos judeus. Quando parecia ter melhorado, vieram mais notícias sobre os horríveis massacres na Síria e de ocidentais pelo EI, ou daesh (em árabe). Nunca quis escrever muito sobre isso, porque não queria imortalizar essas coisas. A cada nova notícia, meu coração parecia desritmar, minhas mãos ficavam frias e minha mente só dizia «e você não pode fazer nada », o que é uma das piores coisas que sua mente pode dizer para você mesma.

Porém, embora eu não quisessse escrever. Queria muito conversar sobre. Precisava conversar. Precisava de gente para me ouvir e me entender. E não encontrei quase ninguém. Mandei mensagens para a família, amigos, procurei até os clientes do restaurante em que eu trabalhava. Ninguém parecia se importar muito com aqueles fatos. E isso foi doloroso. Mas todo mundo já deve ter passado por algo parecido.

Meu consolo veio com a mesma solidão. Entre uma atividade e outra, fui me ocupando até desaparecer a agonia de não poder fazer nada. Adotei o jardim de gatinhos abandonados perto da minha casa. E tentava fazer alguma coisa que inspirasse alguma paz, mesmo que ninguém estivesse vendo.

Nessa iniciativa, tive a surpresa de ver bons resultados. Alguns vizinhos começaram a perceber o que eu fazia e passaram a prestar pequenas ajudas também. Muitos chegavam apenas para me cumprimentar, outros, levavam comida para os gatos, retiravam o lixo das plantas etc. Conheci uma outra senhora que fazia a mesma coisa que eu. Ficamos amigas. E pudemos unir um pouco nossas forças. Nesse gesto simples, encontrei um alento que estava me fazendo falta.

Ouvi de algumas pessoas que eu não poderia me deixar afetar tanto com as notícias porque, do contrário, não consegueria fazer mais nada da vida. Elas estavam certas, teoricamente. Não podemos decair o ânimo por toda notícia ruim. Mas por que a tristeza parece escolher algumas?

Por que nos abalamos mais com algumas notícias do que com outras?

Por que o caso Izabella Nardoni abalou tanto a opinião pública e o mesmo caso, com um outro menininho em Belo Horizonte não gerou tanta repercussão ?

Por que o cachorro que morreu na enchente de Santa Catarina ganhou mais lágrimas que as 135 pessoas que também perderam a vida na mesma tragédia ?

Por que não acordamos chorando todos os dias por todas as injustiças que acontecem diariamente entre a nossa cidade e as fábricas de trabalho escravo da China que tem grades nas janelas para os funcionários não se matarem ?

Na minha compreensão, realizamos uma seleção de tragédias para chorar, por empatia, em alguns casos, e ignorância, em outros, exatamente para não perdermos o ritmo da vida que tem também coisas tão lindas.

O avião que sai da Malásia e aterriza sem problemas numa cidade da Holanda não vira notícia, porque tudo deu certo. As pessoas que são promovidas por terem feito um bom trabalho, as crianças que foram e voltaram da escola. Os cachorros que não estão passando fome. Os velhinhos que fazem pilates sem problemas. As flores que se abriram na primavera. O golfinho que encontrou uma golfinha para amar. Nada disso é notícia, porque é normal. E o normal é estar bem. Não diria nem feliz, mas bem.

Quando algo de horrível acontece perto de nós, tudo parece perder a importância. E filtramos todos os probleminhas do cotidiano. E daí que eu tenho olheiras. E daí que a comida de ontem estava fria. E daí que sua calça está apertada, que seu colega não vai com a sua cara, que o trânsito está complicado. E daí que vai passar big brother de novo na televisão. E daí que a impressora não tem entrada USB. O seu coração ainda está batendo, meu amigo! Tome isso como uma boa notícia.

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“Quando você elevar a sua mira, pergunte-se, por vez, se, no meio de uma tempestade solar, no centro do Mar da Tranquilidade, não haveria alguém exatamente como você que também elevando o olhar, estaria também preso nesta geometria, igualmente lutando contra o medo, a raiva, a loucura, o desespero e a apatia. ” do lindo livro A Vida de Pi

(em francês “Quand vous élevez le regard, vous vous demandez parfois si au milieu d’une tempête solaire, si au centre de la mer de Tranquillité, il n’y aurait pas quelqu’un d’exactament comme vous qui élève lui aussi le regard, lui aussi coincé dans cette géométrie, lui aussi en train de lutter contre la peur, la rage, la folie, la désespérance et l’apathie.” L’histoire de Pi)

Uma tarde no cemitério

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“Ouvi dizer que vai chover, é melhor levar um guarda-chuva”, disse meu sogro quando eu me despedia para partir rumo a uma missão. Desde que vim para a França, um tio muito querido pediu que eu colocasse uma flor no túmulo de Chopin. Eu não moro em Paris, moro em Avignon, mas sabe como é, quando você está na França, Paris é logo ali…

Então, como este fim de semana eu estou na casa dos meus sogros (vou chamá-los assim para simplificar), aproveitei para fazer o dever de casa, ou dever de Paris, encomendado pelo tio Kellinho.

Esperançosa, consultei o Google Maps antes de sair e tive a surpresa de saber que entre a casa em que estou e o dito cemitério Père Lachaise sobram 13km de distância. Otimista, recordei-me que estou numa das cidades mais lindas e queridas do mundo, além de ser uma capital munida de um bom sistema de transportes. Prevenida, peguei o guarda-chuvas, que aqui eu chamo delicadamente de parapluie.

Acho impressionante o quanto as cidades européias são interativas. Não interativas pelo fato de você comprar o seu próprio bilhete de metrô sozinha, ou por ter que se virar para tirar xerox por sua conta na universidade. As cidades são interativas porque as pessoas vem do nada falar com você. Se está triste, elas te mandam sorrir, se está perdida, elas te perguntam se você precisa de ajuda, se está confiante, elas te pedem orientações, se está de bom humor, elas te pedem dinheiro. Enfim! Eu acho assombroso (no bom sentido, muitas vezes) o quanto as pessoas se aproximam de mim quando eu estou viajando (observação válida também para Buenos Aires e Vancouver). Em Belo Horizonte, o povo parece que é mais desconfiado. Só de você jogar um bolinho de queijo para cima na rua, eles já começam a te achar esquisita… eu, hein?!

Então, no meu caminho até o cemitério, fui abordada por uma série de pessoas. Uma por quarteirão, eu contei. A maioria queria dinheiro (devo ter cara de turista rica), mas alguns queriam orientação (fico lisongeada com isso) e outros só queriam cumprimentar mesmo (très mignon!). Minha amiga Carol tem uma ótima técnica para afastar  estranhos indesejados: perguntar a eles “você realmente consegue me ver?”. Mas não, não foi dessa vez. Começou a chover e recordei com gratidão o bom conselho do sogrão!

Ao chegar no cemitério, descobri quanto infantil eu havia sido de imaginar que encontraria facilmente o túmulo anelado. Primeiro que não sei falar “túmulo”em francês (diz-se tombe), segundo que não tinha gente para dar orientação, terceiro, o moço para quem eu perguntei, respondeu, mas quando você não entende bem a língua, é difícil processar a resposta toda na cabeça. Entendi que ele disse “direita” e fui seguindo à direita, onde encontrava mais trocentos túmulos. Na minha busca por Chopin, encontrei Jimi Morrison, a tumba mais famosa (vá entender!) do cemitério. Apreciei à distância, pois muitos adolescentes que se amontoavam por lá.

Segui meu caminho e passava por pessoas que perguntavam “Você viu a Edit Piaf?”, “Estou procurando Proust” e eu dizia “Tenho interesse pelo Chopin”. Finalmente, um homem bastante descabelado e muito animado veio me oferecer ajuda. Disse a ele quem eu queria e ele “de onde você é?”, respondi o óbvio e ele “Brésil! Carnaval!”, apertou minha bochecha, tentou simular um samba e disse “venha!”. Ainda bem! Sem o doidinho seria impossível achar sozinha o túmulo do compositor preferido do tio Kellinho antes de anoitecer.

Chopin tem dois túmulos, me dizia o moço. Um fica em Paris, o outro na Polônia, onde está guardado seu coração (vamos pensar assim). De tempos em tempos o Embaixador da Polônia vai até o túmulo francês e recolhe as flores e recados para deixar no túmulo polonês (vamos pensar assim). Achei a ideia um pouco trabalhosa, mas bastante significativa. Lembrei-me de Mário de Andrade, pedindo para enterrar seu coração no pátio da escola. Sempre me lembro deste poema. É tão lindo…

Ah, como os cemitérios são emblemáticos… São poesias um pouco doídas, mas ainda poesias… Eu havia comprado três rosas no caminho para lá. Pensei em deixar uma no túmulo de Chopin para cumprir meu dever de casa e a merecida reverência e as outras duas em outros dois túmulos que julgasse interessante. Mas eram tantos túmulos de pessoas fabulosas que fiquei receosa de perder as rosas cedo. Observo que Voltaire, Victor Hugo e Marie Currie não estão nesse pedaço de mundo. Para esses, foi reservado algo ainda mais ostensivo, o Pantheon. Mas é como eu falo, os túmulos são apenas representações, a pessoa mesmo se imortaliza em sua história, em sua obra.

Depois de registrar meus cumprimentos ao grande compositor, segui minha caminhada.

Chamou-me a atenção o o túmulo de Gilbert  Morard, alguém que desconhecia, mas que aprendi, ali no cemitério, que foi o pai do metrô moderno de Paris. Em seu túmulo, muitos agradecimentos e algo ainda mais simbólico: muitos tickets de metrôs e viagens. Quantas vidas ele mudou? Quanta gente é feliz por sua conta? Emocionante! Obrigada, Monsieur Morard.

Ainda assim, eu caminhava com mais duas rosas. Perguntei então pelo túmulo de La Fontaine. Pelo que sei, o túmulo foi importado para lá. Não é bem o original! Coisas de marketing de cemitério… De qualquer forma, encontrei-o ao lado de Molière. Investi uma rosa para os dois. Bem plantada na grama da cerca que os protege. Agradeci por ter me contado tantas histórias, tantos finais, um pouquinho questionáveis, mas felizes.

Segui com minha última rosa adiante. Encontrei o túmulo da família Poulain e quase deixei minha flor para eles. Mas guardei pra mim.

Quase anoitecendo, a chuva ficava forte. Cemitério, chuva, corvos e penumbra. Era o cenário perfeito para muita coisa. Decidi enterrar por lá também alguns dos meus monstros. Coisas que me assombram, me atrapalham, me irritam. Talvez elas nunca mais me encontrem. Faço votos.

Desci a ladeira com a rosa em mãos. Que felicidade a minha: ter vida, ir ao cemitério somente a passeio, sair quando bem entender! Caminhei até a Bastilha na chuva. Entrei no metrô, troquei de metrô, passei no supermercado, tirei algumas fotos e me senti muito parisiense! Quase chegando na minha hospedagem, encontrei alguns homens fazendo o serviço de lavar a rua na chuva. Que trabalhoso! Mas muito necessário! Resolvi interagir. A rosa vai para eles, pessoas vivas, bem dispostas, trabalhando com gosto! Ofereci. Eles aceitaram felizes!

Por fim, meu passeio acabava junto com o dia.