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Bloco do eu sozinho em outro país

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É comum ouvir de muita gente a afirmação de que Avignon é uma cidade hostil. De que é muito difícil fazer amigos aqui e de que nos sentimos sozinhos por muito tempo.

Tenho que concordar. Avignon foi a primeira cidade que me deu a sensação de solidão por um tempo maior que o normal. Nunca tinha experimentado isso antes, até porque sempre vivi rodeada da minha família. Nunca tive o desejo ou mesmo a pretensão de morar sozinha. Fiquei um tempo sozinha em Vancouver, no Canadá, mas não foi o bastante para me sentir sozinha. Em Avignon, mesmo morando com mais duas pessoas (Alexis e Pamela), percebo a solidão pinicar, principalmente quando eles não estão lá.

No livro « Clube dos Corações Solitários » que li coletivamente com meus colegas de último ano de Publicidade (beijo, Caricatura!), havia uma passagem em que a personagem saía pra um encontro, mas o homem só falava de si mesmo. Quando ela volta pra casa, e senta no meio fio, seu amigo pergunta como foi o encontro e ela comenta « você já se sentiu sozinho mesmo estando acompanhado ? ». É mais ou menos assim. Aqui na França, enquanto a amizade não pega no tranco, você pode estar em plena civilização, mas vai se sentir numa ilha deserta.

Estar só não é o problema. Pelo contrário, para pessoas como eu, é até recomendável. Preciso desse respiro. Mas também preciso do respiro das boas companhias! Segundo minha naturopata (uma profissão diferente que achei em Avignon, esse é um tipo psicológico equilibrado, o meu! Tive que dar um jeito de enfiar esse informação neste texto!). Mas estar só, e o pior, sentir-se só o tempo todo é pertubador. Sentir que, mesmo se você precisar, não terá ninguém. Poxa, isso não é legal. Pessoas morrem por causa disso.

Outro dia conheci um espanhol que estava fazendo teste para virar professor na Universidade de Avignon. Na minha ingenuidade achei que ele reunia todas as características de uma pessoa que teria prazer numa vida solitária. Mas não. Menos de 10 minutos de conversa, e ele já estava contando uns três casos de quando precisou de contato ou gentileza humana e não teve.

Foi morando na França que descobri que a gentileza não é a coisa mais comum do mundo. Eu achava que era normal ser gentil. Engano. Claro que conheço franceses muito gentis e fofos. Mas achei que fosse conhecer mais!

Já relatei uma vez que eu gosto de cuidar do jardim e dos gatos abandonados que moram perto da minha casa. Pois bem, dei um tempo de cuidar do jardim porque vi que era quase inútil. Quanto mais arrumava, mais sujeira aparecia. E umas sujeiras pesadas, estranhas. Fiquei um pouco frustrada. E isso me deu a impressão de estar sozinha. De ser a única a se importar. Mas continuei cuidando dos gatos. Outro dia apareceram na minha porta dois sacos de ração para gatos. Não tinha nome, nem bilhete, nada. Fiquei meio desconfiada, mas ao que tudo indica, era só ração mesmo (lembre-me depois de contar sobre a máfia das rações e a possibilidade de ter cães e gatos vegetarianos !). Essa pequena «gentileza » me deu um pouco mais de fôlego. E mais motivação para continuar o projeto.

Quando comecei este blog fiz um trato comigo mesma que não iria ficar falando de coisa negativa no blog. Não acho que esse tipo de mensagem leve a nada e só causaria mal entendidos. Então, por favor, leia este texto até o final para ver onde quero chegar e não ficar com uma impressão ruim (o muito ruim).

A hostilidade de Avignon existe. É fato. Costumo dizer que se não tivesse descoberto o grupo de couchsurfers, eu não teria amigos na cidade. Ou teria amigos que veria uma ou duas vezes por ano.

Tenho vizinhos que sequer respondem o « bom dia » que a gente dá. Outros respondem, mas a relação nunca passa de « como vai ? Olha que solão ! Ouvi dizer que vai chover ». Na época da Copa do Mundo foi maravilhoso, porque era quando as small talks (Silvinha me explicou que não é little talks !) duravam mais tempo : « E o Brasil, hein ?! Nossa, eles estão jogando um bolão ! ». Mas foi só a Alemanha devastar o nosso time que todo mundo passou a evitar esse assunto comigo e pronto, fiquei sem assunto de novo. Tenho uma vizinha que até hoje me evita… e eu não tenho certeza que é por causa da Copa do Mundo ou por ela me achar estranha mesmo (estranha onde???). Fato é que ela não me recebe casa dela nem quando eu estou com um embrulho de presente batendo na porta e vendo que ela está na sala assistindo televisão. Nesse nível!

Encontrar amigos em Avignon foi realmente uma das tarefas mais difíceis da minha vida. Sem amigos, eu costumava ver vídeos na internet para ouvir alguém falando comigo (olha que depressão) e as vezes pensava « nossa, que legal essa pessoa com tanta audiência! Ela nunca deve se sentir sozinha ! » (olha que depressão!!!).

Aí comecei a frequentar esse grupo de amigos de amigos que faziam couchsurfing. Comecei a aceitar couchsurfers também. E a fazer pão de queijo pra galera, brigadeiro, ser gentil por ser gentil. Passei a fazer o que a vida inteira me ensinaram a não fazer: conversar com estrahos! Mas estranhos com uma loucura que parece um pouco com a minha, Falcão! Chamar pra festas que tocam Macarena e Balão Mágico. E funcionou! Não com todos, mas com uma quantidade boa de gente com quem eu me identifico.

Hoje, na hora que eu quiser, tenho alguém para ligar, pra conversar, pra me dar conselho e até pra corrigir meus textos em idiomas não identificados.

Ainda por cima (amo essa expressão!), descobri grupos no whatsapp que aceitam estranhos e que se abrem para todo tipo de estranhos! Com gente do Brasil inteiro. A qualquer hora do dia ou da noite o povo tá lá no maior papo !

Mas é estranho! Ainda acho. Não ter companhias imediatas como vizinhos ou parentes. Mas beleza, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição, Amarante!

Lembrei que mini-solidões não são tão novas assim. Era normal quando eu mudava de escola, por exemplo. Teve uma vez que mandei um e-mail tão depressivo para minha amiga da escola anterior, falando da falta de amigos, que até hoje ela está escolhendo as palavras para responder.

Ou quando entrei pra faculdade de Direito, e depois pra outra faculdade de Direito. Mas no fim das contas, em todos esses lugares, fiz ótimos amigos depois de algumas semanas, quase todos rendem até hoje! Mesmo à distância.

O período de teste em Avignon foi o maior. E mais atípico. Era o lugar onde as pessoas torciam mais o nariz pra mim. E hoje eu mando tchauzinho pra elas quando começam a me julgar demais no restaurante! Ainda tenho momentos de solidão, mesmo com uma gatinha supercarinhosa e amigos muito presentes. Acontece! É por isso que sempre inventamos jantares vegetarianos juntos, noite de seriados, saídas para teatros, para ver eclipse, para caminhar, nadar nos rios, visitar museus, fazer aula de dança e doar roupas velhas. Descobrir os amigos que descobri em Avignon compensou os mais de 400 dias que passei na cidade, no bloco do eu sozinha, sem ter muita companhia. Eu convido você, futuro professor, a vir filosofar um pouco mais com a gente!

 

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OBS: Este texto faz parte do projeto 33 textos antes dos 33 anos!

Para ver vídeos que faço para um outro blog, clique aqui!

Sobre as fotos: A foto na mesa, embora não pareça, é sobre a chegada da primavera do ano passado, quando pudemos finalmente fazer algo ao ar livre sem morrer de frio! A foto das fantasias é sobre uma festa que na verdade não era à fantasia, mas três pessoas entenderam errado e foram fantasiadas, para não morrerem de vergonha todo mundo se fantasiou lá mesmo! A foto do coração é uma iniciativa linda da Sabrina Abreu ( #s2fragil ), e quem clicou foi a Livia Alen!

 

Três estudantes, um violão e o luar

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Em junho de 2011 eu recebi uma notícia que mudou a minha vida. Depois de muita luta, muito esforço e muitos rascunhos, finalmente, eu me tornava advogada. Foi a partir daí que pude fazer uma viagem que me possibilitou conhecer Alexis etc!
Tenho um blog inteiro que fala dessa experiência com o Direito e tenho um milhão de casos para contar que talvez um dia se tornem um livro. Durante minha vida de estagiária, adotei um cachorro enquanto ia para a Justiça Federal, fiz amizades no fórum, caí da escada do tribunal, corri atrás de vários ônibus, tombei o processo trabalhista no meio da rua, conheci juízes e advogados de bem, também conheci um mundo podre e corrupto, mas, principalmente, conheci outros estudantes de Direito que marcaram minha vida para sempre.

Hoje vou falar de dois: Jorge e Rafa. Meus colegas de estágio no último escritório em que estagiei e após, advoguei em Belo Horizonte. Quando entrei, Jorge, além de um colega de estágio, era também encarregado de fazer a comunicação (internacional) do escritório. Entrei para ajudá-lo com meu conhecimento de publicitária. Achei que teríamos um problema de sintonia, já que toda vez que chega um profissional mais capacitado para “mostrar” para o outro como trabalhar, isso gera um ciúme muito grande e um ambiente horrível. Foi uma surpresa como Jorge sempre foi receptivo! E, ao contrário do que imaginávamos, foi ele que me mostrou como trabalhar! E como trabalhar com gosto, com bom-humor e criatividade!
Eu já tinha um Jorge Amado na minha vida (olha o trocadilho!): Jorge, meu brother e roommate do Canadá (que saudade!!!). O Jorge do escritório, no entanto, em questão de dias se tornou um novo melhor amigo.

Um novo melhor amigo até que chegou o Rafa. Rafael Penido, com o mesmo sobrenome do meu pediatra (de quando eu era pequena, dã), entrou no lugar de um outro amigo que havia partido e deixado saudades. Seria fácil substituí-lo?! Não. Mas um belo dia Penido almoçou comigo e depois me entregou uma declaração por escrito dizendo que eu era uma das pessoas mais legais que ele tinha conhecido. Como não se derreter?
Passamos a almoçar juntos com a galera, enquanto o Jorge sempre almoçava em casa, o folgadão!

O que me incomodava no Rafa era que ele nunca comia verduras e mesmo assim mantinha um físico de atleta. Como pode? Eu me indignava!

Eu e Jorge éramos meio insones nessa época e compartilhávamos o sonho de montar um escritório 24h, visto que nosso horário mais produtivo era no fim do dia e durante a noite. Alguns planos foram feitos nesse sentido, mas nada vingou. O Rafa era um cara mais diurno, e a gente se perguntava se ele toparia trabalhar a noite inteira ou se seria o responsável pelo trabalho no horário comercial!

O trabalho foi endurecendo e nossos contatos no escritório foram minguando.
Eu e Jorge ainda tínhamos alguma conversa durante as noites em que levávamos trabalho pra casa. O Rafael não. Sempre foi o mais centrado. O estagiário ideal: educado, disciplinado, concentrado, estudioso e querido por todos. Esse rapaz tinha futuro!

Jorge tinha suas dúvidas. Ele era uma pilha de ideias preso numa estrutura rígida de escritório. A gente sentia que alguma coisa ali estava prestes a explodir.

Um dia Jorge encontrou outra oportunidade e saiu do escritório. Deixou cartinha para quase todo mundo agradecendo a atenção.

Fomos despedir no bar do lado e lá ele revelou tanta coisa sobre sua vida que deu ainda mais sentido para sua postura, sua criatividade, sua simpatia e também para sua insônia.

Uma semana depois, marcamos de encontrar na tal feirinha da Savassi. Um lugar onde todos os advogados da região se encontram na quinta-feira à noite. Naquele dia, estávamos entre vários. Foram todos indo embora até que sobramos eu, Rafa e Jorge.

De lá, fomos para o Jack, outro bar-cliché de Belo Horizonte, mas decidimos ter uma noite diferente e experimentamos todos os drinks com nomes exóticos da casa. Foi divertido, mas meio caro. Coisa pra fazer uma vez na vida. Se você é estagiário, nem deveria fazer.

Eram três horas da manhã e achamos melhor dar uma passadinha na praça do Papa, que fica num ponto alto de Belo Horizonte para, justamente, ver o horizonte. Jorge tinha um violão no carro. Nada mais oportuno. Passamos o resto da noite cantando, de Ana Julia à Save Tonight! Uma menina veio sentar do lado do Rafa. Ele achou que ela estava interessada, até que veio o namorado dela e sentou do lado também e por um tempo, tínhamos audiência para nosso coral.

Quando eles foram embora, de novo, sobramos nós três. E um gramado verdinho, inclinado na direção da Avenida Afonso Pena, uma das mais importantes da cidade.

Jorge levantou, encostou o violão e disse “Vou fazer uma coisa, que se eu não fizer agora, não vou fazer nunca mais”. Eu e Rafa trememos. Ele se deitou no chão, dobrou os braços e se lançou. Rolou a praça do papa gritando!

Rimos muito!
Deitei no chão e fiz o mesmo. Entrou grama até no meu umbigo.

Rafa, de terno, todo arrumadinho, se pôs no chão e foi. Acontece que ele se direcionou para uma parte do gramado que acabava num degrau um tanto quanto altinho. Ele ia cair de cabeça no concreto. A gente tentava avisar, mas quem disse que conseguíamos interromper o riso para falar. Ele finalmente abriu os braços e parou de rolar, segundos antes de cair.

Achamos um coco no chão e decidimos jogar futebol. Por que não?! Era uma quinta-feira 4h da manhã. A gente teria que estar no escritório às 9h. Nada mais apropriado. O problema foi que Jorge estava jogando bola com o violão no braço e quando fui dar um chapéu, o braço do violão veio bem no meu olho. Parei. Voltei pra casa.

No dia seguinte, quando cheguei no escritório, Rafa já tinha contado tudo pra todo mundo e a coordenadora trabalhista disse que morria de raiva da gente não ter chamado ela pra rolar conosco!

Sabe, esse foi o tipo de evento que eu vou me lembrar naqueles segundos em que toda a vida passa diante dos olhos antes de morrer. Eu acho que foi uma das melhores noites da minha vida de estagiária. Quiçá da minha vida!

Duas semanas depois, fui a uma dentista. Ao me posicionar em sua cadeira, ela fez um comentário “Meu Deus, que olho roxo é esse!”. Eu ri. E depois de ver que ela esperava a resposta, fiquei sem graça. Como explicar “bati o olho num violão jogando bola de madrugada”?

Um ano depois, Jorge quis marcar um reencontro pra gente lembrar a noite na praça. Mas a vida já não estava do mesmo jeito. Eu estava envolvida na ida pra França, Rafa no trabalho e o próprio Jorge no fim da faculdade.

Depois que o escritório se dividiu em dois, boa parte dos amigos partiram (Luis, Luísa, Bruno, Regina e o Juan da Colômbia…). Passei a almoçar sozinha com o Rafa, que nunca comia salada. A gente sempre teve assunto, mesmo com anos de diferença, e encontrando todo dia.
No meu último dia de trabalho, deixei um recado no computador dele antes de sair e fechar a porta do escritório pela última vez: “Coma verduras!”. Até hoje, ele se lembra disso, mas ainda não come.

Outro dia fiquei sabendo que Jorge se formou, passou na OAB e foi advogar como tributarista num grande escritório de BH. Foi também outro dia que fiquei sabendo que o Rafa havia perdido o pai. Duas situações distintas, mas que mereciam a minha proximidade. Como amiga. Como cúmplice.

É difícil estar sempre tão longe. Tão impotente diante de tanta coisa. Minha única arma até agora é a escrita.
Por isso, no improviso do papel virtual, eu escrevo, em forma de pedido, um convite: Venham me ver. Quando quiserem. Como quiserem. Assim que quiserem. Existe um morro gramado aqui perto. Não esqueçam o violão.

PracadoPapa

Um ponto para o 58

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Desde que comecei a estudar na universidade daqui, fiz bons amigos, entre eles, duas grandes amigas brasileiras: Fernanda (bahiana) e Vanessa (carioca). O sangue brasileiro, a idade coincidente e as histórias um pouco semelhantes nos uniram muito a ponto de já considerá-las como indispensáveis para uma vida feliz!

Fernanda casou-se com um alemão e veio morar em St. Andiol, vilarejo próximo de Avignon. Vanessa noivou outro brasileiro, que trabalha e estuda na França há muitos anos, por isso, decidiu vir pra cá. Eu… eu tenho uma história parecida, mas um pouco diferente. E para não ficar contando a novela inteira, vou reduzir: Vim para a França por causa do francês.

Eu e Vanessa, assim como nossa amiga russa e nossa amiga africana e outros fomos convidadas para um jantar-festa em St. Andiol na casa da Fernanda. O evento aconteceria na noite de ontem e tudo que eu, Vanessa e meu namorado precisaríamos fazer seria pegar o ônibus número 58, que passaria às 18h18 na porta St. Lazare.

Sábado à tarde. Meu namorado resolve ir comprar coisas num lugar distante para consertar o encaixe do forno que não entra dentro do buraco previsto para ele. Este forno está no meio da sala desde que nos mudamos pra cá. “Justo agora você tem que fazer isso?”. Eu estava preocupada com o ônibus. Era o último ônibus para St. Andiol no sábado. Ele prometeu voltar a tempo. E voltou.

Deixamos o forno no meio da sala e fomos na direção do ponto de ônibus com duas garrafas de vinho. Não, não havia nenhum 58 naquele ponto. No outro próximo, também não. Perguntamos uma mulçumana que estava em outra parte e ela disse nunca ter visto este ônibus passar lá. Andamos mais. Nada de indicações. Encontramos Vanessa como já combinado. Ela carregava uma sacola com uma iguaria brasileira para apresentar na festa: Brigadeiro.

Vanessa também não tinha encontrado o ponto. Tentamos ligar para a Fernanda. Mas Fernanda tem um telefone difícil, que nunca funciona quando precisamos. Tentamos Nomaza. Nada! E Natalya, a russa? Não temos o telefone dela…

Um outro ônibus parou em um dos pontos. Perguntamos ao motorista. “Subam, vou levar vocês até a estação”. Subimos de graça! Já eram 18h15. Enquanto ele nos fazia essa favor, ainda fez outra gentileza: Disse que o Brasil era uma grande nação, não apenas em tamanho. Meu coração se encheu de ternura. A França tem dessas pessoas fofas que surgem do nada, te fazem algo muito bom, e se vão. O Brasil também tem! Isso é tão Amelie!

Chegamos na estação correndo. Os brigadeiros chacoalhavam. As nossas 4 blusas contra o frio pareciam tão desnecessárias…

Olhamos todos os ônibus. Nada! Um rapaz de origens árabes se ofereceu para ajudar. Perguntamos pelo 58. Ele disse que já tinha partido. Com a nossa surpresa, ele até tentou verificar se não havia nenhum outro ônibus. Não havia… Para nosso desconsolo, pegamos o informe que fica na estação sobre o 58. Corremos o olho rápido. Realmente ele passava na St. Lazare, mas onde? Nada indicava. Alexis viu outra rua. Olhou o horário e disse “Ainda dá tempo”. Saiu correndo com nossos vinhos brindando involuntariamente dentro da caixa. Corri também. Vanessa, um pouco impressionada, juntou os brigadeiros e saiu em disparada. O caminho era longo! Corremos e alimentamos esperanças de que o francês sabia o que estava fazendo. Ele sabia mais ou menos. Tinha visto na sequência de pontos do 58 que em 3 minutos ele estaria no fim de uma rua gigante, próxima da nossa antiga casa.

Chegamos lá e nada. Fomos tirando todos os casacos. O cabelo derretido, a maquiagem completamente borrada… e olho pra frente. Um ônibus gigante se aproximava. Era uma aluscinação de calor… Nele estava escrito 58!

“Deus é bom!”, gritou Vanessa. Eu não tenho dúvidas disso, mas Alexis também queria agradecimentos! Obrigada, Alexis!

40 minutos depois estávamos em St. Andiol, de frente para uma cervejaria bem com cara de Brasil. Fernanda foi nos buscar e ao chegarmos na festa, todos já nos aguardavam!

“Vocês não tem ideia da aventura que foi para chegar aqui!”, “Ah, toma essa caipirinha!”, eles respondiam. Ouvimos música, conversamos, comemos muita coisa gostosa! “Ei, Natalya, você conhece strogonoff?”, e ela respondia que sim. E com isso eu demonstrava para as meninas que strogonoff é algo russo e não brasileiro! Vanessa foi falar com Natalya que no Brasil a gente ama strogonoff. Ela concordou! Então completou que quase todo dia a gente come strogonoff, que é uma delícia… frango, arroz, batata palha… Natalya parecia assustada. O que foi, Natalya? “Ora, mas Strogonoff é o nome de um compositor”. Eu, Vanessa e Fernanda fizemos uma pausa reflexiva. “Então strogonoff é uma invenção brasileira!!!”. “Uhuuu! Toca aqui!”.

Outra descoberta: Um convidado de origem romena comentou que sua língua nativa é de origem latina e tem muita similitude com o português. Aposto que você não sabia disso! Meu pai sabia disso e eu havia corregido este “equívoco” dele. Como sou pretensiosa…. Você estava certo, papai!

Fomos dançar! Que divertido! Todas as mulheres juntas! Nomaza tem ginga. Eu realmente olho para os africanos e penso que temos muito em comum. Quando os vejo dançando entendo que poderiam ter nascido brasileiros! Quero uma pangeia de novo pro mundo! Mas sem terremotos.

Estava tão quente que as velas acesas para tornar o ambiente mais fofo foram delicadamente apagadas pelos convidados.

Fomos pro lado de fora sentar na cadeira molhada pela chuva e apreciar a árvore que, depois de algumas caipirinhas nos lembrava uma girafa!

Ouvimos Caetano Veloso lá de fora. Ele cantava “Você é linda”. Ah… que gostoso. Faltava uma menina entre nós. Era Natalya. Olhamos pra janela e ela dançava com o marido na sala vazia. “E ela nem sabe que Caetano é Caetano…”dizia nossa amiga bahiana. Tão lindo ver as pessoas felizes com a nossa música. Tão lindo conhecer casais verdadeiros!

A noite seguia em frente e nós provamos o cheese cake com chocolate branco! Maravilhoso! Do lado de cada pedaço, um brigadeiro acompanhava. Que bom que deu certo! Vanessa sentou do meu lado e disse “Ainda bem que não perdemos essa festa!”. É, ainda bem!