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Não somos hamsters: a amizade com o sexo oposto

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Quando eu era pequena, sempre que pedia um cachorro pra minha mãe, ganhava um passarinho, um coelho, um girino, uma cobra, um pato, uma galinha, uma chinchila, uma codorna, tudo, menos um cachorro.

Certa vez, ganhei dois hamsters. E esperta que era, escolhi um macho e uma fêmea, para ficarem amigos.48csv

Fomos lá naquele espaço asqueroso do Mercado Central de BH, que hoje é investigado pela CPI dos maus tratos, e compramos um casal. Naturalmente, eles desenvolveram uma relação muito mais estreita que uma amizade e em um mês a gente tinha 24 hamsters. A nossa casa parecia um laboratório de cosméticos, com a diferença que a gente tratava bem dos bichinhos e não lucrava com eles. Todos os meus amigos ganharam hamsters de presente. E aprendemos uma lição: Hamsters são lindos, fofos e inteligentes, mas não são como os humanos. E por que isso?

Porque se você coloca um macho e uma fêmea juntos, os feromônios dos hamsters serão mais fortes que qualquer outra coisa e eles vão se reproduzir. Muito! Com seres humanos normais a situação pode ser diferente.

Minha prima tem um grande amigo há mais de dez anos. Eles são tão amigos que se apresentam como irmãos. Durante anos, eles aguentaram perguntas sobre a honestidade daquela amizade. Ontem, na hora do almoço, estavam explicando que finalmente estão namorando pessoas que entendem a diferença de amizade para paquera.

Tem limites? Tem. Mas a amizade entre homem e mulher (ambos heteros) é possível. E é muito enriquecedora! Por que eles não namoram? Porque não querem. Porque estão apaixonados por outras pessoas, porque a relação deles é de amizade e ficou por isso mesmo. Ou simplesmente, porque não estamos falando de hamsters!

Minha tia avó estava almoçando com a gente também. Ela viveu anos casada com meu tio que era uma pessoa adorável, mas ainda com dificuldades de entender sobre relacionamentos. Não deixava ela sair sem ele, não deixava ela viajar, não gostava nem de convidar muita gente pra casa deles. Manias dele e de uma época, mas que influenciavam muito na vida dela. Depois que ela ficou viúva, apesar da saudade imensa, ela conheceu um outro lado da vida. Andou de avião pela primeira vez, foi para a Italia, mudou sua forma de vestir, de fazer projetos pra vida e até de andar.

Durante a conversa do almoço ela pediu para falar. Disse que realmente, não via nenhum problema nessas relações. Contou que tem um vizinho que é viúvo também e que eles se cumprimentam na rua e trocam algumas palavras de vez em quando. Bastou isso para uma vizinha patrulheira vir falar com ela que as pessoas poderiam interpretar mal aquela história. Ora… quando foi que perdemos o direito à amizade?

Uma pessoa viúva com certeza precisa de muitos amigos para superar esse momento. É cruel querer que ela fique sozinha, vivendo de memórias, quando poderia se apoiar em tanta gente, dos dois sexos, até com problemas parecidos, para vencer essa dor.

Em Belo Horizonte não tenho muitos amigos homens (héteros). Tenho um ou outro, que desaparecem quando começam a namorar. Não sei se por medo das namoradas ou de outros patrulheiros. Mas desaparecem (o que me dá certa preguiça, apesar de já ter feito isso também quando tive um energúmeno como namorado, mas passou).

Em Avignon, dei sorte de ter muitos amigos (homens e mulheres). Tomo o cuidado de sempre demonstrar a maior consideração com as namoradas dos amigos. Procuro sempre mandar um abraço pra elas quando envio alguma mensagem pro celular deles. Se tem festa, ou algum evento, convido os dois. Converso com os dois, sou gentil com os dois e não fico encostando muito em nenhum deles! Hehe! Na verdade, acho ótimo poder agregar as namoradas e namorados na turma. Vejo que isso conta muitos pontos pra alegria de um casal, em qualquer parte do mundo. E a gente só tem a ganhar.

Aceitar que é possível uma amizade entre sexos opostos pode ser muito construtivo pra sociedade. E é claro, tem casos e casos. Algumas pessoas abusam? Abusam. Algumas pessoas não são confiáveis? De fato. Tem gente que podendo ser gente, escolhe ser hamster. E nessa hora, minha amiga, o meu faro é de albatroz.

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Mais:

Foto meramente ilustrativa retirada daqui

Investigação do Mercado Central na CPI dos maus tratos de animais em BH 

A indústria cosmética e os testes em animais

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Bloco do eu sozinho em outro país

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É comum ouvir de muita gente a afirmação de que Avignon é uma cidade hostil. De que é muito difícil fazer amigos aqui e de que nos sentimos sozinhos por muito tempo.

Tenho que concordar. Avignon foi a primeira cidade que me deu a sensação de solidão por um tempo maior que o normal. Nunca tinha experimentado isso antes, até porque sempre vivi rodeada da minha família. Nunca tive o desejo ou mesmo a pretensão de morar sozinha. Fiquei um tempo sozinha em Vancouver, no Canadá, mas não foi o bastante para me sentir sozinha. Em Avignon, mesmo morando com mais duas pessoas (Alexis e Pamela), percebo a solidão pinicar, principalmente quando eles não estão lá.

No livro « Clube dos Corações Solitários » que li coletivamente com meus colegas de último ano de Publicidade (beijo, Caricatura!), havia uma passagem em que a personagem saía pra um encontro, mas o homem só falava de si mesmo. Quando ela volta pra casa, e senta no meio fio, seu amigo pergunta como foi o encontro e ela comenta « você já se sentiu sozinho mesmo estando acompanhado ? ». É mais ou menos assim. Aqui na França, enquanto a amizade não pega no tranco, você pode estar em plena civilização, mas vai se sentir numa ilha deserta.

Estar só não é o problema. Pelo contrário, para pessoas como eu, é até recomendável. Preciso desse respiro. Mas também preciso do respiro das boas companhias! Segundo minha naturopata (uma profissão diferente que achei em Avignon, esse é um tipo psicológico equilibrado, o meu! Tive que dar um jeito de enfiar esse informação neste texto!). Mas estar só, e o pior, sentir-se só o tempo todo é pertubador. Sentir que, mesmo se você precisar, não terá ninguém. Poxa, isso não é legal. Pessoas morrem por causa disso.

Outro dia conheci um espanhol que estava fazendo teste para virar professor na Universidade de Avignon. Na minha ingenuidade achei que ele reunia todas as características de uma pessoa que teria prazer numa vida solitária. Mas não. Menos de 10 minutos de conversa, e ele já estava contando uns três casos de quando precisou de contato ou gentileza humana e não teve.

Foi morando na França que descobri que a gentileza não é a coisa mais comum do mundo. Eu achava que era normal ser gentil. Engano. Claro que conheço franceses muito gentis e fofos. Mas achei que fosse conhecer mais!

Já relatei uma vez que eu gosto de cuidar do jardim e dos gatos abandonados que moram perto da minha casa. Pois bem, dei um tempo de cuidar do jardim porque vi que era quase inútil. Quanto mais arrumava, mais sujeira aparecia. E umas sujeiras pesadas, estranhas. Fiquei um pouco frustrada. E isso me deu a impressão de estar sozinha. De ser a única a se importar. Mas continuei cuidando dos gatos. Outro dia apareceram na minha porta dois sacos de ração para gatos. Não tinha nome, nem bilhete, nada. Fiquei meio desconfiada, mas ao que tudo indica, era só ração mesmo (lembre-me depois de contar sobre a máfia das rações e a possibilidade de ter cães e gatos vegetarianos !). Essa pequena «gentileza » me deu um pouco mais de fôlego. E mais motivação para continuar o projeto.

Quando comecei este blog fiz um trato comigo mesma que não iria ficar falando de coisa negativa no blog. Não acho que esse tipo de mensagem leve a nada e só causaria mal entendidos. Então, por favor, leia este texto até o final para ver onde quero chegar e não ficar com uma impressão ruim (o muito ruim).

A hostilidade de Avignon existe. É fato. Costumo dizer que se não tivesse descoberto o grupo de couchsurfers, eu não teria amigos na cidade. Ou teria amigos que veria uma ou duas vezes por ano.

Tenho vizinhos que sequer respondem o « bom dia » que a gente dá. Outros respondem, mas a relação nunca passa de « como vai ? Olha que solão ! Ouvi dizer que vai chover ». Na época da Copa do Mundo foi maravilhoso, porque era quando as small talks (Silvinha me explicou que não é little talks !) duravam mais tempo : « E o Brasil, hein ?! Nossa, eles estão jogando um bolão ! ». Mas foi só a Alemanha devastar o nosso time que todo mundo passou a evitar esse assunto comigo e pronto, fiquei sem assunto de novo. Tenho uma vizinha que até hoje me evita… e eu não tenho certeza que é por causa da Copa do Mundo ou por ela me achar estranha mesmo (estranha onde???). Fato é que ela não me recebe casa dela nem quando eu estou com um embrulho de presente batendo na porta e vendo que ela está na sala assistindo televisão. Nesse nível!

Encontrar amigos em Avignon foi realmente uma das tarefas mais difíceis da minha vida. Sem amigos, eu costumava ver vídeos na internet para ouvir alguém falando comigo (olha que depressão) e as vezes pensava « nossa, que legal essa pessoa com tanta audiência! Ela nunca deve se sentir sozinha ! » (olha que depressão!!!).

Aí comecei a frequentar esse grupo de amigos de amigos que faziam couchsurfing. Comecei a aceitar couchsurfers também. E a fazer pão de queijo pra galera, brigadeiro, ser gentil por ser gentil. Passei a fazer o que a vida inteira me ensinaram a não fazer: conversar com estrahos! Mas estranhos com uma loucura que parece um pouco com a minha, Falcão! Chamar pra festas que tocam Macarena e Balão Mágico. E funcionou! Não com todos, mas com uma quantidade boa de gente com quem eu me identifico.

Hoje, na hora que eu quiser, tenho alguém para ligar, pra conversar, pra me dar conselho e até pra corrigir meus textos em idiomas não identificados.

Ainda por cima (amo essa expressão!), descobri grupos no whatsapp que aceitam estranhos e que se abrem para todo tipo de estranhos! Com gente do Brasil inteiro. A qualquer hora do dia ou da noite o povo tá lá no maior papo !

Mas é estranho! Ainda acho. Não ter companhias imediatas como vizinhos ou parentes. Mas beleza, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição, Amarante!

Lembrei que mini-solidões não são tão novas assim. Era normal quando eu mudava de escola, por exemplo. Teve uma vez que mandei um e-mail tão depressivo para minha amiga da escola anterior, falando da falta de amigos, que até hoje ela está escolhendo as palavras para responder.

Ou quando entrei pra faculdade de Direito, e depois pra outra faculdade de Direito. Mas no fim das contas, em todos esses lugares, fiz ótimos amigos depois de algumas semanas, quase todos rendem até hoje! Mesmo à distância.

O período de teste em Avignon foi o maior. E mais atípico. Era o lugar onde as pessoas torciam mais o nariz pra mim. E hoje eu mando tchauzinho pra elas quando começam a me julgar demais no restaurante! Ainda tenho momentos de solidão, mesmo com uma gatinha supercarinhosa e amigos muito presentes. Acontece! É por isso que sempre inventamos jantares vegetarianos juntos, noite de seriados, saídas para teatros, para ver eclipse, para caminhar, nadar nos rios, visitar museus, fazer aula de dança e doar roupas velhas. Descobrir os amigos que descobri em Avignon compensou os mais de 400 dias que passei na cidade, no bloco do eu sozinha, sem ter muita companhia. Eu convido você, futuro professor, a vir filosofar um pouco mais com a gente!

 

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OBS: Este texto faz parte do projeto 33 textos antes dos 33 anos!

Para ver vídeos que faço para um outro blog, clique aqui!

Sobre as fotos: A foto na mesa, embora não pareça, é sobre a chegada da primavera do ano passado, quando pudemos finalmente fazer algo ao ar livre sem morrer de frio! A foto das fantasias é sobre uma festa que na verdade não era à fantasia, mas três pessoas entenderam errado e foram fantasiadas, para não morrerem de vergonha todo mundo se fantasiou lá mesmo! A foto do coração é uma iniciativa linda da Sabrina Abreu ( #s2fragil ), e quem clicou foi a Livia Alen!

 

Sobre o Brasil, o avião, o samba e as rosas

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Desde que fui para o Brasil, fiquei tão ocupada com gente legal em volta, que não tive tempo de parar para escrever. Eu acho que a vida perfeita é assim: estar ocupada com gente de bem!

O Brasil me passou uma sensação muito boa. Meu avô sempre diz quando os netos viajam “Bom mesmo é o Brasil”. E ele tem certa razão. É um país incrível! Com pessoas incríveis. Eu ficava pensando que todo mundo que conheço no Brasil daria um livro sucesso de vendas por suas histórias de vida. Dos meus primos aos meus vizinhos, me senti querida e bem vinda por todos! Gente com sangue correndo nas veias! Meu cachorro com as brincadeiras de sempre e o gosto de farofa na comida. Bom mesmo é o Brasil! Mas, tudo bem, eu tinha que voltar!

E voltei.  No avião de BH para Lisboa, sentei-me do lado de um senhor extremamente gentil. Advogado trabalhista de São Paulo, ele chamava-se Dirceu e ficamos boa parte do vôo rindo das coisas que alguns advogados fazem para fazer parecer mais inteligentes e mais trabalhadores para o cliente, o juiz e o chefe. Lamentamos também as condições atuais dos advogados no Brasil e eu desejei que ele me oferecesse uma parceria de trabalho com os casos que envolvessem a França. Ficamos de encontrar na saída do avião, mas nos perdemos. Tudo que sei é que ele se chama Dirceu, é muito simpático e advogado em São Paulo. Tomara que um dia ele encontre este blog. Eu lhe desejo todo sucesso do mundo! E agradeço pela companhia que fez a viagem ficar mais leve.

E quando eu acho que já tive toda sorte do mundo com esses avião, não é que a TAP me apronta uma?

Estava prestes a ingressar no avião de Lisboa-Marseille, cansada de ouvir uma alemã gritando no aeroporto, quando a funcionária portuguesa, ao verificar meu ticket de bordo, disse que tinha havido uma mudança na minha passagem. Respirei fundo e ela continuou: “Você vai de primeira classe”. “Ah, tudo bem”, aceitei sem esforço!

Uma vez a TAM me colocou na primeira classe para o Rio de Janeiro, mas eu só tive direito ao acento confortável e nada mais. Nesta viagem, porém, a TAP, além do acento, me deu um tratamento de estrela. Ofereceram jornais do mundo inteiro para eu ler, mas como estava anotando na hora, descartei! Depois vieram com um menu para eu escolher o almoço. Tinha polvo, pato, arroz, queijos variados etc. Escolhi o arroz mais simples, só que veio uma coisa deliciosa! Não sei explicar, era uma mistura com um purê e queijo, e um alhinho na medida ideal pro meu paladar. De sobremesa, um pudim com creme que, novamente, não sei explicar. Achei excelente a ideia de oferecerem aleatoriamente o serviço de primeira classe para os passageiros conhecerem. Será que foi aleatório mesmo? Será?!

O dia estava lindo e eu tinha um assento solitário. Olhei para a janela e agradeci a Deus, não só por aquilo, mas pelo Brasil, pela França, pelos aviões e pelo mundo que estou tendo a oportunidade de conhecer.

Continuei minhas anotações e imaginei a seguinte possibilidade “Vai que os comissários acham que sou uma escritora rica andando de primeiro classe”, e fantasiei o que seria ser uma pessoa que vive de escrever e consegue! Lembrei das minhas amigas escritoras Sabrina, Liliane e da Paula Pimenta! E lembrei da Luiza Voll, que trabalha na própria empresa que chama Contente! Como eu queria ter um trabalho assim, que me custasse ser incrível!

O que eu deveria fazer para merecer isso? Fiquei pensando… E peguei Julia Child para ler.

Alexis foi me pegar no aeroporto de Marseille com nosso carrinho de 23 anos, doado por uma senhorinha que não podia mais dirigir.

Viemos para casa e eu mal tive tempo de tomar banho, os italianos já começaram a chegar. Depois chegaram os espanhóis. Tínhamos um jantar de comida francesa naquela noite porque meu amor esqueceu que eu chegaria na quarta. Mas tudo bem!  Passei aspirador em tudo e ajudei a arrumar a mesa.

Na sexta tive uma prova que não consegui terminar. Escrevi tudo a lápis e na hora de passar a caneta acabou o tempo. Também, eu entendi que a prova duraria uma hora e ela, na verdade, durou apenas trinta minutos. Mesmo assim, eu passei à caneta correndo, ficou um garrancho. Eu tenho dois cursos superiores e uma pós-graduação e até hoje não aprendi que é absurdo escrever tudo a lápis para depois passar à caneta. Bem feito pra mim.

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Depois da prova, voltei para casa e comecei a arrumar a casa para a festa brasileira de sábado. Comprei rosas amarelas (que junto com as folhas dão um toque levemente verde-amarelo na decoração sem ficar parecendo escola de samba com temática brasileira) e tulipas. Comprei as tulipas só porque a Silvinha fala muito delas! E são realmente lindas! Coloquei as flores, uma por uma, em cada garrafa de vinho que tínhamos já vazia e que havíamos nos esquecido de levar para a reciclagem de vidro. Espalhei várias pela casa e gostei do efeito. Coloquei no corredor da escada, sobre a mesa, perto do aquecedor! Até Alexis elogiou!

Ele chegou mais cedo naquela sexta, pois haveria uma apresentação gratuita no grande teatro antigo de Orange (que fica a meia hora de Avignon). Fomos pra lá. Pegamos um congestionamento na entrada da cidade, mas achamos vaga fácil. Porém, estava chovendo e a apresentação fora transferida para o teatro da biblioteca que é bem menor e já estava lotado. O senhor da Legião Estrangeira (era um festival de aniversário da Legião) foi simpático para impedir a nossa entrada! Foi tão simpático que nem ficamos chateados. Decidimos explorar os restaurantes da região.

Alexis sempre lê os menus da porta do restaurante para saber se ele quer conhecer a culinária de lá. Eu costumo olhar mais o ambiente. E também os preços! Mas, claro, procuro ver se tem algo que eu realmente gosto de comer. E vi que o restaurante tinha massas! Ele viu que tinha muitas carnes exóticas. E os preços eram bons. Aceitamos!

A entrada do restaurante parecia simples, mas na verdade, era dentro de uma caverna! Tudo tudo tudo de pedra! Um ambiente delicioso! Fiquei tão feliz… Alexis me convenceu a dividir um vinho com ele (vinho aqui é mais barato que cerveja) e pediu uma carne crua (crua mesmo, nada nada esquentada, ela é exótica assim) com batatas. E eu pedi um tagliatelle à carbonara (mas a minha carbonara é muito melhor!).

Comemos razoavelmente bem, e o vinho era realmente bom. Achei que tinha gosto de danoninho, que me desculpem os henólogos!

No sábado seguinte tínhamos uma porção de coisas a cumprir. Na nossa casa teríamos festa! Seria uma festa brasileira e também um aniversário de uma amiga francesa (Claire), que estava meio sem tempo de organizar a própria festa.

Tínhamos que comprar as coisas pra festa, arrumar a casa, terminar de desfazer as malas, comprar um som que funcionasse (o outro parou de funcionar antes de eu ir pro Brasil) etc.

Fizemos tudo, mas foi uma correria. E, ainda por cima, ficamos perdidos no estacionamento do centro comercial gigante de Le Pontet. A gente saiu pro lado errado e Alexis insistia que era lá que estava o carro. O pior de fazer errado é ter certeza que está fazendo certo. Isso nos roubou preciosos quarenta minutos.

Cheguei, terminei de arrumar tudo e fui tomar banho, faltando cinco minutos pras 20h, uma vez que a festa começaria entre 20h30 e 21h. Na verdade, a gente queria que fosse 21h, mas a aniversariante francesa marcou 20h30 com a turma dela. Então teríamos que estar preparados já 20h30.

Eu estava no banho quando ouvi alguém batendo a porta. Alexis foi receber e era um casal de franceses que tinha entendido que a festa começaria 20h. Suspiramos e colocamos eles para nos ajudarem na arrumação. Na verdade, Alexis fez isso, eu ainda estava no banho! Eles montaram dois bancos novos que compramos!

Meu cabelo teve que terminar de secar naturalmente, o que significou uma festa brasileira com direito a cabelos de Gal Costa!

As pessoas foram chegando aos poucos até 21h15, quando de repente, uma enxurrada de gente decidiu chegar junta e eu perdi totalmente o controle de quem já tinha cumprimentado, quem já tinha oferecido as deliciosas coxinhas feitas pela amiga bahiana, Fernanda, e quem já tinha experimentado o gostoso pão de queijo do amigo Guilherme do Rio!

Também tinha que cumprir minha função de DJ, que não foi fácil, porque eu não achei nenhum CD especificamente só com músicas brasileiras ultra dançantes (que agora eu já achei, estavam atrás da caixa de som, mas enfim). Os CDs que tenho são muito variados, então toca um samba e depois toca um blues que faz todo mundo pensar que estou expulsando da festa. Mas não é isso. Aliás, eu nem entendo porque tem que ser uma euforia contínua… prefiro a alternância de modalidades de música, mas tudo bem. Coloquei Daniela Mercure, Chico Buarque, Zeca Baleiro, forró, sertanejo e até “Ai, se eu te pego”que foi pedido especial de um convidado europeu (claro). Achei melhor não incluir Los Hermanos, uma vez que é preciso tempo e ouvido crítico para amá-los.

Quando Zeca Baleiro começou o “samba do approach”  com Zeca Pagodinho todo mundo foi ao delírio! É uma música muito gostosa, com uma batida boa, e após algumas caipirinhas, todos já estavam prontos para aprender a sambar. As brasileiras cumpriram a missão de ensinar bem! O mais interessante é que eu, Fernanda e Vanessa, cada uma de uma região do Brasil, cada uma com um samba diferente. Mas o meu samba chama “samba-enganação”, porque não tenho a técnica não! Mas me divirto! Segundo a Vanessa é samba de bailarina. E eu adorei esse eufemismo!

A nossa amiga canadense foi uma das mais inspiradas para aprender e ela progrediu bem! O orientador do Alexis e sua esposa (uma das francesas mais simpáticas que já conheci) adoraram a exposição, eles estavam no Brasil na semana passada e voltaram cheios de boas impressões da minha terra.

Fiquei feliz de finalmente conhecer o namorado da Vanessa, também brasileiro. E de contar com a ajuda do marido da Fernanda, alemão, que se encarregou, junto com seu amigo Mihail (romeno) de fazer todas as caipirinhas e quebrar os gelos (nos dois sentidos).

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Após um tempo, cada um dos 36 convidados já se sentia à vontade para preparar seu próprio drink. Inclusive, Vanessa pegou meu liquidificador e bateu leite condensado com tudo. O que, advirto, é um perigo!

Também tivemos sanduichinhos para comer e algumas salsichas estranhas… Fora o bolo de aniversário da Claire, que foi Antoine (seu namorado) que fez e estava uma delícia.

Uma bandeira do Brasil derramava do alto do mesanino. As palavras “ordem e progresso” intrigavam os convidados! Mas essas palavras, na verdade, foram inspiradas de um poema francês, que dizia uma trilogia “Amor, ordem e progresso”. Uma pena que o amor tenha sido tirado da bandeira, comentei. Amor é o que mais existe no Brasil!

Uma alemã apareceu aqui por volta de umas duas hora da manhã! Ela estava um pouco atrasada pro aniversário da Claire (ah, esses alemães pouco pontuais…). Deixamos ela entrar e rapidamente ela caiu na dança! Nosso amigo nigeriano mostrava os passos do hip hop que é uma aula que a gente faz junto, mas nunca junto. Sempre que falto ele vai, sempre que vou, ele falta e nunca nos encontramos na sala!

Uma inglesa veio despedir de mim e como a gente tinha ido procurar emprego juntas, perguntei se ela tinha recebido alguma coisa e ela disse que só negativas. Como eu. Ela disse estar preocupada e sentir muita falta dos amigos no país dela e de gente menos fria. Imagino que para uma inglesa os franceses não sejam tão amáveis. Falei para ela não desanimar por isso e que ela podia olhar que na nossa festa tínhamos diversas qualidades de franceses simpáticos, entre outras nacionalidades. Além disso, também falei que podemos ficar mais amigas, tomar um chá da tarde juntas (chá, Inglaterra, tudo a ver!). Foi quando ela me deu um abraço de despedida e comentamos “os franceses não abraçam… isso não é estranho?!”. De fato.

Por volta de duas e meia da manhã, várias pessoas foram embora. Algumas receberam as rosas amarelas na despedida! Flores amarelas significam amizade/afeto! Vi isso uma vez numa reportagem e nunca esqueci. Há alguns anos, enviei uma rosa amarela pra Babica quando a gente se formou em Direito, agradecendo pelos anos de companheirismo. Depois, ela me enviou rosas no meu aniversário. E com isso, viramos duas fofas enviando flores uma pra outra! Quando estive no Brasil agora, meu amigo Rafa também levou uma rosa da amizade pro nosso almoço. As velhinhas que estavam do lado, acharam a gente a coisa mais linda do mundo!

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Com o fim da festa, às 4 da matina, nossas cachaças se acabaram e precisamos encomendar mais! De modo geral, gostei muito da festa! Nenhum copo quebrado, só o Mister Batata todo bagunçado de novo. Foi melhor do que eu esperava! Gostei principalmente do tanto que a gente dançou, pois isso não é comum por aqui.

Na manhã seguinte, ao acordar, vi que tinha uma bolsa no meu quarto, que não era minha.

Aí Alexis olhou no celular e viu que tinha uma mensagem do orientador dele falando que era da esposa que tinha esquecido. Hehe! Como que alguém esquece a bolsa? Enfim, alguns minutos depois ele bateu à nossa porta todo molhado de chuva. Tinha vindo de bicicleta pegar a esquecida. A primeira coisa que ele perguntou quando abrimos a porta foi “e aí, dançaram muito samba depois que fui embora?”. Com nosso jeito hospitaleiro, além de devolvermos a bolsa, ainda doamos uma rosa amarela, que ele colocou entre os dentes de gozação e partiu pedalando. Que bom, parece que deixamos uma boa impressão!
fimdefesta
foto de fim de festa! Música “Kiss”. Canta comigo “Just want your extra time and your ***** kiss!”