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O bote

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Num fim de semana qualquer um gato pulou o muro da nossa casa e veio nos conhecer. O gato olhou pra mim. Eu olhei pra gato. E senti uma empatia que sinto por poucos. Oferecemos leite, queijo, carne e carinho. Digo no plural, mas na verdade fui a única a me comover com a presença do animal. O outro morador da casa disse apenas para tomar cuidado com as pulgas e não deixar o gato entrar além do nosso pequeno jardim.

Eu cumpri os pedidos. Depois de alguns minutos de afagos, fechei a porta e o pobre gatinho ficou por 15 minutos miando do lado de fora depois que saí. Até que entendeu que não adiantava implorar e foi embora.

O dom do gato é saber a hora de partir. O do cachorro, a hora de chegar.

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Eu achei que no dia seguinte ele voltaria. Não voltou. Comecei a ter sonhos com o gato. Me arrependi profundamente de não tê-lo acolhido mais.

Na rua de trás da nossa rua, há uma gangue de gatos, como no musical Cats. Sempre que almoçamos peixe, eu levo as sobras para eles. Apreciá-los é um ótimo programa. Primeiro o gatinho mais manso vai chegando de fininho para cheirar o peixe. Depois chegam uns gatos mais velhos, caminhando lentamente entre as rodas dos carros no estacionamento. Alguns minutos depois, surgem gatinhos mais em forma, te olhando de cima para baixo com os olhos afiados. Por fim, os jovens gatos, sorrateiros, fazendo-se invisíveis, roubam um pedaço do peixe e se mandam. São seis gatos!

Todos os dias que passo por lá, encontro, pelo menos dois. Eles te olham desconfiados. Aproximam-se com o baile das feras, roçam na nossa perna como num estudo científico. Dependendo da sua respiração e dos seus movimentos, aceitam sua companhia. Dependendo, eles se fazem ausentes num piscar de olhos.

Há alguns anos comecei a notar como os gatos são diferentes da propaganda batida de “animais traiçoeiros”. Qualquer ser pode ser traiçoeiro com suas garras. Eu já fui atacada por cachorro. E não me choquei com isso. Todo mundo que se sente ameaçado, vai atacar. Tente fazer isso com um ser humano e espere para ver a reação. Não há nada mais traiçoeiro que o homem, e nem por isso a gente vai se afastar da humanidade. E olha que nem considero homem como animal.

Os gatos são extremamente divertidos, mas completamente diferentes dos cachorros. E talvez este seja o equívoco de muitos de nós: Esperar que o gato se porte como um cachorro. O dois são grandes amigos. Mas o gato tem o bote certeiro. O cachorro costuma devolver a bolinha. O próprio Andrew Lloyd Webber criou, no musical sobre o felino, uma música, cuja mensagem principal é “diga que seu gato não é um cachorro”. E veja bem que amo cachorros.

Desde que parti o coração do pequeno gatinho visitante, passei a deixar carne e leite sobre o muro do nosso jardim. Várias vezes, os alimentos ficavam lá até pedirem para ir pro lixo. Mas de uns dias pra cá, percebi que estavam desaparecendo. Ontem, quando cheguei de noite, vi que a vasilha de leite estava vazia e que os pedaços de carnes haviam desaparecido, com exceção dos pedaços que foram embrulhados pelo papel com o vento. Como saber que não eram ratos? Ora, os ratos não se importariam de comer o papel com a carne. Mas os gatos são mais finos que isso. E mais sutis. Desembrulhei o papel novamente. Hoje de manhã, uma nova surpresa. A carne desapareceu.

Uma nova porção de convite para gatos foi colocada sobre o muro. Aguardo as pegadas almofadadas de Rodrigue. A melhor coisa que poderia nos acontecer no quesito “animais de estimação” seria ter um relacionamento aberto com um gato. Espero ter uma segunda chance.

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“Onde fica a saída?”, Perguntou Alice ao gato que ria.
”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice;
“Depende de para onde você quer ir…”
de Alice no País das Maravilhas

Preços, serviços e comparações iniciais

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Acho as coisas aqui muito mais baratas que no Brasil. Livros custam menos da metade do preço, móveis e eletrodomésticos são uma pechincha (minha amiga comprou uma TV de LCD por 100 euros). Mas não acho que por ser Europa, as coisas sejam necessariamente melhores. Primeiro porque a maioria dos produtos tanto daqui, quanto do Brasil, tem nascimento certo na China. Segundo porque as tecnologias já são muito globalizadas. E para algumas coisas ainda não inventaram a tecnologia mesmo. Comprei um shampoo na expectativa de ficar com o cabelo maravilhoso e até agora nada (talvez seja um problema do meu próprio cabelo). Hoje vou experimentar ir ao cinema. E tenho a impressão que o som não vai ser tão incrível quanto o do cinema brasileiro.

Se a qualidade do produto não faz diferença, a do serviço faz muita. Acho interessante que se você paga algo que custa 4,99 com um nota de 5, os franceses te devolvem 0,01 de troco. No Brasil eu era a chata da Cafeteria Califórnia, sempre exigindo meus 5, 3 ou 1 centavos de troco. Os garçons daqui, até o momento, não me exigiram gorjetas. Eu incluo no pagamento quando quero! E ainda não fui mal-atendida por nenhum funcionário. Pelo contrário, os garçons da França são superdivertidos, trabalham com gosto e acham bonitinho a gente não conhecer muito bem a comida!

Outra coisa deliciosa é encontrar cachorinhos no meio das lojas de roupas. Você pode estar bem experimentando uma calça no vestiário e se deparar um poodle cheirando seu sapato. Adoro que as restrições com animais domésticos aqui sejam menores. Cães e gatos deveriam ter passe livre para tudo. Infelizmente, porém, os franceses não são muito apegados aos animais de um modo geral. Isso é estranho. É só comentar que você adora cavalos que eles “hum… carne de cavalo”, adora pombos e eles “hum… tem um prato feito com pombo…”, adora patinhos e eles … bem, vou parar por aqui. Franceses, embora sejam bons no quesito serviço, ainda não são necessariamente amigáveis em todos os quesitos. Mas isso pode mudar!

Bisous