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Boîte em francês significa caixa

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Se tem uma coisa que me irrita em festas é a obrigação de estar sempre conversando. Porque, sabe, nem sempre você tem empatia por todos os convidados da festa para puxar assunto, ou nem sempre vocês falam a mesma língua, ou nem sempre sobra alguém interessado em conversar com você. É uma festa de “nem sempre”. Ninguém ali vai adivinhar que você toca piano, que tem dois diplomas, que adora cinema e que salvou a vida da sua própria mãe quando ela se engasgou com sukita. Quem se importa?

Se você não tem a manha na cozinha, a suas expectativas de fazer amizade com um francês típico se reduzem em torno de 40% a 50%…O máximo que você pode fazer para chamar atenção numa festa sem ser vulgar é ter um grande sorriso, um copo na mão e  um passo de dança. Mesmo que seja a única. Não adianta se afastar do resto do mundo, dando uma de Bella de Crepúsculo, achando que toda a humanidade é ridícula menos você. Não adianta!

Para evitar esses constrangimentos, os franceses tem uma prática interessante, que eu acho que deveria ser vastamente aplicada no Brasil. Os franceses, em quase todas as festas, fazem jogos com os participantes. Desde jogos com papéis, cartas e mímicas, até jogos mais elaborados como solucionar um crime imaginário em que cinco dos convidados são suspeitos.

Isso é interessante, pois te obriga a fazer uma espécie de “dinâmica de grupo”, que ao contrário das entrevistas de emprego, te deixa bem mais à vontade e te possibilita conhecer muita gente, para, ao final do jogo, já possuir assunto para iniciar uma conversa.

Outra opção interessante é aplicar a música e a dança. Nesse ponto, nossa cultura brasileira é até mais elaborada! Se você pode apreciar uma música ou aproveitar uma oportunidade de dança, então você vai se divertir numa festa, independentemente de ter muito conversado ou não.

Nas festas em  que não se encontra boa música, boa dança ou uma boa brincadeira, ou ao menos uma boa comida ou mesmo uma boa conversa, é comum ter uma outra coisa para ocupar esse espaço. E a essa coisa a gente chama de droga por um bom motivo. E como diria a minha amiga brasileira “drogas são para doentes”.

A minha paciência com gente que escolhe esse tipo de divertimento é a mesma paciência que eu tenho com gente que faz pregação no facebook.

Penso que a França lutou tanto pela liberdade de pensar e de agir para ver seus filhos perderem o brilho nos olhos por falta do que fazer…  Imagina o desgosto de Voltaire…

E por falar em desgosto, recebi do Brasil mais uma notícia triste. 232 mortos numa festa universitária em uma boîte de Santa Maria. Uma ideia infeliz de brincar com fogo em lugar fechado.

“Boîte” é uma palavra francesa que significa caixa. E é fechada por excelência. Se você está entre milhares de pessoas, numa caixa, e o teto começa a pegar fogo, você terá pouca chance… E “chance”, em francês, significa sorte.

Eu me coloco no lugar dessas famílias e dessa cidade que foi mutilada de uma hora pra outra. É tão fácil estragar tudo… E se essa banda nunca tivesse usado o sinalizador? E se o extintor de incêndio tivesse funcionado? E se mais portas estivessem abertas?

Nessa especulação de “e se”, eu me pergunto se a gente não poderia ter se encontrado numa festa com dinâmica de grupo. Num futuro do pretérito, entre uma risada e outra, a gente poderia ter ficado amigo.