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O casamento da Fê

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Sexta-feira da semana passada foi o casamento da Fernanda, minha grande amiga bahiana, vizinha de cidade aqui na França.

Eu acho que, onde quer que a gente esteja, é necessário ter um amigo com um pouquinho mais de sangue correndo nas veias, e aqui em Avignon, tive a sorte de encontrar alguns bons brasileiros para me fazerem companhia nessa ideia meio complicada de mudar de país.

Sexta-feira ela resolveu casar. Fernanda é bahiana, da minha idade, da cor do pecado (ela deve estar cansada de ouvir isso), com sotaque manso e uma mão boa pra cozinha. Ela é formada em psicologia, com residência em hospital, especialista em materno-infantil e fala português, inglês, italiano e agora francês. Mesmo assim, ela passa a maior dificuldade, junto comigo, para arrumar emprego, conseguir o respeito das pessoas… essas coisas básicas, que a França mesmo enumerou na declaração dos direitos dos homens (e das mulheres, por favor).

Fernanda não resolveu se casar sozinha. Há algum tempo ela está acompanhada de seu alemão, que vamos chamar de Bernardo, pois o nome original dele é muito complicado. Bernardo tem cara de alemão, jeito de alemão, voz de alemão e tem duas grandes paixões na vida: Fernanda e construção de casas. Foi ele que arrumou o arame farpado da nossa casa (depois reajustado pelo meu avô) para ver se a gente parava de ser assaltado. Foi ele que ajudou e refez a instalação elétrica daqui também e, mais recentemente, se envolveu na dura tarefa de interromper um vazamento de água na nossa garagem. Sempre que ele vê alguma falha no sistema hidráulico, ele esbraveja em alemão. Tem mania de achar que o melhor de tudo ficou na Alemanha,  mas veio morar na França, e se casou com uma brasileira! Viva a diversidade!

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O casamento deles foi simples. Bem de celebridade. Uma cerimônia fechada apenas para os amigos mais próximos. A troca de alianças foi feita de manhã, diante do prefeito da cidade de Saint Andiol, que é uma simpatia.  Ele brincou que seria obrigado a abraçar a noiva e também se ofereceu para tirar fotos de todo mundo. Depois das formalidades, fomos fazer um brinde na casa deles e comer num restaurante próximo.

Alguns dos convidados, eram bahianos também.  Conversa vai, conversa vem, descubro que um dos bahianos conhecia um mineiro, publicitário, amigão meu! Que mundo pequeno!!!

Entre os convidados, também estavam a Vanessa, nossa amiga carioca,  responsável pelo brigadeiro do lanche. Que brigadeiro… Vanessa estava com a roupa toda feita com assessoria de moda e, obviamente, linda!  Também estavam o casal de cantores Nadia (argentina) e Rodolfo (holandês, crescido na Espanha), o nosso amigo romeno Mihail, o apicultor bigodudo Bob e mais alguns outros simpáticos!

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Mas a coisa mais fofa que existia na festa era o pequeno menino. Como ele chamava mesmo? Esqueci…  Ele era o filho de um outro casal também multi-cultural (brasileira com alemão), tinha uns cinco anos e era um amor.

Esse menino era um charme por si só, mas teve uma frase dele que me marcou! Durante o almoço, enquanto falávamos de comida, de casamento, de relacionamentos, de pessoas e de comida de novo, ele estava calado. Perguntaram para ele  em que ele estava pensando e ele respondeu “eu estou desfrutando da vida”!

Olha que espontaneidade!

Se durante o seu casamento você consegue fazer uma criança de cinco anos dizer que está desfrutando da vida, minha filha, você vai ser feliz pra sempre!!!

Casamento Fernanda com Vanessa e Fe

Ps. Hoje é dia das crianças no Brasil. Feliz dia das crianças para você que continua desfrutando da vida, genuinamente, mesmo depois de crescido!

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O casamento grego

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No início do ano fomos convidados para o casamento de uma amiga na Grécia que se daria no final de Agosto.

Antes disso, tivemos a visita das duas famílias na nossa casa. A minha, vinda de mais longe, veio para tudo mudar! Dizem que família de italiano é assim, arruma a casa inteira, pinta as paredes, costura as roupas rasgadas e, quando saem, deixam um rastro de saudade. Foi duro despedir. A nossa geladeira ficou repleta de amor, mas o vazio passou para dentro do coração.

Que consolo? Vamos para a Grécia!

Ah, a Grécia. Sinceramente, nunca tinha dedicado muito tempo mental para refletir sobre a Grécia atual não. Ela se resumia aos trabalhos de Hércules, ao Deus da Comunicação (Hermes), à Deusa da Justiça (Themis) e àquelas esculturas peladas, todas em forma, para dar inveja aos pobres mortais cheios de celulite. Não, a Grécia atual não estava nos meus planos. Ela estava em crise. Dizem que sofria com a corrupção. Me parecia um cenário já conhecido.

E foi aí minha surpresa.

A Grécia é sim um cenário conhecido, mas é também exuberante, surpreendente, um dos lugares mais lindos que já conheci!

Do lado conhecido, a Grécia tem gente como a gente! Gente que sorri, que dá bom dia com gosto, gente acolhedora, que cozinha com um tanto de gordura, que morre de calor, que arrasta o chinelo na cozinha e que trata o cliente como o rei do mundo.

Do lado exuberante, a Grécia é a definição que eu tinha de paraíso. Tudo é bonito! Para cima, para baixo, para todos os lado. Tudo é fotogênico. Lá vi a maior concentração de pessoas bonitas da minha vida (fisicamente falando). Os gregos são monumentais em todos os sentidos! Vi o sol se pondo como poesia. As águas mais generosas do mar estão lá, transparentes, chamando para um mergulho! E o suco de laranja… O sabor da felicidade!

Tive a ventura de contar com a companhia da minha tia para o casamento grego! Eu nunca consegui terminar de assistir o filme homônimo porque tenho um problema de televisãolepsia (não sei se existe essa palavra, provavelmente não porque o word está fazendo aquele riscadinho vermelho, que aliás, ele também fez para a palavra “word”).

Kleio foi a noiva. Kleio é uma pessoa muito animada! Um pouco como as minhas amigas brasileiras! Ela nos deu a maior atenção no dia em que chegamos na Ilha de Évia, onde seria a cerimônia e nos apresentou ainda duas outras francesas de Avignon que para lá foram também pra ver o tão falado casamento grego.

Kleio nos contou que haveria uma cerimônia religiosa ortodoxa (religião predominante na Grécia, e ortodoxo o word reconhece, né?!) e depois uma festa para 557 convidados. Na hora que ela falou isso, Alexis e eu caímos para trás! QUINHENTOS E CINQUENTA E SETE PESSOAS! Calma, dizem que casamento grego é com todo mundo mesmo. A ilha inteira estaria presente! E mais um pouco. E a gente, de novo, pensou, como é possível com a crise? É possível!

Fomos pra tal cerimônia religiosa. Mas não entramos. A cerimônia foi numa capela, no alto de uma montanha, com vista para o mar. Na capela cabiam umas 20 pessoas. Imagino que umas 50 se amontoaram lá. Do lado de fora, ficaram umas 300 (porque muita gente pula a parte religiosa, né?!). Dessas 300, duzentas e noventa estavam fofocando, falando sobre as roupas dos outros (dá de tudo!), falando sobre a crise, sobre a Europa, sobre a Syria, sobre os EUA, sobre comida, sobre bebida e sobre outras coisas que não eram o casamento. As 10 restantes, estavam blasfemando o fato de ninguém estar prestando atenção nos dizeres do padre, que eram cantados num grego antigo que nem a noiva entendia. Mas diz a noiva que o padre nem pergunta se eles se aceitam mutuamente para amar e respeitar, na saúde e na doença… Segundo ela, se você está lá pra casar, é porque já aceitou o fardo. É.

Então ela saiu da igreja, molhada de suor, ainda fazia dia, embora já fossem 8h da noite. Tocaram o sino, todo mundo carregou todo mundo, todo mundo brindou, tirou foto, pulou, assistiu o pôr-do-sol no mar e se foi pra festa.

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Estávamos famintos quando chegamos na festa que era no mesmo hotel em que ficamos (por 20 euros a diária, com piscina, quarto enorme, tudo limpo, mas recepcionista que só fala grego, embora simpática). Na mesa em que ficamos, encontramos um pão para cada prato. Pegamos um pedacinho do pão pra matar a fome. Não deu certo. Tiramos mais um pedacinho. Ai, que fome. Mais um pedacinho. E os salgadinhos que não chegam? Eu e minha tia começamos a fantasiar que ia aparecer uma coxinha com catupiry, uma empadinha de camarão, um bolinho de queijo… E lá se foi o pão inteiro. E não era pequeno. Mas fome, né?! A gente tem que respeitar.

No que terminamos de comer o pão, começamos a pensar em pegar o pão que estava sobre os outros pratos da mesa, já que não tinham outras pessoas para se sentarem lá. Até que chegaram outras pessoas. Primeiro duas donzelas gregas. Com vestidos tomara-que-caia, elas estavam morrendo de frio (de noite estava mais ou menos uns 19 graus). Depois chegou um moço e ficou conversando com ela. Ainda faltavam dois pratos, com dois pães, quando chegaram eles. Eles! Não os noivos, os noivos ficaram duas horas tirando fotos antes de aparecerem na festa (que agonia que eu tenho disso), mas chegaram Helení e Dimitri! Dois gregos também!

Pronto, perdemos a oportunidade de pegar mais pão… Como que a gente vai conversar com esse povo? A gente fala grego? Eles falam francês? Não. Português? Não. Inglês? “Yes! I can speak English!”, disse Helení com um tom sério. Não me lembro muito bem como começamos a conversa. Talvez eu tenha insinuado para ela que queria mais pão, mas sei que, no fim das contas, ela estava fazendo a gente dar gargalhadas de tudo que ela falava!

Helení era advogada na Grécia! Que espelho! Falava do lado bom e ruim da profissão, mas falava com leveza! No fundo, acho que ela nasceu pro teatro (como todo grego). Dimitri, seu noivo (eles se casariam em cinco dias), era escultor! Você já conheceu um escultor na sua vida? Tenho certeza que conheci a definição de escultor naquele dia. Era um homem grande, de cabelos volumosos, barba, sorriso largo, forte e muito bem humorado! Dizia não falar muito inglês, mas que compreendia tudo. Uma simpatia! Helení era magrinha, mas ocupava todos os espaços. Falava que iria nos ensinar a dançar, explicava a letra das músicas, contava o que sabia sobre o Brasil, sobre a Grécia, sobre suas idéias. Gente, que vontade de ser amiga dela! Toda vez que ela falava alguma coisa que nos fazia rir, Dimitri a pegava pela cintura e lhe tascava um beijo na bochecha, como quem diz “Que orgulho de estar ao seu lado!”. Fofo! No casamento dos outros, eles mostravam sua própria história de amor, sem indelicadezas!

Finalmente os noivos chegaram! E a música começou. Seria uma hora de danças típicas. Quando começou, era apenas Kleio e sua mãe, numa ciranda doce! Helení nos traduziu a música que apresentava o eu-lírico de uma mãe que se despede da filha que vai se casar. A mãe diz que sentirá saudades e que é para o marido a fazer feliz e orgulhosa dele. Feliz e orgulhosa dele. Que lindo!

Depois uma roda. Não sei bem em que hora aconteceu a valsa de marido com esposa, pai com filha, filha com avô, essas coisas, mas teve uma roda. Dessa eu me lembro! De repente, 557 convidados se levantam e vão pra roda de braços dados. É de arrepiar.

Lembra que a gente só tinha comido pão? Pois bem, nessa hora a comida começou a chegar. Chegou um prato de batatas e a gente traçou ele todo. Um prato de macarrão (esse estava meio super cozido, mas a gente comeu). Aí começou a chegar salada, empanadas de queijo, uma carne amarrada no papel laminado e eu já estava satisfeita. Pra que fui comer o pão inteiro???? Não parava de chegar comida depois.

Helení pegou nossa mão e nos levou pro meio da roda. Um passo pra frente, outro pra trás na diagonal, dá uma balançada e passa o outro pé… Parecia fácil, mas a minha coordenação motora não estava muito refinada. A do Alexis, então, era completamente oposta ao que eles faziam. Minha tia dançava, e ria, e filmava, e ria, e dançava, e comia alguma coisa… até que…

Até que começou a chegar uma bebida grega que chama Tsipuro (é assim que escreve? Aposto que não, word não está reconhecendo). Muito bem! Essa bebida é tomada em shots, pois é forte como a Vodka!

Tinha um garçom pra se ocupar de cada mesa. E a gente começou a ser servido daquilo. E tudo que a gente falava que era bom, a gente bebia um shot para comemorar. A noiva foi cumprimentar a mesa e todo mundo com seu shot! A música estava boa? Viva! Mais um shot! Antes de dançar, um shot, depois de dançar, outro shot!

A  música grega é tão linda! Tem tanta influência oriental… fica com uma sonoridade diferente, vibrante! Foge do tom-tom-semitom-tom-tom-tom-semitom!

Mas a música grega acabou… e aí o DJ começou aquele repertório básico internacional que toca em 100% das festas com mais de 200 pessoas (YMCA, La Bamba,  tudo do Bee Gees, Twist and Shout, Raining Men etc). E lá fomos com as duas francesas, a minha tia e Helení dançar!

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A noiva tirou meu Alexis para uma dança. E ele foi todo engraçado! Fazendo caras e bocas que renderam boas fotos (embora com definição à desejar).

Tocaram também algumas músicas brasileiras! Tchecheretchetche-tche-tche! Nessa hora,  já deviam ser umas duas da manhã, o garçom veio até a nossa mesa, com umas duas ou três novas garrafas de Tsipuro, puxou uma cadeira, sentou, serviu o meu copo, serviu um copo pra ele, brindou e bebeu!

Foi a deixa. Depois disso, ele trouxe tanta sobremesa pra gente, que até hoje eu fico me perguntando por quê  não comi mais (pensamento de gorda). E toda hora ele vinha tomar um shot com a gente. Eu já estava ficando preocupada.

Helení dançava. Kleio dançava. O noivo foi jogado na piscina e seguido por todos os seus amigos. Dimitri bebia e ria pra Alexis que bebia e ria pro garçom, que bebia, servia nossos copos e trazia sobremesa. E eu e minha tia na sobremesa. As duas francesas riam, comiam sobremesa e bebiam a tal da água que passarinho não pode de jeito nenhum!

Quatro horas da manhã decidimos ir pro quarto pegar as havaianas, essa coisa de classe que toda mulher faz em fim de festa, né?! Ficar de chinelo. Mas minha tia teve uma ideia melhor! Ela trocou a roupa inteira, por outra roupa ainda mais bonita! Só uma diva para fazer isso. Minha tia perdeu alguns quilos nos últimos anos e se tornou uma das mulheres mais vistosas que conheço! Ela com o vestido azul marinho estava ganhando de Kate Middleton na elegância. Sério!

Então voltamos pra festa. Eu de havaianas e minha tia de vestido azul (antes era pêssego).  Passamos pelo noivo de camiseta e bermuda e sentamos na mesa. Conversamos um pouco com o garçom. Ouvimos a música. Dançamos um pouquinho e depois de 30 minutos minha tia decidiu que queria dormir! Haha! Nos abraçamos e ela se foi.

Mais trinta minutos. Dançamos um pouco mais.  Um pouquinho mais de Tsipuro. Muita água para compensar. Muito doce para não ter gastrite e dali música, dali dança. As francesas foram dormir.

Eu, Alexis, Dimitri e Helení resistimos. Os dois últimos, mais que a gente. Eles ainda estavam dançando, se abraçando. Eu e Alexis, sentados na mesa, meio zumbis, de chinelo…

Decidimos despedir. Antes ele colocou uma garrafa de Tsipuro separada. O que é isso que você está fazendo? “Vou levar de lembrança”, ele disse. Avisou pro Garçom! Avisou pra Kleio! Despedimos dela! E depois despedimos do outro casal. Tão simpáticos… será que nos veremos novamente?

Duas horas depois de ter apagado no quarto, abri os olhos e ainda se ouvia a música. Muita música! Muitas risadas… Bateu um arrependimento de ter ido embora. Mas que forças eu teria para ficar até depois de 6h da manhã?

No dia seguinte, refleti sobre essa festa. Estranho, não estava com dor de cabeça. Foi uma festa legal! Muito animada, principalmente, com pessoas interessadas em participar de uma festa animada (porque não basta um bom DJ se ninguém quiser dançar, ou rir, ou conversar). Mas concluí uma coisa, o casamento tradicional brasileiro tem mais ou menos o mesmo tanto de gente do casamento tradicional grego, só que a gente não conta e não dançamos de braços unidos. Deveríamos começar!

Eu deixo o meu conselho: Se um dia você tiver a oportunidade de presenciar um casamento grego, não perca. É incrível!

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Ps. As fotos com data foram tiradas pela amiga francesa Colette Guerido!