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Impressões de uma vegetariana não-praticante

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Ontem meu braço coçava durante um jantar  na casa do orientador do meu namorado. Para todos que me cercavam o diagnóstico era certo: Picada de aranha. Algo terrível, nojento, longe da minha cultura. Engoli a seco a ideia de ter sido atacada por um animal que eu só aprecio de longe (embora aqui em Avignon todo dia atravesse uma teia de aranha).

Com o mesmo nó na garganta, engoli a seco, na semana passada, a ideia de ter comido, sem querer, um lindo coelhinho no meio de uma paeja espanhola. Me perdoe, peludinho, por ter confundido você com um frango (carne que também não gosto de comer). Prometo prestar mais atenção da próxima vez.

Eu deveria me tornar vegetariana! Tenho todas as razões para isso. Além de achar os animais muito mais interessantes vivos, não gosto muito da forma como a carne é cozinhada pelos franceses (que o google translator jamáis traduza isso para um Comar!). As carnes aqui são cruas quase como os peixes japoneses. Muitas vezes, são preparadas com pouquíssimo sal e excessiva pimenta. Sabe aquelas pessoas fashionistas que de tanto falar de moda começam a se vestir de forma bizarra? Acho que isso aconteceu com a culinária francesa… (na minha quase isolada opinião!).

Outra coisa que agrada os franceses e me assusta bastante é apresentar o animal inteiro para ser servido. Como um leitão com a maçã na boca. Isso é medieval demais… Mas Lisa Simpson e Paul McCartney já me explicaram sobre o assunto no meu episódio preferido  sobre a libertação do porquinho!

Ontem no jantar , após ser atacada pela aranha, comemos pato. Apesar de eu recordar com muito amor meus dois patos de estimação (Doug e Simpático, in memorian), repeti o prato, que estava realmente gostoso. Mas advirto: Fosse o prato vegetariano, sentiria menos culpa.

Após o jantar, quatro horas de conversa se seguiram. Eu, com meus superpoderes, entendia 30% da conversa, pouco para interagir. Nessa toada, ria quando todos riam, fazia cara de preocupada quando todos preocupavam. Concentrava quando alguém falava e tomava um golinho do vinho quando uma conclusão era exposta. Durante quatro horas, cheguei a contar quantos pontos haviam na toalha da mesa, estampada de petit poás. Fiquei impressionada como os franceses são bons de prosa. Contei dez assuntos debatidos. E para uma discussão francesa isso significa que o assunto foi proposto e as pessoas apresentaram seu ponto de vista até esgotarem completamente a questão. Os assuntos foram a ira mulçumana em paralelo com o respeito à liberdade de expressão, as mudanças na gramática francesa, as complexidades na pesquisa científica, as diferenças na forma de falar de algumas línguas, as interessantes interpretações dos elogios, as carnes comidas na Austrália, a invenção da maionese, a corrupção na França, o francês antigo encontrado na história da Cinderella (em que ela na verdade usava um sapato de couro e não de vidro) e outro assunto que eu não entendi. Dez assuntos! Tudo impressionantemente debatido com ética, conhecimento e graça, tirando a parte da maionese e talvez a parte que eu não tenha entendido! Quatro horas. Quatro horas e meia contando com o tempo que usamos para comer! E eu sentada com minha picada de aranha sem falar uma palavra. Bendita seja essa língua!

Cutuquei meu namorado quando deu meia noite, achando que ele entenderia que era hora de ir embora. Ele se aproximou do meu rosto na frente de todo mundo e perguntou “o que foi?”. Nada, não foi nada. Uma hora da manhã, por fim, eu estava congelando na porta de casa tentando acariciar o gatinho da rua. Ontem foi o dia dos animais! Depois de 5 minutos de espera, finalmente o felino me deu a chance. Eu também desconfiaria se fosse um gato. Ando comendo coelho, pato… é natural que ele tenha receio.

Hoje minha agenda francesa me disse para ficar em casa durante o dia, sair durante a noite. A desculpa era estudar o urbanismo de Haussmann para uma apresentação na universidade semana que vem. Por que eu tenho que escolher os temas difíceis para falar em francês quando eu poderia contar a receita de um bolo de cenoura? Eu insisto em achar que tenho superpoderes num universo que insiste em me apresentar o contrário.

Maybe I’m amazed.

Abaixo, deixo foto do citado orientador quando o conheci no meu primeiro dia de Avignon. É uma pessoa agradável.

Ps. Não tente imitar a imagem com seu orientador, ou qualquer outra pessoa. É perigoso de verdade!

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