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O Baile dos não apaixonados!

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Uma das melhores coisas que já encontrei em Avignon foi o Baile dos Não Apaixonados!

Todas as segundas-feiras há uma oficina de dança diferente com danças medievais ou tradicionais de uma parte da europa e do mundo. Sabe aquelas danças de Orgulho e Preconceito, Shrek e outros? Pois é! Nas primeiras sexta-feiras de cada mês, a mesma associação promove um baile em algum lugar fofo ou de Avignon ou de cidades próximas. Adoro que o nome desse baile seja dos Não Apaixonados! Chega de fazer tudo pra paquera, meu povo!

Já fiz aula de dança irlandesa, italiana, espanhola e atualmente estou fazendo dança occitane! O ambiente é uma delícia, com pessoas de todas as idades e profissões. Fora que é muito engraçado, porque como ninguém é profissional na dança, cada um faz do que jeito que pode, não necessariamente do jeito certo.

Há um capítulo de Friends que eu amo, em que a Monica tenta fazer aula de sapateado e não consegue dançar como a professora. Desculpe o spoiler, mas o final deste episódio, para mim, é uma das melhores lições de vida. Ela desiste de dançar com perfeição e começa a dançar como pode. A professora avisa “ei, você está fazendo tudo errado” e ela “pelo menos eu estou dançando”!

Leva isso pra sua vida!

dansepasamour

Se quiser ver meu post sobre o assunto em francês (meu francês é como minha dança, sai o que é possível sair!), estou fazendo um blog sobre descobertas em Avignon, o Découvrons Avignon!

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Esperei 25 anos para comprar um par de sapatos

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Eu não ando descalça. Tenho sapatos. Acho que tenho mais do que precisaria, mas tenho menos do que muita gente me indicaria. Porém, não vim aqui para culpar ninguém pelo meu consumo ou pela ausência dele. Venho para contar uma história da minha infância.

Bailarinas

Quando eu tinha cerca de sete anos, completava já meu quarto ano de ballet clássico (o que não significa que eu seja uma boa bailarina, mas significa que eu ande com os pés à la Charles Chaplin até hoje) e me considerava uma pessoa do meio (da dança!). Certo dia, na minha escola de ballet, uma das professores, apareceu com uma sapatilha preta (enquanto todas nós usávamos rosa). Achei incrível aquilo. Não era apenas uma sapatilha, era uma sapatilha disfarçada de sapato. Era um sapato que podia te fazer dançar. Lindo! Lindo! Lindo! Pelo menos para mim.

 

Eu passava a aula olhando pros sapatos da professora. E claro que fui pedir o mesmo para minha mãe que, na época, fez duas ponderações: a primeira era de que eu não precisava de uma sapatilha nova (verdade!); a segunda e não menos coerente era de que aquele calçado só deveria existir para adultos e por isso eu precisaria crescer antes de comprar daquele tipo (achei sensato e esperei crescer).

O tempo foi passando e esfriei o assunto dentro de mim. Uma vez ou outra, quando me ocorria de estar no universo de artigos de dança, eu dava uma olhada para ver se o tal sapato existia. O sapato preto e flexível não era fácil de achar e eu não queria pedir pra encomendar ou levar algo parecido. Imagina, não preciso de mais um sapato. Nem de sapatilha.

Então vim morar na França. E sei que você já calculou a minha idade entre o título do texto e as informações do segundo parágrafo. Estando para lá dos trinta, o assunto do sapato estava bem adormecido, quando fui numa loja de artigos esportivos para comprar uma barraca para acampamento. Sem querer, passei pelo corredor de artigos de bailarina e lá estava ele: preto, flexível, disfarçado de sapato normal! Parei um pouco para experimentar! Fantasiei minha vida com esse sapato e ao ouvir me chamarem, deixei-o na prateleira e voltei pro assunto da barraca.

Passei algumas semanas pensando no assunto. Claro, entre outros milhões de assuntos que atravessam a minha mente, um deles, era esse, o sapato. O sapato igual da professora, que veio a falecer pouco tempo depois de deixei o ballet. O sapato que denunciava que ela era bailarina quando estava vestida de gente normal! O sapato que parecia abraçar o pé e te tirar para dançar. Que exagero, não preciso de sapato. Que mania de pensar o consumo como se fosse trazer felicidade.

Parei o pensamento. Mas, peraí? O que é o consumismo? Isso é consumismo? Há quantos anos eu penso nesse sapato? Alguma vez eu já comprei esse sapato por impulso? E a relação dele com o meu passado de bailarina? E as boas lembranças? E a utilidade evidente que um sapato preto pode ter? Quantos sapatos tenho atualmente? Estarei exagerando? É verdade que minha sandália preta foi furtada outro dia enquanto eu nadava num rio…

Dentro do meu raciocínio, aquilo não era nenhum motivo de vergonha. Talvez outras compras, outros sapatos, tenham sido adquiridos sem tanta história, sem tanta modéstia. Mas este não. Esperei 25 anos para comprá-lo. E hoje fui até a loja, procurei o meu número (de fato não havia a numeração infantil). Experimentei, passei no caixa e comprei.

Finalmente, ao sair da loja, tive aquela sensação que acho que é a esperada por muita gente que consome: de se sentir bem! Mas, para mim, essa sensação aconteceu com uma intensidade diferente, como quem espera muito tempo para ver algo. E o tempo de espera pode sim aumentar o prazer da compra. Garanto! Como quem mata a sede depois de um dia quente, ou quem cai exausto na cama depois de uma jornada produtiva. Meus pais me ensinaram que descansar sem estar cansado não faz bem. Comprar sem estar precisando também não. Mas comprar, quando se esperou 25 anos para ter o que se pode ter, não só faz bem, como pode ter o brilho de uma alegria de criança!