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Uma experiência com a experimentação

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Na casa da minha avó paterna tem uns disquinhos de vinil com histórias para crianças. Eu costumava ouvir várias vezes aquelas histórias, com especial preferência por duas: O flautista mágico e A roupa nova do Rei.

Esta última, uma ironia sobre um rei que encomenda a mais bonita roupa de um costureiro. Este, sem tempo e criatividade para terminar o trabalho, não o faz e diz ao rei que havia costurado uma roupa que apenas pessoas inteligentes enxergariam. O rei, temendo parecer ignorante, diz que a roupa é linda e veste-se de nada para desfilar pela cidade.

Não tenho mais disquinhos da minha avó para escutar. E na falta de avó aqui (as duas queridas!), de primos e de pão-de-queijo em família, a gente na França tem que arrumar outros programas para fazer.

Um deles é ir a cinemas, teatros, shows e danças. Como nossa vida cultural ficou ativa… Ontem foi dia para ver dança.

Um pouco desconfiada da descrição, fui ao teatro com Alexis e dois amigos. Chegando lá, uma fila enorme anunciava que seria um grande espetáculo.

Apertada nas cadeiras da platéia, ouvi quando o diretor pediu que todos desligassem o celular não apenas pelo som, mas porque a luz poderia tirar a concentração dos bailarinos. Desliguei tudo.

Apagaram-se as luzes. E continuaram apagadas. E lá na frente, depois de uns 10 minutos, eu vi um vulto que era quase nada… Vi que o vulto andava. Depois sumia. Depois andava de novo. E sumia.

Depois vi cinco vultos. Não tinha música, mas um som roco de uma nota só.

Os cinco vultos andaram até o centro formando um vulto maior. Me perguntei onde estaria a dança…

Ouvi barulho de coisa caindo no chão. Depois os vultos se esfregando no chão.

As luzes acenderam. Vimos cinco homens pelados se esfregando entre bananas, tomates e uvas. Esse foi o fim.

Algumas palmas começaram tímidas lá do fundo. Alguém gritou “vocês me fizeram perder tempo”. Bati palma sem som, só de dó. Mas com dó de mim também. E de gente que tenta fazer da arte algo mais honesto  para o público e perde credibilidade por conta desse tipo de esfoliação intelectual…

O que é Arte? O que é Dança? O que é Experimentação? O que é Estética? Ai, se eu te pego, Duchamp!

Na saída do teatro, uma conhecida disse que precisávamos ter referência para entender aquilo. Mas isso não seria para entender tudo e também o nada?

Contei o caso para meu pai e ele se lembrou exatamente da metáfora da Roupa Nova do Rei. Essas são nossas referências. Lembrei-me de outra: A do circo de pulgas.

Uma coisa boa vi nessa história: Ali estava uma possível solução para o desemprego.  Te explico agora: Escolha um nome latim, qualquer um menos Carpe Diem que é muito manjado, invente um conceito doidão tipo “retornando às origens”, “a inocência da dança”, “a solidão do ser humano”  e faça pessoas caminharem no palco com luz quase completamente apagada. Pronto, você já pode ganhar dinheiro com isso.

Devemos sim exercer a nossa democracia com relação às artes, e claro que nenhuma vai agradar 100% das pessoas. Mas penso que anunciar uma dança que não é dança, cobrar caro e não dar direito nem de levantar para sair do espetáculo, isso é um jogada maldosa de marketing.

Eu me senti o rei pelado na rua. Fiquei com tanta saudade dos grandes grupos brasileiros: do Grupo Corpo, da Deborah Colker, da Companhia Será Quê,  saudade também das pessoas que jogam capoeira na Savassi,  das minhas amigas que dançam coreografias até nos banheiros do Cine Glória do Rio e da minha priminha que dança na sala da vovó. Tudo muito mais bonito, muito mais artístico… Para mim. Que saudade dessas referências!