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O efeito placebo

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Quando eu era pequena, carregava uma conclusão que definiria a minha forma de comer até os dias atuais. Eu dizia “é mais importante a consistência da comida que o gosto dela em si”. E eu ainda levo a consistência à sério. Mousse com gelatina estraga a mousse. Carne mal ou bem passada demais, fica incomível. Cebola picadinha vale. Cebola com cara de Cebola, só nos quadrinhos!

Enfim, essa era minha técnica para definir se comia ou não comia.

Mas como aqui na França esse tema é muito mais cíclico que qualquer outra coisa, eu tive que repensar os meus critérios e estou ainda nessa fase, que acho que vai durar muito tempo, talvez um oito deitado.

Percebi uma coisa: além de valorizar a consistência, eu dou grande valor para a intenção do cozinheiro!  Quando vejo que a comida foi feita com carinho, mesmo que ela não esteja gostosa no sentido gustativo da palavra, é um prazer comer algo que foi feito com a melhor das intenções para te agradar!

Me lembro sempre de uma passagem num livro de Logosofia em que os estudantes questionam uma torta oferecida com má aparência. Então, o professor responde “a torta está saborosa e foi feita com afeto. Eu estou comendo afeto”.  Acho isso lindo! Apreciar as gentilezas, as pequenas demonstrações de afeto.

No entanto, não só de bem intencionados são feitos os almoços e jantares. Aqui na França,  algumas pessoas, cientes das minhas reticências carnívoras, já tentaram me testar. É verdade que guardo algumas lembranças que preferia ter apagado da mente. Não vale muito a pena ser visita quando a obrigação de agradar é só sua.

Isso é passado, eu espero. Nesta nova fase, estou vivendo experiências gastronômicas inéditas. Ontem mesmo, me ocorreu algo.

Cheguei em casa depois da aula e olhei o forno. Vi que Alexis tinha levado seja-lá-o-que-for da comida que ele fez para o trabalho. Pensei, poxa, ela podia ter deixado um pouquinho pra mim… Olhei a geladeira e encontrei um prato tampado com plástico. Que fofura! Ele deixou um pouquinho pra mim.

Peguei o prato e analisei. Era um legume que não sei explicar, o prato parecia ser feito por tentáculos de um polvo, mas era um legume.  Em volta, muito azeite. Pensei “nossa, que prato bem feito! Que coisa chique”. Esquentei no microondas e comecei a comer. Achei sem sal. Coloquei sal. Achei sem tempero. Coloquei alho. Achei a consistência estranha. Lembrei do carinho do Alexis. E comi tudo.

Mandei uma mensagem para o celular dele: “Adorei o almoço, coração!”. Ele não respondeu… que vida apertada a do rapaz…

De noite, ele chegou em casa e foi direto olhar na geladeira. Quando abriu, disse “oh, não…”. E continuou “você comeu o prato que estava aqui?” e eu sorri e disse “sim, obrigada, adorei!”. E ele “aquilo não era para comer, não estava pronto ainda…”. Aparentemente, era um legume estranho que ele joga muito óleo para “salvar” e tem que deixar esperando por uns dois dias para depois tirar o óleo e cozinhar a coisa…

Eu, sem saber desse processo… comi o legume preto derretido de gordura, fazendo um esforço danado para achar bom… Vivendo o placebo de gostar de uma coisa feita com amor.

Logo que ele me falou, me senti um pouco mal.

Ao contar esse caso hoje para meus colegas, na mesa do restaurante, todos pararam de almoçar.

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