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Seis copos de vidro e um Atlas defasado

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No domingo de manhã estivemos num mercadinho improvisado. Ele tem um nome específico aqui em Avignon, mas como não anotei em lugar algum, esqueci. Essa mania de anotar tudo… me faz esquecer tudo que não é anotado.

Pensamos o mercado como um grande shopping a céu aberto com mesas, cadeiras e armários expostos à venda. Queríamos mobiliar a casa um pouco mais. Estávamos redondamente enganados (que saudade de falar assim!).

O pequeno mercado, nos fundos do grande “Parking des Italiens” era um apanhado de pessoas vendendo seus objetos antigos. Alexis achava tudo feio, kitsch, desinteressante… Eu não sabia direito o que achar. Algumas coisas me atraíam muito, outras não. Recomendo para colecionadores de Barbies.

Entre livros, bonecas, carrinhos, prataria e telefones velhos, alguns cachorros passeavam. Era domingo de sol e vários deles estavam livres para correr no estacionamento extenso.

Um deles, bem pequenino, marchou até uma senhora de burca que acabara de comprar alguns talheres e pratos. Sem saber como espantá-lo, a senhora se contraía, tentava andar pra trás, pra frente, mas tinha que equilibrar as compras ao mesmo tempo. O jovem garotinho, dono do cachorro, parecia não entender que ela pedia para o cachorro se afastar. Até que chegou o pai, que também vendia algumas coisas no mercado, e afastou o minúsculo cãozinho dizendo “Ora, você já devorou duas madames hoje, não vai querer engolir a terceira agora!”. Rimos!

No humilde comércio daquele pai, alguns livros eram oferecidos. Lá encontrei um enorme Atlas, com uma bela encadernação. Eu pagaria bem por aquela peça. Tinha 50 euros no bolso e poderia investir. Perguntei o preço.  Três euros. Inacreditavelmente barato. Comprei na hora e fiquei feliz! Dizem que as compras fazem bem para as mulheres. É uma frase mal elaborada esta. O que faz bem é sentir que fez algo bom, como uma boa compra.

Mais para adiante na feirinha, vi uma coleção de taças de vinho. Um papelão apoiado nos copos dizia: 6 unidades por 1 euro. Era difícil acreditar no quão barata aquela compra ficaria. Andei um pouco mais e voltei pro mesmo lugar com o Alexis.

Pedimos os copos. Este vendedor era um senhor careca, baixinho e gordinho… Ele pegou cada um dos copos com atenção e embrulhou numa folha de jornal que escurecia suas unhas. Depois, acomodou um a um dentro de um saco plástico com muito cuidado para não se quebrarem. Pensei se aquele trabalho delicado que ele fazia já não custaria mais que o preço dos copos.

Que coisa… Talvez os copos fossem importantes para ele… Talvez ele estivesse vendendo mais por necessidade que por desapego. Cogitei sobre a crise européia. Olhei alguns outros objetos e perguntei o preço. Isso poderia ajudá-lo. Ele disse que esses outros objetos eram da venda do lado. Deixei pra lá. Agradeci, paguei e fui embora.

Hoje, quando vi os copos aqui em casa, novamente, recordei o senhorzinho. Será que eu deveria ter deixado algum troco com ele? Será que ele se sentiria humilhado? Essa seria uma forma de ajudar?

Lembrei-me de uma frase que sempre me emociona muito: “Pessoas honestas são más comerciantes”. Me veio a mente uma imagem dupla: Meus dois avôs, vovô Zico e vovô Branco. Dois comerciantes. Dois bravos lutadores que dedicaram a vida ao trabalho honesto e pouco reconhecido pelo mundo. Mas sustentaram famílias! Lembrei da minha mãe que madruga todo dia e trabalha todo final de semana, mesmo quando a coluna pede trégua. Lembrei de muita gente honesta. Lembrei que meu pai nunca cobrava pelas aulas extra de matemática que ele dava e que meu namorado faz a mesma coisa.

Minha memória, sem nenhuma anotação, começou a funcionar sem parar. Lembrei das minhas avós costureiras. Do meu tio que ganhava dinheiro oferecendo o braço para os mosquitos picarem. Da minha tia Teresa que pintava flores na porcelana para vender. Dos meus queridos professores que nunca trocavam de sapatos. Lembrei de como é difícil ganhar a vida.

Então lembrei dos grupos opostos e da mania de exibição daqueles que são tão pobres que tudo que possuem é dinheiro (essa frase não é minha).

Eu não advogo para nenhum ismo. Penso que sim, bons empresários existem e são possíveis. E penso que eles merecem ficar muito ricos. Mas antes de serem empresários devem ser honestos. Porque esse é o tipo de gente que me toca o coração.

Lembrei que gosto de gente que trabalha com sorriso no rosto. Que dá bom dia pro motorista do ônibus e guarda um pastel pro chefe que não almoçou. Gosto de gente que embrulha coisas quebráveis, mesmo quando não é pago para tal. Eu vejo solução pro planeta quando isso acontece.

Não me importo se meu Atlas ainda apresente a União Soviética e a República do Zaire. Meu Atlas custou o preço que é certo para ele. E mostra um mundo talvez mais moderno que essa atual idade média que assistimos nos jornais. Meu Atlas foi uma boa compra. Assim como meus seis copos de vidro de um euro. Que são impecáveis. Eles estão à espera de uso, à espera de uma visita. Para a gente sentar nas nossas mesinhas de 15 euros, abrir um vinho de 4 euros e conversar sobre como seria bom, se no mundo, tudo fosse tão justo…

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