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O ponto B

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“A vida vai de um ponto A a um ponto B. Pois é. Eu tenho um problema com o ponto B”. Essa fala é do personagem principal de o Quebra-Cabeças Chinês (continuação da continuação de Albergue Espanhol, o Bonecas Russas) mas bem que poderia se aplicar a muita gente. Uma delas, eu.

Chegar a um ponto B não é assim tão simples. Pra começar eu sou perdida para andar. Certa vez fui dar uma voltinha no quarteirão enquanto esperava minha mãe descer do prédio em que trabalhava e pronto, fui parar numa cidade vizinha. Outra vez, fiquei três horas perdida de bicicleta na estrada, cruzando três cidades da França, porque tentei chegar do outro lado do bairro em que estava.

Meu senso de orientação é meio maluco, mas nem sempre isso é problemático.

Mas as vezes é.

Desde pequena eu dizia que queria ser veterinária. A escolha da profissão não me parecia um problema de jeito nenhuma. Seria veterinária e pronto. Perfeito! Aí descobri a profissão dos biólogos e me encantei também. Achei que eu poderia fazer muito como bióloga, então eu seria bióloga. Resolvido.

Um belo dia descobri que eu era melhor nas matérias de humanas da escola que nas matérias de biológicas… Ao invés de seguir a opção inteligente que era de estudar as matérias biológicas com mais ênfase, pensei que o certo era seguir aquilo que eu já tinha facilidade : Humanas.

Hum.

Poderia ser boa na escola para matérias humanas, mas isso não significa que eu seja um gênio no mundo profissional. O meu mundo profissional que seria de animais, florestas, reprodução de células, virou um mundo de palavras, de tela de computador, de reuniões de egos… OK.

Não que eu não tenha visto o lado bonito. Vi sim! Acho lindo explicar, mostrar, escrever. Mas acho horrível ter que concorrer com isso. Ter que fazer marketing do que eu estou fazendo, ter que ficar provando pra todo mundo que sou melhor que todo mundo. Nem sou. Mas talvez mesmo no outro mundo (o biológico) as coisas sejam assim. Sei lá. O fato é que meu ponto B começou a ficar confuso.

Fui muitas coisas. Gostei de todas! Tinha o alfabeto inteiro, menos o B.

Fiz Comunicação. Adorei. Mas meu ponto B não dava resultados como esperados. Fiz Direito. Amei ! Mas o ponto estava ocupando 100% das horas da minha vida. Não tinha tempo para dormir, para seguir outros projetos pessoais, para caminhar, para jantar sem pensar nos e-mails que teria que responder.

Fora isso, eu ainda me interessava por tantas outras coisas da vida. Notadamente a dança, as artes, a música, a patinação no gelo, a biologia, a veterinária e todo o resto do mundo.

Uma propaganda da Discovery dizia « I love the whole world and all its sights and sounds ». E é isso, gente! É normal gostar de muitas coisas, não ?! É normal querer descobrir, experimentar, errar e começar de novo. Errado é se propor fazer sempre a mesma coisa pra sempre. Não mostrar interesse por nada além do que o mundo pronto que nos foi oferecido.

Mas, poxa, quisera eu ser exemplo de tantas tantas descobertas. Não sou. Mas sou exemplo de algumas tentativas.

Quando conheço um bairro, cidade ou país novo, gosto de andar sozinha algumas (muitas) vezes. Gosto de entrar em ruas e me deixar perder. Foi assim que descobri uma lanchonete perdida e deliciosa em Vancouver quando desci do metrô na estação que nunca me sugeriram descer. Foi assim que descobri meu jardim secreto em Le Pontet, do lado de Avignon. Foi assim que hoje com duas ótimas companhias conhecemos uma Milão que não existia nos livros, nos sites de viagem, no imaginário do turista.

Mais tarde, com o guia na mão, soubemos voltar pra casa antes de virarmos refeição dos mosquitos.

Acho que na vida profissional a gente pode se permitir um pouco isso também. Alguns ensaios, mas com uma certa segurança.

É bom se deixar perder. Ô, é muito bom, sobretudo para descobrir o que há de mais inusitado. E ter também à mão um guia não é a negação dessa ideia. É talvez a sua optimização.

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Conclusões antecipadas

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Estava na fila do caixa quando a senhora que esperava atrás de mim comentou « mas se é pra passar só uma garrafa d’água, você pode passar na frente de todo mundo ». Ri e respondi que não precisava. Passados trinta segundos o rapaz da minha frente falou « por favor, pode passar, assim eu deixo todo mundo feliz ». Agradeci e passei. Ainda tinha uma moça antes de mim. Sem problemas. Mas a senhora lá de traz gritou « ei, moça, deixa essa daí passar na sua frente, ela só tem uma garrafa d’água pra pagar ». Falei que não precisava de novo. E a moça gentilmente me colocou na frente. Olhei pra trás e a senhora dava uma risadinha e um sinal de jóia!

Isso aconteceu hoje, aqui em Milão. Já é a segunda história fofa que tenho para contar de fila de caixa. A primeira foi há dois dias, quando um homem, depois de passar e pagar suas mercadorias, retornou, e disse ao homem do caixa que estava com 20 euros a mais de troco.

Quando furtaram a mala da minha prima depois do check in no aeroporto de Milão (depois a mala foi encontrada aberta na rua por uma mulher que achou o meu telefone lá dentro e me ligou) fiquei com a má impressão de que as pessoas daqui só queriam levar vantagem (salvo a mulher que achou a mala). Mas desde que cheguei (há apenas 4 dias) tenho tido a experiência contrária.

Internet gratuita, preços baixos, bom atendimento, tudo isso me faz repensar as estranhas conclusões que a gente tira baseadas em poucas experiências. Mas claro que tudo pode mudar. Ainda é  pouco tempo vivido aqui para saber dizer o que penso dos italianos. Nas primeiras semanas na França eu dizia que o atendimento em restaurantes era ótimo. Hoje já tenho uma visão bem diferente. Meu próprio Brasil e a minha querida Belo Horizonte também costumam me fazer repensar muitas frases prontas.

Estou deixando a Itália me surpreender positivamente. Por enquanto, tem funcionado!

 

Ps. Este é o centésimo post deste blog! E é mais um post da saga “33 textos antes dos 33 anos”!