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Sobre o Minimalismo e o Maximalismo

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Este é um caso de amor à segunda vista.

No meu primeiro contato com a palavra “minimalismo”,  ela  não me atraiu. A teoria e a prática me pareciam duas coisas desconexas e impossíveis.  Mas com o tempo aprendi que o minimalismo se aplica exatamente na humildade de tentar minimalizar, não como um conceito fim “eu sou”, mas num gerúndio de transformação: “Eu estou me tornando”, ou mesmo “eu estou tentando me tornar”.

Sei que muita gente detesta e rejeita esse conceito. E me ocorreu que talvez o problema nem seja o minimalismo em si, mas o que ele não é e o que tantos acham que é.

O que não é minimalismo ?

A partir do nome « minimalismo » vejo que muita gente não se interessa nem por ouvir falar do assunto porque já julga errado previamente. Prejulga. Sinceramente, algumas vezes eu preferia que fosse outra palavra. Acho que se a gente chamasse o minimalismo de « Leveza » sofreríamos menos com reações contrárias ao conceito.

Muito embora a palavra « Minimalismo » seja pertinente e hoje vejo que é até bonita e adequada, ela é comumente confundida com outros movimentos que também carregam a idéia ou o discurso de «mínimo ».

Essa semana mesma uma amiga minha disse que detestava a ideia de minimalismo porque ela não curtia o design minimalista. Ora, se a gente entende por design minimalista aquelas casas com uma aparência fria, tudo em preto e branco, talvez muita gente não goste mesmo. Porque se relacionar minimalismo a frieza, a ideia vai por água abaixo. E todo minimalista passa a ser considerado « sem graça », « sem vida ».

Vou falar da minha casa. A minha casa não é só minha. Eu vivo com mais duas pessoas. E eu sou a mais engajada em manter um espaço mais minimalista. Talvez seja porque eu sou a mais engajada também com a faxina da casa. Pessoas que não faxinam a própria casa talvez não tenham essa preocupação.

Preciso de espaços vazios, mas não quero uma casa completamente vazia. Tenho quadros nas paredes. Quadros pintados pela minha mãe. Tenho plantas! Um cabeça de batata decorativo! Tenho uma gatinha ! Tenho até imãs na geladeira que servem apenas para me lembrar que eu venho do Brasil!

Mas não temos um sofá na sala ou uma mesa de centro. Porque gostamos da sala aberta para dar festas, para dançarmos e para fazermos abdominais (e como precisamos!).

Minha luta atual é em liberar os armários das panelas. Já fiz as contas e nós usamos no máximo 6 panelas diferentes. E temos 12. Não precisamos! Podemos até ficar com 7. Mas 12 não precisamos. Toda vez que abro o armário elas caem todas em cima de mim. Tenho que abrir e segurar com o joelho ao mesmo tempo. Quero minimalizar essa questão. Mas ainda estou convencendo os demais moradores sobre isso.

Minimalismo hoje, para mim, é minimizar problemas. E isso é ser mais leve, nã0 ?! Não tem nenhum minimalista patrulhando ninguém. Aliás, isso não seria minimalizar, ficar tomando conta da vida dos outros. O minimalista quer maximizar o aproveitamento da sua própria vida. O que também não nos faz egoístas, apenas mais circunspectos.

Eu não parei de fazer compras. Continuo fazendo, mas com mais atenção. Tanto ao meu dinheiro, quanto à forma de produção do produto e à minha necessidade de ter o produto. Vi, por exemplo, que eu não combinava com botas de salto alto. Toda vez que usava, era como se fosse por obrigação e não por prazer. Só porque eu ganhei uma bota, não significa obrigação de uso, mas ela tem como obrigação, até legal, de cumprir sua função social (servir a algo). Parei de usar e estou dando um encaminhamento pra ela. Um problema a menos! Mesma coisa para maquiagem cintilante que não me cai bem e um tanto de bugiganga que só ocupava espaço, acumulava poeira e me dava alergia e trabalho pra limpar.

E assim vou eliminando sem dor esses pequenos problemas do dia-a-dia. Maximizando meus pequenos prazeres, minhas horas de conforto, meu sorriso e minha atenção para meu trabalho, meus projetos e para as pessoas que eu amo!

O minimalismo tira de você a obrigação de comprar, de acumular, de ter para ser, mesmo de fazer as unhas toda semana. Fica só o prazer em fazer essas coisas quando você sentir que te faz bem.

Por isso sugiro que o conceito, em alguns momentos, seja explicado como sinônimo de maximalismo!

Mfog3

Ps. Este é o terceiro texto do projeto 33 textos antes dos 33 anos.

A foto que ilustra é de um restaurante em Avignon com a imagem de Alice na parede, aquela que dependendo do seu tamanho vê as coisas ou muito grandes ou pequenas demais!

Um abração nada mínimo para as meninas do blog Minimalizo!

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Esperei 25 anos para comprar um par de sapatos

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Eu não ando descalça. Tenho sapatos. Acho que tenho mais do que precisaria, mas tenho menos do que muita gente me indicaria. Porém, não vim aqui para culpar ninguém pelo meu consumo ou pela ausência dele. Venho para contar uma história da minha infância.

Bailarinas

Quando eu tinha cerca de sete anos, completava já meu quarto ano de ballet clássico (o que não significa que eu seja uma boa bailarina, mas significa que eu ande com os pés à la Charles Chaplin até hoje) e me considerava uma pessoa do meio (da dança!). Certo dia, na minha escola de ballet, uma das professores, apareceu com uma sapatilha preta (enquanto todas nós usávamos rosa). Achei incrível aquilo. Não era apenas uma sapatilha, era uma sapatilha disfarçada de sapato. Era um sapato que podia te fazer dançar. Lindo! Lindo! Lindo! Pelo menos para mim.

 

Eu passava a aula olhando pros sapatos da professora. E claro que fui pedir o mesmo para minha mãe que, na época, fez duas ponderações: a primeira era de que eu não precisava de uma sapatilha nova (verdade!); a segunda e não menos coerente era de que aquele calçado só deveria existir para adultos e por isso eu precisaria crescer antes de comprar daquele tipo (achei sensato e esperei crescer).

O tempo foi passando e esfriei o assunto dentro de mim. Uma vez ou outra, quando me ocorria de estar no universo de artigos de dança, eu dava uma olhada para ver se o tal sapato existia. O sapato preto e flexível não era fácil de achar e eu não queria pedir pra encomendar ou levar algo parecido. Imagina, não preciso de mais um sapato. Nem de sapatilha.

Então vim morar na França. E sei que você já calculou a minha idade entre o título do texto e as informações do segundo parágrafo. Estando para lá dos trinta, o assunto do sapato estava bem adormecido, quando fui numa loja de artigos esportivos para comprar uma barraca para acampamento. Sem querer, passei pelo corredor de artigos de bailarina e lá estava ele: preto, flexível, disfarçado de sapato normal! Parei um pouco para experimentar! Fantasiei minha vida com esse sapato e ao ouvir me chamarem, deixei-o na prateleira e voltei pro assunto da barraca.

Passei algumas semanas pensando no assunto. Claro, entre outros milhões de assuntos que atravessam a minha mente, um deles, era esse, o sapato. O sapato igual da professora, que veio a falecer pouco tempo depois de deixei o ballet. O sapato que denunciava que ela era bailarina quando estava vestida de gente normal! O sapato que parecia abraçar o pé e te tirar para dançar. Que exagero, não preciso de sapato. Que mania de pensar o consumo como se fosse trazer felicidade.

Parei o pensamento. Mas, peraí? O que é o consumismo? Isso é consumismo? Há quantos anos eu penso nesse sapato? Alguma vez eu já comprei esse sapato por impulso? E a relação dele com o meu passado de bailarina? E as boas lembranças? E a utilidade evidente que um sapato preto pode ter? Quantos sapatos tenho atualmente? Estarei exagerando? É verdade que minha sandália preta foi furtada outro dia enquanto eu nadava num rio…

Dentro do meu raciocínio, aquilo não era nenhum motivo de vergonha. Talvez outras compras, outros sapatos, tenham sido adquiridos sem tanta história, sem tanta modéstia. Mas este não. Esperei 25 anos para comprá-lo. E hoje fui até a loja, procurei o meu número (de fato não havia a numeração infantil). Experimentei, passei no caixa e comprei.

Finalmente, ao sair da loja, tive aquela sensação que acho que é a esperada por muita gente que consome: de se sentir bem! Mas, para mim, essa sensação aconteceu com uma intensidade diferente, como quem espera muito tempo para ver algo. E o tempo de espera pode sim aumentar o prazer da compra. Garanto! Como quem mata a sede depois de um dia quente, ou quem cai exausto na cama depois de uma jornada produtiva. Meus pais me ensinaram que descansar sem estar cansado não faz bem. Comprar sem estar precisando também não. Mas comprar, quando se esperou 25 anos para ter o que se pode ter, não só faz bem, como pode ter o brilho de uma alegria de criança!