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Uma tarde no cemitério

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“Ouvi dizer que vai chover, é melhor levar um guarda-chuva”, disse meu sogro quando eu me despedia para partir rumo a uma missão. Desde que vim para a França, um tio muito querido pediu que eu colocasse uma flor no túmulo de Chopin. Eu não moro em Paris, moro em Avignon, mas sabe como é, quando você está na França, Paris é logo ali…

Então, como este fim de semana eu estou na casa dos meus sogros (vou chamá-los assim para simplificar), aproveitei para fazer o dever de casa, ou dever de Paris, encomendado pelo tio Kellinho.

Esperançosa, consultei o Google Maps antes de sair e tive a surpresa de saber que entre a casa em que estou e o dito cemitério Père Lachaise sobram 13km de distância. Otimista, recordei-me que estou numa das cidades mais lindas e queridas do mundo, além de ser uma capital munida de um bom sistema de transportes. Prevenida, peguei o guarda-chuvas, que aqui eu chamo delicadamente de parapluie.

Acho impressionante o quanto as cidades européias são interativas. Não interativas pelo fato de você comprar o seu próprio bilhete de metrô sozinha, ou por ter que se virar para tirar xerox por sua conta na universidade. As cidades são interativas porque as pessoas vem do nada falar com você. Se está triste, elas te mandam sorrir, se está perdida, elas te perguntam se você precisa de ajuda, se está confiante, elas te pedem orientações, se está de bom humor, elas te pedem dinheiro. Enfim! Eu acho assombroso (no bom sentido, muitas vezes) o quanto as pessoas se aproximam de mim quando eu estou viajando (observação válida também para Buenos Aires e Vancouver). Em Belo Horizonte, o povo parece que é mais desconfiado. Só de você jogar um bolinho de queijo para cima na rua, eles já começam a te achar esquisita… eu, hein?!

Então, no meu caminho até o cemitério, fui abordada por uma série de pessoas. Uma por quarteirão, eu contei. A maioria queria dinheiro (devo ter cara de turista rica), mas alguns queriam orientação (fico lisongeada com isso) e outros só queriam cumprimentar mesmo (très mignon!). Minha amiga Carol tem uma ótima técnica para afastar  estranhos indesejados: perguntar a eles “você realmente consegue me ver?”. Mas não, não foi dessa vez. Começou a chover e recordei com gratidão o bom conselho do sogrão!

Ao chegar no cemitério, descobri quanto infantil eu havia sido de imaginar que encontraria facilmente o túmulo anelado. Primeiro que não sei falar “túmulo”em francês (diz-se tombe), segundo que não tinha gente para dar orientação, terceiro, o moço para quem eu perguntei, respondeu, mas quando você não entende bem a língua, é difícil processar a resposta toda na cabeça. Entendi que ele disse “direita” e fui seguindo à direita, onde encontrava mais trocentos túmulos. Na minha busca por Chopin, encontrei Jimi Morrison, a tumba mais famosa (vá entender!) do cemitério. Apreciei à distância, pois muitos adolescentes que se amontoavam por lá.

Segui meu caminho e passava por pessoas que perguntavam “Você viu a Edit Piaf?”, “Estou procurando Proust” e eu dizia “Tenho interesse pelo Chopin”. Finalmente, um homem bastante descabelado e muito animado veio me oferecer ajuda. Disse a ele quem eu queria e ele “de onde você é?”, respondi o óbvio e ele “Brésil! Carnaval!”, apertou minha bochecha, tentou simular um samba e disse “venha!”. Ainda bem! Sem o doidinho seria impossível achar sozinha o túmulo do compositor preferido do tio Kellinho antes de anoitecer.

Chopin tem dois túmulos, me dizia o moço. Um fica em Paris, o outro na Polônia, onde está guardado seu coração (vamos pensar assim). De tempos em tempos o Embaixador da Polônia vai até o túmulo francês e recolhe as flores e recados para deixar no túmulo polonês (vamos pensar assim). Achei a ideia um pouco trabalhosa, mas bastante significativa. Lembrei-me de Mário de Andrade, pedindo para enterrar seu coração no pátio da escola. Sempre me lembro deste poema. É tão lindo…

Ah, como os cemitérios são emblemáticos… São poesias um pouco doídas, mas ainda poesias… Eu havia comprado três rosas no caminho para lá. Pensei em deixar uma no túmulo de Chopin para cumprir meu dever de casa e a merecida reverência e as outras duas em outros dois túmulos que julgasse interessante. Mas eram tantos túmulos de pessoas fabulosas que fiquei receosa de perder as rosas cedo. Observo que Voltaire, Victor Hugo e Marie Currie não estão nesse pedaço de mundo. Para esses, foi reservado algo ainda mais ostensivo, o Pantheon. Mas é como eu falo, os túmulos são apenas representações, a pessoa mesmo se imortaliza em sua história, em sua obra.

Depois de registrar meus cumprimentos ao grande compositor, segui minha caminhada.

Chamou-me a atenção o o túmulo de Gilbert  Morard, alguém que desconhecia, mas que aprendi, ali no cemitério, que foi o pai do metrô moderno de Paris. Em seu túmulo, muitos agradecimentos e algo ainda mais simbólico: muitos tickets de metrôs e viagens. Quantas vidas ele mudou? Quanta gente é feliz por sua conta? Emocionante! Obrigada, Monsieur Morard.

Ainda assim, eu caminhava com mais duas rosas. Perguntei então pelo túmulo de La Fontaine. Pelo que sei, o túmulo foi importado para lá. Não é bem o original! Coisas de marketing de cemitério… De qualquer forma, encontrei-o ao lado de Molière. Investi uma rosa para os dois. Bem plantada na grama da cerca que os protege. Agradeci por ter me contado tantas histórias, tantos finais, um pouquinho questionáveis, mas felizes.

Segui com minha última rosa adiante. Encontrei o túmulo da família Poulain e quase deixei minha flor para eles. Mas guardei pra mim.

Quase anoitecendo, a chuva ficava forte. Cemitério, chuva, corvos e penumbra. Era o cenário perfeito para muita coisa. Decidi enterrar por lá também alguns dos meus monstros. Coisas que me assombram, me atrapalham, me irritam. Talvez elas nunca mais me encontrem. Faço votos.

Desci a ladeira com a rosa em mãos. Que felicidade a minha: ter vida, ir ao cemitério somente a passeio, sair quando bem entender! Caminhei até a Bastilha na chuva. Entrei no metrô, troquei de metrô, passei no supermercado, tirei algumas fotos e me senti muito parisiense! Quase chegando na minha hospedagem, encontrei alguns homens fazendo o serviço de lavar a rua na chuva. Que trabalhoso! Mas muito necessário! Resolvi interagir. A rosa vai para eles, pessoas vivas, bem dispostas, trabalhando com gosto! Ofereci. Eles aceitaram felizes!

Por fim, meu passeio acabava junto com o dia.