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Três estudantes, um violão e o luar

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Em junho de 2011 eu recebi uma notícia que mudou a minha vida. Depois de muita luta, muito esforço e muitos rascunhos, finalmente, eu me tornava advogada. Foi a partir daí que pude fazer uma viagem que me possibilitou conhecer Alexis etc!
Tenho um blog inteiro que fala dessa experiência com o Direito e tenho um milhão de casos para contar que talvez um dia se tornem um livro. Durante minha vida de estagiária, adotei um cachorro enquanto ia para a Justiça Federal, fiz amizades no fórum, caí da escada do tribunal, corri atrás de vários ônibus, tombei o processo trabalhista no meio da rua, conheci juízes e advogados de bem, também conheci um mundo podre e corrupto, mas, principalmente, conheci outros estudantes de Direito que marcaram minha vida para sempre.

Hoje vou falar de dois: Jorge e Rafa. Meus colegas de estágio no último escritório em que estagiei e após, advoguei em Belo Horizonte. Quando entrei, Jorge, além de um colega de estágio, era também encarregado de fazer a comunicação (internacional) do escritório. Entrei para ajudá-lo com meu conhecimento de publicitária. Achei que teríamos um problema de sintonia, já que toda vez que chega um profissional mais capacitado para “mostrar” para o outro como trabalhar, isso gera um ciúme muito grande e um ambiente horrível. Foi uma surpresa como Jorge sempre foi receptivo! E, ao contrário do que imaginávamos, foi ele que me mostrou como trabalhar! E como trabalhar com gosto, com bom-humor e criatividade!
Eu já tinha um Jorge Amado na minha vida (olha o trocadilho!): Jorge, meu brother e roommate do Canadá (que saudade!!!). O Jorge do escritório, no entanto, em questão de dias se tornou um novo melhor amigo.

Um novo melhor amigo até que chegou o Rafa. Rafael Penido, com o mesmo sobrenome do meu pediatra (de quando eu era pequena, dã), entrou no lugar de um outro amigo que havia partido e deixado saudades. Seria fácil substituí-lo?! Não. Mas um belo dia Penido almoçou comigo e depois me entregou uma declaração por escrito dizendo que eu era uma das pessoas mais legais que ele tinha conhecido. Como não se derreter?
Passamos a almoçar juntos com a galera, enquanto o Jorge sempre almoçava em casa, o folgadão!

O que me incomodava no Rafa era que ele nunca comia verduras e mesmo assim mantinha um físico de atleta. Como pode? Eu me indignava!

Eu e Jorge éramos meio insones nessa época e compartilhávamos o sonho de montar um escritório 24h, visto que nosso horário mais produtivo era no fim do dia e durante a noite. Alguns planos foram feitos nesse sentido, mas nada vingou. O Rafa era um cara mais diurno, e a gente se perguntava se ele toparia trabalhar a noite inteira ou se seria o responsável pelo trabalho no horário comercial!

O trabalho foi endurecendo e nossos contatos no escritório foram minguando.
Eu e Jorge ainda tínhamos alguma conversa durante as noites em que levávamos trabalho pra casa. O Rafael não. Sempre foi o mais centrado. O estagiário ideal: educado, disciplinado, concentrado, estudioso e querido por todos. Esse rapaz tinha futuro!

Jorge tinha suas dúvidas. Ele era uma pilha de ideias preso numa estrutura rígida de escritório. A gente sentia que alguma coisa ali estava prestes a explodir.

Um dia Jorge encontrou outra oportunidade e saiu do escritório. Deixou cartinha para quase todo mundo agradecendo a atenção.

Fomos despedir no bar do lado e lá ele revelou tanta coisa sobre sua vida que deu ainda mais sentido para sua postura, sua criatividade, sua simpatia e também para sua insônia.

Uma semana depois, marcamos de encontrar na tal feirinha da Savassi. Um lugar onde todos os advogados da região se encontram na quinta-feira à noite. Naquele dia, estávamos entre vários. Foram todos indo embora até que sobramos eu, Rafa e Jorge.

De lá, fomos para o Jack, outro bar-cliché de Belo Horizonte, mas decidimos ter uma noite diferente e experimentamos todos os drinks com nomes exóticos da casa. Foi divertido, mas meio caro. Coisa pra fazer uma vez na vida. Se você é estagiário, nem deveria fazer.

Eram três horas da manhã e achamos melhor dar uma passadinha na praça do Papa, que fica num ponto alto de Belo Horizonte para, justamente, ver o horizonte. Jorge tinha um violão no carro. Nada mais oportuno. Passamos o resto da noite cantando, de Ana Julia à Save Tonight! Uma menina veio sentar do lado do Rafa. Ele achou que ela estava interessada, até que veio o namorado dela e sentou do lado também e por um tempo, tínhamos audiência para nosso coral.

Quando eles foram embora, de novo, sobramos nós três. E um gramado verdinho, inclinado na direção da Avenida Afonso Pena, uma das mais importantes da cidade.

Jorge levantou, encostou o violão e disse “Vou fazer uma coisa, que se eu não fizer agora, não vou fazer nunca mais”. Eu e Rafa trememos. Ele se deitou no chão, dobrou os braços e se lançou. Rolou a praça do papa gritando!

Rimos muito!
Deitei no chão e fiz o mesmo. Entrou grama até no meu umbigo.

Rafa, de terno, todo arrumadinho, se pôs no chão e foi. Acontece que ele se direcionou para uma parte do gramado que acabava num degrau um tanto quanto altinho. Ele ia cair de cabeça no concreto. A gente tentava avisar, mas quem disse que conseguíamos interromper o riso para falar. Ele finalmente abriu os braços e parou de rolar, segundos antes de cair.

Achamos um coco no chão e decidimos jogar futebol. Por que não?! Era uma quinta-feira 4h da manhã. A gente teria que estar no escritório às 9h. Nada mais apropriado. O problema foi que Jorge estava jogando bola com o violão no braço e quando fui dar um chapéu, o braço do violão veio bem no meu olho. Parei. Voltei pra casa.

No dia seguinte, quando cheguei no escritório, Rafa já tinha contado tudo pra todo mundo e a coordenadora trabalhista disse que morria de raiva da gente não ter chamado ela pra rolar conosco!

Sabe, esse foi o tipo de evento que eu vou me lembrar naqueles segundos em que toda a vida passa diante dos olhos antes de morrer. Eu acho que foi uma das melhores noites da minha vida de estagiária. Quiçá da minha vida!

Duas semanas depois, fui a uma dentista. Ao me posicionar em sua cadeira, ela fez um comentário “Meu Deus, que olho roxo é esse!”. Eu ri. E depois de ver que ela esperava a resposta, fiquei sem graça. Como explicar “bati o olho num violão jogando bola de madrugada”?

Um ano depois, Jorge quis marcar um reencontro pra gente lembrar a noite na praça. Mas a vida já não estava do mesmo jeito. Eu estava envolvida na ida pra França, Rafa no trabalho e o próprio Jorge no fim da faculdade.

Depois que o escritório se dividiu em dois, boa parte dos amigos partiram (Luis, Luísa, Bruno, Regina e o Juan da Colômbia…). Passei a almoçar sozinha com o Rafa, que nunca comia salada. A gente sempre teve assunto, mesmo com anos de diferença, e encontrando todo dia.
No meu último dia de trabalho, deixei um recado no computador dele antes de sair e fechar a porta do escritório pela última vez: “Coma verduras!”. Até hoje, ele se lembra disso, mas ainda não come.

Outro dia fiquei sabendo que Jorge se formou, passou na OAB e foi advogar como tributarista num grande escritório de BH. Foi também outro dia que fiquei sabendo que o Rafa havia perdido o pai. Duas situações distintas, mas que mereciam a minha proximidade. Como amiga. Como cúmplice.

É difícil estar sempre tão longe. Tão impotente diante de tanta coisa. Minha única arma até agora é a escrita.
Por isso, no improviso do papel virtual, eu escrevo, em forma de pedido, um convite: Venham me ver. Quando quiserem. Como quiserem. Assim que quiserem. Existe um morro gramado aqui perto. Não esqueçam o violão.

PracadoPapa

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Como saber que você está morrendo de saudade do Brasil

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Algumas práticas me levam a concluir uma obviedade: Que saudade do Brasil!

1) Abro a geladeira e encontro um pote de sorvete! Meus olhos brilham. Abro o pote e a decepção: É sorvete. Saudade de comer feijão!

2) Chego em casa e olho meu e-mail de cinco em cinco minutos. Chega um e-mail do namorado. Ignoro. O que eu quero mesmo é ver e-mail dos meus pais!

3) Dou uma mordida na comida de ante-ontem. Está velha demais, quero largar. Olho para o lado e falta alguém. Junto tudo para levar pros gatos da rua. E cadê o Peter pra me dar a patinha por um pedaço de linguiça passada?

4) No restaurante universitário, deixo um bilhete no guardanapo para o chef: “O senhor poderia fazer arroz mais vezes por mês? Adoro arroz! Obrigada”. Nunca fui atendida.

5) Olho para o céu azul e acho ele lindo. Procuro alguém para cantar comigo “moro, num país Tropical! ” .

6) Vou para a feira de trabalhos e a recrutadora pergunta “mas o que vocês estão fazendo na França? Não tem emprego no Brasil não?”. A gente agradece a gentileza e sai pensando “Tem mais que aqui!”.

7) Oito horas da noite. Não tem muito para comer em casa. Penso em ir ao supermercado. Não dá, já fechou.

8) Você vai até o xerox da universidade. É você mesma que descobre sozinha como fazer tudo sozinha. Nesse mundo solitário, me lembro de como os xeroqueiros do Tribunal e da Justiça Federal eram gentis comigo. E jogo um pensamento bom para eles.

9) Nunca fui de comprar muitos livros, mas só porque não tem livro em Português aqui, estou com abstinência pedindo encomendas até pra dentista se ela vier pra França.

10) Vou até a farmácia e não tem revista Sorria para comprar. Não tem nem um chocolate…

11) A professora entrega a correção da redação. Eu espero um comentário positivo, afinal, escrevi bastante, falei muito sobre meus sentimentos em relação à adaptação, abri meu coração. Recebo em troca um comentário diante da sala inteira: “Você precisa escrever melhor”. Bullying.

12) O menininho da escola não quer estudar e eu procuro palavras de estímulo em francês… não encontro. Me esforço para fazer sorrisos que o levem a concluir que ele deve terminar o dever com alegria. Sou uma pessoa tão estranha em outro idioma…

13) Chego num bar e me apresento para amigos de amigos. Perguntam de onde sou e respondo orgulhosa do Brasil. Eles mandam um  “Hola, que tal?!”. Mas isso é espanhol, meu senhor.

14) Na saída, todo mundo dá três beijinhos começando pela bochecha esquerda. Eu trocaria os três por um abraço.

Meu Brasil, te vejo na semana que vem!!!