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Um dia de seminário

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Existe uma expressão tanto em português quanto em francês que diz “dá a mão, quer o braço”. Essa expressão dispensa explicações, mas outro dia, encontrou uma demonstração!

Na última sexta-feira foi realizado um seminário na faculdade e a organizadora havia pedido à turma para ajudar em alguns pontos. Muitos se dispuseram a participar da recepção, mas quando ela pediu para ajudarem no audiovisual, todos ficaram calados. “É fácil, vocês só precisam ajudar o responsável por isso a colocar os nomes e legendas de cada convidado”. Concordei com o serviço, eu tinha a sequência de nomes no programa, não era nada complicado. No entanto, informei que terei que sair um pouquinho mais cedo, pois iria viajar. Ela disse que não serviria, que eu teria que me arranjar. M’arranjei.

Um dia antes, ela me mandou um e-mail quase meia-noite dizendo que toda a ordem havia mudado, muitos nomes estavam cancelados e outros seriam inseridos. Também me pediu para chegar meia hora mais cedo do que o previsto. Anotei tudo, mudei tudo no meu roteiro, não dormi direito com medo de perder a hora e cheguei lá cedo.

Assim que a encontrei e falei “bom dia”, a mulher começou a reclamar que eu não falava francês. Expliquei que era de origem diferente, mas que entendia o francês e que para esse trabalho não haveria problema algum. Mesmo assim, ela não se convenceu. Disse que precisaria de alguém para o powerpoint também, que talvez eu não fosse boa o suficiente (para passar os slides…). Falei que eu poderia fazer, mas que caso eu ficasse muito presa no lugar em que estava o pessoal do audiovisual, poderíamos pedir a outra pessoa.

Pedimos. Outro colega aceitou o serviço. Depois, não sei por quê, ele desistiu, sem me avisar. A mulher veio me cobrar uma explicação sobre ele e sobre onde estariam os pen-drives com as apresentações. Eu não sabia e não tinha como saber. Ela ficou nervosa. Disse que ela ia fazer o powerpoint. “Ok”, eu disse.  Na hora de passar o troço, ela ficou sentada como uma besta. E eu fui (também como uma besta) passar o tal do ppt.

Quando voltei, ela reclamou que a legenda de um dos debatedores estava abreviada. Expliquei que a legenda era grande demais inteira, por isso abreviamos. Ela reclamou de novo, começou a falar entre os dentes, como se estivesse com ódio. E estava. Mudamos a bendita legenda para o que ela queria. Ficou feio. Suspirei.

O seminário contava com a presença de ministros, prefeitos, políticos em geral e muita gente importante para falar de um assunto que eu adoro: Urbanismo. Teria sido um excelente seminário se cada um tivesse contado alguma experiência prática, idéias novas e aprendizados. Somente alguns poucos debatedores apresentaram experiências. Os outros se limitaram à teoria e aos discursos enormes, quando o previsto era apenas 10 minutos para cada. Achei falta de educação.

Na hora do coquetel, eu estava conversando com uma colega do mestrado, quando a organizadora veio marcar presença: “Então, tivemos um problema lá, né?!”, disse a simpática. Eu expliquei que não sabia que o menino do powerpoint tinha desistido, mas que por fim deu tudo certo. Ela continuou “não estou falando disso, estou falando da abreviatura na legenda”. E minha colega perguntou se por acaso aquilo seria grave. E ela começou a reclamar que poderia ser muito grave, que as pessoas vão ficar reclamando com ela… Respirei fundo. “Olha, eu estou aqui para fazer o melhor possível. Achamos melhor abreviar porque as referências dele estavam muito grandes. Se alguém reclamar com  você pode falar que foi minha responsabilidade. Que se tiver alguém para fazer isso melhor, que faça no meu lugar”, cortei.

Depois disso ela melhorou comigo. Começou a falar que não tinha problema, que aconteceram muitas mudanças no programa, e que ninguém teria direito de reclamar. Eu olhei o relógio e disse que já era hora de voltar porque eu tinha ficado de ajudar o senhorzinho do audiovisual a passar o nome dos outros debatedores antes de recomeçar segunda parte. Ela achou impressionante que eu iria sair antes de almoçar e falou para eu não ficar me exigindo tanto. Eu, que já tinha comido um cheeseburguer escondida na lanchonete em que trabalhei, falei com ela que “imagina, a responsabilidade em primeiro lugar!”. Como eu me gabei nesse momento!!!

De tarde, tudo se passou melhor! Um dos debatedores adorou o fato de que eu era brasileira, e toda hora vinha falar alguma palavra que ele sabia em português. “Oi! Saudade”, “Oi! Bahia de todos os Santos!”. Era sem sentido, mas era bonitinho! Achei muito legal conhecer a ministra responsável pela descentralização na França. Um trabalho que eu adoraria acompanhar mais de perto!

FotoMinistra

Um outro debatedor, também muito simpático, me ofereceu um livro de presente. Mas eu sou tão desacostumada com esse tipo de oferecimento que falei “Ah, obrigada, mas eu já tenho esse livro” (e tinha mesmo). Boba! Era a chance de conseguir um contato profissional legal. Que vontade de dar control Z na vida de vez em quando…

Naquele dia cheguei a pensar em nunca mais me oferecer para ajudar assim aqui na França, porque eles abusam com muita facilidade. E poucas vezes agradecem. Mas depois vi que a minha maior recompensa nem viria da pessoa que me pediu a ajuda, mas dos gestos solidários dos meus colegas de sala que nunca tinham conversado comigo e que, de repente, começaram a me chamar de Didi, começaram a me inserir nas rodas e passaram a se interessar mais pela minha presença. Também nas pequenas atenções dos participantes, que me cumprimentavam com apertos de mão, e se sentavam do meu lado, oferecendo sorrisos e comentários engraçadinhos. No fundo, qualquer trabalho, seja ele voluntário ou não, desde que digno, enobrece as pessoas. É como se a gente dissesse para o mundo: Vejam só, eu não sou completamente inútil!

Quando o seminário finalmente terminou (o final foi cansativo, viu?! Sugiro menos horas por dia para essas atividades), eu agradeci o senhorzinho do audiovisual pelo dia de trabalho (ele era muito gentil). E fui saindo de mansinho para a minha viagem. “Bonne weekend, merci beaucoup”, ouvi. Era a organizadora me agradecendo. Que milagre!

 

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