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Brincando de aviãozinho

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Há alguns dias publiquei a história da minha vinda pra a França, contei que havia conhecido um maestro no avião para Lisboa enquanto eu chorava por causa do filme em italiano. Não me lembro se contei que havia conseguido usar o toilete da primeira classe e que fui uma das primeiras a saltar do avião (lembrando que saltar é modo de falar porque sou uma senhora de trinta anos que nunca se ligou muito nesse tipo de esporte). Eu contei muita coisa sobre a viagem do avião BH-Lisboa, mas não contei sobre a viagem Lisboa-Paris, que, para mim, foi a mais surpreendente de todas. Deixei de contar propositalmente, porque queria escolher bem as palavras para isso.

Não o fiz. Não escolhi as palavras. Quase esqueci a história, então já era hora de escrever.
Há pouco menos de um ano, na viagem reversa, Paris-Lisboa, conheci a pessoa que eu hoje chamo de namorado. Foi tudo culpa da minha mãe, que me convenceu a trocar de lugar com ela no avião, na última hora, quando ela percebeu que aquele francês cabeludo e desajeitado iria se sentar na única poltrona restante que, coincidentemente, era do nosso lado. Não satisfeita, mamãe ainda impediu que eu dormisse durante toda a viagem e me cutucou até que eu cumprimentasse o rapaz.
Tal atitude dessa incrível mulher, que eu tenho a honra de ter sido gerada por, fez com que a minha vida mudasse significativamente e e ficasse com um ar mais provençal! Então agora, estou aqui, em Avignon, por causa da Sil, que me cutucou no avião. Bendita seja!
No avião Lisboa-Paris, portanto, eu estava com essa história na cabeça. E o avião estava vazio. Fiquei feliz ao ver que teria a minha cadeira mais duas apenas para pensar na vida.
No entanto, sentada lá, quase no fim do embarque, um rapaz de mais ou menos uns vinte e tantos anos se aproximou e indicou que se sentaria do meu lado. Tudo bem. Ele era muito alto, com traços bem africanos e carregava uma série de coisas. Não tive tempo de fazer muitas observações, pois logo que ele chegou, já pegou a outra cadeira vaga para ele e começou a dormir, me deixando meio sem jeito de mexer na minha cadeira. Pedi para o comissário para trocar de lugar, já que as saídas de emergência estavam completamente vazias. Assim, o moço teria o espaço dele para dormir, e eu o meu para pensar na vida. O comissário me pediu para esperar e dois minutos, depois falou que tudo bem. Levantei, peguei minha bagagem, dei tchau pro moço e troquei.
Estava bem feliz na saída de emergência, devidamente informada sobre como proceder em caso de emergência quando o moço se levantou da cadeira dele, veio até a minha cadeira e perguntou se tinha alguém sentado do meu lado. Eu disse que não. Ele pegou as coisas todas dele e veio sentar do meu lado também, ligando o computador e usando o espaço de apoio do cotovelo todo para ele.
Eu fiquei perplexa. O cara tinha três cadeiras só para ele. Eu tinha duas da saída de emergência. Por que ele viria sentar do meu lado, sem nem falar a minha língua, usando o computador e ocupando o espaço do meu cotovelo? Comecei a pensar que talvez ele tivesse me achado racista de ter trocado de cadeira, que talvez ele quisesse se exibir com o super Mac Air dele… enfim…
Chegando a comida, eu não gostava do iogurte oferecido… olhei pro lado… e, bem, usei a técnica mais ancestral para fazer amigos que consiste, basicamente, em oferecer um alimento ao outro. Ao mesmo tempo que ofereci meu iogurte, ele me ofereceu o dele. E logo em seguida falou alguma coisa em francês. Eu pedi para traduzir para o inglês, ele traduziu. E assim começamos a conversar.
Este moço era um jovem senegalês, estudante de ciência política em Paris. Ele falava, mais ou menos, uns seis idiomas diferentes, e tinha muita facilidade para explicar as nuances de cada um. Ao dizer que eu era advogada, tentei explicar que não trabalhava com mentiras. Geralmente, observo uma reação de susto e um pouco de desprezo em muita gente quando digo que sou advogada, então tenho tentado amenizar este preconceito com uma explicação rápida sobre o tema… Falei que um dos meus últimos trabalhos tinha relação com direitos autorais e ele me disse que teria que me indicar para a avó. O motivo: A avó escreveu um livro sobre como a vida poderia ser vivida sem a poligamia. Ela foi a primeira mulher de Senegal a pedir o divórcio. Ela não queria dividir o marido com outras mulheres e isso é bem válido! Achei surpreendente a história e triste saber que ela nunca ganhou um centavo com o livro, mas conseguiu espalhar o seu pensamento, o que, muitas vezes, é o melhor pagamento do escritor (não que o outro não tenha valor…).
Nossa conversa sobre poligamia foi longa e com opiniões diversas. Meu novo amigo era mulçumano, muito culto, muito simpático e não tivemos problemas em concordar em discordar. Situação semelhante ocorreu quando viajei Toronto-Vancouver do lado de um padre. Com quem, aliás, troco e-mails até hoje.
A ponto de pousarmos na bela e encantadora Paris, perguntei por quê, afinal, ele tinha resolvido sentar do meu lado depois que mudei de lugar. Ele disse que queria o espaço para as pernas. De fato, havia mais espaço! Comentei ainda que tinha ficado irritada por ele gastar o meu suporte para o cotovelo. Ele pediu desculpas e disse que não tinha percebido. Ele estava desculpado! Para mim, Sidy foi uma alegoria. O exemplo de como podemos mudar de opinião várias vezes. E várias vezes! E que seja sempre para melhor.
Era o prelúdio de uma viagem com muitas descobertas, eu concluía.
Ao chegarmos em Paris, outro amigo de avião, muito especial, me esperava com flores no aeroporto.
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