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Muitas vidas

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Um dia percebi que não era uma só, mas várias. E que bom!

Claro, você pode pensar que é patológico assumir múltiplas características. As vezes é mesmo. Mas na maioria das vezes é positivo e muito comum. Pensa comigo.

A pessoa que você é como estudante é muito diferente da pessoa que você é como vendedor, como mãe ou pai, como vizinho. Todos compartilham alguns valores em comum, mas são diferentes. Certo? E cada um pode acrescentar um pouco mais para o outro.

Eu pensava que até os meus trinta anos, estaria casada, com filhos, tendo uma carreira profissional de sucesso etc. Nada disso aconteceu. Mas tantas outras coisas que eu nem poderia imaginar aconteceram que valeu a pena do mesmo jeito. Se um dia estou  de salto na capital da Noruega, no outro estou esfregando chão do lado das baratas do mercado de Avignon. Se um dia tenho um cachorro, no outro, estou com uma gatinha. E, sinceramente, gosto de ver e viver essa diversidade porque isso me enriquece. E me deixa com a sensação de ter e criar oportunidades para aprender mais.

Quando alguém pergunta o que eu quero ser, tenho muita dificuldade de responder porque quero ser tanta coisa, em tantas vidas. Professora, advogada, vendedora, cozinheira, escritora, faxineira, auxiliar de veterinário, diplomata, cuidadora, fotógrafa, administradora, editora, artista, cientista, além de mãe, vó e namorada.

Talvez eu precise de muitas vidas para realizar tudo isso. Ou talvez essa vida seja mesmo para ser múltipla !

O ponto B

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“A vida vai de um ponto A a um ponto B. Pois é. Eu tenho um problema com o ponto B”. Essa fala é do personagem principal de o Quebra-Cabeças Chinês (continuação da continuação de Albergue Espanhol, o Bonecas Russas) mas bem que poderia se aplicar a muita gente. Uma delas, eu.

Chegar a um ponto B não é assim tão simples. Pra começar eu sou perdida para andar. Certa vez fui dar uma voltinha no quarteirão enquanto esperava minha mãe descer do prédio em que trabalhava e pronto, fui parar numa cidade vizinha. Outra vez, fiquei três horas perdida de bicicleta na estrada, cruzando três cidades da França, porque tentei chegar do outro lado do bairro em que estava.

Meu senso de orientação é meio maluco, mas nem sempre isso é problemático.

Mas as vezes é.

Desde pequena eu dizia que queria ser veterinária. A escolha da profissão não me parecia um problema de jeito nenhuma. Seria veterinária e pronto. Perfeito! Aí descobri a profissão dos biólogos e me encantei também. Achei que eu poderia fazer muito como bióloga, então eu seria bióloga. Resolvido.

Um belo dia descobri que eu era melhor nas matérias de humanas da escola que nas matérias de biológicas… Ao invés de seguir a opção inteligente que era de estudar as matérias biológicas com mais ênfase, pensei que o certo era seguir aquilo que eu já tinha facilidade : Humanas.

Hum.

Poderia ser boa na escola para matérias humanas, mas isso não significa que eu seja um gênio no mundo profissional. O meu mundo profissional que seria de animais, florestas, reprodução de células, virou um mundo de palavras, de tela de computador, de reuniões de egos… OK.

Não que eu não tenha visto o lado bonito. Vi sim! Acho lindo explicar, mostrar, escrever. Mas acho horrível ter que concorrer com isso. Ter que fazer marketing do que eu estou fazendo, ter que ficar provando pra todo mundo que sou melhor que todo mundo. Nem sou. Mas talvez mesmo no outro mundo (o biológico) as coisas sejam assim. Sei lá. O fato é que meu ponto B começou a ficar confuso.

Fui muitas coisas. Gostei de todas! Tinha o alfabeto inteiro, menos o B.

Fiz Comunicação. Adorei. Mas meu ponto B não dava resultados como esperados. Fiz Direito. Amei ! Mas o ponto estava ocupando 100% das horas da minha vida. Não tinha tempo para dormir, para seguir outros projetos pessoais, para caminhar, para jantar sem pensar nos e-mails que teria que responder.

Fora isso, eu ainda me interessava por tantas outras coisas da vida. Notadamente a dança, as artes, a música, a patinação no gelo, a biologia, a veterinária e todo o resto do mundo.

Uma propaganda da Discovery dizia « I love the whole world and all its sights and sounds ». E é isso, gente! É normal gostar de muitas coisas, não ?! É normal querer descobrir, experimentar, errar e começar de novo. Errado é se propor fazer sempre a mesma coisa pra sempre. Não mostrar interesse por nada além do que o mundo pronto que nos foi oferecido.

Mas, poxa, quisera eu ser exemplo de tantas tantas descobertas. Não sou. Mas sou exemplo de algumas tentativas.

Quando conheço um bairro, cidade ou país novo, gosto de andar sozinha algumas (muitas) vezes. Gosto de entrar em ruas e me deixar perder. Foi assim que descobri uma lanchonete perdida e deliciosa em Vancouver quando desci do metrô na estação que nunca me sugeriram descer. Foi assim que descobri meu jardim secreto em Le Pontet, do lado de Avignon. Foi assim que hoje com duas ótimas companhias conhecemos uma Milão que não existia nos livros, nos sites de viagem, no imaginário do turista.

Mais tarde, com o guia na mão, soubemos voltar pra casa antes de virarmos refeição dos mosquitos.

Acho que na vida profissional a gente pode se permitir um pouco isso também. Alguns ensaios, mas com uma certa segurança.

É bom se deixar perder. Ô, é muito bom, sobretudo para descobrir o que há de mais inusitado. E ter também à mão um guia não é a negação dessa ideia. É talvez a sua optimização.

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