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A regra é clara : onde não puderes amar, não te demores 

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Essa moça, a Frida Kahlo, você pode não gostar das pinturas dela. Pode achar colorido demais, surrealista demais, doloroso demais, mexicano demais, oye ! Mas chamo sua atenção pra uma frase da artista : Onde não puderes amar, não te demores. Pois é, é a mesma que está no título.

Leia isso com o sotaque que quiser, o importante é que a gente perceba a grandeza dessa ideia. E vou usar exemplos pessoais para ilustrar.

Trabalhava eu num escritório muito grande. Melhor hora do dia era a hora do almoço. Chamava a galera toda pra comermos juntos porque sou dessas! A gente praticamente fechava o restaurante à quilo da rua. Fazíamos piadinha com as cenouras, contávamos os casos do fim de semana, reclamávamos do sistema do escritório, do sistema judiciário, ríamos de novo, experimentávamos as comidas uns dos outros, sugeríamos soluções pros problemas do mundo. E assim foi até que os sócios se separaram e com isso o clima do escritório mudou muito. Todos se dividiram. Muita gente saiu. Clientes saíram. O ambiente ficou bem pesado. Quem tinha um plano B foi pro plano B e eu me encontrei almoçando sozinha. Por dias. Tentei resolver de todas as maneiras que pude. Continuei sozinha. O trabalho tinha virado só trabalho. Morro de dó de quem trabalha apenas por dinheiro. E ficava com dó de mim mesma comendo naquela mesa de restaurante sozinha. Eu, uma pessoa que gosta da companhia de outras pessoas (mas não de todas!). Quando a vida me deu a oportunidade de sair, saí.

Em relacionamentos é igual. Vivi alguns pra contar. Inícios lindos, você não tenha dúvida. Se é pra começar alguma coisa, que comece bem. Hoje não sei nem mais descrever, porque a sensação já se apagou mesmo. Só lembro de ter achado na época que era bom. E ter vivido todas as milhares de rupturas como pequenas mortes, pequenos lutos. Dores insuportáveis que hoje também não me lembro mais da sensação. A gente esquece do bom e do ruim. Mas uma coisa não esqueço. Tentar resolver problemas, conflitos e crises vale a pena e deve ser feito. Mas forçar a barra com quem não te quer não vale. Primeiro que a chance de funcionar é mínima, e se funcionar, a chance de virar um relacionamento abusivo é enorme. Logo, não vale a pena ! Isso faz muita gente adoecer.

Frida tinha calo nessa história: não demore num amor não correspondido. Mas mesmo para ela era difícil. A melhor dica que já ouvi pra segurar essa barra é doar todo esse amor para seus projetos, sua família (a parte que te ama) e pra natureza (animais e plantas). A chance de ser correspondido é bem maior e isso vai te devolvendo a energia perdida. Olha o case Adele! Também acho digno escutar uns sertanejos !

(adoro pagar de bem resolvida enquanto escrevo com um olho no teclado e outro no celular!)

Amizades igualmente merecem uma revisão. Ela é sua amiga por quê mesmo ? Quando foi que vocês puderam contar uns com os outros ? Você convida pra tudo e eles não te convidam pra nada ? Cadê correspondência ?

Outro dia, conversando com uns artistas, perguntei o que era « amar » e ouvi « doar sem esperar de volta ». Ah, os artistas… Isso pra mim é muito bonito, mas me serve apenas como a descrição do amor materno/paterno na fase da primeira infância. Mesmo os pais, imagino, esperam algum retorno positivo dos filhos depois de mais velhos. Não necessariamente na mesma moeda. Não necessariamente no mesmo nível de entrega, mas num certo reconhecimento, uma certa atenção. Uma reciprocidade.

Reciprocidade, meu irmão, é uma palavra que faz sentido na hora de falar de amor, de cuidado, de espera e até de ambiente de trabalho. As pessoas precisam ser bem recebidas. As pessoas precisam de retorno. Até planta precisa de luz!

Uma amiga e eu fazíamos a relação com o girassol. Essa flor que não perde tempo com o que é sombra. Ela vai em busca do que dá energia e brilha de volta. Nessa onda, atrai ainda mais coisa boa (abelhas, borboletas, polinizadores em geral).

Um pouquinho de força todo mundo tem dentro de si. E pode ser multiplicada. Melhor que se multiplique.

Vou ali preparar meu jantar pra comer sozinha, de novo, nesta cidade onde já tive tantas histórias, tantos amigos e tantos amores. Tem acontecido assim, apesar dos meus esforços em contrário. Isso não pode e nem vai durar muito tempo. A regra é clara.

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Conheça Frida Kahlo

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50 nuncas de 2017

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50 nuncas de 2017

Desde 2013 que ando esperando que o ano que vem seja melhor. Também foi a partir do fim de 2013 que comecei com essa ideia de fazer uma lista de 50 nuncas. Tem pouco sentido a gente esperar que as coisas sejam diferentes se a gente continua fazendo tudo sempre igual.

Acho que não precisam ser 50 coisas. E nem 50 coisas absolutamente diferentes. Só de mudar o jeito que a gente vive nossa rotina, ou a forma como a gente enxerga uma ideia ou lida com ela já é uma melhorada que podemos dar pro nosso futuro.

Beleza, vamos então esperar que 2018 seja um ano melhor. De muita paz e saúde lá fora e aqui dentro. Espero também ser uma pessoa melhor em 2018, poder produzir mais, poder concretizar umas ideias, conhecer mais gente, praticar uns esportes e umas aventuras diferentes, ter mais paciência, mas ter mais reflexo também. Agir à tempo. Falar alto quando preciso e não falar também como resposta. Salvar mais bicho da maldade humana e salvar mais humanos do que é desumano.

Tava falando disso outro dia, minha religião se chama Tentar !

HarryEuAmor

  1. Fiquei ruiva. Começou com uma tinta que destruiu meu cabelo e depois passei pra henna que destroi menos. Estou gostando, mas pode ser que eu mude de novo. Isso aqui não é um contrato.

CabeloRuivo

2. Fui pra Berlim com meu pai. Como tenho origens alemãs por parte de pai, isso foi meio que um sonho realizado. O problema é que estava frio demaaaais em janeiro. Mas foi a época possível ! Adorei ver papai praticando o alemão dele. De todas as minhas origens, a origem alemã é a que eu menos sinto correr nas veias, mas aprendi a apreciar muita coisa desse povo, como por exemplo o fato de encontrar diversos grupos de velhinhos rindo nos restaurantes. Por que não vemos isso no Brasil ?

 3.  Perguntei para alguns artistas o que era arte. Com meu trabalho como jornalista em Avignon, tive a oportunidade de encontrar artistas de todo tipo fazendo exposição por aqui. Alguns muito maravilhosos e alguns bem picaretas mesmo. Pela primeira vez, questionei sobre o que era arte para alguns deles. Continuamos sem uma resposta objetiva. E gostamos disso.

4. Encontrei minhas tias e primos em Paris. Paris não é aqui do lado e não é tão fácil assim ir para lá. Mas consegui e tive a oportunidade de fotografar a primeira vez que tia Raquel viu o arco do Triunfo que combina tanto com a mulher que ela é. Que emoção! Amo vocês.

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5. Fiz dread no cabelo pela primeira vez. Cynthia e Marta me ajudaram na produção caseira, mas não consegui fazer durar muito tempo. Talvez numa próxima vez, sem esquecer o discurso da apropriação cultural que é relevante, mas não impeditivo de nada, ao meu ver.

6. Fui numa reunião sobre óleos essenciais. E achei que seria meio mais ou menos, só que saí convencida de que é uma arte.

7. Adotei um ninho de baratas. Calma. Essa é talvez a minha maior esquisitice, mas me fez muito bem descobrir e acompanhar o crescimento de um ninho de baratas no centro de Avignon. Até por ser uma coisa só minha mesmo. Uma atividade que não me lembra mais ninguém neste mundo. Tenho fascínio pelos insetos. Estava lá um dia de madrugada (que é a hora que elas saem do ninho para comer a sujeira que nós deixamos) observando o grupo quando um mendigo chegou e se agachou do meu lado perguntando o que tanto eu olhava. Contei pra ele e ele conversou um pouquinho, mas passou a me evitar. Ficou com dó de mim.

8. Abordei um comediante stand-up na rua com a última fala da peça dele, apresentada 4 anos atrás. Era uma frase, apenas uma frase (em francês), mas que representou muito pra mim naquela época, por isso eu tinha decorado. Ele ficou tão impressionado que construímos uma amizade em cima disso. E mandei ideias para a próxima peça dele. Ah, o festival de Avignon é a melhor coisa do mundo. Toda cidade merece ter um festival de teatro onde os artistas realmente passem o dia na rua, circulando e conversando com os meros mortais.

9. Inventei que eu era Head Hunter em uma festa e acreditaram em mim. Não sou de inventar personagens, mas durante o festival de Avignon fiquei com preguiça de contar minha vida e comecei a criar histórias. Acontece que um produtor teatral realmente acreditou que eu era head hunter até a hora que não aguentei mais e contei a verdade. Mesmo assim, nossa amizade se manteve. E se mantém.

10. Passei três horas correndo atrás de um cachorro fugitivo. O cachorro de um amigo, que dormia acorrentado a uma cadeira num bar, ao ser acordado por um transeunte, se assustou e saiu correndo com a cadeira amarrada (quem já leu Marley e eu?). Saí correndo atrás por motivos de : era um cachorro correndo com uma cadeira, oras. O pessoal de uma pizzaria mais na frente, conseguiu pegar o cachorro, mas ao desenrolar ele da cadeira, ele correu de novo. Nisso o dono dele estava vindo atrás e eu tentei correr mais para alcançar, mas o cachorro ganhava de muito. Uma hora perdemos ele de vista. E meu amigo, que trabalhava como palhaço temporariamente aqui e não conhecia a cidade, precisava de ajuda. Ficamos boa parte da noite chamando o cachorro, perguntando para as pessoas, até que encontrei outro amigo que viu para onde ele tinha corrido e conseguimos chamá-lo de volta. Ao chegar em casa, 3h da manhã, meu roomate estava dando uma festa aqui no apto, achando que eu estava dormindo pesado no meu quarto ! Quando contei que estava todo esse tempo correndo atrás de um cachorro, ninguém acreditou.

Thao

11. Dois homens entraram na minha vida este ano e tenho que anunciá-los : Shahid e Bertrand. Espanhol e francês. Amigos pra toda hora. De comprar bolo na padaria a ficar perdido em montanha (aguarde os próximos itens da lista). Fizeram meu ano mais feliz.

12. Meu primeiro casamento na Itália. Meus amigos se casaram em Gaeta e lá fomos nós em comitiva jogar arroz de risoto nos noivos. Foi um dos lugares mais bonitos que já vi, mas isso a gente pode falar de quase todo canto escondido da Itália. Vi a maior pizza brotinho da minha vida. Fotografei algumas baratas italianas e conheci muita gente legal. Amo esse povo. Lembrando que tenho origens italianas também e essa eu sinto pra valer !!!

meninasCasamentoSara

13. Comecei a fazer irrigação por capilaridade nas plantas aqui de casa. Funciona muito bem com o pé de abacate.

14. Encontramos e salvamos um ouriço na rua. Ele passa bem, vive nos quintais de diversas casas e não nos espetou.

Ouriço

15. Tive um texto com mais de 10K de likes na internet. Isso vale muito para quem vive de comunicação. Tudo porque divulguei as fotos que minha tia fez de um morador de rua que vende trabalhos de tricô e croché em BH. Divulguei com o pessoal do Razões para Acreditar.

16. Conheci a Andaluzia. Um dos lugares mais místicos que eu poderia conhecer. Uma reunião de culturas, com muita música e gente bonita. Mas um calor infernal. Evite passar por esses lugares em julho.

Andaluziaaa

17. Vi o tratado de Tordesilhas. Em Sevilha, na Andaluzia, conheci o contrato que dividia o mundo entre Portugal e Espanha. Saí do museu tão feliz que abracei uma desconhecida na rua. Ela abraçou de volta.

18. A textura do meu cabelo atingiu o ápice da sua naturalidade. E assim seguimos. Toda vez que eu falo ápice lembro do Pablo. Pablo, beijo pra você.

Tofalando

19. Fui numa reunião dos Vigilantes do Peso. Depois fui contratada por eles porque ano passado perdi uns bons quilos. Com essa contratação, acabei assumindo que perderia o casamento de três amigas no Brasil e um curso na universidade de Coimbra com a Adriana Calcanhoto. Ia trabalhar de bicicleta.  Nunca cheguei atrasada. Duas semanas depois recebi um e-mail oferecendo uma promoção e um treinamento em Paris. Me falaram que eu teria que comprar um carro. Custei, mas comprei. Cheguei em casa com o carro em casa e encontrei minha carta de demissão dizendo que eu não era suficientemente móvel. Se a proposta deles era me fazer perder peso, posso dizer que realmente funcionou.

20. Estabeleci uma relação muito boa e maravilhosa com meus vizinhos. Que eu amo e passaram a fazer parte da minha vida.

21. Aprendi a fabricar meu próprio creme hidratante. E vale muito mais a pena. Aprendi também que cremes não tiram ruga, não emagrecem, não mudam estrutura de nada. E aí ando espalhando esses aprendizados sobre o marketing mentiroso na página do Lawsumerism.

22. Iniciei um novo projeto Lawsumerism. Um projeto que une Direito com consumo consciente. Seu nome é um trocadilho com Lowsumerism (consumo lento). Vai lá no insta @lawsumerism e no facebook de mesmo nome. Estou apaixonada com essa ideia.

23. Conheci Toulouse. Uma cidade francesa linda e cheia de vida. Talvez a cidade mais viva das cidades francesas que já conheci.

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24. Fiquei seis hora perdida numa montanha. Isso não foi muito longe de Avignon, mas nossa ideia era uma caminhadinha de 40 minutos e acabou virando seis horas porque pegamos um caminho errado e não conseguimos reencontrar a saída tão cedo. Felizmente, não estava sozinha e estava com pessoas muito maravilhosas que começaram a cantar para espantar o desespero. A experiência virou textão pra Review.

Ondeestamos

25. Conheci Albi, outra cidade francesa, onde nasceu Toulouse-Lautrec. Adorei a beleza da cidade, mas senti falta de gente na rua.

26. Conheci Deborah e Tiago. Dois brasileiros que salvaram minha vida social em Avignon. Deborah, inclusive, veio para Avignon depois de descobrir o meu blog, o que me alça para o patamar de influencer digital, não é mesmo minha gente ??

27. Descobri uma forma de me divertir sozinha acompanhada. E isso criou uma série de festas dançantes no meu quarto enviadas para a internet pelo stories do Instagram, que aliás, só comecei a usar este ano e isso mudou bastante minha forma de comunicar com o mundo ! Tento ser educativa ! (@diorelak)

28. Fui guia de três cidades para o Passagens Imperdíveis. Avignon, Aix en Provence e Marseille. Para isso, estudei e andei bastante. Foi um trabalho muito mais duro do que parece, mas adorei. E me apaixonei por Aix e Marseille, que sempre foram próximas da minha cidade, mas eu nunca tinha realmente, realmente me envolvido com elas.

Marseille

29. Conheci o atelier de Cézanne. Foi em uma das minhas gravações para Aix en Provence. O atelier foi uma casa que ele construiu para trabalhar. O artista só vendeu um quadro ao longo de toda a vida, e hoje é referência no mundo. Em sua casa, também temos acesso ao jardim por onde ele passeava e buscava inspiração. Quase chorei.

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30. Visitei o quarto de Van Gogh em Saint Remy. E pela primeira vez, conheci uma faceta da história dele que eu não conhecia bem. Embora sempre tenha gostado de História da Arte, eu mais ouvia falar de Van Gogh como um cara que cortou a própria orelha (história que também é questionada), mas a verdade é que todo mundo tem sua beleza e sua dureza e Van Gogh foi muito mais do que isso. Ele pintava praticamente um quadro por dia, sofria com muitas questões e buscava amigos e algum reconhecimento. Não deu muito certo em vida. Mas ele tentou, velho, e só me faz pensa até quando ainda seremos tão cruéis e egoístas com quem é diferente do padrão? Mais um que trabalhou a vida inteira e não ganhou nada por isso. Mesmo assim, nos deixou tantos presentes.But I could have told you, Vincent, this world was never meant for one as beautiful as you”.

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31. Fizemos um recital de poesia diante do fenômeno de estrelas cadentes. E por falar em noites estreladas, no dia em que as estrelas pareciam cair do céu, eu e duas amigas pegamos o carro e fomos para um antigo forte numa cidade próxima daqui reparar no céu. Enquanto isso, aproveitamos para ler poesias de Galeano. Fantasiei que cada estrela era um artista piscando pra gente aqui nesse mundo de meu Deus. Combinou !

32. Consegui desentupir uma pia. Sozinha !

33. Perdi a ilusão com a idéia de amor romântico. E você?

34. Descobri que a tenebra é um inseto que pode ajudar muito na reciclagem. Como a maioria dos insetos, a tenebra é muito útil e também ajuda na reciclagem. Conversando sobre isso com meu avô, descobri pela wikipedia que foi estudado que sua larva é capaz de comer alguns plásticos e isopor, duas paradas dificílimas de reciclar. Mas ainda assim, não é para você largar mão de cuidar do seu lixo porque acha que um besouro vai salvar sua vida, beatlemaníaco. Todo esse trabalho é lento, e, embora seja de grande serventia, nós, os seres humanos, temos que ser menos inúteis que um inseto e pararmos de acelerar a destruição do planeta.

35. Conheci Belém, no Pará. Apenas em um dia. Não consegui conhecer tudo, mas adorei as pessoas e a vista do lugar de onde vem uma das minhas melhores amigas: Ju. 

Belem

36. Fui num baile de máscaras em Londres. E essa ideia que a gente tem que velho não sai, não dança, não se diverte, tá meio retrógrada. Em Londres, me diverti muito com uma galera de idade bem variada, tinha gente quase chegando nos três dígitos e mandando muito bem no verdade ou consequência. Sem mais.

37. Encontrei meu tio, tia, Lívia, Tiffany e Vanessa em Madrid. E nosso almoço foi agraciado com relatos do caminho de Compostela que meu tio fez. E toda história de caminho é também uma história de superação e luta interna, né ?! Tio, escreve um livro !

38. Comecei a escrever um livro que deve efetivamente ser publicado. É um livro didático. Estou amando e aprendendo muito com as pesquisas. Preciso terminar logo. Falaremos mais disso depois.

39. Conheci Pompeia. Uma cidade que há dois mil anos foi destruída pela fúria de um vulcão. Mas pensa numa cidade moderna. Era Pompeia, há dois mil anos. Uma cidade que tinha shopping center, porta de correr na frente das lojas, guia de orientação sexual e farmácia, e pessoas diferentes conviviam sem ódios.

Pompeia

40. Nasceu uma beringela na nossa plantação de apartamento. É possível ! E quero recuperar o tempo que perdi não sendo uma pessoa interessada nesse assunto. Desculpa. Agora isso tudo me interessa muito.

41. Encontrei D. Diva e Clarice aqui em Avignon. Mais um item de caráter pessoal, mas deixa eu só dizer que essas mulheres são muito maravilhosas e eu aprendo muito com elas. Todas duas amigas originalmente da minha mãe que agora são também minhas porque amizade não tem idade, né amores. O que conta é o nível de conversabilidade das pessoas.

42. Entrei numa onda de produção de menos lixo. Depois que fiz uma matéria para o jornal daqui falando da experiência de uma semana sem produzir lixo (que não foi 100% eficaz, mas ajudou muito), passei a estudar mais o assunto e me ligar mais nas bobeiras que nós humanos fazemos pela « praticidade ». Descobri o instagram Por favor menos Lixo que me inspirou para mais um monte de coisas. A gente vai mudando aos poucos e tentando aos poucos, e isso faz muito bem !

43. Tive uma festa de aniversário à distância. Aconteceram umas coisas meio desagradáveis aqui no meu apartamento na época do meu aniversário, então não deu para comemorar meus 35 anos aqui. Em compensação, no Brasil, meus pais reuniram a família toda e fizeram mó festão lá em casa com tios, primos, avós, gato e cachorro. Me ligaram no skype e a gente ficou um tempão se falando. Eu amei. Foi a melhor coisa !!!

44. Meu aniversário foi na rua. Por outro lado, comemorei meu aniversário na rua, no meio do festival de Avignon que tem festa todo dia. Entre amigos, vizinhos e desconhecidos, a gente dançou, bebeu e riu muito na beirada do riacho. O tipo da coisa que vai passar no meu filminho de vida naqueles segundos antes de morrer. Dizem.

Nossoaniverua

45. Conheci um grupo de caminhadas ecológicas em BH. Nunca tinha feito e descobri esse grupo maravilhoso que sobe e desce morros e cachoeiras pela região. A maior surpresa é que quem me convidou foram dois ex alunos de quando eu dava aula de educação artística numa escola, há mais de 10 anos. Obrigada, gente !

CaminhadaEcologica

46. Passei a falar mais quando não gosto de alguma coisa. Este ano eu fiquei mais brava, sabe. É um exercício de dosagem e timing. Mas a Didi boba tá saindo do meu corpo e vai ficar só mesmo a boa (nesse sentido que você pensou também!).

47. Consegui fazer slackline por mais de, sei lá, 5 segundos ! É !

48. Conheci o vulcão Vesúvio. Aquele mesmo que destruiu Pompeia. Fui lá na boca dele. Dizem que de dois em dois mil anos ele fica furiosão. E sabe quando foi a última vez que ele ficou muito bravo? Há dois mil anos. Viva Itália !

Vesuvio

49. No fim do ano, participei de um concurso de sweater feio. Na verdade, era um concurso de roupa diferente, não necessariamente feios, coitados. O que é o belo, não é mesmo, Gracyane Barbosa? Eu tenho um sweater muito antigo, herdado da minha mãe, que sempre que uso as crianças me cumprimentam na rua. Acontece que embora meus amigos tenham se esforçado em votar em mim, um outro cara venceu o concurso. Fiquei meio frustrada, mas o importante é participar.

  1. E por fim, o que vamos fazer hoje é um nunca para mim: um reveillon appartathon. Uma maratona de apartamentos entre amigos e vizinhos. Começa aqui e em casa, com música e degustação sensorial (atividade recreativa de comer de olhos vendados para quem quiser participar). Depois vamos migrando para outros apartamentos de amigos que tenham outras atividades como caça ao tesouro, espaço latino, speed dating e sempre música ! Amei essa ideia dos meus vizinhos. Amo que temos essa relação. E te digo para tentar também com os seus.

Um abraço, obrigada pela companhia e feliz ano novo !!!

 

Projetos iniciados este ano:

Bom dia de tia: página do facebook que fala da história dos dias com humor e imagens enviadas por tias!

Lawsumerism: como dito no texto, página de facebook e insta dedicados ao consumo consciente

Outros projetos virtuais já existentes que continuam:

Vista da Cidade, Direito é Legal, Brunch das Meninas, Découvrons Avignon (este último em francês). Todos com páginas no facebook e alguns com mais que isso. Não vai dar tempo de linkar tudo porque tenho que ir cozinhar pra esta noite! Beijo

Sobre ter sorte e fazer esforço

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Quando me mudei para a França, toda vez que eu encontrava algum estrangeiro com autorização de residência aqui, eu ficava meio babando e pensando « gente, tudo que eu queria era ficar tranquila em relação a este a assunto e essa pessoa já tem isso e nem está valorizando ». A mesma coisa acontecia quando eu, pessoa com certa dificuldade de me localizar no espaço, estava tentando tirar carteira de motorista, aos 18 anos, no Brasil. Encontrava minha vizinha que já pegava o carro e saía para ver as amigas e pensava « que sortuda ! Tudo que eu queria era tirar essa carteira ».

Imagino que quem faz ENEM deve pensar a mesma coisa de quem já entrou na faculdade, quem está na lista de espera para ser chamado para um concurso, deve pensar a mesma coisa de quem já foi chamado. Enfim, quem carrega consigo alguma preocupação, deposita em quem não carrega a mesma preocupação, uma certa cobrança de que aquilo seja valorizado. E numa boa ! Não tá errado não ! Amo uma frase que diz « Sorte é isso : merecer e ter ». E já te adianto que este texto estará carregado de frases boas, porque eu dei muita sorte de encontrar um monte pela vida e guardá-las.

Eu estava na despedida de um amigo italiano que decidiu mudar pra Catalúnia porque a fim de mudar de vida. Duas doses de vinho depois, fui falar com a namorada dele, uma francesa, querida, mais simpática que o normal. « E aí, como você está ? » e ela « Poxa, é muito difícil, eu achei que a gente ficaria junto, já que estamos tão bem… ». Com as mesmas duas doses de vinho, pedi licença e fui até ele « Você tem que ir mesmo pra Barcelona?? ». Ele me abraçou, disse que amava muito a Fulana, mas que nada era mais como antes. Ele iria assim mesmo.

Voltando pra casa, no vento vermelho de outono que me embaraçava os cabelos mais que tudo (sorte sua que tem cabelos soltinhos e macios). Ali, la na ponta inicial dos meus fios, eu pensava « Ai se eu tivesse encontrado um grande amor ». Peguei a câmera e fiz daqueles vídeos que ficam no ar por 24h. Falei de quatro coisas que, se a gente não tem por sorte, é meio difícil a gente encontrar/ter : Um grande amor, um bom trabalho, muita saúde e uma família maravilhosa.

Então deixa eu decorticar isso, como diriam os franceses (esses sortudos que já nascem com passaporte europeu). Até porque, uma amiga muito fina mandou « discordo amigavelmente, quero falar sobre ». E em sua fala ela dizia, « usamos a desculpa de que é muito difícil para nem tentarmos, eu já pensei que tivesse uma saúde frágil, mas busquei conhecimento e descobri que poderia aprimorar muito minha saúde com a alimentação e algumas atitudes saudáveis ». Ela ainda continuou « sobre a família, temos uma visão padrão do que seria uma família perfeita e nós podemos fazer da nossa família o ambiente mais perfeito possível dentro da realidade dela ». Amiga, não poderia concordar mais, expliquei. Quando falei de muita saúde, me referia a pessoas que estão em estados terminais ou com doenças muito graves e limitadoras, quando tudo que querem é ter a chance de viver sem aquela dor ou problema. O avô de uma amiga, ao sair de uma cirurgia, foi perguntado pelo médico se estava sentindo algo e ele respondeu com a frase mais eloquente que já ouvi « Vontade de viver ».

Nós, pessoas saudáveis, temos essa sorte. A sorte de não termos que preocupar tanto com a saúde a não ser comer direito, dormir bem, movimentar regularmente e evitar muito frio ou calor. A gente tem uma sorte tão enorme com isso, que é falta de educação não reconhecermos e não agradecermos todos os dias. E digo mais : Ainda nos cabe oferecer ao mundo o melhor que nossa forma física e psicológica possa dar. É nossa obrigação, como sortudos que somos, oferecermos o melhor daquela sorte que tivemos. No caso aqui, da nossa saúde. E eu estou escrevendo isso e arrepiando ao mesmo tempo de ver o tanto mais que eu poderia estar fazendo e não estou. Shame on you, sua pessoa com os exames todos normais que fica sentada numa cadeira sendo menos do que poderia ser.

Sobre a família, quando falo em família maravilhosa, não me refiro a uma família perfeita, até porque não acredito nessa fachada. Mas um ambiente onde seus familiares te dêem condição de estudar, de perguntar coisas, de descobrir. Onde você possa ter crescido mais ou menos livre para ser quem você é em essência, sem violência doméstica, sem grandes traumas psicológicos. Essa é mais uma coisa que eu tive, e até o momento não sei explicar essa sorte. Talvez, para quem seja de acreditar em outras vidas, eu tenha feito coisas excelentes que me fizeram merecer isso. Mas a verdade é que eu não tenho como garantir nada disso. Talvez seja um teste para ver o quanto eu farei com aquilo que me foi dado. Dado não, emprestado ! Como diria outra amiga, Liliane Prata, « Tudo que é nosso está em consignação », ou seja, a qualquer momento pode ser perdido. Qualquer momento. E sigo dizendo : façamos o melhor do que temos até agora.homerfamilyE e então restam esses dois : Um bom trabalho e um grande amor.

Um bom trabalho. « Ora, todo mundo que se esforça acaba encontrando um bom trabalho ». Penso mesmo que esforço e trabalho são coisas que trazem grande « sorte » para todos. Meu pai gosta de citar uma frase que diz algo como « quanto mais me esforço, mais sorte tenho ». E acho de verdade que é por aí mesmo. Mas tenho algumas observações vindas de experiências pessoais. Já estive em lugares onde o esforço era muito menos valorizado que a… digamos politicagem. Outros, que simplesmente não importava o seu esforço. Outros em que era mais valorizado puxar o tapete dos colegas do que se esforçar de maneira inteligente. Então, é claro que ter um bom trabalho exige esforço, mas exige mais do que isso, exige uma união de fatores que atualmente chamo de sorte como encontrar um patrão honesto, elaborar uma estratégia inteligente, achar um trabalho acessível que você possa ir de onde você mora sem grandes problemas e até participar de um processo seletivo justo. Também vejo como grande fruto de esforço com sorte a gente conseguir tempo e energia para realizar algo que faça sentido e que tenha afinidade com o indivíduo que somos. Coloque aqui um emoji Y Generation force !

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E aí chegamos na questão do grande amor. Que por si só daria um livro, dois, milhões de livros. Um tema sem fim. Um tema que não pode ser reduzido à sorte ou ao esforço. Mas que definitivamente não é algo fácil de ser encontrado. E, ainda que tenha sido fácil para você encontrar, não deve ser fácil de ser mantido. Portanto, digo e repito. Se você o tem, é aconselhável valorizar. Não que tenham que rolar abraçados na calçada na frente de todo mundo. Por favor, não ! Mas leve mais sorriso pra sua companheira/companheiro. Deixe o mundo um pouquinho mais leve pra pessoa que está com você. Dá aquele cheiro enquanto seu amor estiver distraído, aquele bom dia quando todo mundo acordar atrasado. Faz aquela comidinha surpresa e tenta aceitar os amigos, as diferenças, o ascendente em Áries e o papo de horóscopo. Dicas de alguém que não tem um grande amor !

Finalmente, sorte e esforço se cruzam o tempo todo nas nossas vidas e é verdade que temos o que falta para uns e nos falta o que outros têm e isso, embora pareça injusto, pode ser o nosso grande argumento de união. Por isso a gente vive em comunidade, por isso a gente sente compaixão. Por isso não temos motivos para empinar o nariz. Só agradecer, e se ajudar a suprir uns vazios. É para isso que estamos juntos, para aprendermos uns com os outros e também, para depois de duas taças de vinho, a gente tomar uma certa coragem e… ei, seu sortudo, repara na sorte que você tem e valorize !

CreativeSpirit

….

Escrevi este texto depois que Maila viu meus vídeos comentando sobre o caso do casal que se separaria. Ela, que me conheceu pela internet, me pediu para escrever sobre o assunto e eu, que a conheci pela internet, disse que era pra ela escrever. Ela escreveu. Mandou seu texto. Eu pirei na história, pensei num monte de coisa e falei « vamos fazer isso juntas, agora eu quero escrever também ». Então, essa é uma história a quatro mãos ! Que começou porque um bendito de um italiano largou minha amiga para ir viver na Catalunia. Ah, se ele soubesse.

« Eu sempre me perco nesta fronteira que classifica os acontecimentos como sorte ou como fruto de esforco. Na verdade acho que os dois se complementam. E mais, acho que a proporcao varia de situacao para situacao e de pessoa para pessoa. Existe gente sortuda? Existe sim. Eu inclusive acho que sou mais sortuda do que azarada. Mas acho tambem que muitos dos momentos de “sorte” que tive na minha vida foram fruto de esforco. E nao falo somente sobre esforco fisico de levantar cedo, sair para trabalhar ou estudar, chacoalhar em onibus lotado,  suar a camisa etc e tal. Eh obvio que isso eh importante e deve sim ser valorizado. E muito! Mas existe “algo” alem disso. E eh algo dificil de explicar porque eh muito pessoal. Ha quem chame de fe, ha quem chame de energia, frequencia, filosofia, exoterismo, otimismo e ha ate quem julgue o outro, portador deste “algo”, classificando-o simplesmente como inocente.” Continua AQUI

O amante

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Um dia se conheceram e ela pensou ter sido por acaso.

Ele apareceu na hora certa. Quando ela mais precisava de algo diferente na vida. Com aquele jeito, aquelas palavras, a paixão foi fulminante. Era tudo novo. Ela nunca tinha escutado aquelas coisas antes. Ele sabia o que ela queria. Mais do que ela mesma.

Não demorou muito, ele ganhou alguns privilégios. Eles se viam várias vezes, se deliciavam juntos. Conheceram uma vida de prazer.

Então ela soube que ele não podia se dedicar à ela exclusivamente. Ele tinha outros compromissos. Não podia falar muito sobre isso. Mas faria o impossível para agradá-la. Ele disse. Ela se assustou. Mas confiou. Ele falava o que ela queria escutar. E ali, bastavam palavras.

Com o tempo e as dificuldades, ela entendeu. Ele precisava de mais poder. Precisava que ela o seguisse, que ela o ajudasse.

Alguns dias, ele chegava sorrateiro, chorava. Dizia que tudo iria mudar. Dizia que só queria ser diferente, que só precisava de tempo. Que seu amor era o maior do mundo.

Nesses dias, para ela, era como se seu coração respirasse aliviado. Eles se amavam onde estivessem. Ele gostava de vê-la ir à loucura. Arrancava sua respiração, arrancava gritos em seus devaneios. Era lindo, era surreal de bom estar perto dele. Ninguém mais poderia entender. Que homem, meu Deus, que homem !

Quando a questionavam sobre suas promessas vazias, ela dizia que tinham inveja, que eram ignorantes, que tinham medo dele. Explicava que tinha exemplos de seu amor. Mostrava alguns presentes. Algumas declarações, alguns feitos. Feitos que eram bonitos, válidos, mas sempre esporádicos. Parecia um projeto de escravidão. Ele servia pequenos sonhos e colhia sua servidão. Mas, não, claro que não. Ele queria o seu bem. Sempre quis!

Ela o defendia com unhas e dentes. Ninguém mais era como ele. Ela queria e precisava amá-lo. Ninguém mais a merecia. Sabia que lá fora, ninguém mais prestava e ela tinha certa razão nisso. Mas ele sim? Sim, sim, ele sim.

Em sua carência, ela se cegou. Muitas vezes, sentia que estava ajudando a construir algo. Que seriam mais fortes juntos. Mas ele a manipulava. Não cumpria as promessas. Não aparecia quando combinavam. Mas foi para isso que ela aprendeu a perdoar. Quando se encontravam, tudo era perfeito.

De tanto ser usada, ela perdia forças, energias, e a própria razão. Mas seu amor vingava. Era uma chama que ardia quente.

Na sua oratória, ele a conquistava como a viuva negra dá o bote em suas presas. Ser refém, para ela, havia virado um mérito. Ela não percebia o tempo passando, as oportunidades partindo, sua vida ruindo. Ele voltaria. Ele ajudaria. Ele iria salvá-la. Que parem com esse discurso absurdo! Ele era bom. Vejam só, ele é único !

Então um dia, ela ficou mal. Muito mal. Em seus delírios apaixonados, clamava pelo seu amor. Precisava dele, precisava de mais que suas palavras. Precisava de suas ações, de suas promessas em concreto. De sua vontade. De seu esforço.

Naquele dia, ele chegou propositadamente atrasado. E não se ocupou de pedir desculpas. Apenas se certificou do seu estado. Ela já não poderia mais dar prazer.

Então se foi enquanto ela agonizava.

E de longe, o populista ouviu a população flagelada gritar por seu nome. “Quando estiver melhor, eu volto”, explicou numa mensagem enviada mais tarde.

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Ps. Dedico este texto a todos os povos que sofrem com a hipocrisia de seus líderes e a todos que tentam escapar disso pacificamente. Que não seja este texto usado para espalhar ódio ou cinismo. Que sirva de metáfora para ponderarmos em relação a tantas circunstâncias abusivas da vida. Entendo que amar vai muito além de defender o que alguém está fazendo de errado. É também guiá-lo e cobrá-lo pelos acertos de forma severa, mas sensata.

 

 

Minha vida com os árabes

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Da novela o Clone até pouco tempo antes de passar um período no Canadá, meu conhecimento sobre o mundo árabe manteve-se mais ou menos reduzido à comida com grão de bico, dança do ventre, algumas mulheres de véu, alguns homens barbudos, religião monoteísta, música dodecafônica. Vez ou outra a televisão me lembrava que alguém, teoricamente em nome de uma parcela muçulmana, executava ações terroristas. E minha cultura árabe parava por aí.

No Canadá conheci muitos árabes, inclusive um dos filhos do rei da Arábia Saudita (que passou um reveillon lá em casa). Eles eram todos gentis, divertidos, inteligentes e ricos. Algumas ideias absurdas que eu podia fazer sobre essas pessoas foram se esfarelando. Fiquei com a seguinte impressão : Árabes são ótimos e ricos. Beleza.

Vim morar na França. Os árabes daqui não têm o mesmo padrão de vida do Canadá. Mas não mesmo. Aqui eles eram mais gente como a gente. E, em alguns momentos, mais gente que a gente.

Foi assim que conheci Nadia, minha amiga marroquina do mestrado. A única que entendeu que eu estava boiando no sistema daqui. Me ajudou do início ao fim e foi a única a fazer esforço para manter contato comigo depois que formamos.

Foi assim que conheci Skandal, um amigo sírio. Uma pessoa que se ouvir você falar que não está tomando leite, ele vai descobrir uma receita vegana de creme de amendoim e fazer um pote pra você no dia seguinte. Quando Skandal soube que meu pai estava aqui me visitando, cruzou a cidade no meio da semana de provas finais com um temperinho sírio. Disse que era para meu pai levar pro Brasil « alguma coisa da Síria ».

Um dia a argelina que trabalha no mercado onde compro legumes me reconheceu na rua. Perguntou como estava a vida (eu tinha emagrecido 10 kgs) e, preocupada, passou-me o telefone da casa dela. Falou que quando eu precisasse, ela estaria aqui de carro e eu poderia ficar na casa dela o quanto fosse necessário. Repito : Essa é apenas a mulher que me vendia legumes.

No dia que caí de bicicleta sobre vários cacos de vidro, eu estava até bem ousada. Um shortinho, uma blusinha fina, sozinha numa avenida de rota rápida. Um árabe parou o carro. Perguntou se eu estava bem, desentortou minha bicicleta, falou pra eu lavar o machucado e foi embora.

Quando vou no kebab comer meu falafel (#goveggie, guys), que é uma das coisas mais baratas que dá pra comer por aqui, é comum que o pessoal de lá ofereça a sobremesa ou fritas extras sem cobrar.

Quando Hikmat, outra amiga árabe, veio me visitar pela primeira vez, ela trouxe uma pulseira de presente para agradecer a minha hospitalidade de 20 minutos para uma xícara de chá. Eles adoram presentear ! Fairouz , outra amigona que ama chá, comprou um kit de banho pra mim porque uma vez elogiei o que ela tinha na pia. E tantas vezes mais, ela me salvou de enrascadas, essa gênia!

“Zulikha, por que você usa véu e se cobre toda ?”, perguntei para uma amiga da Argélia que fez essa escolha. Ela contou sobre uma experiência muito próxima da morte que a fez querer estudar mais o mundo do além. O lugar que foi buscar as respostas era o livro que sua família considerava sagrado. Aliado a isso, embora este livro não determinasse nada específico sobre o uso de roupa completamente coberta, ela entendeu que desta forma se sentiria melhor.

Durante o debate da semana que definiria o vencedor das eleições primárias da esquerda moderada francesa, Benoit Hamon (hoje o candidato oficial) discutia a questão : « Se a mulher usa porque quer, eu defenderei seu direito. Se usa por imposição, eu defenderei sua liberdade ». Lembrei de Zulikha dizendo « meu marido não dá a mínima pra essas coisas ».

Uma vez fizemos um aniversário surpresa para Ahmed, um amigo marroquino, na minha casa. Vieram pessoas do mundo inteiro. Isso porque é Ahmed o único entre nosso grupo que se ocupa de manter viva a idéia de acolher estrangeiros nos encontros couchsurfing de todas as quarta-feiras. As vezes ele vai e fica sozinho. Outras, ele arruma papo com um alemão de 70 anos, ou com um casal de koreanos. Mas ele está sempre lá, depois do trabalho, disposto a falar todas as línguas, porque sabe que alguém pode precisar. Como um dia eu precisei e ele também. É a pessoa mais aberta que existe. E a única que realmente memorizou todas capitais do mundo inteiro. Mas não deixe ele virar o DJ da sua festa. Ele escolhe músicas de 10 minutos cada. Esses árabes !

Hoje, voltando pra casa de noite, encontrei mais um amigo das arábias. Podia ter sido o advogado tunisiano que faz doutorado aqui, podia ter sido o engenheiro libanês que prepara a festa da primavera. Podia ter sido o agricultor iraniano que toca piano como mestre (os iranianos nem são árabes). Mas foi um matemático marroquino. Ele me disse que sua mãe estava aqui para visitá-lo e ficou feliz de ver como ele tem se alimentado bem. Árabes ! , pensei. Pessoas de um coração enorme. É assim que percebo agora, esse grupo tão vasto e diverso.

Que sorte a minha encontrá-los.

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 “Es por el signo de la amistad por el que se unen los hombres, los pueblos y las razas, y es bajo sus auspicios que ha de haber paz en la tierra.” Da Logosofia

  • Este texto foi escrito ao som de : El Arbi, Fatamorgana e Baile de los Pobres – músicas que sempre embalam nossas festas !

50 nuncas de 2016 e obrigada por não perguntar

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50 nuncas de 2016 e obrigada por não perguntar

Quantos anos você viveu neste ano?

Foi muita água por debaixo da ponte. E o mais engraçado que é não foi só comigo. Parece que todo mundo viveu uma revolução coletiva. Mas daquelas revoluções descabeladas mesmo!

Em março eu estava me mudando da França para o Brasil. E mudei mesmo. Fiz festa de despedida. Chorei. Todo mundo chorou. Foram despedir no aeroporto, levei minha gatinha Azzuca, muitas lembranças, muita saudade e aterrissei no Brasil pré-impeachment.

MANO!

Corta para seis semanas depois, eu trocando todas as milhas por uma passagem só de ida para a França de novo.

Achei que teria que passar a vida explicando para as pessoas no Brasil e na França porque eu fiz isso. Mas, ao contrário, quase não perguntaram nada. Todo mundo parecia entender. Então, gente, obrigada de coração!

E aqui vamos seguir a tradição deste blog e fazer uma lista de nuncas positivos em 2016. Esta foi difícil de editar, viu?!

Meu amores, um 2017 muito melhor pra todo mundo! Sobrevivemos!

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  1. Conheci a Irlanda!

Cork, Dublin e Galway. E tudo deu certo! Mesmo quando sumiram com minha mala e computador no hostel, meu escândalo permitiu que encontrar uma turma ótima que me fez companhia o resto do tempo, além de reencontrar minhas coisas. Foi em Dublin, sozinha, que conheci as pessoas mais amigáveis e queridas! Revi Livia e Katerina!!! Foi perfeito! Sério! Perfeito!

2. Fui ao show da Adele!

Em Dublin! Havia descoberto uma semana antes, comprado um ingresso baratíssimo e fiquei colada no palco, tanto que ela passou cumprimentando todos da frente e adivinha: peguei na mão inglesa da diva! Aposto que até hoje Adele ainda não lavou a mão (contei essa piadinha o ano inteiro!).

3. Conheci Budapeste.

Esta viagem me custou conseguir. Mas valeu! Na companhia da minha colega desde a época da Comunicação, eu e Julinha frequentamos um karaokê todas as noites para soltarmos a voz. Todos os caminhos levavam ao nosso hostel e tudo era bem mais barato que na França.

 

4.  Fui ao Sziget! Um dos grandes festivais de música da Europa.

Foi assim que no último dia, depois que Julia já tinha partido, consegui um ingresso a bom preço pra viver essa experiência. De novo sozinha, me encontrei com Manu Chao, Bastille e fiz aquelas amizades que duram poucas horas, mas são boas. Continuo sem saber falar Húngaro…

5. Mudei de casa muitas, muitas vezes.

As vezes minha conta dá 9 vezes, outras 7. Mas isso foi apenas até agosto. Me mudei de casa, de país, de continente e fiz tudo de novo quando voltei. Minha coluna se retorceu completamente nessas idas e vindas. A cada vez que morei com um amigo, amiga ou sozinha tive que me adaptar com uma coisa nova, uma mania, uma proibição, um barulho e um cheiro diferente. Algumas noites eu acordava e não tinha noção de onde estava, de quem eu era. É o tipo da experiência que te faz rever um tanto de coisa, principalmente o que a gente precisa mesmo carregar. E olha que fiz tudo por escolha própria. Mas foi difícil. Obrigada a todas as pessoas que me ajudaram nessa vida meio de cigana.

6. Consegui a primeira página do jornal.

Duas vezes com matérias minhas, outra vez com uma informação em primeira mão que consegui correndo atrás da polícia!

7. Viajei com um gato no avião da França pro Brasil.

Hoje Azzuca vive no Brasil e eu voltei. Mas ela e meu pai criaram laços!

8. Mais de mil seguidores no Youtube.

Ao mesmo tempo que tenho vergonha de mostrar meu canal para meus amigos, adoro quando chega mais gente. Difícil explicar.

9. Menos 10 Kg

Passei a vida meio desagradada com meu peso. Um lado era pela cultura da magreza mesmo, outro por minha conta e minhas curiosidades. Eu queria saber como era ser mais magra. Um ano com tantas mudanças de casa, tanta falta de estabilidade, tantas decepções acabou ajudando nisso. Mas teve a questão de eu tentar comer menos açúcar e variar mais do gluten (mas não cortei nada além da carne). Além disso, houve uma fase em que trabalhei todos os dias, sem descanço semanal. E aqui em Avignon é possível fazer tudo à pé ou de bicicleta. Em BH eu também tentei, mas teve um dia que tive que negociar com o ladrão para ele só levar 7 reais… O que importa é que finalmente olho para o espelho e falo “ah, tá bom”! E vou me concentrar em outras batalhas. Tomara que consiga manter essa colheita.

10. Virei família de acolhimento de gato.

Uma espécie de abrigo para gatinhos sem casa, em parceria com a Associação de proteção animal. Foi assim que Harry veio parar na minha vida. E ele é igual à Azzuca, o que causa muita confusão nas pessoas!

11. Teve polícia e ambulância na minha festa de aniversário

Mas está tudo bem. E foi maravilhoso!

12. Pode ser estranho, mas este foi o primeiro ano que eu mesma abri minha garrafa de vinho.

Posso abrir a sua também! 😉

13. Comecei a fazer a própria unha do pé e da mão e aceitar como razoável.

E rápido!

14.Convenci um homem a mudar sua atitude com relação ao seu cachorro.

Aí vai a história: Enquanto eu ia para o supermercado, vi um filhotinho estava com muito medo de andar na coleira e o rapaz ia perdendo a paciência e estapeando o cachorro quando decidi agir. “Que lindo seu cachorrinho!”. “Ele é filhote e não quer sair na coleira”, “Ah, o tempo de adaptação, dizem que precisa de muito carinho e atenção para adaptar mais rápido”, “É?”, “Cara, você tem muita sorte, ele vai ser um grande amigo ”. Ele começou a coçar a cabecinha do bicho, acariciar as orelhinhas! Na saída do supermercado o cachorro já estava lambendo o rosto do moço que acenava pra mim! Quero acreditar que deu tudo certo.

15. Batata doce. Uma paixão revelada este ano.

16. Passei o dia dos namorados tanto brasileiro quanto francês oferecendo flores para estranhos na rua e recebendo todo tipo de reação em retorno. Inclusive péssimas e lindas respostas. Perdôo vocês, seus rabugentos.

17. Descobri que meu ascendente é escorpião ao invés de capricórnio. Não que isso mude alguma coisa.

18.Descobri o que é a síndrome do regresso. E entendi muita coisa.

19. Conheci Strassburgo. A cidade da epidemia de dança!

20. Vi a super lua. Com os amigos.

21.Fiz amizade com uma trupe de teatro no meio da rua apenas porque começamos a dançar juntos. Depois eles vieram na minha festa de aniversário (aquela mesma da polícia e da ambulância).

22. Baixei, usei e deletei o Snapchat.

23. Aconteceu uma coisa maravilhosa! Uma das minhas cantoras preferidas de Belo Horizonte virou minha amiga. De verdade!

24. Fui em dois cafés com gatos. Um conceito que ainda não vi aparecer em Belo Horizonte. Mas tem para todo lado no mundo.

25. Meu quarto, no último apartamento em que morei, virou uma pista de dança. Agora a sala é lugar de comer e logo ao lado, descobriram que este lugar é um ótimo lugar para dançar. Um sonho tornado realidade!

26. Passei uma tarde saltando num pula-pula! E em ótima companhia. Outro sonho tornado realidade.

27. Fui num desfile de moda com credencial de jornalista francesa.

28. Consegui respeito da polícia francesa porque falei que era advogada. Porque enquanto eu era só uma imigrante…

29. Finalmente assisti a um TEDX e foi maravilhoso.

30. E na semana seguinte, cruzamos com um dos palestrantes num restaurante. Cumprimentamos! Ele sentou na nossa mesa, ofereceu vinho pra todo mundo e falou até!

31. Ganhei terceiro lugar num concurso de fotografias no instagram. Viva Instamission!

32. E por falar em foto, vi meus amigos mudarem de foto no facebook quando parti de Avignon. Tão lindo o filtro-Didi. Eles não esperavam mesmo que eu voltasse! Haha

33. Comecei a escrever para a página Razões para Acreditar! Amo.

34. Conheci um grupo em Belo Horizonte de pessoas que saem para praticar o Inglês. Muito legal!

35. Vi um tanto de chefões do Brasil serem presos. Com a mesma surpresa!

36. Decidi começar a falar para a gente em geral quando a atitude deles me desagrada muito. É tipo uma crítica construtiva. Mas nem sempre funciona. E tem que ver se não estão armados antes. Sigo tentando. Acho a ideia positiva.

37. Comecei a fazer compostagem.

38. Descobri Calle 13. Com meu amigo libanês que me acolheu um mês! Que lástima que não nos descobrimos antes!

39. Conheci o Museu da Civilização Mediterrânea em Marseille

40. Conheci o Museu de miniaturas de cinema em Lyon. Que lindo!

41. Conheci Roma. Que lugar!

42. Conheci o Vaticano. E vi a Capela Sistina.

43. Em Roma, tive a oportunidade de despedir de um amigo, sentada no alto da praça, de madrugada, dividindo uma garrafa de vinho e filosofando sobre a vida! Todas as despedidas deveriam ser assim.

44. Conseguimos correr atrás de um assaltante em Nimes e recuperar um celular. Não recomendo fazer isso no Brasil porque geralmente estão armados.

45. Conheci uma poeta premiada de Haiku.

46. Conheci um super urbanista francês!

47. Conheci Ina, que interpreta Solange, e é minha youtuber preferida na França.

48. Passei uma tarde fazendo fotos e também posando para elas na frente da torre Eiffel.

49. Virei doadora de plasma!

50. Reuni Peter e Azzuca! Meu cachorro e minha gata. Com as duas melhores pessoas que conheço: meus pais.

Além disso, 2016 foi um ano realmente difícil. Felizmente o organismo aguenta uns trancos! E a vida continua valendo a pena.

Vou passar o réveillon entre amigos e família, mas tinha imaginado outra coisa. Fantasiei que eu podia chegar à meia noite andando por uma rua deserta e gelada e deixando o ano para trás. De repente, começa a tocar aquele inicinho legal de Bitter Sweet Symphony e eu continuo andando e despedindo do ano até que percebo que este é o som do despertador. Acordo. Tenho 15 anos e 2016 não passou de um pesadelo daqueles que acontecem quando a gente dorme demais!

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Atualização! Lembrei de um nunca muito importante! Fui na formatura de um ex-aluno que há 12 anos estudou comigo. Gustavo virou engenheiro e muitos outros viraram profissionais e até colegas de profissão. Um dos meus passados mais gloriosos foi ser professora. Espero um dia retomar essa prática!

Aproveito pra deixar mais umas fotos!

 

 

 

Crises e epidemias… que hora boa pra voltar pro Brasil

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Era um jantar entre amigos e fomos perguntar pros espanhóis sobre a monarquia no país deles. Pra quê? A coisa ficou quente. Sendo um país com inúmeros movimentos separatistas e muita revolta efervescente no seu povo, achamos melhor mudar de assunto. A americana não queria comentar sobre a possibilidade de ter um Trump pra chamar de presidente. Os italianos queriam esquecer o passado recente e o sírio preferia nem começar. Foi quando olharam pra mim. Fala do Brasil, Diorela. Como será a volta pro seu país?

Então senta que lá vem a história!

Meu país é muitos. E é muito rico. Existe uma diversidade e um encanto no Brasil que eu ainda não reconheci em outros lugares. Temos cores, temos espaço, temos terra que tudo dá, uma criatividade que brilha, belezas naturais e artificiais, o povo mais divertido que já conheci, uma constituição da república muito respeitável, um mar enorme pra chamar de nosso, florestas, pântanos, montanhas, todo tipo de alimento. Temos música pra falar de tudo. Um cinema de aplaudir de pé. Trabalhamos o dia inteiro e estudamos de noite. O sol põe todo mundo pra fora da cama. Somos sorridentes, amamos dançar e temos uma forma de ver a vida que devia ser patrimônio da Unesco. Apesar de tudo, estamos nos perdendo. Não saímos mais para praças e parques. Nossos programas são ir para o shopping ou ver a televisão que é sempre o centro da casa. Nos acostumamos a subir dois andares de elevador. Comemos porcarias demais. Ainda não pensamos muito em separar o lixo. E o pior de tudo, estamos desaprendendo a nos amar.

No meu país tem faltado água, tem faltado investimento em coisas básicas. Os hospitais estão sem antibiótico. As escolas, sem merenda. Muitos bebês tem nascido sem um pedaço do cérebro e a gente não sabe o motivo. Os mosquitos voam doenças sobre os brasileiros e viramos um bingo de epidemias. Minha Minas Gerais está morrendo porque só sabia viver de minas. E as minas nos cortaram inteiros. O Rio Doce ficou amargo. No governo, não há governo. Temo um jogo sujo e alguns ministérios de brinde. Na televisão daqui, já somos piada para os portugueses, quem diria. E as pessoas não sabem mais quem defender, quem acusar. Descobrimos que só temos santos em feriados. Mas ainda não temos feriado bom. Está difícil andar tranquilo nas ruas. Com a economia tão mal, a violência tem aumentado. E com ela o ódio à diferença. Muitos de nós seremos substituídos por máquinas, mas isso é no mundo inteiro. O trabalho já não será como antes, e eu não queria me entregar a quem ganha para destruir. É do fundo do poço que a gente vai ter que criar um impulso mesmo.

Mas não posso reclamar. O Brasil sempre me recebeu bem. Mesmo pra uma não religiosa é bonita a imagem do redentor de braços abertos acolhendo o horizonte. O povo brasileiro é, em sua grande maioria, formado por uma gente maravilhosa. Somos corajosos, trabalhadores, interessados, criativos. Nossa força está nisso e teremos que nos reinventar. Alguns grandes começaram a ver o sol nascer quadrado e aos poucos talvez serão muitos outros, de forma multipartidária, também irão. A justiça ainda é muito estranha no meu país, mas com as redes que temos feito, se a gente se importar em abrir um pouquinho a cabeça pra quem pensa diferente, talvez consigamos uma verdadeira revolução. A forma de ganhar e viver com dinheiro terá que mudar e estamos começando a entender isso também. Talvez seja a hora de aprendermos que somos nossos próprios redentores. E ninguém nos representa mais. Com aqueles mesmos braços que abraçam tão bem (no que a gente chama aqui na França de « carinho brasileiro »), podemos trabalhar e unir forças para reconstruir e nos ajudarmos como nação. Tive muita sorte de poder aprender algumas coisas que talvez sejam úteis nessa hora. Adoraria poder colaborar quando voltar pra minha terra.

Alguém quer sobremesa?

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Ps. “Faut rêver” pode ser traduzido como “é preciso sonhar”!